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sexta-feira, 22 de março de 2019

22.-Ainda no celebrar de uma história




ANO
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EDIÇÃO
3398
Como anunciado na edição do dia 8, esta blogada é a última do tríduo formado por três blogadas comemorativas a um aniversário que para mim é muito significativo. No dia 13 de março de 1961 eu dei a minha primeira aula. Desde então celebro nesse dia o meu aniversário de ser professor. Assim, completei 58 anos de professor, iniciei então a 59ª volta ao redor do sol enquanto professor, isto é, desde  o dia 13 de março vivo o meu 59º ano letivo e por tal o terceiro excerto do primeiro capítulo do Memórias de um professor: hologramas desde um trem misto.
1961 (parte três) Em Montenegro procurei sem sucesso algum emprego em escritório de alguma empresa. Em qualquer lugar era descartado por falta de experiência. Minha busca de emprego se dava em uma área que eu, há três anos, rejeitara. Deixara, então, a cidade porque as duas únicas opções depois de se terminar o ginásio eram curso de magistério, há época exclusivamente feminino; e, técnico em contabilidade, que não estava no horizonte de quem sonhava voar mais alto. Agora o reprovado no vestibular buscava emprego em algum escritório. Imaginem-se quantos técnicos em contabilidade deveria haver disponíveis. Quem empregaria alguém que tinha feito o curso científico?
Minha mãe, sempre muito pragmática no comando de sete filhos, teve então uma ideia audaciosa. Por que tu não vais ao Colégio Jacob Renner? Lá podem estar precisando de professor. Havia na proposta de minha mãe duas fabulosas ousadias: a mais significativa, ela muito católica recomendar-me uma escola mantida pela Igreja Episcopal; é preciso recordar que o Concílio Vaticano II só começaria no ano seguinte, e o vigário católico da cidade negava a eucaristia aos pais que colocassem os filhos no Jacob Renner, que era uma escola gratuita. Professores católicos certamente mereceriam a excomunhão. A outra, o crédito que ela tinha no seu filho, admitindo que esse tivesse requisitos de ser professor. Mãe é mãe!
Na manhã de 13 de março fui ao Jacob Renner, sendo entrevistado pelo diretor Reverendo Ernst Bernhoeft, alma-mater do Colégio. Não me lembro o que ele me perguntou, mas sai da escola com emprego. Lecionaria matemática nas duas 1ªs e duas 2ªs series do curso ginasial. O curso ginasial era até a reforma do ensino imposta pela Lei 5692, de agosto de 1971, formado por quatro anos. O ginasial sucedia aos cinco anos do curso primário e era acessado mediante exame de admissão ao ginásio. As séries que me foram destinadas corresponderiam no sistema de hoje a 6ª e 7ª do ensino fundamental. Era uma segunda-feira. As aulas começariam na quarta-feira. Programei-me para ir a Porto Alegre no dia seguinte buscar meus livros, pois não trouxera ainda minha mudança, e preparar-me para a grande estreia. Todavia naquele mesmo dia ainda aconteceria algo inusitado.
No começo da tarde, batem na casa de meus pais, para onde eu retornara depois de meus fracassos no vestibular, – e perguntam pelo ‘Professor Attico!’. Eu, não sem alta dose de atrapalhação, pois nunca fora assim antes chamado, respondo que era eu. ‘O Reverendo mandou este livro para o senhor preparar uma aula para hoje à noite, pois o professor do 3º científico vai faltar!’. Engoli em seco e recebi o livro de Matemática do 3º ano colegial, do Ary Quintella. Ainda tenho o livro de capa verde, com um desenho de uma função derivada na capa. Quem se preparava nervosamente para a estreia daí a dois dias, pariria a fórceps seu debute no magistério ainda aquela noite.
Lembro-me que parti da João Pessoa, 1884 e desci a Oswaldo Aranha, até perto da Estação da Viação Férrea, onde ficava o Jacob Renner, numa quase noite. Pelo caminho repeti várias vezes a aula sobre ‘números complexos’ que preparara para alunos da mesma série que eu frequentara no ano anterior. Só fazia aos céus um pedido: que ninguém me perguntasse nada. Não recordo muito da aula, a não ser que sentia o suor pingar na minha espinha. Lembro do grupo. Eram talvez 10 alunos, dos quais mais de um, no verão seguinte preparou o vestibular comigo. A história da falta do professor era blefe. Tornei-me, depois deste teste, professor da turma.
As aulas de matemática no ginásio eram mais difíceis do que aquelas do científico. Das aulas da noite para as da manhã havia uma diferença de seis anos de escolarização e eu fazia com muitas dificuldades essa transição. Ensinava álgebra no ginásio, mas eu não sabia fazer as abstrações exigidas. Tinha que ensinar o algoritmo da raiz quadrada (que hoje não sei mais fazer!) e imaginar problemas para contextualizar o assunto.
 Logo na primeira semana a colega Maristela Lampert, por ter muitas aulas no colégio, passou-me as suas aulas de Ciências nas turmas de 3ª e 4ª séries do Ginásio, assim ministrava aulas nas quatro séries do ginasial. Lembro que nessas aulas de Ciências tinha que ensinar o aparelho reprodutor humano masculino e feminino para um bando de adolescentes inquietos. Logo em seguida, assumi as aulas de Ciências da turma do 1º ano de magistério, onde havia talvez umas 20 moças e um rapaz e eu era quase vaiado quando me referia às alunas e não aos alunos; referir-se, como agora, a alunas e alunos, então, não era usual. Só viemos aprender isso com Paulo Freire muito depois.
 Lecionava em uma das quatro séries do Ginásio e nas três do Científico [no capítulo seguinte conto como o ‘acaso’ me fez professor de Química e quanto isso foi decisivo na escolha de fazer vestibular para outro curso], mais uma série do Curso de magistério. O Reverendo me dizia que meu salário era bem maior que o dele. Só lamento muito que então, não tivesse como hoje ‘meu diário’ manuscrito; este só começou em 1985 e será muito útil quando na segunda metade desta história.
Tenho ainda muito a contar deste ano 1 de minha história, mas a proposta do tamanho dos capítulos não pode ser fraudada logo no primeiro. Assim, 1961 há de voltar aqui já no capítulo seguinte.

sexta-feira, 15 de março de 2019

15.-Ainda no celebrar de uma história


ANO
 13
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Como anunciado na edição anterior esta blogada se inclui num tríduo formado por três blogadas comemorativas a um aniversário que para mim é muito significativo. No dia 13 de março de 1961 eu dei a minha primeira aula. Desde então celebro nesse dia o meu aniversário de ser professor. Assim, nesta semana completei 58 anos de professor, iniciei então a 59ª volta ao redor do sol enquanto professor, isto é, desde quarta-feira vivo o meu 59º ano letivo e por tal mais um excerto do primeiro capítulo do Memórias de um professor: hologramas desde um trem misto.
1961 (parte dois) Trago minhas evocações do dia 29 de junho de 1958, um domingo. Em 2008, nessa data, eu, como muitos brasileiros evoquei um 29 de junho de 50 anos passado, quando o Brasil ganhou pela primeira vez a Copa do Mundo na Suécia. Não vou comentar esse assunto, pois mereceu, em alguns jornais de então, suplementos especiais, com chamadas de capa, a meu juízo, tintadas de exagero: ‘o dia que o Brasil foi inserido no mapa-múndi’.
Por ser dia de São Pedro, padroeiro do Estado, desde que o Império conhecia suas terras mais ‘surenhas’ como Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, fora a data escolhida para inauguração do prédio do Colégio Estadual Júlio de Castilhos na Praça Piratini. Desde março já tínhamos aulas nesse local, ainda em fase de acabamento, desprovido de vidraças. Eu era aluno do 1º Científico. Terminara o Ginásio em dezembro em Montenegro e vivia o meu primeiro ano de Porto Alegre. As solenidades foram pela manhã, marcadas por missa celebrada pelo arcebispo, entre dois magníficos leões de bronze, que eu aprendera serem os únicos salvados do incêndio que consumira o antigo prédio do Julinho que ficava na João Pessoa, onde é hoje a Faculdade de Economia da UFRGS.
Após a missa voltei de bonde; primeiro da Azenha até a Riachuelo e desta descia a Borges de Medeiros, para na Praça Parobé tomar o bonde São João e chegar à rua São Pedro com a Eduardo (nome como era conhecida a avenida Presidente Roosevelt), depois ir até a Rua Ernesto Fontoura onde ficava o Bar Caçula, local onde eu morava e trabalhava. Então os rádios portáteis eram raros e não lembro que na viajada de quase uma hora houvesse ouvido algo acerca do que ocorria em Estocolmo.
Não recordo muito do jogo. Acompanhávamos por rádio. A Rádio Guaíba, inaugurada no ano anterior, transmitia com esquema considerado inovador. O som ia da Suécia para Suíça e desta para o Rio de Janeiro e daí para Porto Alegre. O locutor era o Mendes Ribeiro que cunhara então um bordão: “Deus não joga, mas fiscaliza!”
 À época não havia transmissão por televisão. Na Copa de 1966, no Chile, havia vídeo-taipes vindos de avião, transmitidos 24 depois. Recordo que em 1958 ter pintado um dístico na vitrine do Bar Caçula, ‘Brasil Campeão do Mundo’. A maior emoção era o surgimento do “rei Pelé’ um ano mais jovem que eu.
No primeiro científico, estudei no turno da tarde, trabalhando de manhã no Bar Caçula. No segundo e terceiro anos estudei a noite, trabalhando de dia no Restaurante da Reitoria da UFRGS. Quem fazia o científico tinha usualmente dois destinos: Engenharia ou Medicina. Quem fazia o Clássico, destinava-se ao Direito. Mesmo estudando naquele que era considerado o Colégio Padrão do Estado, não se falava em alternativas, como Agronomia ou mesmo uma Licenciatura.
Terminado os três anos de científico, fiz em janeiro, vestibular na UFRGS para Engenharia. Então se fazia vestibular unificado para a Escola de Engenharia e a opção por uma modalidade (Civil, Minas, Química...) acontecia durante o 1º ano. Fui reprovado em desenho. Não consegui desenhar uma parábola, como o exigido, com tinta nanquim. Em fevereiro, na segunda chamada, se repetiu o meu insucesso, pela mesma razão. Fiquei muito frustrado. Não sabia o que fazer. Vi que não havia sentido ficar em Porto Alegre, pois meu emprego servia para pagar o aluguel de um quarto de um apartamento que ficava na avenida Getúlio Vargas, que eu compartia com o colega de Julinho Omilton Bonotto, que fora aprovado na Medicina

sexta-feira, 8 de março de 2019

08.-Para celebrar uma história



ANO
 13
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EDIÇÃO
3396
Nesse fatiar a vida em voltas que, como habitantes do Planeta Terra, damos ao redor do sol, a cada 365 dias um evento faz aniversário... isto para humanos e outros animais, vegetais e qualquer construto como uma casinhola ou um complexo de arranha-céus.
Os humanos são muito dados a celebrações de completação de voltas ao redor do sol e dentre as comemorações a mais usual é o aniversário de nascimento. Tanto isso é senso comum, que ao perguntarmos a uma pessoa por seu aniversário. Ela dirá seu dia natalício.
Eu tenho um aniversário que para mim é muito significativo. No dia 13 de março de 1961 eu dei a minha primeira aula. Desde então celebro nesse dia o meu aniversário de ser professor. Assim, nesta semana que está a começar, completo 58 anos de professor, iniciando então a 59ª volta ao redor do sol enquanto professor, isto é começarei, na próxima quarta-feira, meu 59º ano letivo.
Em 2011, publiquei um livro [CHASSOT, Attico. Memórias de um professor: hologramas desde um trem misto. Ijuí: Editora Unijuí; 501p. 2012. ISBN 978-85-7429-986-0] em comemoração aos meus 50 anos de magistério. O livro tem 51 capítulos: um para cada ano de 1961 a 2011. Encontrei uma alternativa que se diria ser uma solução a duas circunstâncias (Tive que me policiar para não referir um dito popular: matar dois coelhos com uma só cajadada). Como nos próximos dias tenho falas na Unicamp; na Unipampa, câmpus de Uruguaiana, RS; na UFF, em Niterói, RJ e na Unifesspa, em Marabá, PA, defino que as blogadas dos dias 8, 15 e 22 de dezembro sejam frações do primeiro capítulo do Memórias de um professor: hologramas desde um trem misto que por só ser encontrado em algum sebo justifica a transcrição aqui.
Como a publicação do primeiro excerto ocorre no Dia Internacional da Mulher quero homenagear todas as mulheres na figura de minha mãe, que como se verá neste primeiro capitulo, foi decisiva no meu ser professor. A foto é reprodução de cartaz de evento há 9 anos.
1961é o ano que começa a história de professor que quer ser central nesse livro. Sei só agora que 1961 foi o ‘Ano Internacional da Semente’. Se der voz a prognósticos talvez deva pensar que hoje, quando olho as dissertações e teses que orientei, certamente quando falar delas por aqui, vou destacar aquela acerca do milho crioulo como uma das mais significativas. Há de aparecer, ao longo da história que começa a ser contada, minha participação nas ‘místicas’ enquanto professor dos cursos de formação de professoras e professores para escolas de acampamentos e assentamentos do MST, quando a semente é dos ícones mais evocados.
Nesse ano, houve duas posses em mandatos presidenciais: Jânio Quadros e John Kennedy, cujos mandatos terminaram colapsados de maneiras distintas, alterando Histórias que entraram também na sala de aula de um neo-professor. Se 1957 – o Ano do Sputnik – não entra nesta história, dentro do mesmo balizador, 1961 foi o ano que o russo Yuri Gagarin tornou-se, em abril, o primeiro homem no espaço, pronunciando uma frase histórica: ”A Terra é Azul!” com a primeira foto da Terra, que quase meio século depois muito usei em palestras ao falar acerca dos cuidados com a saúde do Planeta. Menos de um mês depois Alan B.Shepard torna-se o primeiro estadunidense no espaço. Recordo-me que me coube, como professor de Ciências, em uma ‘hora cívica’ do Colégio – no meu primeiro ano de magistério -- explicar a diferença entre o vôo circular do primeiro cosmonauta e o orbital do segundo. Esta foi talvez minha primeira fala extra-classe, dentre as inúmeras que proferi como professor.
Mas para começar a contar a história de meu fazer-me professor retorno ao ano de 1957, quando ‘me formo’ no Ginásio São João Batista, uma escola marista, em Montenegro. Os irmãos maristas eram mantenedores de Ginásios em muitas cidades do interior, que eram responsáveis pela educação masculina. A educação feminina nas escolas católicas era feita em redes mantidas por irmãs, que no curso primário eram mistas. Há um capítulo (1983) em que falo de minha escolarização no primário e no ginásio. Os colégios luteranos eram mistos. Outras denominações religiosas, além de católicos e luteranos, não tinham presença muito significativa com escolas. A existência de colégios públicos para formação secundária era muito rara nas cidades do interior.
Aqui é preciso uma explicação. No começo da segunda metade do século 20, concluir o curso ginasial [então havia cinco anos de curso primário que eram sucedidos por quatro anos de curso ginasial; neste se ingressava por um exame de admissão], especialmente no interior, era motivo de solene formatura. Esta se realizava no melhor clube da cidade e na mesa que presidia a solenidade se assentavam além do diretor do Ginásio, do paraninfo e dos professores homenageados, o prefeito municipal, o vigário da paróquia e comandante do quartel da Brigada Militar.
Formatura no curso ginasial (hoje seria terminar o ensino fundamental) merecia até quadro de formatura, que antes de ir para o panteão da escola ficava exposto na vitrine da principal loja da cidade, bem em frente à praça. Não eram poucos os formandos que passavam a ostentar a partir de então anel de grau.
Na minha formatura, além do diploma havia os que ganhavam uma láurea por bom comportamento e em cada uma das matérias [como se chamavam as disciplinas] havia premiação com medalhas acompanhadas de prêmios, geralmente livros doados pela ‘forças vivas da sociedade’. Sei que recebi três medalhas – fotografias de então mostram que uma menina, talvez de uns seis anos, finamente vestida, trazia as medalhas em uma bandeja, assim como nas Olimpíadas – na memorável noite de 8 de dezembro de 1957. Uma foi em canto orfeônico e recordo ainda o comentário do diretor Irmão Luís Benício, de que eu não merecia o prêmio, pois desafinava até o hino nacional; conquistei-o porquê a prova era teórica e eu sabia responder as perguntas do ‘Manual de Canto Orfeônico’ de Luiz do Rego, uma edição FTD. A outra medalha foi de latim. A terceira parece que foi de matemática.
Nunca me esqueço, que uns anos antes de minha formatura, talvez ainda estivesse no primário, quando o meu pai chegou de uma formatura de um filho da D. Adolfina, viúva de um ferroviário colega dele, dizendo que gostaria que um dia um de seus filhos se formasse no ginásio. Todos os sete fizeram isso, quase todos se graduaram na universidade e um deles se fez doutor. Se vivo fosse talvez contasse com orgulho, em 2002, que tinha um filho fazendo pós-doutorado ‘no estrangeiro!’.
Neste ano de 1957, venho a Porto Alegre e faço seleção para o curso científico do Colégio Estadual Júlio de Castilhos. Assim em 1958/59/60 estudo no Julinho. Destes três anos quero destacar uma data.


sexta-feira, 1 de março de 2019

01.-De piadas para rir a máculas para chorar



ANO
 13
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3395
Chegou março. E no Brasil ele começa inserido no maior feriado não feriado, pois a terça-feira de carnaval, legalmente não é feriado. Mesmo que neste janeiro e fevereiro já tenhamos trabalhado bastante, há um senso comum tolo que diz que no Brasil, o ano começa de verdade na primeira segunda-feira depois do carnaval (este ano dia11/03).
Há que convir que os dois meses já vividos no ano já renderam muito e há algo que não podemos nos queixar do novo governo da República: ele catalisa quase todos os dias um surto de piadas que divertem.
O bobo da corte é, mais uma vez, General Ministro da Educação, que se diz professor. Ele mandou nesta segunda-feira (25/02) para todas as escolas do País um e-mail pedindo que as crianças sejam perfiladas para cantar o hino nacional e que o momento seja gravado em vídeo e enviado para o governo. O e-mail pede ainda que seja lida para elas uma carta do ministro Ricardo Vélez Rodríguez, que termina com o slogan da campanha de Jair Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.”
Será que os Generais-ministros não têm um soldado ou cabo para assessorá-los a não fazer tantas babaquices? Talvez seriam menos incompetentes.
Na quarta-feira, dia 27, a convite de meu ex-orientando Jairo Brasil, falei no seminário inaugural aos professores da UNIPACS, em Esteio. Dizia que estava inaugurando o meu 59º ano letivo e não começara, jamais, um novo ano marcado pela desesperança. Até para vencer o desestímulo que grassa entre os educadores desafiei-os a este ano estimularem a seus alunos a serem curiosos. Fiz também uma recomendação: se preocuparem com a transmissão de menos conteúdo.
Mas preciso fazer um registro muito significativo: iniciei nesta semana a orientação da doutoranda Uiara Mendes Ferraz de Pinho, da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática, professora do IFAC em Xapuri, no Acre; a Uiara soma-se à Patrícia Rosinke, Professora da UFMT em Sinop, MT como a minha 5ª doutoranda da REAMEC. Também iniciei a orientação a minhas duas primeiras mestrandas do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemática da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará Jhéssica Elayne Gomes da Cruz Piano e Leilane Andressa Bicho de Oliveira.
Estes fazeres são um bálsamo em tempos que desmandos nos tornam estéreis intelectualmente. Isto é salutar.
Mas esse novo governo não faz apenas a riqueza do país da piada pronta. Há maculas que mais se prestam a prantos. Vale ler esta desta semana, com ajuda do Ponto*:
“Era da Infâmia. O general Alfredo Stroessner foi o ditador do Paraguai entre 1954 e 1989. Durante estes 35 anos, na mais longa ditadura da América do Sul, são registrados 150 mil presos políticos e três mil mortos. Corrupção, tráfico, contrabando, acolhida a refugiados nazistas e até mesmo um infame "harém" de meninas para a prática de pedofilia constam na lista de acusações contra o ditador. Muitas meninas morreram, de acordo com as denúncias. Na última terça (27/02), Bolsonaro e o presidente paraguaio Mario Abdo Benítez estiveram juntos para a nomeação de dirigentes na Usina de Itaipu, momento no qual o presidente brasileiro fez elogios a Stroessner: "um homem com visão, um estadista", prestando homenagem ao "nosso general", assim como já expressou admiração por Ustra, Pinochet e outros facínoras. Bolsonaro se elegeu prometendo uma "nova era" no Brasil. A cada semana que passa, fica claro que a nova era é uma era infame. A mídia brasileira registrou e criticou a fala de Bolsonaro, é verdade, mas num país bem resolvido com sua própria ditadura essa ignomínia seria tratada como escândalo. Na verdade, neste Brasil hipotético Bolsonaro não seria eleito”.
*Ponto é uma newsletter semanal editada pelo jornalBrasil de Fato. Para recebe-la escreva para o e-mail: newsletter@ponto.jor.br

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

22.- Os quatro elementos numa leitura hodierna



ANO
 13
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EDIÇÃO
3394
Estou usando tetramorfos numa acepção metafórica, pois originalmente tetramorfos se referem aos quatro animais bíblicos referidos no Apocalipse — o leão, o cordeiro, a águia e o touro que representam, na mesma ordem, os 4 evangelistas — Marcos, Mateus, João e Lucas. Assim, uso também tetramorfos para um conjunto de 4 seres ou fenômenos correlatos.
De 25 de janeiro a 11 de fevereiro — apenas 18 dias deste tão conturbado e quase agônico 2019 os 4 elementos disseminaram no Brasil morte e muita dor. As tragédias se fizeram particularmente em 3 dos quatro estados da Região Sudeste, aquela tida por nós outros como a mais rica, e talvez a mais festeira.
Eis, a presença apocalíptica dos 4 elementos nestes 18 dias nos quais cada uma das quatro tragédias se encordoou uma na outra gerando duas novenas de luto  desencadeados pela Água, pela Terra, pelo Fogo e pelo Ar (na ordem dos símbolos alquímicos na imagem).
A Terra, no dia 25 de janeiro, se fez lama amorfa que avassaladora matou crianças, matou homens e matou mulheres, algumas com o ventre prenhe com uma nova vida, que lama matou também. Morreram 177 pessoas e ainda há 133 desaparecidos. Muitos animais e muitas árvores foram levados de roldão pela lama de Brumadinho, nome sonoro que até há um tempo não conhecíamos...parecia poesia pensar em uma bruma tênue se fazendo brumadinho. A poesia terminou logo. Agora brumadinho parece um dos infernos de Dante. Casas, maquinas, caminhões, trens foram destruídos também pela lama voraz e um Ministro abjeto disse que devíamos valorizar estas perdas da Vale assassina.
A Água, no dia 9 de fevereiro, no Rio de Janeiro houve uma chuva e esta se fez catadupa. A água que nos remete, de uma maneira muito terna e saudosa, ao útero materno que nos rejuvenesce no banho, na piscina, nos rios, nos lagos, nos mares... esta mesma água, agora fazia mortes. Sim, até a água consumida em excesso mata por um fenômeno conhecido como afogamento. Numa precipitação de um mês em umas poucas horas nove pessoas morreram. Estas nove se somaram a outras noves que foram chacinadas na região metropolitana da cidade que era cantada como “cidade maravilhosas, cheia de encantos mil...
O Fogo, no mesmo dia e na mesma cidade em que a água matava, o fogo foi inclemente. Num poético Ninho do Urubu um dantesco incêndio mata dez jovens de 14 a 15 anos e ainda deixa três feridos. Era aquele fogo que Prometeu deu aos humanos quando se desentendeu com Zeus. Este fogo tão importante, que muda a maneira de nossos ancestrais viverem, pois, com a descoberta da cocção se define outro sistema alimentar. É o fogo que coze e também que mata. Para os humanos este presente foi oneroso, pois a vingança de Zeus ao feito de Prometeu foi fantástica e exigente: Zeus para vigar-se da dádiva (= o fogo) que recebêramos de Prometeu nos dá Pandora e as consequências todos sabemos.
 O Ar, no dia 11 de fevereiro se faz cenário da quarta tragédia para completar 18 dias lutuosos. Sempre foi sonho dos humanos voar, estar no ar. Há muitas narrativas acerca desta ânsia. Recordo uma. Ícaro, o filho de Dédalo, é comumente conhecido na mitologia grega pela tentativa de deixar a ilha de Creta voando. Ícaro e o pai constroem um par de asas. Há uma dupla recomendação para seu uso. Não se pode voar muito alto, pois o sol derreteria a cera onde se fixavam as penas. Não se pode voar muito baixo pois a umidade do ar encharcaria as penas e as asas ficariam por demais pesadas e não haveria força para batê-las. A tentativa é frustrada, como foi o voo de Ricardo Boechat. Um morreu caindo nas águas do mar Egeu, na região conhecida como mar Icário; outro, um dos mais vibrantes jornalista brasileiro da atualidade morreu, pois, helicóptero bateu na parte dianteira de um caminhão que transitava pela Rodovia Anhanguera.
Assim, as milenares e muito dispares leituras de nosso tetramorfo germinal do mundo que habitamos e buscamos ler, parece merecer uma leitura hodierna. Esta é apenas uma das muitas possíveis. Talvez, valha experimentar outras. 
Expectante.

Ofereço este texto para a doutoranda Patrícia Rosinke (UFMT/campus Sinop) que, na tessitura da tese me desafia em reflexões acerca dos 4 elementos na tênue interface entre o sagrado e o profano.