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domingo, 10 de agosto de 2014

10.- DIA (DE SAUDADES) DOS PAIS

ANO
 9
EDIÇÃO
 2861

Há jeitos de viver que explicam nosso estado de espírito. Por exemplo, eu sou adepto da escritoterapia. Há, vez ou outra, que a saudade esteriliza meus escreveres. A data de hoje é uma delas. Tenho saudades de meu pai.
Contorno a aridez intelectual em dois momentos. No primeiro, repito aqui a dedicatória que está em A ciência através dos tempos, e que nestes 20 anos de circulação, já foi lida por milhares, em suas cerca de 30 edições/reimpressões. No segundo, aposso-me da comovente crônica Posta Restante da psicanalista Diana Corso, publicada em www.marioedianacorso.com
Para Afonso Oscar Chassot (1906-1987), meu pai,
que, mesmo nunca tendo visto seu nome
impresso em um livro ou jornal, muito me ensinou:
a gostar de ouvir notícias,
instrumental importante para conhecer e entender a história,
e
a vibrar com a profissão,
marceneiro hábil que era, trabalhando a madeira com amor.
Para ele, este livro e estes versos,
adaptados da poeta Hannah Szenes (1921-1944):
Bendito o fósforo que ardeu e acendeu a fogueira!
Bendita a labareda que ardeu no âmago do coração!

Posta Restante Filhos crescidos órfãos de seus pais são remetentes de uma carta sem endereço.
Quando precisamos enviar uma carta para alguém que não tem como indicar um endereço para recebe-la, a destinamos à Posta Restante. Dessa forma, ela vai para a agência de correios da região mais próxima e espera-se que o destinatário vá buscá-la. Vou ter que lançar mão desse recurso, porque é quase dia dos pais e preciso urgente dar uma notícia importante para o meu.
Acontece que ele se foi para sempre. Estou com o problema dos filhos órfãos, mesmo que tardios, que sequer possuem uma Posta Restante para usar. Há órfãos da vida toda, mas, seguindo o curso natural, esse desamparo próprio da orfandade acaba chegando para todos. Nesses casos, precisamos usar a imaginação, travar diálogos na fantasia para contar as novidades. Queria muito contar ao meu pai que seu neto, meu sobrinho portenho, acabou de se formar. Ele agora é segundo psicólogo da sua geração na família. Como fazemos quando os pais já não têm como ficar sabendo dessas coisas?
Sei que há genitores indignos de serem chamados de pais, que são narcisistas, malucos, destrutivos ou indiferentes à vida dos filhos. Por sorte, são minoria. Já os que vestiram a camiseta da paternidade são os maiores entusiastas, interessados nas gracinhas iniciais, assim como nas conquistas posteriores das suas crias. Ao longo da vida teremos que dar jeito de angariar novos públicos: amigos, amores, colegas, filhos, mas com os pais já temos a garantia, de saída, de uma plateia inicial.
Pior, que fazer conosco nos dias de homenagem, quando não há a quem presentear? Há substitutos: figuras paternas que nos inspiraram, nos cuidaram ou nos amaram, mas o tempo vai nos roubando também a estes, deixando-nos à deriva, como uma carta sem endereço.
Com meu pai, nos últimos anos, desenvolvemos uma forma intimista de comemoração: em alguma hora do domingo íamos a um café conversar e passávamos a vida a limpo. Era um engenheiro, homem de relatórios, objetivos claros. A formatura desse neto estava entre suas metas, iria alegrar-se muito, mas para onde mando o relato minucioso do evento?
Nossa forma de celebração servia para lembrar que a vida dos filhos é o melhor presente para seus pais. Muito mais difícil de oferecer do que um objeto de loja, é a continuação de seus ideais que eles gostariam de receber em troca do tanto que sonharam em nós. Embora esse tipo de oferenda pareça uma missão irrealizável, na verdade a falta dela acaba sendo muito mais difícil de suportar. Pais são aqueles a quem destinamos nossas notícias, enquanto os filhos são os remetentes. De um jeito ou de outro, sempre resta algum lugar para onde postar. Mesmo que em pensamentos.

7 comentários:

  1. Só na perda mensuramos a magnitude de um simples abraço. Quem ainda tem seu pai, que o abrace hoje e todos os dias.

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    1. Caríssimo Antônio,
      muito sábia recomendação.

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  2. Meu pai

    Não, ele não foi um homem perfeito
    Falo de Ananias meu pai já falecido
    Mas deu o melhor dele lá a seu jeito
    Pois era um bom caráter desmedido.

    Dentro da pobreza que corria a vida
    Na nossa mesa jamais tinha fartura
    Mas ele via no estudo a única saída:
    “Quem estuda achará o que procura”.

    Assim crescemos os cinco rebentos
    Legou-nos exemplo de honestidade.
    Seguia a vida em breves momentos.

    Hoje meu pai olhando da eternidade
    Está por certo cheio de encantamento
    De sua prole legada para posteridade.

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    1. Meu caro Jair:
      Pode o seu Ananias, ou qualquer pai que um dia habitou o Planeta, ter melhor alegria que admirar contente “... sua prole legada para posteridade!”.

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  3. Quisera, neste dia, que todos os genitores fossem, também, pais.

    Um feliz Dia dos Pais!!!

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    1. Meu caro Vanderlei.
      teus anelos, pela data deste domingo que se esvai, são pertinente.
      Anuncio na noite desta quinta a primeira sessão do Seminário: "A arte de escrever Ciência com arte" no PPGEDU da URI Frederico Westphalen;
      Expectante

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