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quarta-feira, 1 de julho de 2015

01.- VENDE-SE EDUCAÇÃO

ANO
 9
EDIÇÃO
EXTRAORDINÁRIA
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O Brasil de fato pública hoje, dia 1º de julho de 2015, uma entrevista realizada por Luiz Felipe Albuquerque, com novo reitor da UFRJ, Roberto Leher. A importância da mesma leva este blogue a fazer uma edição extraordinária. Vale conhecermos os impactos da lógica mercantilizada sobre a educação brasileira e como o destacado educador brasileiro aponta que como grupos financeiros tentam dominar a educação pública.

“Grandes grupos econômicos estão ditando a formação de crianças e jovens brasileiros”


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Por Luiz Felipe Albuquerque
Do Brasil de Fato


Um grande negócio. É assim que o novo reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, enxerga o novo momento da educação brasileira.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor titular da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ traça um panorama do atual estágio da educação no Brasil, e as conclusões não são nada animadoras.

Para Leher, que tomará posse nesta sexta-feira (3), os recentes processos de fusões entre grandes grupos educacionais, como Kroton e Anhanguera, e a criação de movimentos como o Todos pela Educação representam a síntese deste processo.

No primeiro caso, ocorre uma inversão de valores, em que o primordial não é mais a educação em si, mas a busca de lucros exorbitantes por meio de fundos de investimentos. No segundo, a defesa de um projeto de educação básica em que a classe dominante define forma e conteúdo do processo formativo de crianças e jovens brasileiros.

O movimento Todos Pela Educação é uma articulação entre grandes grupos econômicos como bancos (Itaú), empreiteiras, setores do agronegócio e da mineração (Vale) e os meios de comunicação que procuram ditar os rumos da educação no Brasil.

Para o professor, o movimento se organiza numa espécie de Partido da classe dominante, ao pensarem um projeto de educação para o país, organizarem frações de classe em torno desta proposta e criar estratégias de difusão de seu projeto para a sociedade.

“Os setores dominantes se organizaram para definiram como as crianças e jovens brasileiros serão formados. E fazem isso como uma política de classe, atuam como classe que tem objetivos claros, um projeto, concepções clara de formação, de modo a converter o conjunto das crianças e dos jovens em capital humano”, observa o professor.

Confira a entrevista:

Muitos setores denunciam a atual mercantilização da educação brasileira. O que está acontecendo neste setor?

De fato há mudanças no que diz respeito a mercantilização da educação, diferente do que acontecia até 2006 no Brasil. Os novos organizadores dessa mercantilização são organizações de natureza financeira, particularmente os chamados fundos de investimento.

Como o próprio nome diz, os fundos de investimentos são fundos constituído por vários investidores, grande parte estrangeiro, como fundos de pensão, trabalhadores da GM, bancos, etc, que apostam num determinado fundo, e esse fundo vai fazer negócios em diversos países.
  

Em geral, os fundos fazem fusões, como é o caso da Sadia e Perdigão no Brasil. Mas é o mesmo grupo que também adquiri faculdades e organizações educacionais com o objetivo de constituir monopólios.

Esse processo levou a Kroton e a Anhanguera - fundo Advent e Pátria - a constituírem, no Brasil, a maior empresa educacional do mundo, um conglomerado que hoje já possui mais de 1,2 milhão de estudantes, mais do que todas as universidades federais juntas.

O que muda com essa nova forma de mercantilização da educação?

O negócio do investidor não é propriamente a educação, é o fundo. Ele investiu no fundo e quer resposta do fundo, que cria mecanismos para que os lucros dos setores que eles estão fazendo as aquisições e fusões sejam lucros exorbitantes. É isso que valoriza o fundo.

A racionalidade com que é organizada as universidades sob controle dos fundos é uma racionalidade das finanças. São gestores de finanças, não são administrados educacionais. São operadores do mercado financeiro que estão controlando as organizações educacionais.

Toda parte educacional responde uma lógica dos grupos econômicos, e por isso eles fazem articulações com editoras, com softwares, hardwares, computadores, tablets; é um conglomerado que vai redefinindo a formação de milhões de jovens.

No caso do Brasil, cinco fundos têm atualmente cerca de 40% das matrículas da educação superior brasileira, e três fundos têm quase 60% da educação à distância no Brasil.

Quais os interesses dessas grandes corporações para além do econômico?

A principal iniciativa dos setores dominantes na educação básica brasileira é uma coalizão de grupos econômicos chamado Todos pela Educação, organizado pelo setor financeiro, agronegócio, mineral, meios de comunicação, que defendem um projeto de educação de classe, obviamente interpretando os anseios dos setores dominantes para o conjunto da sociedade brasileira.

Em outras palavras, os setores dominantes se organizaram para definiram como as crianças e jovens brasileiros serão formados. E fazem isso como uma política de classe, atuam como classe que tem objetivos claros, um projeto, concepções clara de formação, de modo a converter o conjunto das crianças e dos jovens em capital humano.

Em última instância, é com isso que eles estão preocupados: em como fazer com que a juventude seja educada na perspectiva de serem um fator da produção. Essa é a racionalidade geral, e isso tem várias mediações pedagógicas.

A aparência é de que estão preocupados com a alfabetização, com a escolarização, com o aprendizado, etc. E de fato estão, mas dentro dessa matriz de classe, no sentido de educar a juventude para o que seria esse novo espírito do capitalismo, de modo que não vislumbrem outra maneira de vida que não aquela em que serão mercadorias, apenas força de trabalho.

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De que maneira eles interferem nas políticas educacionais do Estado?

Como sociedade civil, os setores dominantes buscam interferir nas políticas de Estado. O Todos pela Educação conseguiu difundir a sua proposta educativa para o Estado, inicialmente por meio do Plano Nacional de Educação (PNE) - que aliás foi homenageado com o nome Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, em referência ao movimento. Com isso definiram em grandes linhas o que seria o PNE que está vigente.

Articulam por meio de leis, mas também da adesão de secretários municipais e estaduais às suas metas, aos seus objetivos. Articulam com o Estado, que cria programas, como o programa de ações articuladas, em que a prefeitura, quando apresenta um projeto para o desenvolvimento da educação municipal, tem que implicitamente aderir às metas do movimento Todos pela Educação.

Temos um complexo muito sofisticado que interage as frações burguesas dominantes, as políticas de Estado e os meios operativos do Estado para viabilizar esta agenda educacional.

Mas como se dá isso na prática?

Quando um município faz um programa de educação para a sua região, ele já deve estar organizado com base no princípio de que existe uma idade certa para educação, que os conteúdos não devem se referenciar nos conhecimentos, mas sim no que eles chamam de competências, que o professor não deve escapar deste currículo mínimo que eles estão desenvolvendo por meio de uma coerção da avaliação.

A escola que não consegue bons índices no Idep [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] é penalizada, desmoralizada, sai nos jornais, e isso cria um constrangimento que chega ao cotidiano da sala de aula, e as prefeituras pressionadas por esses índices acabam sucumbidos às fórmulas que o capital oferece. A mais importante delas é comprar sistemas de ensino, apostilas, que são fornecidos pelas próprias corporações.

O professor está em sala de aula, recebe apostilas, exames padronizadas que foram feitos pela corporação, e na prática, ao invés do professor desenvolver um papel intelectual, criador, ele tem que ser muito mais um aplicador das cartilhas, um entregador de conhecimento, e isso obviamente esvazia o papel do professor que tem consequências diretas com o processo de formação.

A formação esperada do educador não é uma formação enquanto intelectual, mas sim como alguém que sabe desenvolver técnicas para aplicar aquelas pacotes que as corporações preparam.

E há resistências a isso?

Existe um complexo de situações onde as resistências, as tensões são muito grandes, o que traz infelicidade aos professores e aos estudantes, mas tudo isso é muito difuso. As resistências acontecem na forma de lutas sindicais, quando fazem greve criticando a chamada “meritocracia”, os sistemas de avaliação.

Aparecem aqui e ali, mas é forçoso reconhecer que existe um complexo de controle sobre as escolas que restringem muito a margem de manobra dos trabalhadores da educação para desenvolverem um projeto pedagógico autônomo e crítico.

Essa situação é agravada quando a própria direção da escola, que deveria pensar como a escola se auto governa, vem sendo ressignificada como um papel de gestão. O diretor e os coordenadores são pensados como gestores na lógica de uma empresa, que deve cumprir metas, fiscalizar o cumprimento delas e tentar atingir essas metas de todas as formas.

Temos uma mudança de referências quando a própria equipe de coordenação da escola se torna uma equipe de gestores. No documento Pátria Educadora há uma possibilidade de punição dos professores que não cumprirem as metas.


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 Ministro Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Mangabeira Unger.Por sinal, o Pátria Educadora é um dos programas carro chefe do governo federal. Como você avalia este documento?

Não casualmente, esse documento foi elaborado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), atualmente dirigido pelo ministro Mangabeira Unger. Ele parte de um diagnóstico de que o modelo de desenvolvimento baseado em commodities se esgotou com a crise mundial, com seus preços despencando depois daquele período de ouro entre 2004 e 2009.

Com a desvalorização dessas commodities, Mangabeira chama atenção para o fato de que o Brasil deveria buscar outra forma de inserção na economia mundial que não fosse apenas de commodities.

E a minha hipótese é que eles estão sinalizando nesse documento que o Brasil deveria ser uma espécie de plataforma de exportação, assim como já existe na fronteira norte do México, em alguns países asiáticos - o modelo chinês foi isso nos anos 90, de ser um local em que a força de trabalho é muito explorada, recebe um treinamento específico que permite uma exploração muito grande, e esses países entram em circuitos de produção industrial de maneira subalterna, explorando o que seriam sua vantagens comparativas: baixo custo de energia, da força de trabalho, baixa regulamentação ambiental, e isso daria vantagens competitivas novamente ao país.

O drama é que a concepção do Pátria Educadora tem como correspondência a ideia de que a formação da maior parte da força de trabalho no Brasil deve ser por um trabalho mais simples, e isso tem consequências pedagógicas muito grande.

Se é para formar para o trabalho simples, a maior parte das escolas podem ser instituições estruturadas para a formação de um trabalho de menor complexidade, que seria desdobrados em processos de formação técnica de cursos de curta duração, cujo exemplo mais conhecido é o Pronatec, em que grande parte dos cursos são aligeirados para a formação de uma força de trabalho simples - tanto aquela que já estará inserida no mercado quanto aquela que constitui o que podemos denominar de um exército industrial de reserva.

O documento Pátria Educadora altera a racionalidade da organização da escola quando vislumbra escolas que vão formar forças de trabalho de menor complexidade. É importante destacar que no documento encontramos uma formulação muito perigosa de enormes consequências para o futuro da educação brasileira, que é a referência que o Mangabeira faz da adoção de um modelo tipo SUS (Sistema Único de Saúde).

O que é isso?

O modelo SUS teve como objetivo assegurar o direito ao atendimento à saúde de maneira universal, e isso poderia ser feito tanto pelo órgãos públicos quanto pelas entidades privadas.

Quando Mangabeira reivindica o modelo SUS, claramente está sinalizando que a formação do conjunto da classe trabalhadora deveria ser feita em nome de uma suposta democratização, realizada tanto pelas instituições públicas quanto pelas organizações privadas.

Isso é congruente com o PNE aprovado em 2014, ao estabelecer que a verba pública é aquela utilizada nas instituições públicas, mas também em todas as parcerias público-privadas, como o FIES, PROUNI, Ciências Sem Fronteira, PRONATEC, Pronacampo, sistema S, tudo isso entra como recurso público.
  

A rigor, estamos diante de uma política que pode indiferenciar as instituições públicas e privadas em detrimento do público, já que as corporações também se acercam da educação básica.

Em setembro acontecerá o 2° Encontro Nacional dos Educadores e Educadoras da Reforma Agrária (Enera), em Brasília. Como o Enera se insere nesta conjuntura?

Tenho uma expectativa muito positiva em relação ao segundo Enera. No primeiro Enera tivemos a constituição de outra perspectiva pedagógica para a educação brasileira, que foi a Educação do Campo, uma conceituação do que seria uma educação pública voltada para o campo, mas com um horizonte de formação humana que ultrapassa o campo.

Foi certamente uma proposta que promoveu sínteses brilhantes entre uma perspectiva crítica que vem do campo marxista, da ideia da escola unitária, do trabalho, ao compreender que o trabalho deveria ser um elemento simbólico, imaginativo, capaz de nos constituir como seres humanos, e que portanto a escola é o lugar da cultura, da arte, da ciência, da tecnologia, e não uma instituição livresca. É uma instituição que tem interação com o mundo, com a vida, com os processos de trabalho, com a produção real da cultura em diversos espaços, como pensar no que significa a agricultura no Brasil.

Foi uma proposta pedagógica que promoveu sínteses incorporando pensamento critico marxista, tradição latino-americana de educação popular, particularmente com Paulo Freire, e criou bases para um pensamento pedagógico socialista.

O segundo Enera, a meu ver, está desafiado pela conjuntura a fazer um balanço do que foi essa mercantilização e de como o capital está tentando se apropriar do conjunto da educação básica.

Ao fazer essa reflexão, certamente o Enera vai ajudar a criar bases para uma perspectiva de educação pública unitária capaz de contrapor a educação frente à lógica de movimentos empresariais como o Todos pela Educação.

Pode haver incorporações de elementos novos na nossa reflexão sobre a pedagogia socialista que respondam desafios da ofensiva do capital, mas sobretudo respondam os anseios que estão pulsando em todo o país em torno da educação pública.

Como as últimas greves na educação?

Podemos problematizar a fragmentação das lutas pela educação, o fato de que muitas vezes são lutas econômicas e corporativas, que estão vinculadas as políticas municipais e estaduais, mas não tenho dúvidas de que essas lutas que estão pulsando no país estão enfrentando aspectos dessa pedagogia do capital, criticando a meritocracia, a racionalidade das competências e dos sistemas centralizados de avaliação, o uso de cartilhas.

Temos críticas reais a essa lógica de controle que o capital está buscando sobre a educação básica, mas precisamos sistematizar isso com outros fundamentos pedagógicos, e aprofundando a experiência que foi construída a partir do primeiro Enera.

No segundo Enera acredito que novas dimensões para essa pedagogia socialista vão ser esboçados, e não como o resultado de um processo em que os especialistas de educação do MST vão se reunir e pensar o que seria essa agenda.

Ao contrário, como resultado de uma articulação de movimentos que estão fazendo educação pública e estão buscando uma educação criativa, que estão fazendo as lutas de resistências com as greves, mobilizações, com a participação de estudantes.

Esta riqueza de produções que estão em circulação nas lutas em defesa da educação pública que podem criar uma sistematização maior. Creia condições para que possamos ampliar esta aliança entre experiências da luta urbana com as que vieram do campo, produzindo novas sínteses e novas possibilidades para que a classe trabalhadora tenha sua própria agenda para o futuro da educação pública.

É um processo longo e exigirá um esforço organizativo e intelectual de enorme envergadura. Temos que ter uma produção pedagógica mais sistematizadas, mais profunda, para criarmos a base desse pensamento pedagógico crítico, que assegure uma formação integral, mas uma educação que recusa a divisão dos seres humanos em dois grupos: um que pensa e mando, outro que executa e obedece.

01.- AGORA UM FELIZ 2015/2


ANO
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EDIÇÃO
 3055

Esta é uma edição ligeira para celebrar a chegada do 2015/2. Em tempos não muito distantes, quando período escolar era anual (não como agora semestral) este era o esperado mês das férias de julho. Agora temos uma ou duas semanas de recesso de aulas, mas bancas, avaliações e divulgação de resultados do primeiro semestre fazem dos julhos, meses exaustivos. Preferível houvesse aulas.
Depois de três semanas consecutivas de longas viagens, nesta fico por aqui. Também, tenho quase meia resma de avaliações e trabalhos a corrigir. Depois, uma nova chatice: colocar as notas no sistema. Mas chega de lamúrias, mesmo sem viagens, tenho nesta semana duas palestras.
Uma ocorreu na segunda-feira. Fiz a fala de encerramento do 1º semestre na Universidade do Adulto Maior, no projeto Segunda-feira cultural. Centrei minha fala no ‘crescendo’ na acepção emprestada da música. De gradativo aumento da intensidade sonora. Informação>conhecimento>saberes
Para informação trouxe como ícone o Google. Mostrei a presença do ‘Doutor Google’, do ‘Professor Google’, do ‘Pastor Google’, do ‘Advogado Google’ etc.
Para o conhecimento mostrei a importância da Wikipédia como o artefato cultural que melhor expressa a democratização do conhecimento. Lembrei as nossas enciclopédias suporte papel e o que significava possuí-las. A palestra de Jimmy Walles que assistira há uma semana me ajudou.
Os saberes foi o momento mais empolgante. Discutimos a historieta, que coloquei em livro: “Em um barco havia um homem com cerca de 30 anos, acompanhado de seu filho de 5 anos e de seu pai de 80 anos. O barco soçobrava. Só o jovem pai sabe nadar. Ele pode salvar um. Quem ele salva? O menino? O velho?” Esta historieta é trazida, na valorização da busca de saberes primevos para fazê-los saberes escolares. Ela traduz a valorização de saberes detidos por mais velhos, muitas vezes em risco de extinção. Para o grupo pode parecer natural que o jovem pai salvasse o menino. Afinal ele, diferente de seu avô, tem toda uma vida pela frente. Todavia, na cultura africana, onde esta historieta tem sua matriz, é natural que o velho fosse salvo, por um único argumento: ele é o detentor de saberes que são muito preciosos para toda a comunidade. Então, vivenciamos o mote da discussão: ‘Quando um velho morre é como uma biblioteca que queima’
Com esta palestra — a 29ª do semestre – encerrei as falas de 2015/1. Ainda um registro especial: No início desta fala, removi publicamente o logo da URI-Frederico Westphalen, que por quase quatro anos (desde novembro de 2011) estava junto com os logos do Centro Universitário Metodista do IPA e da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática nas aberturas de minhas apresentações. Expressei publicamente meus agradecimentos pelas oportunidades que tive na instituição.
Nesta quinta inauguro as palestras de 2015/2. Acima está o convite do Diretório Acadêmico de Química DAQ PUC Rio Grande do Sul. Será bom retornar a PUC, onde fui professor no início de minha história como docente universitário.
Encerro esta blogada com um registro postado no Facebook pelo professor amazonense Alberto Castro: Ótimo, foi no lançamento do livro A ciência através dos tempos que fiquei conhecendo o seu trabalho. Usei como paradidático no ensino de física. Meus alunos esperavam na porta e diziam, aí vem o Attico. Eu gostava tanto. Obrigado professor por aceitar minha amizade. Muito estimado colega Alberto. Quem agradece sou eu.

domingo, 28 de junho de 2015

28.- RESCALDO DE SEMANA FRUTUOSA


ANO
 9
EDIÇÃO
 3054
Este último domingo do semestre, que quase encerra este extenso junho, enseja um rescaldo desta semana frutuosa que se esvai. Faço isso com brevidade.
Um dos destaques foi ter assistido, na última segunda, dentro do Fronteira do Pensamento, a conferência de Jimmy Wales, um dos mais destacados empreendedores da internet, pioneiro em wiki – nome genérico para websites colaborativos – e visionário da tecnologia. Referido pela Forbes Magazine como “uma celebridade da web". Em 2001, juntamente com Larry Sanger e outros, fundou a Wikipédia, a maior enciclopédia on-line colaborativa internacional com conteúdo aberto e gratuito. O projeto, que é o quinto site mais popular do mundo, possui mais de 30 milhões de artigos, escritos por voluntários, em 280 idiomas.
Nas aulas de Teorias do Desenvolvimento Humano, na segunda e terça discutimos o livro A Ciência é masculina? É, sim senhora! que despertou muita atenção das turmas da manhã e da noite do curso de Licenciatura em Música.
A quarta, quinta e sexta foram de três de saberes e sabores trazidos em quatro falas dirigidas especialmente a professoras e professores indígenas, quilombolas e do campo no bojo da JORNADA CUIABANA DE ENSINO DE QUÍMICA COM CHASSOT: O FAZER/ENSINAR CIÊNCIAS NA DIVERSIDADE na UFMT, que contei aqui na edição da última sexta. Antes de deixar a Capital do Mato Grosso, o Eduardo Mueller presenteou-me um estar com mítico professor Vavá, cuja casa é um original museu de arte naif pantaneira contemporânea. Foram momentos indizíveis.
O retorno foi marcado por quatro voos Cuiabá / Campo Grande / Maringá / Curitiba / Porto Alegre. Como todos são menores de 50 min, não ensejam as necessárias dormidas. Sodoku tornou-se um amenizador do maçante sobe/desce que me entregou no começo do sábado à minha Morada dos Afagos.
Ainda na segunda, na aula da Universidade do Adulto Maior, elaboramos a carta, que permitiu a tessitura da blogada LAÇAÇO EM UM MACHISTA na última terça-feira. Esta edição mereceu dois comentários antípodas um do Jair Lopes, de Florianópolis, SC e outro do Antonio Furtado, de Niterói, RJ, que merecem ser catapultados para a esta edição. Aquele poetou um soneto-acróstico; este assumiu o papel de advogado do diabo, absolvendo o exorcizado prêmio Nobel. Há um excelente exercício da diversidade, na constatação quanto um e outro têm consistentes argumentos em direções opostas.
Soneto-acróstico À igualdade

Machos e fêmeas sempre iguais serão
Assim os concebeu a sábia natureza
Contestar aquele evento da evolução
Há que manter a discriminação acesa.

Infenso à igualdade, machismo grassa
Seja na arraia miúda, ou entre nobéis
Toda essa gente defecando na praça
Apedeutas idiotas vão fazendo papéis.

É lamentável que isso aconteça ainda
Burrice da mais peçonhenta qualidade
Uma vez machista, seu respeito finda.

Richard Timothy Hunt e a bestialidade
Rei do besteirol que mundo prescinda
Opositor da integração e da igualdade.
Como o Advogado do Diabo. Caro Mestre Chassot, permita-me a audácia de incorporar o advocatus diaboli e defender o laureado cientista. Não vejo as afirmações do mesmo com os mesmos olhos de nossa ferrenha crítica. Acredito que a mesma, não sei até que ponto inocentemente, deturpou o real sentido. Vejo as palavras do intelectual muito mais um elogio as mulheres do que como uma crítica, e digo mais, até compartilho de sua opinião, pois inegavelmente a beleza feminina nos inebria e muitas das vezes nos desvia atenção. E isso é tão verdade que comerciais de tv, recepcionistas, aeromoças, grandes vendedoras etc. são lugares de belas mulheres. Como diria Vinicius "Me perdoem as feias, mas beleza é fundamental."

 Um muito bom domingo a cada uma e a cada um. Nele, também, vou celebrar o aniversário de meu querido neto Pedro, filho do André e da Tatiana, que amanhã dia de São Pedro, faz seis anos.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

26.- EVOCAÇÕES CUIABANAS


ANO
 9
EDIÇÃO
 3053

Encerro, nesta sexta-feira, um tríduo em Cuiabá. Cheguei aqui na quarta, no final da manhã. À tarde, fiz a palestra “Assestando óculos para ver mundo””. Ontem, falei em duas ‘Rodas de Saberes e Sabores’ pela manhã: Saberes primevos fazendo-se saberes escolares” e à tarde: “Das disciplinas à indisciplina”. A foto é de momento desta Roda.
Hoje pela manhã, encerro meu ciclo na cidade considerada como o centro geodésico da América do Sul com a palestra: “Das novas exigências ao estar mundo da Academia”. Estas quatro falas se constituíram em parte da programação da JORNADA CUIABANA DE ENSINO DE QUÍMICA COM CHASSOT: O FAZER/ENSINAR CIÊNCIAS NA DIVERSIDADE organizada pelo Laboratório de Pesquisa em Ensino de Química da UFMT. Envolvendo especialmente professoras e professores indígenas, quilombolas e do campo. Mais uma vez aprendo mais que ensino.
Vivo, mais uma vez a rica oportunidade de conviver intensamente com professoras e professores do estado de Mato Grosso, alguns deles, como a delegação de Tangará da Serra, viajaram 270 km para participar desta jornada. Com estes evoquei uma estada na cidade deles há uns anos, onde falei em um circo lotado.
Mas estando aqui, de repente vejo-me invadido por outras evocações nostálgicas de diferentes estar aqui. Não sei o porquê, mas esta cidade entrou muito forte em minha história de educar nas Ciências, com fases muito diversas e com fazeres dispares.
A primeira vez que estive aqui foi em 1975. Meu destino era, o então Território Federal de Rondônia (que passou a categoria de Estado em 1986) onde fiquei de 6 de janeiro a 6 de fevereiro. Então participei como professor de Química no Curso de Licenciatura de 1º Grau, que a UFRGS mantinha no seu Campus Avançado de Porto Velho. Essa atividade era parte do Projeto Rondon. Recordo que partimos da Base Aérea de Canoas, em um velho DC-3 da FAB. Era talvez a minha segunda viagem de avião. A viagem era uma operação militar e a fizemos em duas etapas. No primeiro dia viemos até Cuiabá, de onde partimos, como previsto, só no dia seguinte. Não recordo onde dormimos (hotel ou quartel), mas sei que a janta foi num quartel. No mesmo DC3, voamos a Porto Velho.
Nos anos 80 tive uma participação em um curso de especialização na UFMT, permanecendo aqui mais de duas semanas. Já então, como recordou nesta quarta a professora Salete, que fora aluna do curso, orientei várias monografias de conclusão que tinham como proposta a busca de saberes da tradição regional.
No final dos anos 90 trabalhei num mestrado de ensino de Ciências, na UFMT. Participei de seminários e orientei minha primeira mestranda. Em 13 de dezembro de 1996, Irene Cristina de Mello, hoje doutora e atual Pró-Reitora de Graduação da UFMT, defendeu sua dissertação Contribuições ao ensino da Tabela Periódica privilegiando a História da Ciência. Eu, então, abria a minha lista de orientados, que neste julho de 2015, terá agregado seu 31º nome. Deste mestrado ficou-me como colega e amiga muito próxima a Elane Soares, de cuja banca de defesa de mestrado participei. Ela se faz de minha biógrafa em uma atividade quando realizou seu doutorado da PUCRS. A Elane neste tríduo de 2015 foi presença.
A partir de então posso lembrar várias vindas à Cuiabá. Mesmo que não esteja aqui com meus diários recordo várias estadas na UFMT em eventos, bancas e também em pelo menos duas oportunidades nas escolas salesianas: São Gonçalo e Sagrado Coração de Jesus.
Remexendo neste baú de saudades lembro que em diferentes estadas aqui visitei a igreja de Nossa Senhora do Bom Despacho, que querem alguns seja uma miniatura da Notre Dame de Paris e imponente mesquita islâmica. Em 2010 estive no grande templo da Assembleia de Deus que tem a capacidade para 22 mil pessoas sentadas e mais 8 mil em pé. Claro que me imaginei ali fazendo a palestra ‘A Ciência é masculina?’ com templo lotado.
Algo mais que me liga de maneira continuada a esta cidade é saber-me próximo um artista que conheço desde 1993 e do qual tenho três obras em minha casa. Mais de uma vez visitei Nilson Pimenta, um dos mais importantes artistas naif brasileiros em seu ateliê na UFMT. Nilson em suas obras descreve as relações homem-bicho na vida interiorana. “Onças, caititus, jacarés, sucuris, mateiros, macacos, urubus, cães, cavalos e bois se consomem nessa relação com o homem, fera maior. Acuados, mais vencidos do que vencedores, homens toscos, enxadas e foices nas mãos, lutam, procriam, matam, morrem e vivem cenas atrozes nos bastidores do Brasil agrário. É a visão da vida esquecida no interior, do interior, “brabo” e surdo que aparece nas telas do lavrador que se fez pintor”. Na ilustração uma amostra pequena para pensarmos em grande artista.
Se não laboro em equívoco, minha última estada aqui foi em novembro de 2010. Vim convidado para o Seminário Educação 2010: Educação, Formação de Professores e suas dimensões sócio-históricas: Convergências e tensões, um evento que reuniu cerca de 1.500 pessoas. Entre outros pontos de agendas tive uma fala nesse evento.
Ofereço estas evocações, de maneira particular, aos colegas da UFMT, Profa. Dra. Mariuce Campos de Moraes e a Eduardo Ribeiro Mueller, meu orientando de doutorado. Uma gratidão muito especial a todos que muito me ensinaram nestes três dias. 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

22.- LAÇAÇO EM MACHISTA

ANO
 9
EDIÇÃO
 3052
Na aula da Universidade do Adulto Maior, da semana passada, lemos e analisamos a carta que a Professora Titular de Imunologia da PUCRS Cristina Bonorino, Pesquisadora 1C do CNPq, enviou ao bioquímico britânico Richard Timothy Hunt, Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, em 2001, pela descoberta das ciclinas, proteínas que regulam a divisão das células. Na carta a Professora faz críticas a posturas machistas e sexistas do cientista laureado. Este texto pode ser lido na integra em http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2015/06/cristina-bonorino-a-caca-4779447.html
Desta leitura surgiu proposta que se completou na tarde desta segunda-feira. Transcrevo o documento assinado por 35 alunos (houve ausências, pois alguns estavam em processo de matrícula para 2015/2) nascidos a partir de 1922.

Porto Alegre, 22 de junho de 2014.
Estimada Professora Cristina Bonorino,
quem lhe escreve esta carta são mulheres e homens, enquadrados socialmente como ‘velhos’, ou mais carinhosamente ditos vivendo a ‘melhor idade’. Na nossa aula do dia 15, na Universidade do Adulto Maior do Centro Universitário Metodista IPA, o professor Attico Chassot, responsável pelo seminário Enfoque Histórico e Sócio-Antropológico, leu seu artigo publicado no dia anterior no caderno PrOA, no qual a senhora responde à audácia e ao arroubo machista do bioquímico britânico Tim Hunt.
À leitura do texto, seguiram-se calorosas discussões, que destacaram sua coragem e postura valorosa questionando a uma cabeça coroada com um Prêmio Nobel e seu jogo de palavras feito com o sobrenome do caçador machista. Depois de entusiasmadas adesões à sua postura, uma de nós sugeriu: Temos que transmitir nossa admiração à Professora Cristina. A sugestão se ampliou: Temos que fazer um texto coletivo. Convenhamos, algo difícil escrever um texto coletivamente num grupo bastante díspar como o nosso, que envolve quase quarenta pessoas. Na aula seguinte (22 de junho), amealhamos algumas sugestões do que havíamos discutido, para levar a seu conhecimento. Esta carta é o resultado disso.
Todos nós somos do tempo que se escrevia cartas, mas também nos adaptamos e nos propusemos a procurar seu endereço eletrônico para enviar nossas posições. Alguém até sugeriu (e acertou) que talvez a senhora pudesse ter Facebook e poderíamos postar ali. Mas, ao fim, decidimos mesmo mandar para seu email. Eis o que desejamos que conheça:
A síntese já foi dita: reconhecer a nossa admiração por sua coragem em afrontar, com elegância e precisão, um cientista de renome internacional. Foi destacado quanto as posturas machistas de Hunt estão em dissonância com sua maneira não preconceituosa de estar no mundo. Quando ele propõe laboratórios separados para homens e mulheres, a senhora destaca que poderão ocorrer nesses espaços amores entre mulheres e também entre homens.
Houve que sugerisse que na carta devêssemos dizer que a senhora ‘matou a cobra e mostrou o pau’. Outro sugeriu que se reconhecesse que a senhora ‘deu um laçaço de relho em um machista’.
Sejam quais forem as diferentes manifestações de nosso grupo, estamos lhe escrevendo para manifestar nosso orgulho e nossa admiração pela maneira como uma mulher cientista soube afrontar alguém que contradiz algo que a senhora escreveu no texto: "A paixão, na ciência, ao invés de distração, é combustível inextinguível para a caça aos novos conhecimentos".
Com admiração,
(seguem-se as assinaturas)