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sexta-feira, 19 de julho de 2019

19.-Tertuliano e os Atos de Paulo e Tecla



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Na blogada anterior apresentei três textos que suplementam o texto que está a seguir. Este se constitui de alguns excertos a serem inserido no capítulo Nossa ancestralidade cristã preparado para a nona edição de A Ciência é masculina? É, Sim Senhora!
Não é algo complexo reconhecer o quanto o DNA cristão fez/faz machistas os humanos ocidentais. Isto é verificável nos textos canônicos fundantes da Bíblia cristã. Todavia, parece que devamos também estar mais atentos com as contribuições de alguns textos tidos como apócrifos. Todavia, a busca de entender como era o nascente cristianismo, parece, então, não se poder apenas assestar óculos nos textos ditos canônicos. Nesta situação importaria saber responder: quem definiu, por exemplo, quais e por que tais evangelhos são canônicos e por que outros são apócrifos?
Considerar hoje, algo da vida de Jesus ou dos apóstolos, por exemplo, a partir de um evangelho ferreteado de apócrifo não faz a mínima diferença se comparado com um evangelho dito canônico, na contribuição que este artefato cultural teve quando de sua produção. O classificado como apócrifo, então, edificou a muitos? Ele fez conversos? Ele determinou deserção? Ele foi motivo de escândalo? Isto interessa saber hoje, mesmo que ônus e bônus já tivessem acontecidos há dois milênios.
Parece ser senso comum, que pessoas que tenham um pequeno conhecimento bíblico quando falam em textos apócrifos lembram do evangelho de Tomé. Trago um exemplo pessoal. Em outro texto precisava referir a 'parábola da semente de mostarda' narrada por três dos evangelistas (Mateus, Marcos e Lucas). Uma versão da parábola, muito parecida com a dos evangelistas aceitos pela ortodoxia, também ocorre no apócrifo Evangelho de Tomé. Ou seja para mim, ao citar Tomé tinha a pretensão de ter coberto o assunto dos apócrifos.
Entretanto, Frei Jacir de Freitas Faria descreve mais de duas dezenas de textos apócrifos, em sua maioria descritos como ‘Atos Apostólicos’ de diferentes apóstolos e outras pessoas significativas na nascente igreja cristã Restam as perguntas: Quem e por que tão elevado número (se comparado com o canônicos) foram declarados apócrifos.
O escritor Élcio Mário Pinto narra (em comentário à edição do mestrechassot.blogspot.com de 05/07/2019) ao evocar um professor de seu curso de Teologia: “diante de um texto é preciso perguntar 'meu querido texto, de qual conflito você saiu?' Então, talvez se possa identificar os conflitos entre autoridades e, principalmente, quais são os interesses, seja um bom caminho a percorrer. Depois disto, é salutar reconhecer que toda instituição hierárquica alimenta-se de poder e de autoridade.”
Assim, na corroboração de teses que se quer ver ratificadas neste A Ciência é masculina? É, Sim Senhora! se ampliam as referências assentadas em apócrifos. A ‘Nossa ancestralidade cristã’ parece ter o machismo adensado — mais uma vez fica-se apenas em um exemplo de apócrifo — na contemplação do capítulo Tertuliano e os Atos de Paulo e Tecla de Sebastiana Maria Silva Nogueira (2015), inserto em Apocrificidade. Ao referir as posições demolidoras de Tertuliano acerca dos referidos Atos de Paulo e Tecla, mais especialmente na censura à Tecla é reforçada um cristianismo para mulheres submissas a seus maridos e caladas nos cultos religiosos cristãos.
Tertuliano tenta desqualificar narrativas contidas em Atos de Paulo e Tecla porque Tecla não apenas se auto-batizou como foi ainda mais audaciosa: batizou a muitos que se convertiam por suas pregações que eram comoventes e frutuosas em conversos ao cristianismo e se dizia que estes fazeres eram validados pois tinham a chancela ou coparticipação de Paulo.
Ser batizado não era apenas o cerimonial de adesão ao cristianismo mas também para os adultos fazia a remissão de todos pecados anteriores. A virgindade era apresentada como algo desejável. Se tal não fosse possível havia recomendação que os casais levassem um matrimônio casto.
Tecla renunciou o casamento para permanecer virgem. É fácil imaginar quanto se considerava Tecla uma usurpadora porque também perdoava pecados e o quanto as outras mulheres, por fazerem o mesmo, ficavam empoderadas.
Tertuliano é explicito: “Mas se tal Ato de Paulo foi assim denominado falsamente, reivindica o exemplo de Tecla para permitir ensinar e batizar, saibam vocês que na Ásia o presbítero que compilou este documento [...] foi descoberto e, confessando por amor a Paulo foi demitido de seu ofício.” Adiante questiona: jamais se poderia acreditar que Paulo daria poder a uma mulher de ensinar e batizar. Para assegurar a ‘cassação’ dos Atos de Paulo e Tecla, Tertuliano invoca excertos da primeira Carta aos Paulo aos Corintos antes transcritos e comentados.
Realmente foi uma preciosa perda o banimento dos Atos de Paulo e Tecla dos textos canônicos. Mesmo que nos moimentos iniciais ele houvesse sido usado em algumas comunidades, não apenas para edificação dos cristãos com vitoriosa história da lida virgem Tecla como para argumentar em favor de direitos às mulheres de ensinar, batizar e perdoar pecados. Não fosse a misoginia de Tertuliano (depois apostasia da igreja machista que gestou), talvez tivéssemos outra igreja cristã.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

12.-Atos de Paulo e Tecla



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Na blogada anterior (06/07) anunciava estar preparando para a nona edição de A Ciência é masculina? É, Sim Senhora! um excerto para o capítulo Nossa ancestralidade cristã’, para contemplar textos tidos como apócrifos.  Parece facilitado faze-lo através de um exemplo: Tertuliano e os Atos de Paulo e Tecla.
Em A Ciência é masculina? É, Sim Senhora! há dezenas de termos assinaladas com um & subscrito. Este assinalamento remete ao final do livro a um ‘Para saber mais’. No texto que faz um upgrade na nona edição, cabem, pelo menos três remessas para o final do livro. Com estes três faço esta edição para na próxima apresentar Tertuliano& e os Atos& de Paulo e Tecla& que será inseto na esperada nona edição. Esta publicação prévia tem oportunizado colaborações preciosas de alguns leitores.
& Tertuliano (circa 170-212) foi um prolífico autor, figura contraditória e polêmica, mas de capital importância no contexto da Igreja primitiva, Nasceu e morreu em Cartago, na província romana da África Proconsular. De pais pagãos se converte ao cristianismo por volta do ano de 193 e se estabelece em Cartago. Foi o primeiro autor cristão a produzir uma obra literária em latim. É um dos ditos Padres latinos mais famoso por ser o autor mais antigo cuja obra sobreviveu a utilizar o termo "Trindade" e por legar a mais antiga exposição formal ainda existente sobre a teologia trinitária. Ele também foi um notável apologista cristão e um polemista contra a heresia. Por volta do ano 207 abraçou a heresia do montanismo (movimento cristão fundado por Montano que se organizou e difundiu em comunidades na Ásia Menor, em Roma e no Norte de África), e tornou-se chefe de uma das suas seitas (os Tertulianistas).
& Tecla ou Santa Tecla não é citada na Bíblia, A única fonte de informações sobre sua vida é o Atos de Paulo e Tecla, livro escrito provavelmente no século 2º e tido como apócrifo. De acordo com o livro, quando o apóstolo Paulo chegou à Icônio se hospedou na casa de Onesíforo, vizinho de Tecla. Paulo pregava acerca das virtudes da virgindade. Tecla ouve da sua janela, sem ver o Apóstolo. Ela então se converte e desiste de seu casamento com Thamyris. O noivo, inconformado, passa a perseguir Paulo e ela. Milagrosamente salva de tempestade se auto-batiza e escapa de ser queimada na fogueira. Viaja com Paulo para Antioquia. Nessa cidade um nobre chamado Alexandre deseja Tecla e tenta raptá-la. Ela luta com ele, agredindo-o. Por tal é levada a julgamento. Ela é condenada a ser devorada por animais selvagens, mas foi novamente salva por uma série de milagres quando as fêmeas a protegem contra seus agressores machos. Após isso Tecla ainda encontra-se com Paulo mais duas vezes. Começa a pregar o Evangelho e morre aos 90 anos, em Selêucia do Tigre, depois de converter muitos pagãos. Seu corpo foi sepultado nessa cidade, onde foi erguida uma grande igreja em sua homenagem. Atualmente parte de suas relíquias está em uma catedral em Milão. Ela é considerada a "protomártir feminina do cristianismo” e honrada como os apóstolos. Se torna reconhecida como um modelo para as mulheres na entrega a práticas espirituais, levando vida contemplativa com mortificação dos sentidos. É venerada como padroeira dos agonizantes. Também é a padroeira da cidade de Tarragona, na Espanha, onde há uma grande catedral em sua homenagem.
& Atos de Paulo e Tecla. Acredita-se que os Atos tenham sido escritos no 2º Século d. C. A descoberta de uma versão copta do texto de Atos de Paulo contendo a narrativa de Tecla (em um papiro conservado em Heidelberg). O texto é citado nos primeiros textos cristãos, pelo menos em Tertuliano, que atacou seu uso na defesa do direito das mulheres de pregar e batizar. Tertuliano afirma que estes Atos foram escritos em honra a São Paulo por um presbítero da Ásia, cuja fraude foi identificada e que foi removido de suas funções por volta de 160 d.C. Muitas das versões sobreviventes dos Atos de Paulo e Tecla em grego, algumas em cóptico e as referências entre os livros dos Pais da Igreja demonstram que o texto era bastante disseminado. No Cristianismo oriental, a ampla circulação do texto em grego, siríaco e armênio é uma evidência para a veneração de Santa Tecla. Também existem versões em latim, cóptico e em etíope, algumas com grandes diferenças da grega. "Em etíope, com a omissão da reivindicação de Tecla para pregar e batizar, metade do ponto da história se perdeu".  A busca no Google por ‘Atos de Paulo e Tecla’ leva entre outros a https://pt.wikipedia.org/wiki/ Atos_de_Paulo_e_Tecla e muitos textos de eruditos pesquisadores.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

05.- Apocrificidade? Algo que não é tão descartável como anunciam



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Sigo, já há um tempo, em um sumarento e dadivoso fazer: aditar saberes à nona edição de A Ciência é masculina? É, Sim Senhora! Na última segunda-feira, meu confrade Ivan me emprestou um livro. Quando recém contemplava as capas e o sumário, Apocrificidade fez que postergasse todas leituras que fazia.
Ao referir, quando se examina a contribuição do DNA cristão, que este de maneira justificada também nos faz machista, em nossas ancestralidades de humanos ocidentais, parece que devamos também estar mais atentos em alguns textos tidos como apócrifos, como ensina Paulo Augusto de Souza Nogueira em ‘Apocrificidade’.
O doutor em Teologia pela prestigiosa Universidade de Heidelberg e organizador de ‘Apocrificidade’ (2015) diz que a busca de entender como era o nascente cristianismo, parece que não se pode apenas assestar óculos nos textos ditos canônicos. Nesta situação importaria ter que responder quem definiu, por exemplo, quais e porque tais evangelhos são canônicos e porque outros são apócrifos.
 Considerar hoje, por exemplo, um evangelho labelado de apócrifo não faz a mínima diferença se comparado com evangelho dito canônico, na contribuição que este artefato cultural teve quando de sua produção. Ele, então, edificou a muitos? Ele fez conversos? Ele determinou deserção? Ele foi motivo de escândalo? Isto interessa saber hoje, mesmo que ônus e bônus já tivessem acontecidos há dois milênios.

NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza (Org.). Apocrificidade: O cristianismo primitivo para além do cânon. São Paulo: Fonte editorial, 2015. ISBN 978-85-68252-85-7
Neste Século 21, anualmente pesquisadores de diferentes programas de pós-graduação de várias regiões do país e também do exterior buscam responder o quanto textos expurgados contribuíram (talvez, contribuam), por exemplo, de diferentes maneiras e formas nas crenças e nos cristãos que floresceram na parte oriental do Império Romano. Há que considerar que os focos destas pesquisas de ponta não raro são malvistas. pois no senso comum algo apócrifo é espúrio, adulterado, sujo, falso.
Assim, já posso anunciar aqui novidade para a nona edição de A Ciência é masculina? É, Sim Senhora! no capítulo ‘Nossa ancestralidade cristã’, apoiado no capítulo Tertuliano e os Atos de Paulo e Tecla de Sebastiana Maria Silva Nogueira, inserto em Apocrificidade, se pretende referir alguns textos tidos como apócrifos e trazer especialmente algo dos Atos de Paulo e Tecla e as posições de Tertuliano acerca dos referidos Atos.
Um merecido agradecimento ao Ivan (Sim, tem de quê!) e muita garra para cumprir o prometido para a nona edição.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

28.—Oriente <> Ocidente

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Depois de 33 dias (12 em Marabá +7 em Manaus + 10 no Rio de Janeiro + 4 em Marabá) retornei esta tarde à Porto Alegre. Nas três edições anteriores deste blogue se comentou os três primeiros segmentos. Hoje trago uma amostra de uma das produções do quarto segmento.
Durante nove semanas, com 2x4 horas em dois dias, a Profa. Alessandra Rezende e eu desenvolvemos no Programa de Pós Graduação de Educação em Ciências e Matemática da UNiFESSPA o componente Curricular: História e Filosofia da Ciência.
Na tarde de ontem, os mestrandos trouxeram uma análise crítica de um dos capítulos de livro {Decolonialidades na educação em ciências / Bruno A. P. Monteiro... [et al.]. – 1. ed. – São Paulo : Editora Livraria da Física} lançado nesta semana no ENPEC, em Natal, RN.
A trazida da análise crítica, no último encontro do seminário oportunizou um profícuo debate de encerramento do componente curricular. Como amostra se traz a seguir, devidamente autorizado por escrito pela autora, um dos 17 textos produzidos.
ANÁLISE CRÍTICA DO CAPÍTULO “O OCIDENTE ‘CONSTRÓI’ O ORIENTE PARA COLONIZÁ-LO”, Attico Chassot.
Eude Léia Gonçalves Ramos Mendes – Mestranda PPGECM/UNIFESSPA
RELATÓRIO DE LEITURA
O autor amplia a discussão acerca da colonização europeia abordando a relação entre o Ocidente e o Oriente, o que é inovador, pelo menos do ponto de vista latino americano. Para isso, parte do pressuposto de que o Oriente é uma ‘criação’ do Ocidente que delimita não apenas o espaço geográfico, mas também a noção de“externo”e, portanto, passível de dominação.
Com a intenção de responder à pergunta ‘por que não houve revoluções científicas no Oriente?’, o autor faz um apanhado na história da Ciência ocidental e cita as principais mudanças paradigmáticas ocorridas nos últimos cinco séculos. Ao longo do texto, constrói e desenvolve a hipótese de que a influência da ortodoxia das religiões monoteístas dominantes no Ocidente exigiram da Ciência uma postura também dogmática para garantir seu espaço. Por outro lado, “as filosofias orientais moldaram um pensamento que não necessitava buscar explicações (mecanicistas) para o mundo natural”, o que justificaria a ausência de revoluções científicas no Oriente.
CONSIDERAÇÕES
1. As auto-citações estão bastantes presentes no texto e, no Referencial Teórico, há mais títulos do próprio autor que de outros autores. Explica-se que as citações estão devidamente datadas e identificadas, o que não caracterizaria auto-plágio. No final do resumo está posto: “Este capítulo, por ser escrito quando seu autor inicia sua octogésima volta em redor do sol, se reveste de uma mirada crítica a uma parte da produção intelectual do mesmo”...Sugere-se reforçar essa afirmação no corpo do texto como forma de apresentar a utilização de referenciais já publicados pelo autor, demostrando o contínuo aprofundamento de ideias.
2. Embora não seja o foco principal da discussão o autor aponta a Reforma Luterana como um evento crucial para o surgimento da escola tal como conhecemos hoje e cita outros benefícios dela decorrentes: “Talvez outra dádiva da reforma foi fazer a igreja abandonar muito de suas posturas monacais e assumir-se mais inserta no mundo, preocupada com a realidade terrena, e não sonhar expectante com a futura vida celestial”. Diante da afirmação destacada, sugere-se considerar que tais mudanças talvez não tenham tido tamanha proporção, visto que o objetivo da educação proposta, em princípio, seria justamente possibilitar o acesso à vida eterna através do conhecimento das Escrituras.
3. O título sugere o processo pelo qual o Ocidente impôs sua dominação ao Oriente. Numa tentativa de responder a pergunta “Por que no Oriente não houve revoluções científicas?”, aponta-se a ausência dos textos sagrados que garantem a ortodoxia às religiões e a própria filosofia oriental que não busca explicações para os fenômenos naturais. O autor esclarece, inclusive, que esta pergunta “tem sido respondida, há cerca de um século”. Assim, a dominação do Ocidente parece não se evidenciar, pelo menos no que se refere à religiosidade oriental, o que configura a ideia como um paradoxo ao título.
4. O texto impressiona pela erudição da escrita, com destaque para o vocabulário que remete à ideia de uma composição musical. Além disso, a temática envolvente e instigante deve, sem dúvida, fazer parte dos processos formativos de quem se envolve com educação em Ciências. Observo a amplitude da discussão acerca dos processos de colonização que, para nós, latino-americanos, muitas vezes, restringe-se à relação Europa/Continente Americano. O texto também aborda, de forma bastante pertinente, as discussões sobre a “decolonialidade na Educação em Ciências”, por destacar as relações de poder presentes nos processos de aculturação, seja por meio da imposição da língua, da religião ou da ciência dominantes.
A ilustração de Joaquín Torres-García (1874-1949) pintor, desenhista, escultor, escritor e professor uruguaio, não está inserida no livro referido. Sua presença aqui é provisória. 

sexta-feira, 21 de junho de 2019

21--- É um ponto de outra galáxia



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Usualmente, as pessoas dizem que Escola SESC de Ensino Médio é ponto fora da curva na educação brasileira. Discordo. É um ponto em uma outra galáxia.... porque tudo aqui é tão diferente do que nós temos mesmo nas melhores escolas brasileira. A afirmação talvez coubesse se estivéssemos na Finlândia ou na Coreia do Sul, mas não na América Latina e muito menos do Brasil. Já falei aqui dessa escola muito especial quando eu estive pela primeira vez aqui, em agosto do ano passado. Agora, estou desde a sexta-feira, 14JUN ficando até a tarde de domingo. Tenho o privilégio de conviver aqui por 10 dias numa experiência que me leva a dizer a toda hora “pena que a maioria (quase a totalidade) dos estudantes jamais terá algo nem assemelhado!”
Esta é a terceira de quatro etapas de minha mega jornada junina. Depois de 12 dias em Marabá e 7 dias em Manaus os 10 dias aqui são antecedidos pelos quatro dias que fico em Marabá a partir desta segunda-feira.
Depois deste preâmbulo, esta blogada constará primeiro de breve relato sobre a escola, apoiado em texto que escrevi em agosto de 2018. É preciso lembrar que na internet, especialmente no YouTube, há vários filmes que melhor descrevem a escola do que eu posso fazer aqui. Basta colocar como busca Escola SESC de Ensino Médio. Após farei a transcrição do meu diário de bordo dos 10 dias.
(Foto da página da escola)   A Escola SESC de Ensino Médio se caracteriza por oferecer uma educação efetivamente integral para uma comunidade de alunos e alunas que representa a vasta diversidade cultural brasileira. Os estudantes vêm de todos os estados do Brasil (selecionados dentro da cota de vagas para cada uma das 27 unidades da federação) para formar, juntamente com a equipe de educadores, uma comunidade de aprendizagem. Instalada em um campus de 131 mil metros quadrados em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. A instituição conta com uma privilegiada estrutura de ensino, com Espaço Cultural, teatro, laboratórios, biblioteca, ateliês de arte, complexo esportivo, restaurante, além das vilas residenciais para quase 500 alunos e alunas dos três anos do Ensino médio. Dos cerca de 80 professores a metade mora em vilas especiais para professores no campus. As salas de aula foram projetadas para atender até 15 estudantes.
Estudar na Escola Sesc de Ensino Médio confere a todos os alunos e alunas direito ao material pedagógico (incluindo um notebook), uniformes, moradia, alimentação, assistências médica e odontológica.
A oportunidade de viver a experiência da residência é uma das faces mais ricas do projeto da Escola SESC de Ensino Médio. Viver como residente traz a possibilidade do profundo desenvolvimento da autonomia, estimula trocas entre jovens oriundos de todas as regiões do país, aproxima professores e alunos, e permite a construção de valores de cidadania. O principal objetivo da Escola é a efetiva transformação da vida dos jovens, que se desenvolvem sob todos os pontos de vista e concluem o Ensino Médio prontos para seus projetos de vida.
É preciso responder a uma natural pergunta: quando universidades, institutos federais e escolas públicas de redes das diferentes esferas então à míngua de onde vem essa abundância de recursos para esta Escola? A resposta é fácil! Milhões de empregados no comércio (e em serviços assemelhados) descontam uma vez ao ano 1% da contribuição previdenciária que se destinam a organizações do sistema S (Sesi, Sesc, Senar...). Claro que o Drácula da Economia brasileiro já avisou quanto ele vai chupar de sangue para o seu domínio. Isto é (quase) trágico.
A Escola de Ensino Médio do Rio de Janeiro é um dos exemplos dos muitos que se poderia fazer aumentando o número de escolas do SESC Já para todos os Estados da Federação.
O exemplo de uma Educação gratuita e de qualidade destinada a estudantes do ensino médio oriundos de famílias cuja renda não é maior que três salários mínimos deve frutificar.
Agora, excerto do diário de bordos de cada um dos 10 dias de minha sumarenta residência.
01*SEX14 Era cerca de 20 horas quando procedente de Manaus, via Brasília chegava ao Aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro. Era de maneira muito atenciosa esperado pelo professor Gustavo de Paula, coordenador da área de Ciências da Natureza da Escola SESC de Ensino Médio. No trecho até a escola preparamos a semana de residência organizando programas e falando de expectativas dos dois lados. Quando eu cheguei a escola no bairro Jacarepaguá mais uma vez eu me encantei com o campus magnífico que conhecera em agosto.
Estou instalado em um apartamento no bloco 7 Vila dos Professores. Havia frutas, sucos e biscoitos para comer. Muito conforto, são três dormitórios, dos quais 2 são suítes equipamentos inclusive impressora filtros etc. Estou mais uma vez encantado com a escola. Era quase meia-noite quando fui deitar
02*SAB15 O meu sábado começou comigo perdendo o café que encerrava às 8 horas, pois não encontrava o restaurante. Pela manhã o professor Fred foi um anfitrião incansável, resolvendo problemas de internet e outras conexões. Passeamos pelo Câmpus com um carro elétrico para conhecer algumas das muitas dependências almoçamos juntos ao meio-dia a tarde eparei a primeira das falas da semana. À noite fui à residência do professor Gustavo onde sua esposa Melissa e seu sogro Mister Mark me receberam para muito saboroso jantar no qual me encantei com os gêmeos Samuel e Cecília de cinco anos. Foi uma noite de excelente conversação.
 03*DOM16 Pela manhã todo domingo dediquei à preparação de duas falas para semana e um texto para os alunos da Unifesspa em Marabá. À tarde com professor Fredi e o professor Claudinho e 8 alunos da Escola fomos ao Museu de Astronomia e Ciências Afins junto Observatório Nacional. Assistimos entre o material de exposição permanente a uma exposição temporária comemorativa ao Eclipse de Sobral, onde foram os ratificados algumas teorias de Einstein. Foi uma tarde altamente científica vendo os meus conhecimentos de astronomia ainda são muito poucos.
 Jantei na simpática companhia da Alana, uma aluna do segundo ano proveniente de Rondônia; surpreendeu-me a sua sagacidade e seu conhecimento de história.A uma filha de borracheiro usufrui aqui uma escola de excelência e sabe aproveita-la.
04*SEG17 Depois de uma noite insone consegui preparar a fala da tarde que foi para 150 alunos e cerca de 10 professores. O assunto: assestando óculos para olhar o mundo foi muito apreciado tanto pelos professores como pelos alunos. A noite, ao retornar da janta aconteceu um fato pitoresco: eu me perdi no Campus e não achava como chegar no meu apartamento; de repente um aluno veio ao meu auxílio e me orientou onde era. Então ele depois disse: “me disseram que o senhor é o Einstein brasileiro” Eu disse ao David, de Brasília, podes então contar que tu mostraste a direção da casa ao Einstein brasileiro que estava perdido.
Quase 24 horas depois de ter postado o texto que precede correspondente a edição de 21JUN2019, complemento com estes extratos de meu diário de bordo a presente edição. Peço aos meus leitores que relevem o atraso.
05*TER18 A terça-feira, dia do Químico, certamente foi o dia com a programação mais extensa. Pela manhã foi a inauguração da passarela Caminho das Ciências: em cada canto um canto Nesta passarela foi inaugurada também uma galeria com os nomes com fotografias de vários cientistas e eu surpreendi-me com uma foto minha próxima às homenagens Copérnico e Marie Curie.
Entre as várias atrações houve a presença de 28 alunos do 9º ano de uma escola pública municipal dos arredores do campus de uma vieram, a convite, à Escola SESC. Estes foram convidados a fazer duas oficinas uma delas sobre laboratório e cozinha preparando refrigerante, sorvete e uma salada que buscava uma variedade de elementos químicos. Uma segunda oficina foi acerca de energia e luz com várias experiências muito significativas que os estudantes visitantes não só podiam admirar mas realizar os experimentos. Após estas atividades, fiquei emocionado como o convite de 8 monitores (que orientaram os estudantes visitantes) para almoçar junto com eles, quando no cardápio havia bobó de camarão. Mas, mais que admirar o cardápio saboreei nossa conversação na qual me senti muito homenageado.
À noite Prof. Dr. Jorge C. Messeder, Coordenador do Curso de Licenciatura em Química do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) e o Eduardo, vieram de Niterói para celebrar o Dia do Químico. Fomos a fino shopping Barra da Tijuca. Jantamos em um restaurante argentino e Baco foi homenageado vinhos cuidadosamente selecionados pelo Messeder, que nisso tem expertise.
06*QUA19 Quarta-feira pela manhã atendi o convite para assistir a apresentação de algumas propostas de intervenção dos estudantes do 1º ano, como encerrameda Natureza. Gostaria de reforçar o convite e que seria uma honra tê-lo conosco. Os relatos foram das intervenções que fizeram no sentido da melhoria no curso do Rio Fundo lindeiro ao Câmpus um trabalho muito significativo e com posturas políticas agradavelmente surpresas.
A tarde fiz uma palestra acerca da integração dos saberes para professores das diversas áreas mostraram-se muito entusiasmados com as análises que fiz. Após fui para um café com alguns professores no mezanino do teatro. Mais agradáveis surpresas pelas posturas políticas dos meus colegas.
 À noite, em companhia do professor Fredi e da Ana, sua esposa e do filho Eduardo fomos a jantar no subúrbio do Rio de Janeiro no bairro Cachambi. Foi uma noite muito agradável na qual olhamos histórias e tecemos expectativas.
07*QUI20 O feriado de Corpus Christi foi muito bem aproveitado, pois religiosos ou não, celebramos a folga. Liderados Professor Fredi, Ana e Dudu, nas atenciosas companhias do Luis e da Luisa e com a preciosa companhia da professora Inah, uma das fundadoras da Escola SESC Ensino Médio, hoje aposentada, fomos ao Pavilhão de São Cristóvão onde fica o Centro de Tradições Nordestinas aproveitando bastante da festa junina e almoçamos muito bem, previamente abençoados pelas muitas imagens do Padre Cícero. Ao retornar ao Câmpus declinei do jantar, tal meu cansaço.
08*SEX21 Na manhã de sexta-feira me dediquei a preparar as duas falas que teria a tarde. E assim foi: das 15h às 16h horas falei para um grupo de alunos que fazem iniciação científica discutimos alguns assuntos interessantes sobre Ciência. Não foi sem emoção que na manhã de sábado um aluno veio dizer-me que gostou das propostas de Feyerabend que eu apresentara. Das 16h às 18h fiz uma palestra mais ampla sobre o livro A ciência é masculina? É, sim senhora. As duas atividades tiveram manifestações de muito agrado. À noite jantei com a Tainara da Paraíba que me fez durante a janta perguntas de uma entrevista que ela desenvolve.
 09*SAB22 Na manhã de sábado fiz a fala: Para formar jardineiros para cuidar do Planeta para cerca de 30 monitores do grupo ciência e meio ambiente, liderados pelo professor Fredi. Deixei um tema para casa: Pesquisar acerca da Encíclica Laudato Si’.
Após almoçar com um grupo de professores, por mordomia oferecida pelo Fredi, saímos do Câmpus para ele me mostrar que o Rio de Janeiro ainda tem mar. Vi os espaços olímpicos de quando o Rio sediou as Olimpíadas e eu conheci varias praias muito lindas.
10*DOM23 Para a tarde de domingo está previsto o meu retorno a Marabá. Assim, junto aos 12 dias que estive em Marabá, na última semana de mais e primeiro de junho, os 7dias em Manaus e estes 10 dias de Escola SESC de Ensino Médio, mais a estada de segunda à sexta-feira em Marabá, para em 28 de junho voltar a Porto Alegre.