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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

15.- Maternidade e a produção acadêmica de mulheres cientistas,



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EDIÇÃO
3393
Esta é quarta edição consecutiva deste blogue alimentada nas Revoluções Científicas atuais discutidas na fértil 9ª Escola de Verão do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados ILEA / UFRGS (Detalhes na edição 3390 de 25/01). Na edição anterior anunciava uma provável pauta: reflexos da maternidade na produção acadêmica de mulheres cientistas.
Estou preparando a 9ª edição do livro A Ciência é Masculina? É, sim senhora! e, ao conhecer o projeto Parent in Science, trazido à 9ª Escola de Verão me pareceu ver aflorar forte mais uma explicação do porquê a Ciência é masculina.
Este projeto, criado em 2017, analisa os impactos da maternidade na carreira acadêmica de mulheres cientistas. A bióloga Prof. Dra. Fernanda Staniscuaski, do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da UFRGS, em sua fala entusiasmada e atual na 9ª Escola de Verão destacou os reflexos (negativos) na sua produção acadêmica em cada uma das suas três licenças maternidade.
Há uma página ‘Cientistas feministas’ https://cientistasfeministas.wordpress.com Nesta há informações acerca das corelações maternidade e ciência, na qual se apresentam dados do grupo Parent in Science que ajudam a traçar o perfil da pesquisadora brasileira mãe.
Um dos dados obtidos pelo projeto que parece significativo é o que diz respeito à percepção das mães sobre o impacto dos filhos na produção científica: 81% avaliaram de forma negativa, sendo que 59% responderam com “negativa” e 22% com “bastante negativa”. Apenas 5% avaliaram de forma positiva, 2% responderam com “bastante positivo” e 12% marcaram “nenhum impacto”.
Na mesma página se afirma que a falta de políticas públicas de órgãos governamentais para solucionar o cenário e a falta de compreensão por parte de atores dentro das universidades brasileiras, não é de se espantar a avaliação negativa. Ser mãe não é nenhum mar de rosas, como grande parte da sociedade gosta de pregar, e não é vergonhoso admitir-se cansada, sem tempo e com a sensação de que não será possível conciliar maternidade, trabalho e vida pessoal. Pelo contrário, é humano as mães precisarem de suporte para que as mulheres se sintam confortáveis a falar sem medo de represálias. A pergunta que as mães cientistas se fazem é: o que estamos fazendo com a saúde mental das nossas mulheres?
A situação é muito recente na postura corajosa no enfrentamento do status quo e na proposição de alternativas, mas é remota em suas consequências na história de uma marcada e (de maneira usual) aceita de uma ‘ciência masculina’.
Trago uma evocação pessoal. Quando começava minha carreia de professor universitário, ao final dos anos 1960, no Departamento de Química Inorgânica da UFRGS, havia uma colega muito competente que sempre que indicada para chefia do Departamento, ou estava grávida ou de licença maternidade. Talvez valha lembrar que a encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, que define (sim! a ação verbal está no presente) que aos casais católicos (situação de minha colega) só são permitidos os métodos maturais de contracepção é de 1968. A cinquentenária encíclica ainda vige, mas a desobediência ao Papa hoje afortunadamente é maior.
Em www.parentinscience.com está anunciado o II Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência na UFRGS de 16/17 de maio de 2019. As organizadoras anunciam que se quer discutir os avanços nas instituições de pesquisa brasileiras com a oportunidade de continuar a discussão do tema, destacando os avanços obtidos após o evento de 2018. Haverá uma série de palestras sobre a situação e as políticas de apoio em diferentes países. Será ampliada a participação de cientistas, por meio da apresentação de pôsteres, garantindo a expansão dos tópicos abordados e a presença de pesquisadores de todos os níveis de formação. Também deverá haver a oportunidade de, junto a membros administrativos de agências de fomento e de universidades, discutir políticas de apoio à pesquisadoras mães.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

08.- Involução educacional: expurgue-se Paulo Freire



ANO
 13
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EDIÇÃO
3392
Pela terceira vez consecutiva a 9ª Escola de Verão Revoluções Científicas atuais do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados ILEA / UFRGS é semente prenhe para mais uma edição deste blogue. E antecipo uma provável pauta para a próxima semana: reflexos da maternidade na produção acadêmica de mulheres cientistas, um dos temas de destaque da mesma Escola de Verão.
Na quinta-feira, 24/01, na 23ª conferência encerrou o evento, o Prof. Dr. Fernando Becker, com o texto: Involução Educacional: “... expurgando a ideologia de Paulo Freire” fez fala emocionante. Não cabe aqui e agora fazer uma síntese de sete páginas. Minha resposta à recepção do texto: Muito atencioso colega Fernando Becker, acabo de receber o melhor presente para o meu 2019 acadêmico. O texto que marcou para mim a 9ª escola de verão do ILEA. [...] Estou com muitos planos para com teu texto iluminar meus fazeres. Muito obrigado para partilhares comigo e com alunos que fruirão de tua sapiência.
A constatação mais significativa é o quanto muito pouco conheço das propostas freirianas. Já estou cumprindo um dos meus propósitos de estudo.
O texto de FB traz uma gravíssima afirmação que eu desconhecia: O plano de governo do Presidente eleito, registrado no TSE, afirma: “Precisamos revisar e modernizar o conteúdo, expurgando a ideologia de Paulo Freire, mudando a Base Nacional Comum Curricular, impedindo a aprovação automática e a própria questão da disciplina”. O anúncio dessa execração pública de Freire tem aparecido em vários veículos de comunicação. Quando se falava no expurgo de PF da Educação brasileira, pensava ser uma fake news. Só agora vejo que é plano de governo registrado no TSE. Está justificado porque alunos, professores e escolas são considerados como inimigos pelo atual governo.
Acerca da ilustração: no meu mestrado em Educação (UFRGS, 1974/1976) não fui apresentado a uma linha de Marx. Diferentemente do doutorado em Ciências Humanas (UFRGS, 1991/1994). A foto mostra a que tempos se quer voltar.
FB, em original tessitura, traz seis razões para que se concretize a proposta obscurantista e néscia bolsonarista. Trago acenos das seis justificativas.
Primeira, pelos títulos acadêmicos: Paulo Freire recebeu o título de doutor Honoris Causa por mais de 35 universidades das quais 12 universidades brasileiras. Em 13 de abril de 2012 foi sancionada a Lei nº 12.612, que declara o educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira. Segundo uma pesquisa envolvendo três estados brasileiros, Paulo Freire é o nome de escola mais comum. Depois da trazida de muitas outras informações, FB, com sarcasmo, conclui: “Como se vê, esse parece um excelente motivo para expurgar Paulo Freire da educação brasileira.”
Segunda, pelos títulos de algumas de suas muitas obras: Pedagogia do Oprimido, Educação como prática da liberdade, Educação e conscientização, Extensão ou comunicação (explicitação das bases epistemológicas de seu pensamento), Ação cultural para a liberdade, Cartas a Guiné-Bissau, Educação e mudança, Por uma pedagogia da pergunta, Ideologia e educação: reflexões sobre a não neutralidade da educação, A educação na cidade, A importância do ato de ler, Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido, Professora sim, tia não, À sombra desta mangueira, Pedagogia: diálogo e conflito, A África ensinando a gente: Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
Terceira, sua visão política: A continuada presença em suas obras de quanto um Estado poderoso pode desarticular os movimentos legítimos da população, em especial da escola, na cerceadura da autonomia, tanto intelectual quanto moral, de docentes e discentes.
Quarta, suas radicais concepções acerca da alfabetização: Tanto de crianças, quanto de adultos a alfabetização deve avançar, desde o início, “para além de um domínio mecânico de técnicas de leitura e escrita ou de uma ‘memorização mecânica das sentenças, das palavras, das sílabas, desvinculadas de um universo existencial’, num ato de criação e recriação: ‘É entender o que se lê e escrever o que se entende’ “Ao contrário das cartilhas [alusão clara ao Mobral, criado pela Ditadura Militar], esta alfabetização não é doada, é construída, feita de dentro para fora, pelo alfabetizando como sujeito em diálogo com outro sujeito, o educador. E... com ironia FB diz que este é certamente um motivo forte para eliminar Paulo Freire da educação brasileira.
Quinta, sua proposta de uma pedagogia do diálogo: Diálogo é palavra-chave na pedagogia do oprimido, da esperança, da autonomia. “Sem amor [diz ele] é impossível o diálogo. Por isso não pode haver diálogo entre opressores e oprimidos. É imprescindível, para restaurar se, ou inaugurar se o diálogo, que se acabe com a opressão”. Perdemos a conta dos milhões de pessoas que foram mortas, na história humana, inclusive na atualidade, pela incapacidade das pessoas e, sobretudo, das instituições de exercer essa capacidade. É a formação dessa capacidade que deve ser a preocupação básica da educação, seja ela familiar, institucional, do trânsito, da praça pública, das relações de trabalho, etc. A proposta de uma pedagogia do diálogo é, portanto, mais um motivo para expatriar Paulo Freire da educação brasileira.
Sexta, sua visão política de uma aprendizagem crítica e solidária: PF afirmava que “...assim como a tomada de consciência não se dá nos homens isolados, mas enquanto travam entre si e o mundo relações de transformação, assim também somente aí pode a conscientização instaurar-se” ele estava convicto que “Ninguém é autônomo primeiro para depois decidir. A autonomia vai se constituindo na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas” E mais “Quanto mais crítico um grupo humano, tanto mais democrático, tanto mais ligado às condições de sua circunstância.” “... o Brasil nasceu e cresceu dentro de condições negativas às experiências democráticas.” “Necessitamos de uma educação para a decisão, para a responsabilidade social e política.” Pois, “A própria essência da democracia envolve uma nota fundamental, que lhe é intrínseca – a mudança.” Eis mais um motivo para expurgar PF da educação brasileira.
Como encerramento: (a)venturei-me, em ligeira mirada ao texto do Fernando Becker, fazer alguns respingos mostrando seis razões que pelo extraordinário valor pedagógico de Paulo Freire oferecem sobrados motivos para banir Freire da educação brasileira. Estas seis razões poderiam ser ratificadas pelo relato de apenas um evento: em 1996, o Centro de Epistemologia Genética da Universidade de Genebra realizou homenagem aos 100 anos de nascimento de Jean Piaget (1896/1980) se destacando então aqueles que com Piaget são considerados os dez maiores pedagogos do Século 20: cinco da Europa Central (Claparède, Decroly, Freinet, Gramsci, Maria Montessori)*, um da Rússia (Makarenko), um da Bielorússia (Vygotski), um dos Estados Unidos (Dewey) e apenas um do então chamado Terceiro Mundo: Paulo Freire (1921/1997), presente ao evento. *estes cinco nomes são de lista provável (AC).
O que tem a dizer o mal-educado ministro da Educação que certamente será o verdugo encarregado do expurgo?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

01.- Entre purgatórios e infernos



ANO
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EDIÇÃO
3391
Esta semana de despedir janeiro foi de ‘quase’ tirar o time de campo ou pegar a bola, colocá-la embaixo do braço dizendo: “Vou para casa, não quero mais jogar!”. Meu pai diria: “Cada um sabe onde o seu sapato aperta!”
O meu apertou em diferentes locais das maneiras as mais diversas. Preferi tirar o sapato e calçar uma alpargata velha. Melhor que isso só andar descalço. Esta alternativa, esta semana, não dava para ir para rua sem cremar a sola dos pés e torrar os miolos (argumento de minha infância para não brincarmos no sol em tempos pré-protetor solar). A canícula dessa semana fez o melhor contraponto ao inverno rigoroso no Hemisfério Norte. Tivemos alguns dias com temperaturas próximas ao 40º com sensação térmica de mais de 45º. Não raro, olhei minhas tardes e dei quase zero à minha produtividade. O calor senegalesco foi um dos lpurgatórios desta semana... ele nos absolve de vagabundeares!
Mas houve/ há/ haverá um inferno em nossas vidas e este tem o nome sonoro que até há um tempo não conhecíamos: Brumadinho. Quanta poesia pensar em uma bruma tênue se fazendo brumadinho. A poesia terminou logo. Agora brumadinho parece um dos infernos de Dante.
Realmente é dantesco a cada momento ver aumentar o número de assassinados pela Vale, como se estivesse a anunciar o número de medalhas de ouro de um país que disputa uma olimpíada de desgraças patrocinada por uma mineradora do vale de lágrimas.
Nesta semana mais uma vez o judiciário se olvidou que deve fazer valer a Justiça. A dor que se apossou do Presidente Lula e de milhões de admiradores do grande líder brasileiro podia não ter acontecido. O STF podia ter autorizado. a tempo, de Lula comparecer ao sepultamento de seu irmão Vavá. Lula foi representado por centenas de correligionários.
O governo do coiso podia ter uma sessão ‘a desgraça nossa de cada dia’. Foi publicado os nomes dos nove homens (não há mulheres) mais importantes do MEC. Aqueles que são os mais importantes na gestão da Educação do ‘Pátria Amada Brasil’ como agora se denomina nas propagandas o nosso país. Ao invés de trazer os nomes, vou referir os títulos (que não são de mestrado ou doutorado): 1 General; 2 Coronel; 3 Tenente-coronel; 4 Coronel-aviador; 5 Oficial da reserva não remunerada da Marinha; 6 Coronel da reserva remunerada dos Bombeiros; 7 sem titulação militar; 8 Coronel da reserva; 9 General. O que se pode militar para a Educação.
Na semana passada, quando assisti, no dia 24, a sessão de encerramento da sumarenta 9ª Escola de Verão do ILEA (ver edição do dia 25/01/2019) depois da densa exposição da Professora Elisabeth Mazeron Machado, acerca da ‘direitização’ da Europa e da América perguntei: Professora, por quem torcer na Venezuela? Minha pergunta antecipava-se ao último dia 25 de janeiro, quando houve uma tentativa de golpe de Estado planejada em Washington, e Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, em desacato, se autodeclarou presidente interino da Venezuela. Esta figura não existe na legislação desse país.
A professora Elisabeth considerou uma boa pergunta: primeiro devemos torcer para que não haja mortos em nenhum dos dois lados e depois para que não haja interferência estrangeira. Vale observar quem por primeiro reconheceu o golpe: Estados Unidos e Brasil.
Luis Hernández Navarro, jornalista escreveu no La Jornada (México) em 30/01/2019 traduzido no Brasil de fato* É falsa a afirmativa de que a Venezuela tem dois presidentes. Só tem um, que se chama Nicolás Maduro. No dia 20 de maio de 2018, ele foi eleito em uma eleição livre, transparente e confiável, da qual participaram 16 partidos políticos. Seus candidatos concorreram e Maduro obteve mais de 6,8 milhões de votos, equivalente a 67% dos votos válidos.
Claro que para os Estados Unidos é mais prático saquear o petróleo da grande reserva venezuelana do que buscá-lo no Oriente Médio. Se na Venezuela, ao invés  de reservas de ouro, só crescesse cenouras será que persistiria o manifesto desejo estadunidense de levar a democracia a rodos os povos...
O chavismo tem uma característica: seu nível de organização e politização. Agora eu sei para quem tenho que torcer na Venezuela.
* https://www.brasildefato.com.br/2019/01/30/artigo-or-venezuela-a-democracia-sob-balas-de-canhao/


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

25.- Dois destaques: um doloroso, outro sumarento



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EDIÇÃO
3390
Depois de quatro semana estou de volta. Muito aconteceu desde 28 de dezembro, quando circulou a última edição deste blogue. Temer era o Presidente, agora é o pai do Flávio, com previsíveis desmandos e desmanches.
Houve férias e como todas: sempre muito curtas. A edição 2019 saborosamente curtíssimas. Acrescentei mais um país a minha lista de países que já estive: 52º República Dominicana. E estando em Santo Domingo estive no primeiro sítio urbano que os europeus fizeram no Novo Mundo. Então, pude estar na primeira catedral e ver também a primeira universidade da América.
Mesmo que hoje quando viajamos não nos descolamos de nosso mundinho o retorno sempre nos encontra desadaptados. Quando podemos guardar o passaporte não somos mais alienígenas.
Quando no último domingo retornava ao Brasil, no borbulhar de notícias dois destaques: um doloroso, outro sumarento.
O dolorosamente impactante: o anúncio dos rituais de despedidas do meu ex-aluno na PUC e ex-colega na UFRGS: Prof. Dr. VALTER STEFANI, que falecera no sábado. Agora não encontrarei mais o vibrante professor de Química Forense nos eventos científicos. Lembrei muito do Valter nos últimos dias. Meu amigo Edni Oscar Schroeder fez uma admirável síntese do Valter: Foi um Colaborador na origem da Área de Educação Química da UFRGS - segurando uma barra com os, então, "pesquisadores no nosso ainda continuado embate absurdo entre Ciência hard e Ciência soft. Obrigado Valter! pelas significativas parcerias que tornam inarráveis as divergências que tivemos.
Um anúncio sumarento: Tomava conhecimento que entre os dias 21 e 24 de janeiro no Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da UFRGS ILEA a 9ª Escola de Verão, com o tema Revoluções Científicas atuais. As atividades seriam realizadas no Auditório do ILEA, no Campus do Vale, sempre das 14h às 18h, conforme a programação disponibilizada (na reprodução).

Consultei a programação. Falto com a modéstia: parecia que programação fora produzida para mim. Era tudo que eu precisava para apaziguar incruentas saudades determinadas pelas férias que se esvaiam. Não precisei de outro convencimento para estar na tórrida tarde de segunda-feira 21, no auditório do ILEA. Repeti a dose na terça, quarta e quinta e lamentei que não houvesse atividades hoje, sexta-feira. Foram nove mesas redondas com 23 conferencistas. Cheguei a pensar em fazer alguns destaques. Teria que referir mais que duas dezenas se tal fizesse.
Haviam cerca de 500 inscritos, de meia centena de departamentos da UFRGS, parte dos quais lotaram nas quatro tardes o auditório do ILEA e outros acompanhavam a transmissões em tempo real pelo Facebook.
Eu devo dizer, que em minha graduação e na aurora de meu 59º ano de professor não recordo que em um evento tenha fruído tão densos e qualificados conhecimentos. Não foram só novos saberes que foram partilhados, mas também assuntos que ensinei (ou ensino) foram trazidos com competência. Assim, além de o que o como se transmutou em esplendorosas aulas de didáticas. Esta 9º Escola de Verão do ILEA foi verdadeiro maná para estes dias cinzentos que estamos vivendo.
Tive um algo mais por não ter optado a acompanhar pelo Facebook a Escola de Verão: encontrar colegas que não via há muito. Isto é algo que faz bem para o cérebro. Uma evidência que em cada um dos quatro entardeceres voltei de carona com um colega. E mais: foi muito gratificante ter recebido depoimentos de alguns colegas — como por exemplo do Prof. Dr. Rui Oppermann, Reitor da UFRGS — acerca da importância de meu ser professor na sua formação.
Muito competente e querido Professor José Vicente Tavares dos Santos, diretor do ILEA, que venha uma 10ª Escola de Verão! A 9ª parece ser um bálsamo para viver a espera nesses dias procelosos que se inauguraram no Brasil depois do doloroso domingo, 28 de outubro.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

28.- Um patinho feio se transmuta em cisne real



ANO
 13
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EDIÇÃO
3389
Esta edição já circulava quando soube, envolto em tristeza, o anúncio da morte escritor israelense Amós Oz (1939-2018), meu eterno candidato ao prêmio Nobel de literatura. Éramos coetâneos. Isto foi muito significativo quando li o seu livro de memórias: De amor e de trevas. Evoco a emoção que tive, no ano passado, ao assistir o memorável pacifista, na Reitoria da UFRGS, no Fronteiras do Pensamento.  Obrigado, Amós Oz, pelas lições de PAZ.
Esta é a última edição de 2018. Sendo ela a 56ª do ano foi assegurada a periodicidade de uma edição semanal que circula ao entardecer das sextas-feiras. Quando faço esta afirmação sempre me surpreendo que por cerca de oito anos a periodicidade deste blogue era diária; hoje a periodicidade semanal parece árdua.
Esta edição é a última da intragável era Temer. Só sabê-lo encagaçado pela possibilidade ser preso, logo após transferir a faixa presidencial, já se configura como parte do castigo que é merecedor. Aceito a crítica ao meu sentimento não caridoso, de uma maneira muito especial se me dou conta estarmos vivendo dias de loas a fraternidade.
Esta edição não é apenas a última do ano. Também é aquela que determinará o início do recesso de férias do blogue até o dia 25 de janeiro. Assim votos que tenhamos todos um 2019 pleno de (des)esperanças e aos que por ora fazem férias desejo que as mesmas sejam energizantes.
Confiro a esta edição o status de comemorativa, pois amanhã se celebra dez anos da instituição no Brasil da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, com a criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia — IFs —. Esta é uma celebração significativa na Educação brasileira. Assim, este é mote desta edição. Parece natural reconhecer que efeméride deste sábado mereça espaço mais amplo e mais qualificado que este blogue, até porque não sou historiador.
Mesmo não sendo professor de um IF, não sou um alienígena na Rede, pois já estive, enquanto professor, em mais de um terço dos 38 IFs e em dezenas de campi e por tal ouso significar três momentos da trajetória do ensino técnico no Brasil.
23 de setembro de1909: presidente Nilo Peçanha (1867-1924) assina o decreto 7.566, considerado o marco inicial do ensino profissional, científico e tecnológico de abrangência nacional no Brasil. O ato criou 19 Escolas de Aprendizes Artífices, que tinham o objetivo de oferecer ensino profissional primário e gratuito para pessoas que o governo chamava de “desafortunadas”. Vale destacar que “a inclusão está na genética da educação profissional no Brasil.”
Assim, estas escolas pioneiras tinham uma função mais voltada para a inclusão social de jovens carentes ratificando preconceito milenar no mundo ocidental onde o pensar supera o fazer, basta que examinemos o nosso DNA grego.
O trabalho manual não era valorizado pelos gregos. Se atribui a Platão esta afirmação: “É próprio de um homem bem-nascido desprezar o trabalho” e valorizar atividades intelectuais (a filosofia, a religião...), artísticas e políticas. Os afazeres domésticos, as lides do campo, a construção e outros eram executados por escravos.
A Presidente Dilma Rousseff sancionou, em 9 de junho de 2011, a Lei n° 12.417 que torna o ex-presidente Nilo Peçanha o patrono da Educação Profissional e Tecnológica Brasileira em uma homenagem ao ex-presidente, que assinou a Lei antes referida.
29 de dezembro de 2009 o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sanciona a Lei 11.892 que institui a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, cria 38 Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia Federal ao transformar em um só organismo as estruturas de 31 centros federais de educação tecnológica (Cefets); 75 unidades descentralizadas de ensino (Uneds); 39 escolas agrotécnicas; sete escolas técnicas federais; oito escolas vinculadas a universidades.
A análise desta Lei oferece múltiplas questões; destaco uma: por que, por exemplo, o estado de São Paulo com significativa extensão territorial e populacional tem apenas um IF e Minas Gerais tem cinco? Valeria uma discussão a imposição pbrigatória aos IFs de licenciaturas.
Com a expansão dos IFs (referida no momento seguinte) a postura elitista, ferreteada na dicotomização entre o pensar e o fazer, herança cometida ao nosso DNA grego, tentou mais recentemente pôr-se em evidência. O discriminar pareceu aflorar nas relações Universidades x Institutos federais, mesmo que estes se envolvam com Educação Básica (Ensino médio técnico e a Educação de Jovens e Adultos), um amplo espectro de cursos de graduações (nas quais 20% das vagas devem ser para licenciaturas) e pós-graduação (especializações, mestrados e doutorados).
A ressureição do dualismo da proposta de Nilo Peçanha: de um lado, as Escolas de Aprendizes Artífices preocupada com a formação para o mercado de trabalho e com o recrutamento de crianças e de pessoas “desocupadas” que viviam a margem da sociedade e de outro, uma escola direcionada à classe dominante, uma escola elitista que formava os filhos dos ricos preparando-os para no futuro controlar o poder econômico e político afortunadamente parece não ter vingado. Talvez, as associações sindicais, quando acolheram sob a mesma guarda docentes das universidades e dos institutos federais tenham contribuído para uma não discriminação. Também as ações do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif) tem contribuído para uma visão não dicotômica.
29 de dezembro de 2018 simbolicamente se coloca a data de amanhã como um marco em uma mirada acerca dos 10 anos dos Institutos Federais no conturbado cenário da Educação brasileira, quando os prognósticos para 2019 são muito sombrios (para não dizer tsunâmicos). Os IFs e as Universidades públicas estão na alça de mira dos que querem ver dizimação da escola pública brasileira.
Hoje os 38 IFs estão presentes nos 26 estados federados e no Distrito Federal com 650 campi, 80 mil servidores, 11 mil cursos, 6 mil projetos de extensão e 1 milhão de matrículas. Estes dados têm eloquência... Mas há outro que parece significativo. Neste dezembro foi publicado matéria*** com manchete que pode até ser rotulada de ufanista, mas cumpre destacar:
Uma Coreia do Sul dentro do ensino público brasileiro: Segundo os resultados mais recentes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), de 2015, se a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica fosse um país, ele estaria na 11ª colocação, nas áreas analisadas — matemática, leitura e ciências — e à frente de países como Estados Unidos, Alemanha e do próprio Brasil.
Para o presidente do Conif Roberto Gil Rodrigues de Almeida, o desempenho dos Institutos nos indicadores internacionais mostra que seus dez anos de funcionamento devem ser celebrados. “Considerando que nossas instituições promovem a inclusão, isso comprova que pessoas anteriormente privadas de um ensino de qualidade agora têm acesso a um modelo de educação profissional e tecnológica socialmente referenciado”, declara.
Na mesma matéria referida, Anália Ribeiro, reitora do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), sublinha: “os números da extensão e da pesquisa são expressivos. Em 2008, o IFPE possuía apenas 12 estudantes de iniciação científica, enquanto o número atual é de 352 alunos. Já o número de projetos de extensão cresceu de 31 projetos com 52 bolsistas, em 2010, para 191 projetos com 315 bolsistas. “A força do nosso programa de iniciação deriva do forte investimento que fazemos em formação de professores, que contam com grande facilidade de liberação para mestrado e doutorado, posteriormente orientando estudantes de nível médio. No mais, como atendemos o substrato mais pobre da sociedade, sabemos da importância das bolsas”, conclui a Reitora.
No caso do IFPE, a maior parte dos cerca de 24 mil alunos matriculados é oriunda de famílias cuja renda não ultrapassa um salário e meio per capita. “Isso significa uma mudança social significativa, porque a partir da educação nossos alunos não só conseguem mudar suas vidas, como a de suas famílias”, completa a Reitora. Pernambuco, aliás, entre os IF’s, é o que estado do país que possui o maior número de estudantes indígenas. “Só no campus Pesqueira, nós temos mais cem alunos do povo Xucuru. Também atuamos junto a outros grupos vulneráveis, como campesinos, quilombolas e assentados e trabalhamos com cursos de formação continuada para menores em processo de ressocialização”, conclui a reitora.
***http://www.leiaja.com/carreiras/2018/12/04/dez-anos-dos-ifs-uma-coreia-dentro-do-ensino-brasileiro
Assim,
aqui e agora,
Só nos cabe cantar loas aos
Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia.
 Parabéns aos IFs pelos primeiros 10 anos.