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quarta-feira, 26 de maio de 2010

26* Hoje, Passo Fundo: a cidade mais gaúcha

Porto Alegre Ano 4 # 1392

Finalmente um dia que se anuncia mais seco. A manhã começa com um friozinho (em torno de 10ºC). Minha quarta-feira – terá a marca do chamado dia do desafio, hoje celebrado – pois terminará em Passo Fundo. Viajo hoje às 12h30min e retorno às 2h de amanhã. Assim, à tarde, depois de percorrer aproximadamente 300 km em viagem de 4 horas de ônibus deverei estar chegando na ‘Capital do Planalto Médio’. Passo Fundo é mais recentemente conhecida nacionalmente como "Capital Nacional da Literatura". Também foi imortalizada por um dos seus filhos mais ilustres, Vitor Mateus Teixeira – o Teixeirinha (1927-1985) – como a cidade mais gaúcha do Rio Grande do Sul. Filho adotivo, pois o cantor gaúcho mais popular nasceu em Mascaradas (Rolante – RS).



Esta noite atendo a honroso convite da Joice Ceolin e do Sthefen F. A. Da Ronch, que lideram a Comissão Organizadora da “IX Semana do Químico: Química, Tecnologia e Sociedade“, promovida pelo Instituto de Ciências Exatas e Geociências (ICEG), da Universidade de Passo Fundo (UPF) e profiro a palestra “A ciência como instrumento de leitura para explicar transformações da natureza”. Desde segunda-feira se desenvolve na UPF a Semana do Químico com a temática Educação Química em comemoração aos 30 anos do Curso de Química.

A Universidade de Passo Fundo, fundada em 1968, é uma exemplar Universidade comunitária do Rio Grande do Sul. Atualmente disponibiliza 58 cursos de graduação, além de outros cursos de pós-graduação. Além da formação superior, a UPF possui os cursos de ensino médio regular e ensino técnico, através do projeto "Centro de Ensino Médio Integrado". A Universidade se destaca com os cursos de História e o de Agronomia, um dos melhores do Brasil.

A trajetória da Fundação Universidade de Passo Fundo tem sua origem na década de 1950, com a criação da Faculdade de Direito, até então mantida pela Sociedade Pró-Universidade. Em 1957, surgiu o Consórcio Universitário Católico, que instituiu a Faculdade de Filosofia, com os cursos de Filosofia, Pedagogia e Letras Anglo-Germânicas. Em 28 de junho de 1967 fundiu-se as duas entidades mantenedoras do ensino superior, originando a Fundação Universidade de Passo Fundo (FUPF) a mantenedora da Universidade de Passo Fundo. Há muito tenho uma ligação com a UPF. Uma das vertentes está na organização e participação de três Encontros de Debates de Ensino de Química. O IV EDEQ em outubro de 1983 tentou responder: “Por que ensinar Química?” No XI EDEQ, em outubro de 1990 mais de 200 participantes discutiram “O ensino de Química e a reconstrução curricular no Rio Grande do Sul” em função de estudos que se realizavam sobre este assunto na Secretaria de Educação do Estado. No XXIII EDEQ, nos dias 30 e 31 de outubro e 1º de novembro de 2003, teve como tema central: “Formação de Educadoras e educadores de Química: desafios num cenário de mudanças de paradigmas.” Foi neste EDEQ que fiz numa das primeiras vezes a palestra A Ciência é Masculina? e um grupo de estudantes vaiou-me pois pensaram que minha trazida de algumas concepções machistas do Apóstolo Paulo fossem na sua ratificação.

Em outras oportunidades estive na UPF em cursos ou palestras, como estarei na noite de hoje. Recordo que depois de uma destas palestras meu atencioso amigo Prof. Luiz Carlos Naujorks trouxe-me à Porto Alegre, e ao aqui chegar pela madrugada, volta sozinho a Passo Fundo. Lembro também das vezes que minha muito querida colega Clóvia Mistura me recebeu na UPF. Evoco também o colega Ademar Lauxen e as gentilezas que os organizadores do EDEQ ensejaram para meu retorno de avião em 2003.

Todavia, há uma estada que precede a esta talvez uma dezena vezes que estive na cidade e da qual guardo muitas recordações: janeiro de 1978. Então fui professor de Química Geral por duas semanas em curso de formação de professoras e professores no âmbito do Distrito Geo-educacional 38 – DGE 38. Os docentes do curso eram de vários estados do Brasil e as aulas eram de tarde e de noite e de manhã foi nos conseguido acesso à piscina de um clube. Recordo dos papos com o Patrocínio da Unicamp. Mas esse janeiro de 1978 ficou marcado pela saudade que essas semanas de ausência me ensejaram. Eram as primeiras semanas que morávamos na Aldeia Sarmana (Sete Amigos Resolveram Morara Aqui No Alto) condomínio horizontal que organizáramos com mais seis casais, no morro da Glória e Ana Lúcia tinha então três meses e as chegadas dos sábados pareciam nunca ocorrer.

É a essa Passo Fundo que me traz tantas evocações que volto hoje. Será bom estar com alunas e alunos do curso de Química da UPF. Espero amanhã pela manhã estar de volta para nova conversa aqui. Uma boa quarta-feira feira a cada uma e cada um. E para aquelas e aqueles da grande Porto Alegre, segue um convite muito especial.


terça-feira, 25 de maio de 2010

25* Qualificação à distância


Porto Alegre Ano 4 # 1391

Abro essa blogada deste 25 de maio, fazendo uma homenagem aos ‘hermanos’ argentinos, que no dia de hoje não apenas celebram o Dia da Independência, mas o fazem na celebração do bicentenário de 25 de maio de 1810, quando se separaram da Espanha. Tenho amigos argentinos, alguns eventuais leitores desse blogue e também por isso essa homenagem. Aqui a madrugada se faz com relâmpagos que anuncia a chuva que se avizinha.

Aula na UAM - Universidade do Adulto Maior na tarde de ontem

– meu momento de auge acadêmico semanal – merece contemplar um registro nesse diário de um mestre-escola. Além de na ‘hora da rodinha’ o assunto unânime ter sido ‘a criação de vida ‘artificial’, ontem discutimos a revolução freudiana. Mostrar por exemplo que Freud acreditava que o desejo sexual era a energia motivacional primária da vida humana, assim como suas técnicas terapêuticas, foi significativo. Evidenciar o quanto essa teorização foi/é alvo de preconceitos foi muito significativo. Foi destacado, por exemplo, que trazer charges como a que ilustra esse parágrafo já traduz uma quebra de paradigma, pois isso não seria admissível fazê-lo, há não muitos anos, em uma sala de aula.

Ainda um comentário acerca da nova ‘Folha, o jornal do futuro’: minha carta não foi publicada. Mesmo que reconheçam que a maioria da correspondência dos leitores fosse acerca do tema, só estão publicadas mensagens laudatórias, algumas tendo o feito como estupendo. Hoje o jornal me pareceu ainda mais impalatável. Sobre jornais de ‘segundas feiras’ vale ler nos comentários da edição de ontem a resposta ao meu questionamento dado pelo jornalista e historiador belenense José Carneiro. Eis uma suma preciosa do mesmo: Parafraseando alguém [...], se soubéssemos como são feitos os embutidos e os jornais de segunda-feira, não cometeríamos aqueles e nem leríamos estes.

Tinha planejado na última sexta-feira algo do meu cotidiano da véspera, mas a notícia da descoberta de um provável caminho da vida artificial me fez, subitamente mudar a pauta. Assim conto, aqui e agora, o então protelado: minha quinta-feira foi, quase exclusivamente, gasta (ação verbal refinadamente escolhida) com uma dissertação de mestrado da qual devo dar parecer para uma sessão de qualificação.

Vou transcrever excertos da abertura de meu parecer. Retomo no me meu prelúdio dois temas que meus leitores que me acompanha há mais tempo já viram referir. Permito-me, como a sessão de qualificação só ocorrerá em 02 de junho próximo, suprimir detalhes que possam identificar a instituição.

Primeiro começo com uma manifestação de descontentamento que não é endereçada à mestranda. A Universidade XPTO, como muitas outras Universidades públicas e privadas, adere de uma maneira simplista à solução do problema de falta verba para as sessões , de qualificação de Projetos de Dissertação e Tese. É fantástica a criatividade na solvência de problemas desta natureza: corta-se, e tudo se resolve. Pede-se um parecer por escrito e se economiza deslocamento do avaliador externo (o que para mim parece muito confortável nesses tempos em que nossas agendas parecem não comportar viagens! Não poderia estar aqui, ao vivo, antes de julho. Não seriam poucas as horas de aeroporto e de voos que essa opção, que antes critiquei, poupou-me!). Mas, ninguém de nós discute o quanto as sessões de qualificação são academicamente mais importantes que a defesa propriamente dita. Nestas, pouco podemos influir; enquanto naquelas, deveria se esperar que, com uma interação entre examinadores e a autora ou o autor da proposta, se estabelecesse construtivo diálogo buscando aperfeiçoar o projeto. Tenho dito que não há atividade acadêmica que tenha o nome mais posto que a ‘qualificação’ pois nesta aquilo que se faz é tentar qualificar o trabalho do mestrando ou do doutorando. Logo, não vamos acreditar que com um parecer enviado, às vezes de uma maneira anódina, ou produzido no reduzido espaço de menos de duas semanas (foi apenas esse o tempo que tive na proposta em tela), nos intervalos dos muitos fazeres que nos assoberbam em um semestre a pleno, se tenha a mesma produtividade se comparada com uma discussão presencial, olho no olho. Quem sabe estamos já ensaiando a pós-graduação à distância, que parece até estimulada pela CAPES. Meu descontentamento a esta alternativa aumenta, por já ter participado de situações como a de agora da qual sequer recebi um retorno da sessão. Repito essa crítica nada tem a ver com a Maria e não é exclusiva à Universidade XPTO. Uma e outra também são vítimas da realidade de aligeiramento e barateamento que estão submetidas pós-graduação brasileira. Para diminuir custos temos que convir que um parecer por escrito; este caberia muito mais na sessão de defesa final do que na qualificação, pois esta a meu juízo é quase o ápice dos atos de alguém fazer-se mestre ou doutor.

Adito a esse descontentamento uma manifestação, agora, endereçada à Maria ou talvez às normas do Programa de Pós Graduação em Educação da UXPTO. Quando se faz uma proposta de dissertação crítica como esta, onde se vê a sensibilidade da mestranda na contextualização de suas ações em problemas que são relevantes, não se pode esbanjar papel como foi feito nessa proposta. Economizar papel é, além de protegermos o Planeta, também uma maneira de protestarmos contra sanha voraz das papeleras – indústrias predadoras, que com a plantação extensiva de eucaliptos, transformam em desertos extensas áreas do Brasil. Poderia haver, diminuição dos espaços nas indentações e entre parágrafos (uma boa maneira de nos insurgirmos contra a ditadura da ABNT) e, especialmente, a proposta poderia ter sido impressa em frente e verso. Teria sido economizado nas prováveis cinco cópias produzidas para esta sessão, 5 vezes cerca de 1000 páginas e não ficaria tão flagrante alguns desperdícios de folhas com menos de meia página de texto. Poderiam ter sido economizadas mais de 500 folhas (=2,5 calhamaços como este que temos em mãos para avaliar): o bolso da mestranda e o Planeta agradeceriam. Vale serem esquecidas algumas normas da ABNT que parecem que feitas para alimentar o bolso de revisores que cobram por página. Com essas desobediências ganha a natureza e ganham, também, mestrandos e doutorandos.

Minhas manifestações destes dois tópicos – parecer a distância na qualificação e economia de papel – não são originais aqui. Alguns Programas de Pós Graduação já estão exigindo de seus alunos proposta e mesmo trabalhos finais em frente e verso.

Isso posto, quero ainda acrescentar o privilégio de estar na companhia – mesmo que virtual – de minhas colegas ABC, que orienta a Maria, e DEF. Essa defesa me faz evocar ter estado nesta UXPTO, em 2002, participando de um evento acerca de Etnicidade no contexto de uma sociedade multicultural, guardando de sua Biblioteca saborosa recordação. Em 2003 publiquei um artigo na revista Totius. Assim, estar neste Programa de Pós Graduação em Educação desta Universidade me traz satisfação. Por tal sou grato também à ABC e à Maria pelo convite.

Termino esses comentários preambulares. Vou dividir meus comentários de fundo em duas dimensões. Primeiro falo quanto à forma e depois discorro quanto ao conteúdo. Permito-me considerar que a partir de agora esteja fazendo um monólogo com a Maria. Com pedido que os meus colegas de banca relevem, o texto que se segue pode ser pensado como uma missiva à Maria. Que saudade dos tempos em que havia diálogos, quando das qualificações!

E então prossigo no que anunciei: comentários em duas dimensões. Agora desejo uma muito boa terça-feira.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

24*Alfabetização científica: questões e desafios para a Educação: notícia

Porto Alegre Ano 4 # 1390

Uma blogada de segunda-feira é usualmente diferente. Como, há um tempo venho postando as edições nas primeiras horas do dia (ou de madrugada como esta), parece natural que deixe os textos pré-pronto na véspera. Devo confessar que o grau desse pré-pronto me obsequia com a qualidade de conciliação do sono. Assim as blogadas de segunda sabem a domingueiras.

Anuncio na manchete uma notícia. Logo, na esteira do memorialismo de ontem, lembro que ainda nos 60 do século passado (século 20, por supuesto!) os jornais matutinos não circulavam às segundas-feiras em Porto Alegre (não tenho informações de outras cidades, mas como tenho leitores jornalistas certamente seremos aqui esclarecidos). As razões disso eram óbvias: aos domingos devíamos nos abster de trabalhos servis, logo era natural, que as redações não trabalhassem. Pode-se imaginar o grau de sedução que tinham os jornais vespertinos (hoje, por aqui eles não existem mais!) na tarde de segunda-feira. Lembro que o bar Caçula onde eu trabalhava vendia a Folha da Tarde e minha torcida era para que no encalhe ficasse algum exemplar nas segundas-feiras, para poder ler depois; poucas vezes era bem sucedido meu torcer.

À época, diferentemente de hoje, os jornais aos domingos não circulavam, como hoje, na meia tarde de sábado (quando dizemos que lemos hoje um jornal de amanhã com notícias de ontem). Recordo, que era algo festejado sairmos do cinema nas noites de sábado, já quase meia noite, e conseguirmos já comprar um jornal de domingo.

Evoquei jornais de um passado (não tão remoto, mas diferente). Agora algo deste domingo. Circulou pela primeira vez a nova Folha de S. Paulo. Poucas vezes aguardei um jornal com tanta expectativa. Cheguei a telefonar para meu entregador sabendo da previsão de entrega. Por mais de uma semana fomos excitados com notícias de revoluções que nos levariam a outro patamar de jornalismo. Os estudos foram extensos e custosos. Mandei ao painel do leitor a seguinte mensagem (que certamente não será publicada): À ‘nova’ Folha/Bolha, decepção. Exemplo, Ilustríssima p. 10 e Mercado ~~ novo deus da nova Folha ~~ p. 12 e 13 ~~. “Obrigado” por infantilizar leitor, com muito papel e pouco conteúdo, achassot. Claro que me sinto pretensioso ao fazer tão radical avaliação. Analisei-me e pareci-me conservador. Sou incapaz de aceitar uma mudança objeto de tão intensos estudos. Talvez, esteja laborando em preconceitos ou resistindo ao novo. Incomodou-me a preferência para o chargismo e gráficos em detrimento do texto escrito. Por exemplo, a p. 10 da ‘ilustríssima’ é gasta com um poema (O cachorro) de 11 linhas. O caderno Dinheiro, adequadamente, passa se chamar ‘Mercado’; Neste há duas páginas inteiras gastas com gráficos e desenhos para mostrar o destino dos impostos. Penso que com estas transformações se começa dar adeus ao jornalismo papel. Preparemo-nos para pagar o acesso às edições internéticas, como já ocorre em países centrais. Mas, não sou do ramo, não me cabe palpitar.

Mas depois desse preâmbulo saudosista eis detalhes da notícia-título: Há um tempo meus leitores não estão encontrando Alfabetização científica: questões e desafios para a Educação. A 1ª edição foi lançada no ENEQ de 2000. Já em 2001, saiu a 2ª edição e em 2003 a 3ª. A 4ª edição, em 2008, que teve mais uma reimpressão em 2008, esgotou-se em março. Na última sexta-feira encaminhei uma proposta de uma nova edição, atendendo a novas ‘exigências de mercado’.

O leitor que conheceu algum exemplar de uma das quatro edições anteriores quando tiver em mãos algum exemplar da provável 5ª edição talvez tenha uma surpresa. Haverá um significativo emagrecimento físico do livro. Esse parece ser um dos sinais desses tempos pós-modernos que a nova edição precisou, não sem dificuldades, considerar.

Hoje um livro de 438 páginas, como foram as quatro edições anteriores, não é mais palatável. Houve pelo menos duas determinações para uma tão radical ablação de capítulos inteiros e de parte de outros: a primeira, hoje se lê menos em suporte papel – parece que os comentários acerca da Folha de S. Paulo, acima estão nessa direção; outra, razões econômicas exigem que os livros, pelo menos dessa área, sejam de menor custo ou fisicamente menos volumosos.

Assim, está anunciada uma nova a edição adelgaçada. Não vou detalhar cortes que determinaram uma redução de mais de 90 páginas (cerca de 20% em volume). Também não fiz isso na apresentação que fiz à nova edição. As operações de poda de vegetais sempre me são dolorosas. Muitas vezes procuro dar destino especial aos ramos excluídos ou explico à árvore as razões de minha cirurgia. Imagine-se, então, o que fazer exclusões de um livro que por dez anos foram presenças na obra.

É nesta dimensão anuncio, aqui, mais uma edição de Alfabetização científica: questões e desafios para a Educação, que como nas quatro anteriores, terá seus direitos autorais destinados ao Departamento de Educação do Movimento dos Trabalhares Rurais Sem Terra. Talvez isso explique porque dentre os meus livros é esse que mais me emociona.

Trazida essa notícia, votos de uma muito boa segunda-feira, abertura de semana muito promissora. Amanhã nos poderemos reencontrar aqui, uma vez mais.

domingo, 23 de maio de 2010

23* Memórias de um sineiro

Porto Alegre Ano 4 # 1389

Já contei aqui, mais de uma vez, que pretendo celebrar o vindouro 13 de março – data que completo 50 anos de magistério – com o lançamento de um livro de memórias. Já tenho amealhado um bom número de capítulos. O livro poderia chamar-se como umas das obras de Pablo Neruda: ‘Confesso que vivi’. Parece que tal título não caberia se seu autor fosse alguém menos anoso. Quando agora redijo esse texto, penso que essa trazida poderá estar no futuro livro.

Não busco explicações para minha ligação com sinos. Talvez eu fora em outra vida Quasimodo, o sineiro de Notre Dame, apaixonado pela cigana Esmeralda, na comovente história de Vitor Hugo. Confesso que uma vez, quando ensaiava a ascensão a torre da magnífica catedral parisiense, acreditava que ia encontrá-lo.

Não é sem razão que em uma das entradas ao meu scriptorium haja um sino,alegria dos netos que se encantam em badalá-lo. Sempre ouço o repicar de sinos sou tomado de emoção – ¿ou serão culpas? por não atender a chamados. Os sinos marcaram minha infância. Lembro, quando tinha talvez 7 anos, da Dona Helga – morava em frente a nossa casa na rua Flores da Cunha 118 – quando não se deixou encantar pela proposta do Reverendo Bernhoeft – figura muito querida, sob as ‘bênçãos’ de quem iniciei o magistério – de conversão à igreja episcopal pois esta não teria sino para dobrar finados quando ela morresse.

Recordo tempos em que os sinos marcavam momento de se rezar o ‘ângelus’ às 6h, ao meio dia e às 18h – quando os ponteiros do relógio se perfilavam apontando para infinito, como dizia olocutor da hora da ave-maria, na ZYY-8. O toque das ‘ave-marias’, que muitas vezes executei enquanto coroinha consistia em três sequências de três badaladas solitárias, para terminar com um repicar contínuo. Rezava-se então uma oração que iniciava assim ‘O anjo do senhor anunciou a Maria...’ No chamado tempo pascal esta oração era outra: ‘Rainha dos céus, aleluia...’ Pergunto-me se ainda hoje essa prática continua. Penso que nem mais se badalam as ‘ave-

marias’. Os sinos da igreja da Piedade – vejo-a de minha casa – tocam, com impontualidade, a cada dia, em torno das 17h30min.

Lembro muito de minha mãe, quando ouvíamos um sino fora do horário: “Morreu alguém! E se podia distinguir, pelo timbre do sino que ressoava se era adulto ou criança. Mesmo que não se soubesse quem fosse o finado (e se levantava hipóteses entre os doentes conehcidos, parávamos e rezávamos: “Dai-lhe Senhor, o descanso eterno! A luz perpétua o ilumine! Descanse em paz. Amém!“ Se o sino anunciasse uma criança, havia a afirmação: “Mais um anjinho que foi para os céus!” Trago esse relato de minha infância, no final da segunda metade do Século 20 (que é o século de cada uma e cada um de meus leitores), mas me soa como se falasse de tempos medievos.

Além de minhas ações de sineiro de eventual que referi acima, no dobre das ‘ave-marias’, em substituição ao Ari, que morava junto com o vigário na casa paroquial da

igreja matriz de São João Batista de Montenegro, evoco duas situações em que exerci o mister não como substituto, e sim como titular.

Uma vez, ainda quando morava na rua Flores da Cunha, antes referida, fui encarregado de anunciar uma pregação de missionários Redentoristas na Capelinha do Rosário, que ficava próximo onde morávamos. Da capela me lembro pouco, tão esboroada está na minha memória; nem tenho certeza que tenha existido. Mas de seu campanário, parece que era imponente. Assumi a missão de tocar o sino para chamar a comunidade, talvez nos meus nove anos. Dizem que entusiasmei e toquei o sino toda a manhã. Acredito que exageram os que dizem tal, pois nem foi por meia manhã. Mas devo ter batido todos os recordes de toque de sino naquela singela ermida. Não sei também se veio alguém para a pregação.

Cerca dez anos depois, já aluno do Colégio Júlio de Castilhos, tive outro feito memorável. Quando da morte do Papa Pio 12 (que governou a Igreja entre 1939 e 1958), os sinos das igrejas católicas deviam dobrar finados, a cada hora cheia. Eu trabalhava no bar Caçula, na rua Ernesto Fontoura esquina avenida Eduardo (como era conhecida a Presidente Roosevelt). A cada hora deixava meu posto no bar, para desgosto do Joventino que me chefiava e assumia o sino da igreja de Nossa Senhora do Monte Claro – a igreja dos poloneses, vizinha do bar – e fazia pungente dobre de finados pelo papa morto. Quem me designara para aquela muito honrosa distinção fora o Pe. João Piton, capelão da comunidade dos poloneses. Ele era companheiro de reza do breviário (código para esconder o jogo de canastra) de meu tio Arnaldo, dono do bar, com quem eu morava. Como 10 anos antes, os vizinhos com razão protestaram.

Foi bom com essa essas lembranças ter feito tessituras que agora se transformaram nesta blogada dominical. Adito votos de um bom domingo, na expectativa de que amanhã iniciemos uma nova semana muito produtiva (até por que o dia de hoje não é considerado dia útil, logo dado a não ser produtivo).

sábado, 22 de maio de 2010

22* Um romance ambientado entre 5 e 14 de outubro de 1582

Porto Alegre Ano 4 # 1388

Um sábado onde de novo temos sol no Brasil meridional. Isso dá contornos diferentes ao fim de semana. A blogada hoje também é postada mais tarde numa tradução de um inicio do dia a vagabundear.

Na quinta-feira trouxe aos meus leitores esta questão: o que aconteceu na história da humanidade, pelo nosso calendário, no período de 5 a 14 de outubro de 1582? E vimos porque, para aqueles como nós que seguem há mais de meio milênio o calendário gregoriano, a resposta é nada.

Esse é um não-período que por bula papal quando chegou no dia cinco de outubro se pulou para o dia 16 de outubro. Assim para cristandade (romana, pois como vimos sem a adesão imediata da luterana e da anglicana) esses dias não existiram.

Aquela blogada deu azo à evocação de um livro para a dica de leitura de hoje que li em 2004. Essa semana o reli partes de ‘O Emblema da Amizade’, romance Frances escrito por Jacques Bonnet, se desenrola período de 5 a 14 de outubro de 1582. A publicação conta a história de um massacre em Paris – um livreiro e toda sua família são assassinados. A chacina ocorre em 1582, numa casa próxima ao hotel, onde mora o protagonista do título, Giordano Bruno. Assim, remexo nas minhas resenhas de leituras da era pré-blogue e revisto com novos trajos e brindo meus leitores nesse sábado.

O Emblema da amizade. BONNET, Jacques. São Paulo: Publifolha, 2004. 471p. [Tradução do original francês L’embleme d’amitie por Paulo Neves] ISBN 85-7402-563-1

Jaques Bonnet é um escritor francês. Foi primeiro editor.

Sua obra de mais sucesso é o livro trazido hoje aos meus leitores. Dele só encontrei duas linhas na Wikipédia em italiano.

Na História da Ciência Giordano Bruno é um personagem símbolo. Em O Emblema da amizade há a oportunidade de o encontrarmos em uma situação diferente daquelas que conhecemos: o filósofo que desafiou a Inquisição e que terminou na fogueira aparece travestido de detetive, resolvendo um horrendo crime em Paris no final do século 16.

No romance policial conhecemos um pouco de Paris renascentista. O Emblema da amizade mistura ficção e realidade, suspense e erudição. A isso junta-se a oportunidade de encontrarmos Giordano Bruno em uma situação diferente daquelas que conhecemos: aparece travestido de detetive, resolvendo um horrendo crime em Paris no final do século 16.

Em 1582, houve uma reforma no calendário determinada pelo Papa, com supressão de 10 dias, durante os dias "ausentes" Bruno encontra-se em Paris, é protegido do rei, dá aulas na Sorbonne. Eis que uma ocorre chacina na Casa do Galo, próxima ao hotel onde mora o filósofo. “O Livreiro Nicolas Heucqueville foi morto durante a noite, e também sua esposa, sua irmã, seus dois filhos, e mais um recém nascido, e a ama-de-leite deste, e também seu pai.” Os raciocínios e intuições transformam Bruno em um detetive privilegiado. Podemos imaginar as elucubrações do filósofo-detetive, como protagonista da história na qual Jacques Bonnet no brinda com um romance policial e histórico, onde mescla ficção e realidade, suspense e erudição.

Para tentar desvendar o crime e achar os culpados, Bruno, um filósofo de pensamento transgressor, inicia uma investigação. Seu raciocínio e intuição o transformam em um detetive privilegiado, capaz de pensar com rapidez e buscar sentido em cada um dos fatos.
A trama policial ambientada no final do Renascimento é também um romance histórico que, usando evocações sensoriais, mostra o período conturbado em que se passa a narrativa. Conflitos religiosos, guerras e genocídios deixam de ser plano de fundo para se apresentarem como um dos principais atrativos da história.

Não foi se razão que numa crítica do ‘Le Monde’, de Paris comparou o livro a ‘O Nome da Rosa’. Há ainda no livro uma excelente introdução de 11 página pra conhecermos um pouco acerca do genial filósofo.

Ainda uma palavra acerca do nome do livro. Em tempos mais remotos, na França, e também em outros países da Europa, os endereços comerciais eram dados pela menção do símbolo ou da imagem, expostos sobre a porta de entrada. Chamavam-se "enseignes", insígnias, emblemas. Isso explica o título do livro. Emblema da Amizade foi, na realidade, o endereço do livreiro de Paris que editou Candelaio, a comédia de Giordano Bruno, que posteriormente nos muitos interrogatórios inquisitórios são decisivos para a condenação de seu autor.

" O livro de Bonnet vem confirmar a suspeita de que a verdadeira, grande e boa literatura de nossos dias refugiou-se em alguns poucos gêneros, ditos "menores", entre eles o policial. O "Emblema da amizade" é também um romance histórico. Restitui, por evocação sensória, visual, olfativa, tátil, auditiva, o meio e as ações humanas daqueles tempos perturbados (a história se desenrola em 1582). A trama é engenhosa. Personagens verdadeiros e documentos autênticos se misturam com os forjados, e a história não se mostra apenas como pano de fundo.(..) Em meio às trevas, emerge a figura do filósofo. Ela estabelece a fragilidade do pensamento diante dos fatos. Porém seu papel mostra-se crucial, já que não cessa de interrogar, de buscar sentidos diante do caos instaurado pelas certezas convictas e tirânicas." (Jorge Coli, Folha de S. Paulo).

Como professor de História da Ciência discorro, com muita frequência, sobre Giordano Bruno. Cada vez me interrogo acerca da coragem de um dos filósofos mais lúcidos do Renascimento. A história de sua vida, que se consumou em uma tragédia – foi levado vivo a fogueira foi descrita por diferentes autores.

um filme Giordano Bruno (1973 - 114 minutos) no qual Giuliano Montaldo fez um dos mais extraordinários e elogiados dramas do cinema baseado numa história real. Retrata a vida do astrônomo, matemático e filósofo italiano, frade dominicano na juventude, Giordano Bruno. Pensador de opiniões audazes e independentes, Bruno foi queimado vivo na fogueira da Inquisição em 17 de fevereiro de 1600, na praça de Flores, em Roma. Ele defendia, entre outras coisas, a infinidade do Universo, a existência de vida em outros mundos e via na religião apenas superstições e símbolos. Herege convicto escreveu inúmeros trabalhos refutando os dogmas fundamentais do catolicismo. Suas críticas científicas à religião fizeram com que a Santa o considerasse um inimigo perigoso da Igreja. Submetido a cruel tortura, enfrentou com altivez os interrogatórios, sustentando suas idéias acerca da presença de Deus em cada fração da matéria. O ator Gian Maria Volonté faz o papel de Giordano Bruno neste belíssimo filme produzido por Carlo Ponti, com trilha sonora assinada por Ennio Morricone.

Assim, aos giordanistas e não giordanistas leitores deste blogue um convite: conheçam o Emblema da Amizade. Vale a pena. Palavrainsuspeita’ de alguém que tem vitrais em seu gabinete de trabalho homenageado a duas figuras emblemáticas da História da Ciência: Hipácia (370-415) e Giordano Bruno (1548-1600).

No mais, votos de um muito bom sábado. Aqui ainda muito curtido, pois adornado de sol.