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terça-feira, 22 de novembro de 2011

22.- Googlelização!... ¿e daí

Ano 6 *** www.professorchassot.pro.br

*** Edição 1937

Ontem o blog do Prof. Garinnorberto-garin.blogspot.com/, que leio a cada dia, trouxe uma matéria com alerta a uma possível invasão à nossa privacidade pelo Google. Transcrevo o texto publicado na Folha.com, assinado por Camila Fusco. Apresento após – talvez, com laivos de ingenuidade – a minha não preocupação com o alerta.

O que palavras aparentemente desconexas como Disney, cachorro e amendoim têm em comum?

Para a maioria das pessoas, elas não revelam muito, mas, se digitadas no Google, apontam que a interessada nos temas é possivelmente uma mulher, mãe de filhos pequenos e que sofre de alergias específicas.

Pode ser ainda que, a partir da identificação de seu perfil, a internauta veja mais propagandas de produtos infantis, indicações imobiliárias e, dali a alguns anos, até sugestões de escolas para adolescentes.

Não se trata de pura adivinhação, mas da era em que informações aparentemente simples viram material precioso para previsões de comportamentos.

É o que relata Siva Vaidhyanathan, professor da Universidade da Virgínia em "A

Googlelização de Tudo".

Mestre em criar conexões invisíveis baseadas nos interesses dos usuários pesquisados na ferramenta de busca, o Google é, na visão do professor, a principal ameaça à privacidade de dados pessoais nos dias de hoje.

Isso porque não esclarece que tudo o que se coloca na rede pode ser monitorado por seus sistemas de identificação de navegação (os chamados cookies) nem informa com precisão como os usuários podem configurar seus critérios de busca para proteger suas informações.

A lógica perversa do Google, na avaliação de Vaidhyanathan, está ainda em transmitir ao mundo que o acesso a seus serviços é gratuito, enquanto o verdadeiro custo está na troca por detalhes da personalidade de cada um.

São essas informações que renderão lucro à empresa, com a venda de anúncios direcionados a perfis específicos de usuários.

Dividida em seis capítulos, a primeira parte da narrativa se concentra em mostrar o triunfo da aceitação da "googlelização" - presença cada vez mais frequente do buscador em diversas áreas do conhecimento.

Indica ainda a criação de uma geração superficial, que aceita ver o mundo por meio dos resultados de buscas no Google em detrimento de conhecimentos profundos.

Desliza, no entanto, ao considerar o buscador como o principal vilão da internet, reduzindo a importância de outras ferramentas concorrentes e das redes sociais, que hoje podem ser a maneira mais avançada para acumular informações sobre os internautas.

Na segunda parte do livro, o autor apresenta elementos políticos, filosóficos e até psicológicos pelos quais tenta provar necessária a reação dos internautas às forças dominantes na rede.

O livro é para quem quer conhecer os bastidores dessa potência da internet mundial, mas não traz provas concretas -além do relato do autor- sobre se o Google é bom, mau ou se é apenas esperto ao aproveitar o espírito de "compartilhamento" dos internautas na rede.

É o início da análise sobre a dinâmica do controle da informação virtual, mas está longe de ser uma resposta definitiva para a questão.

Postei um comentário no blogue de meu colega que apenso a seguir. Permiti-me fazer uma lapidação no mesmo. Devo reconhecer que este precisava um burilamento, pois havia marcas de um autor com déficit de sono [postei meu comentário quase 4h].

Muito estimado colega Garin, tua trazida nesta blogada que inaugura a ‘última semana completa de novembro’ [...] é algo momentoso. Como (quase) tudo na vida o Google ou seus assemelhados têm bônus e ônus.

Tu concordas que não poderias editar um blogue diário como fazes, sem um buscador! O Google é uma das maravilhas internéticas. Ele me encanta e não o posso considerar como o principal vilão da Internet e acredito que não possa ser responsabilizado pela criação de uma geração superficial, que aceita ver o mundo por meio dos resultados de buscas no Google em detrimento de conhecimentos profundos. O acesso ao conhecimento é fantasticamente facilitado. Claro que é preciso saber usar.

Não podemos culpar a Wikipédia – o melhor exemplo de democratização do conhecimento – pelo fato de as enciclopédias em suporte papel estarem quase embolorando por falta de uso.

Os ônus: tu trazes no texto que editaste. Somos bisbilhotados. Não só pelo Google e, divirjo – ou melhor, parece-me exagerada – a postura catastrofista de Siva Vaidhyanathan, professor da Universidade da Virgínia no seu livro (que não li, mas comento louvado no release da autora que ofereces) "A Googlelização de Tudo".

Há muitos outros artefatos para vigia além do Google. Aquela frase maldosa, talvez cínica, quase onipresente em nosso cotidiano: “Sorria! Você está sendo filmado!” é a versão pós-moderna de uma sentença que havia por toda a parte na escola onde fiz o ginásio: “Deus me vê!” Ela se fazia presente inclusive no banheiro. Podes imaginar quanto pecado solitário contra o sexto mandamento ela evitou.

Este ano hospedei-me em um hotel no Rio de Janeiro, onde havia um aviso (que lamento não tenha fotografado), com aproximadamente este teor: “Todas as dependências deste hotel podem estar sendo filmadas por questões de segurança e seus registros estarão arquivados no serviço de vigilância”. Seguia um artigo de um código de segurança. Isto é, até em nossas ações mais íntimas somos solicitados a sorrir, pois...

Concordas que isso deve assustar mais que o Google. Aliás, nosso blogues, fartos em relatos de nosso dia a dia, são mais invasivos que o Google. Somos cidadãos públicos e isto não me incomoda.

Desculpa as discordâncias. Elas são reflexões de uma madrugada insone. O livro deste estadunidense, provavelmente, indiano de nascimento, deixou-me curioso. Com admiração e agradecimentos do attico chassot

A matéria da Folha.com conclui com estes dados: A googlelização de tudo / Autor: Siva Vaidhyanathan / Editora Cultrix / Preço R$ 35,91 / 272 p / Tradução: Jeferson Luiz Camargo / Avaliação: Regular.


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

21.- Uma celebração tardia: Dia da Consciência Negra

Ano 6 *** www.professorchassot.pro.br

*** Edição 1936

Ontem, 20 de novembro, foi celebrado o “Dia da Consciência Negra”. Talvez por neste 2011 cair em domingo a data que é feriado em cerca de 757 dos 5.564 municípios brasileiros [por leis municipais e/ou estaduais (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e no Rio de Janeiro são os três estados onde é feriado estadual)] foi menos destacado. Este blogue mesmo, em outros anos mais atento à data, limitou-se a uma referência lateral.

Digo aos que se desculpam, por exemplo, por cumprimentarem atrasados por meu aniversário, que isso só tem uma vantagem: expandir a comemoração. Uso este mesmo argumento para nesta segunda-feira comentar algo sobre assunto tão relevante e ainda bastante controvertido.

Deve-se reconhecer que é verdade que, nos últimos anos, cresceu a importância dos movimentos voltados para a afirmação da identidade e dos direitos de afrodescendentes no Brasil. Com efeitos positivos, de forma geral, sua ação redundou também, muitas vezes, num discurso que separa brancos e negros.

Mas o lema da "consciência negra" não deveria ser interpretado de forma exclusivista: diz respeito a todos os brasileiros. A presença africana na sociedade brasileira não se mede pela análise dos genomas e não se limita aos exemplos tão repetidos de influência na música, na culinária, nos cultos religiosos.Assim como a defesa dos direitos humanos é uma questão universal, a "consciência negra" é uma questão de identidade nacional, e não racial.

Zumbi é hoje, para determinados segmentos da população brasileira, um símbolo de resistência. Em 1995, a data de sua morte foi adotada como o dia da Consciência Negra. Mesmo que seja uma figura mítica e por tal controvertida – sua história foi inicialmente contada por uma cultura ágrafa e perdedora – trago aqui algo de sua história, marcado com estas duas informações. Valho-me de algumas informações da Wikipédia.

O Quilombo dos Palmares (localizado na atual região de União dos Palmares, Alagoas) era uma comunidade autossustentável, um reino (ou república na visão de alguns) formado por escravos negros que haviam escapado das fazendas, prisões e senzalas brasileiras. Ele ocupava uma área próxima ao tamanho de Portugal e situava-se onde era o interior da Bahia, hoje estado de Alagoas. Naquele momento sua população alcançava por volta de trinta mil pessoas.

Zumbi nasceu em Palmares, Alagoas, livre, no ano de 1655, mas foi capturado e entregue a um

missionário português quando tinha aproximadamente seis anos. Batizado 'Francisco', Zumbi recebeu os sacramentos, aprendeu português e latim, e ajudava diariamente na celebração da missa. Apesar destas tentativas de aculturá-lo, Zumbi escapou em 1670 e, com quinze anos, retornou ao seu local de origem. Zumbi se tornou conhecido pela sua destreza e astúcia na luta e já era um estrategista militar respeitável quando chegou aos vinte e poucos anos.

Por volta de 1678, o governador da Capitania de Pernambuco cansado do longo conflito com o Quilombo de Palmares, se aproximou do líder de Palmares, Ganga Zumba, com uma oferta de paz. Foi oferecida a liberdade para todos os escravos fugidos se o quilombo se submetesse à autoridade da Coroa Portuguesa; a proposta foi aceita, mas Zumbi rejeitou a proposta do governador e desafiou a liderança de Ganga Zumba. Prometendo continuar a resistência contra a opressão portuguesa, Zumbi tornou-se o novo líder do quilombo de Palmares.

Quinze anos após Zumbi ter assumido a liderança, o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho foi chamado para organizar a invasão do quilombo. Em 6 de fevereiro de 1694 a capital de Palmares foi destruída e Zumbi ferido. Apesar de ter sobrevivido, foi traído por Antonio Soares, e surpreendido pelo capitão Furtado de Mendonça em seu reduto (talvez a Serra Dois Irmãos). Apunhalado, resiste, mas é morto com 20 guerreiros quase dois anos após a batalha, em 20 de novembro de 1695. Teve a cabeça cortada, salgada e levada ao governador Melo e Castro. Em Recife, a cabeça foi exposta em praça pública, visando desmentir a crença da população sobre a lenda da imortalidade de Zumbi.

Em 14 de março de 1696 o governador de Pernambuco Caetano de Melo e Castro escreveu ao Rei: "Determinei que pusessem sua cabeça em um poste no lugar mais público desta praça, para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal, para que entendessem que esta empresa acabava de todo com os Palmares."

Depois desta carta ao Rei, vale trazer – como epílogo – um excerto do texto “Valeu, Zumbi” de Eloi Ferreira de Araujo, na Folha de S. Paulo de ontem: “Assim, passados quase 200 anos da epopeia de Palmares, a luta pelo fim da escravidão foi para as ruas do Brasil. O movimento abolicionista ganha os corações e as mentes: em 13 de maio de 1888, é aprovada a Lei Áurea. É iniciada a colheita dos frutos semeados em Palmares. Contudo, a Lei Áurea não veio acompanhada de mecanismos de inclusão para assegurar aos ex-cativos as oportunidades que foram dadas aos imigrantes europeus”.

“Passados 123 anos desde a abolição, o país incorporou ao seu arcabouço jurídico legislação não penal para a população negra que merece destaque. A lei nº 10.639/2003, que institui o ensino de história e cultura afro-brasileira, é uma delas. Sua importância reside, entre inúmeros aspectos, em estimular o conhecimento sobre a importância do negro na formação da nação, da identidade nacional e da contribuição dos escravos para a construção do Estado brasileiro”.

domingo, 20 de novembro de 2011

20.- INHATE: Beijos imaginários contra o ódio

Ano 6 *** www.professorchassot.pro.br

*** Edição 1934

Está blogada dominical abre com uma homenagem significativa. Ela, entusiasmadamente, celebra o aniversário de uma leitora muito especial. Hoje é o aniversário da Gelsa, minha companheira há mais de 24,5 anos. Parceira amorosa, também nos fazeres intelectuais – a pauta saborosa da edição de hoje é dela –, merece que eu faça desta edição, uma de minhas homenagens deste dia. Neste significativo 20 de novembro – dia da consciência negra ou de Zumbi de Palmares – também é aniversário da Júlia, presente maior que a Gelsa ganhou em um de seus natalícios. A ela também minha manifestação de carinho e admiração.

Muitos de nós lembramos quando o grupo United Colors of Benetton e seu fotógrafo Oliviero Toscani tornaram-se célebres por suas fotos provocadoras nos anos 90, entre elas, a de uma irmã de caridade sedutora, que se apresenta vestida num hábito branco beijando um jovem padre de batina preta. Depois de uma exponencial queda na sua presença no mercado de confecções

No início desta quarta-feira, dia 16, a marca Benetton anunciou a campanha "Unhate" que, segundo o vice-presidente da empresa, busca "contrastar a cultura do ódio e promover a aproximação de pessoas, religiões e culturas, além da compreensão pacífica das motivações dos outros". Trata-se da primeira campanha da fundação Unhate, criada pela Benetton, cujo objetivo é "contribuir para a criação de uma cultura de tolerância que combata o ódio".

Em um dos anúncios da Beneton mostra papa Bento 16 "beijando" Ahmed Mohamed el-Tayeb, imã [Ministro da religião muçulmana] da mesquita de Al-Azhar, no Cairo. Uma grande faixa com a imagem do papa e do imã foi pendurada em uma ponte perto do Vaticano na manhã desta quarta-feira, antes de ser removida.

Em comunicado, um porta-voz da marca italiana de roupas se disse "desolado com o fato de a utilização da imagem ter chocado tanto a sensibilidade dos fiéis". "Lembramos que o sentido dessa campanha é exclusivamente combater a cultura do ódio sob todas as formas", comentou.

As fotomontagens – faço um registro imagético sem a preocupação de legendar – mostram também beijos calorosos entre o presidente francês Nicolas Sarkozy e a chanceler alemã Angela Merkel e entre o presidente palestino Mahmud Abbas e o premiê israelense Benjamin Netanyahu. A imagem que deve chamar mais atenção na América Latina é a do beijo de Barack Obama em Hugo Chávez. Outra imagem impactante foi colocada em outro banner diante da catedral de Milão, mostrando o presidente americano Barack Obama beijando o presidente chinês, Hu Jintao. Há também ’um beijo imaginário’ entre os presidentes das duas Coreias – tradicionais arqui-inimigos. O presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina) também aparece beijando o premiê israelense, Binyamin Netanyahu.

Mas a foto de Bento 16 e do imã egípcio foi considerada a mais polêmica das montagens, nas quais aparecem também outros líderes mundiais se beijando. “É uma grave falta de respeito ao papa, uma ofensa contra os sentimentos da fé e um claro exemplo de como a publicidade pode violar as regras elementares de respeito às pessoas com o objetivo de chamar a atenção por meio da provocação", afirmou ele em comunicado.

A remoção da foto do papa da campanha aconteceu depois que o Vaticano protestou contra o uso de sua santidade máxima. O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, chamou o uso não-autorizado e “manipulado” da imagem de “totalmente inaceitável” e sugeriu que deverá entrar com uma ação legal contra a marca.

A censura chinesa apagou das redes sociais do país os comentários sobre a nova campanha publicitária da empresa multinacional de origem italiana Benetton, que divulgou uma fotomontagem em que o presidente Barack Obama aparece beijando o presidente da China, Hu Jintao.

A Casa Branca criticou nesta quinta-feira a nova campanha publicitária da empresa multinacional de origem italiana Benetton, que divulgou fotomontagem em que o presidente Barack Obama aparece beijando os líderes de China e Venezuela.

Assim Vaticano, China e Washington criticam a campanha. Pois eu a aplaudo. Ela me encantou. Mesmo que não consuma Benetton, achei, uma vez mais uma propaganda inteligente que surge entre tantas peças publicitárias que perecem ser destinadas a débeis mentais. Pena que alguns dos ditos líderes não aproveitaram para ratificar o NÃO-ÓDIO.

sábado, 19 de novembro de 2011

19.- A perfeita mulher casada

Ano 6 *** www.professorchassot.pro.br

*** Edição 1934

Já vivo, nesta segunda noite consecutiva a bordo, a gostosa sensação de retorno. Um diário de bordo permite registrar: Missão comprida e cumprida. A partida foi às 23h20m com chegada prevista em Porto Alegre às 6h.

O dia em Frederico Westphalen foi produtivo. Mesmo que já houvesse falado muitas vezes na URI, hoje não era um alienígena que vinha dar uma palestra. Era um da casa com correio eletrônico institucional e carteira de trabalho assinada, que dava suas primeiras aulas. Emocionante isto quando ocorre quando já quase encerro meu 51º ano de magistério.

Os mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Educação são 18. Estes pertencem a um amplo espectro profissional, que vai de um médico a um produtor/vendedor de hortaliças entre os quais há graduados em Filosofia, Pedagogia, Psicologia, História, Matemática, Artes Visuais, Serviço Social. Há professores do ensino fundamental, médio e superior. Pareceu um grupo muito maturo e que aceita as continuadas provocações que propus durante as minhas exposições.

Mas hoje é sábado e quero partilhar com meus leitores a leitura da semana, que está comigo nesta viagem e é mais uma das preciosidades encontradas nos saldos da Feira do Livro encerrada na última terça-feira em Porto Alegre.

Eis a ficha técnica de mais uma dica sabática, ritual que se cumpre há mais de três anos (quase) a cada sábado, aqui por sugestão de Marcus Vinicius Pacheco Bastos, então meu aluno, enquanto acadêmico de História no Centro Universitário Metodista, do IPA. Permito-me chamar atenção de meus leitores que o autor e sua obra são excepcionais. Acredito que trago aqui uma das mais significativas dicas de leitura.

DE LEÓN, Fray Luiz. A perfeita mulher casada [Original espanhol: La perfecta casada] Tradução Liliana Raquel Chwat. Coleção grandes obras do pensamento Universal. V. 19 São Paulo: Escala. 91 p. s/data. ISBN: 85-7556-664-4

Primeiro algo acerca do autor de tão ‘ousada’ obra. “Fray Luis de León (1527-1591), humanista, teólogo, poeta e tradutor espanhol, foi monge da ordem de Santo Agostinho (354-430). Foi insigne professor na Universidade de Salamanca, onde teve problemas com a Inquisição que o levou nos calabouços do Santo Ofício em Valladolid. Durante cinco anos permaneceu preso acusado de preferir o texto hebraico da Bíblia ao latino da Vulgata e por ter traduzido, em 1561, o Cantar de los Cantares em língua vulgar, prática proibida então pelo Concílio de Trento. [...] No processo que sofre pela polêmica tradução, frei Luis de León argumenta sua discrepância com São Jerônimo (ca. 348-420) com muita erudição e observações sobre a tradução de termos polissêmicos e sobre o papel que o tradutor deve assumir quando o texto se afasta de seus valores morais. Frei Luis coloca o respeito escrupuloso pelo texto e o inegável valor da versão hebraica original sobre a de São Jerônimo: de certo modo, dirá que a palavra divina está no original, não na versão do santo que compôs a Vulgata, e, consequentemente, esta deve ser tomada como uma versão do texto, com acertos e imperfeições, todos imputáveis ao tradutor e não ao texto original” [in FURLAN, Mauri. Prólogo a Cantar de los cantares, de Fray Luis de León. In: Clássicos da Teoria da Tradução. Tese de doutorado].

Frei Luís de León um sacerdote que foi insigne professor na Universidade de Salamanca, onde teve problemas com a Inquisição que o levou preso e assim o manteve, durante cinco anos, numa cadeia em Valladolid.

Quando foi libertado regressou à Universidade de Salamanca. O ser regresso causou grande surpresa e também muita curiosidade. Assim, quando compareceu a primeira aula recém retornado do cárcere, a sala encheu-se, havia uma enorme expectativa em saber o que ia dizer sobre os cinco anos de prisão. Quando os alunos fizeram silêncio, Frei Luís tomou a palavra e, para espanto de todos os assistentes, disse: “Vamos continuar a matéria no ponto em que a deixámos na aula de ontem”.

Quis, com isto, colocar uma pedra sobre os anos de prisão, fazendo como se eles nunca tivessem existido.

Sobre a obra eis algo que está na quarta capa: “A perfeita mulher casada é uma belíssima obra que aponta as características da mulher ideal, encarnada nos papéis de mãe e esposa segundo o padrão de julgamento social da Europa Medieval e da Europa à época da Renascença. Apesar desta obra parecer arcaica e superada na atualidade, esta ideia de mulher traz novamente à tona um período de nossa ancestralidade europeia e católica, o que a torna assaz interessante ao compararmos o ideal de mulher de Luís de León e o perfil da mulher contemporânea, a qual se destaca por ser emancipada e independente, pronta a abrir muitos e novos espaços na política, na cultura e na sociedade, além de ter a liberdade de não ter de dar satisfações de seus atos ao homem e nem ao meio social em que se insere. Tais conquistas, inimaginada no período medieval são os pontos chaves que podem ser colocados em contraste ao perfil de mulher presente na obra de Luis de León, datada do século 16.

Aos leitores sagazes e cultos, compete não somente verificar as diferenças entre um e outro padrão comportamental do gênero feminino, mas também reconhecer a vivacidade, simplicidade e beleza desta obra que nos apresenta uma realidade tão diferente no que diz respeito à relação entre os sexos. A Perfeita Mulher Casada é uma obra que serve sobretudo para ilustrar as conquistas que já foram obtidas pelas mulheres, bem como para nos mostrar como podemos, a partir do exemplo insigne dos grandes escritores de outras épocas, virmos a enriquecer nossa mente de boas leituras e saudável erudição. Livro altamente recomendável a todos os que pretendem montar uma biblioteca contendo grandes obras do pensamento humano”.

A Perfeita Mulher Casada, publicado em 1583, em Salamanca, consiste em uma homenagem feita pelo agostiniano objeto de herético pela Inquisição a uma dama da sociedade prestes a receber o sagrado sacramento do matrimônio. Luis de León afirma que mesmo sem conhecimento de causa, aconselhará a dama a se portar, pois as Sagradas Escrituras são suficientes para respaldar seu discurso e seus conselhos.

Ao longo do texto o frei desenvolve a ideia de que o matrimônio é necessário, apesar de não ser o estado ideal como é o dos virgens e castos, pois a humanidade precisava se multiplicar. Entretanto, certos comportamentos eram fundamentais para que homens e mulheres vivessem em total harmonia dentro do casamento. A mulher deveria ser companheira, econômica, honesta, religiosa, sem vaidade, deveria preocupar-se apenas com seu lar e não se interessar por fofocas e pelas coisas da rua, a casa era seu lugar. Deveria confortar o marido e guardar e multiplicar tudo o que ele conseguisse com esforço e trabalho. Ao marido, em contrapartida, caberia o abastecimento da casa e o tratamento dispensado à esposa deveria ser o melhor possível, pois ela era o seu consolo e seu porto seguro (p. 13-14 do livro)

Juliana da Cunha Sampaio, Mestre em História Social da Cultura Regional – UFRPE Anais de II Encontro Internacional de História Colonial, em alentado estudo acerca de A Perfeita Mulher Casada escreveu: “Sempre mencionando passagens da Bíblia, Luis de León traça um perfil de mulher idealizado pela Igreja e pela sociedade barroca-tridentina. Na maior parte do texto alude às obrigações das esposas, abordando esporadicamente o papel do consorte. No entanto, os comportamentos exigidos das mulheres eram sempre em função das tarefas que deveriam ser exercidas pelos homens. O homem ganha, a mulher guarda. O homem trabalha na rua, a mulher em casa. Assim vamos vislumbrando o lugar do gênero na construção das relações sociais e dos papéis sexuais” [Mneme – Revista de Humanidades. UFRN. Caicó (RN), v. 9. n. 24, Set/out. 2008. ISSN 1518-3394. Disponível em www.cerescaico.ufrn.br/mneme/anais].

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

18.- Teorias do conhecimento e Educação

Ano 6 *** www.professorchassot.pro.br

*** Edição 1933

Hoje mais uma vez esta postagem é feita a bordo. Viajo (quase imprevistamente) para Frederico Westphalen onde amanhã à tarde e à noite tenho 4 + 4 aulas de Teorias do conhecimento e Educação no Programa de Pós-Graduação em Educação. Consegui trocar minha viagem e ao invés das 19h30min, parti de Porto Alegre às 22h45min. Isto me permitiu de assistir a conferência da noite Encontro Nacional de Humanidades e Ciências da Saúde na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) polêmico tema: A história da homeopatia no Brasil. A tarde participei, no mesmo evento, de um workshop ‘Gênero e sexualidade’. Foi muito bom ter podido estar integralmente no segundo dia do encontro. Lamento que esta viagem, onde atendo o pedido de uma emergência de substituição de colega me impeça de participar das atividades de amanhã, quando à tarde haverá um um workshop: Historia e Filosofia das Ciências da Saúde e a noite a conferência ‘A visita da vida e da loucura: sobre Michel Foucault’.

O workshop ‘Gênero e sexualidade’ foi conduzidos pelo prof. Dr. Alexandre do Nascimento Almeida e pela prof. Dra. Aline Winter Sudbrack, um e outro da UFCSPA. Foi trabalhado um conjunto de sentenças, acerca do tema da oficina, trazidas pelo Alexandre e pelo Felipe, bolsista do projeto, em que os participantes tinham se posicionar Concordo/discordo. O mote era que “ensaiamos gênero nas nossas interações sociais cotidianas.”

Entre as duas atividades, como no primeiro dia, nos reunimos Villandry, uma das cafeterias da UFCSPA para continuar nosso peripatético filosofar. Tive o privilégio de assentar-me com os participantes da sessão seguinte e com o Éder e o Prof. Guy Barcelos.

A conferência da noite foi proferida pela Prof. Dra. Beatriz Teixeira Weber (UFSM) e mediada pelo prof. Dr. João Carlos Goldani (UFCSPA). É muito bom ouvir uma conferencia apresentada por pessoa como a Beatriz, uma historiadora que demonstra trazer o produto de muito tempo de densos estudos em acerca do tema que discorre. Ela mostrou a chegada ao Brasil e particularmente ao Rio Grande do Sul das propostas do alemão Christian Friedrich Samuel Hahnemann (Meissen, Saxônia, 10 de Abril de 1755 - Paris, 2 de julho de 1843) o fundador da homeopatia em 1779, baseado em descrições de Hipócrates. Similia similibus curantur: "Semelhantes são curados por semelhantes". Base terapêutica da homeopatia. Uma excelente ilustração foi trazida com a publicação de dois periódicos antagônicos. “O anticharlatão” atacando os homeopatas e “O Hahnemannista” na defesa da mesma. Também foi mostrado a ligação da homeopatia com o espiritismo. O prof. Goldani , que professor da história da Medicina, fez uma analise das modificações da Meicina em tempos muito próximo e do poder curativo dos placebos.

Hoje, à tarde e à noite, apresento no Programa de Pós-Graduação em Educação da URI-Frederico Westphalen os dois primeiros (de um total de 10 encontros do seminário. É saboroso, uma vez mais, viver um encontro com uma turma desconhecida e iniciar um seminário que, mesmo envolvendo alguns temas que já estudei bastante, organizá-los para responder uma ementa propõe “estudar as teorias do conhecimento relacionadas à educação, consideradas a partir do paradigma da modernidade e da pós-modernidade e suas implicações nos processos educativos formais e não formais”.

Numa concepção prévia acredito que neste seminário se poderia fazer uma discussão acerca de como se deu / dá /dará a construção do conhecimento. Esta tarde quero apresentar aos mestrandos a apresentação de uma mirada panorâmica na História e Filosofia da Ciência a partir de alguns balizadores como: a Revolução Copernicana (com uma revolucionária transformação do modelo de leitura do Universo que implica na renúncia do geocentrismo e adesão ao hélio centrismo), a Revolução Lavoisierana (que traz uma nova leitura da combustão onde o flogisto desaparece e se explica a mesma pela combinação com o oxigênio e a associação da combustão à respiração), a Revolução Darwiniana (com sua ainda complexa migração do criacionismo ao evolucionismo) e a revolução Freudiana (quando passamos reconhecer que ao consciente podemos associar o inconsciente). A proposta é usar como ferramentas teóricas os estudos de Kuhn e Feyerabend.

Parece significativo, também, trazer leituras não eurocêntricas: Por que não houve revolução científica no Oriente? A Ciência Islâmica. A Ciência na América pré-colombiana. Um leitor mais atento poderia perguntar-se: e onde está a Educação que aparece no título e na ementa Ao lado das 4 revoluções que citei (que marcaram a disciplinarização), trago uma quinta (ainda não batizada): da disciplina à indisciplina.

Depois desta jornada em Frederico Westphalen volto na noite de sexta-feira para sábado para Porto Alegre. Para então, prometo, agora, uma dica de leitura, que penso significativa. Até então.