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segunda-feira, 25 de maio de 2015

25.- UMA MEGA-SEMANA


ANO
 9
EDIÇÃO
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Esta edição é uma homenagem a uma mente e coração brilhante... o grande John Nash, falecido ontem, com esposa Alícia, em um acidente de taxi, nos Estados Unidos.

Para alguns, começa hoje a última semana de maio ou a 22ª semana do ano. Cristãos, dirão que vivemos a primeira semana depois de Pentecostes. É verdade que cristãos ortodoxos protestarão dizendo que Pentecostes não foi ontem, mas, será no próximo domingo, dia 31. Aqueles de fé judaica dirão estarmos em um das mais celebradas festas do calendário judaico: Shavuot — a Festa das Colheitas ou a Festa das Primícias dos Frutos (ou Pentecostes, que significa 50 dias depois da Páscoa). Não disputarei nenhuma destas celebrações.
Eu extrapolarei, vivo a minha mega-semana. Este ano, a última semana de fevereiro, que ganhou blogada especial: foi uma super-semana. Mas esta que se inicia hoje será imbatível.
Terei as aulas Teorias do Desenvolvimento Humano, para a Licenciatura em Música, na manhã de segunda e na noite de terça, como sempre. Na segunda à tarde tenho aula na Universidade do Adulto Maior. Como o seminário “Teoria e Prática de Inclusão” no Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão ocorre em sábados alternados, e houve aula no sábado passado, neste quesito a aula no mestrado fica desfavorecido.
Algo que já ocorre noite desta segunda e desde várias semanas venho curtindo e dá sabor especial à semana é palestra de Richard Dawkins.
 Ele é dos autores que mais frequenta este blogue e fiz aqui edições especiais na esteira de sua presença na inauguração da edição de 2015 do Fronteiras do Pensamento. A propósito da última blogada, acerca da mensagem que o renomado biólogo escreveu a sua filha, tenho a integra da carta referida; posso remeter para quem desejar. Basta mandar uma mensagem para achassot@gmail.com Na manhã de sábado, José Clovis e eu desencadeamos com este texto excelente discussão na aula do Mestrado.
Claro que a noite desta segunda dá um saibo muito especial à semana. Não vou dizer que Richard Dawkins é meu ídolo, mas, é certamente o intelectual vivo que mais admiro. Acerca do novo livro “Fome de saber” (Companhia das Letras), lançada no Brasil no Fronteiras do Pensamento, acompanho o escritor e comentarista político Bill Maher que afirmou “Richard Dawkins é um dos meus heróis, então para mim é maravilhoso ler sobre como ele se tornou o homem e o pensador que é. Algumas pessoas gostam de ler sobre a origem do Batman ou do Super-Homem. Para mim, isso vale com Richard Dawkins”.
Lembro de emoções que tive quando ouvi em Porto Alegre, 1992, Eric Hobsbawm ou Ernesto Sabato, em Madrid em 2002. Esta noite deverá ser ainda mais emocionante. Não vou comentar aqui, que quando João Paulo 2º (agora São João Paulo 2º) esteve em Porto Alegre em 1980, fui à missa que ele celebrou perto do Estádio Olímpico.
Parece que estou fugindo a caracterização da semana, pois a segunda-feira já a faz esplendorosa. A semana se faz especial, por ter na quarta, na quinta e na sexta uma viagem a cada dia a um dos Estados da região sul.
Na quarta vou a Florianópolis, para no Departamento de Engenharia Mecânica do Centro Tecnológico Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC integrar a banca de avaliação do Prof. Dr. Walter Antonio Bazzo, Engenheiro Mecânico, Mestre em Ciências Térmicas e Doutor em Educação que com um denso Memorial de Atividades Acadêmicas, com mais de uma centena de páginas descreve mais de 40 anos como professor, postulando a promoção à classe de Professor Titular da Carreira do Magistério UFSC.
Retorno na noite de quarta e nesta mesma noite viajo para Frederico Westphalen, onde, na quinta, a convite do Programa de Pós Graduação em Educação da URI ministro uma aula especial, onde vou discutir exigências para estar na Academia hoje. Ocorre que meus ex-orientandos, aproveitando o ensejo organizaram em suas escolas encontros com seus colegas professores. Assim pela manhã, a convite da Camila Camargo, falo na EEFM Cons. Edgar Marques de Mattos. À tarde, a convite da Izaura Ceolin vou a Caiçara onde falo a professores de um grupo de escolas. Ainda à tarde, por iniciativa do Vanderlei Farias, tenho uma fala na EEFM Sepé Tiaraju.
Na sexta chego à Porto Alegre, pela madrugada e na mesma manhã viajo a Curitiba e de lá vou a Matinho, para fazer à noite a palestra de encerramento da Primeira Semana Acadêmica de Licenciatura em Ciências da UFPR-Litoral. Na manhã de sábado, retorno à Porto Alegre, via Curitiba.
É muito bom viver oportunidades tão gratificantes. Uma semana muito especial a cada uma e cada um de meus leitores.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

21.- TRADIÇÃO, AUTORIDADE, REVELAÇÃO


ANO
 9
EDIÇÃO
 3042

Abro esta edição com um comentário acerca de uma alteração de agenda. Anunciei na edição de terça-feira, que hoje estaria em Aracaju, para na Universidade Federal de Sergipe, no campus de São Cristóvão, participarde defesa de doutorado no Programa de Pós Graduação em Educação da UFSE. (Um funcionário d)o sistema de concessão de passagens da UFSE não foi competente na concessão de passagens em horários adequados para que eu pudesse comparecer a banca e retornar a tempo de atender compromisso em Porto Alegre, na tarde de sexta. Limitei-me ao envio de parecer. Por tal, também não a proferi palestra organizada por dois Programas de pós-graduação, que fora anunciada aqui.
Aproveito esta edição, para ampliar, a pedido de algumas pessoas que me ouviram referir em diferentes espaços, a carta Richard Dawkins escreveu para sua filha Juliet. Ele, na segunda, dia 25, falará em Porto Alegre na inauguração da edição 2015 do Fronteiras do Pensamento www.fronteiras.com
A carta: Boas e más razões para acreditar está na seção final “Oração para minha filha” do livro O Capelão do Diabo. (São Paulo, Companhia das Letras, 2005, 462p. ISBN 978-95-359-0654-7 p. 427-437). Nela Dawkins retoma de muitas maneiras os temas-chave do livro. Ela expressa uma esperança sincera de que as gerações futuras continuarão a compreender o mundo natural por meio da razão e fundamentando-se nas evidências. É, segundo Latha Menon, organizadora do livro, “um apelo apaixonado contra a tirania do sistema de crenças que entorpecem a mente” (p. 15).
Dawkins conta que escreveu a carta quando Juliet tinha 10 anos. Recorda que durante a maior parte da infância, infelizmente esteve poucos períodos junto dela, o que tornou difícil falar acerca de coisas importantes da vida. Diz “sempre fui escrupulosamente cuidadoso em evitar toda a forma de doutrinação infantil, pois considero que isso é responsável, no final das contas, por uma boa parte de males que há no mundo. [...] Eu tinha um forte desejo de que ela, assim como todas as crianças, pudesse tomar as próprias decisões livremente quando chegasse à idade de fazê-lo. Eu sempre quis encorajá-la a pensar, sem dizer a ela o que pensar” (p. 425).
A carta começa interrogando a filha se ela alguma vez já se perguntou como sabemos as coisas que sabemos. Então traz vários exemplos de coisas que sabemos em diferentes áreas do conhecimento. Depois diz, “agora que já lhe falei das evidências, que são uma boa razão para acreditarmos em alguma coisa, quero alertá-la contra três razões indevidas para acreditarmos no que quer que seja” (p.429). Então o renomado biólogo discute o que e como aprendemos com a Tradição, com a Autoridade e com a Revelação.
Há sumarentos exemplos na discussão destas três razões. Devo dizer que já usei esta carta na abertura de algumas falas e a mesma se converteu nem excelente catalisador a discussões.

terça-feira, 19 de maio de 2015

19.- QUANDO SE DEU A VIRADA MAIS SIGNIFICATIVA?


ANO
 9
EDIÇÃO
 3041

Já vivemos a terceira semana de um muito envolvente mês de maio. Nesta semana tenho uma viagem, quase bate-volta à Aracaju. Na Universidade Federal de Sergipe, no campus de São Cristóvão, participo, nesta quinta, a convite da Profa. Dra. Sonia Meire Santos Azevedo de Jesus da defesa de doutorado de Jaqueline Neves Moreira que apresenta à banca a tese: O desenvolvimento do pensamento científico nos cursos de licenciatura em Educação do Campo a partir do ensino de Ciências da Natureza e Matemática da Universidade Federal de Sergipe: um estudo de caso (2008 a 2012). Na quarta, para aproveitar a viagem, falo nos Programas de Pós-graduação em Educação e no de Ensino de Ciências e Matemática da UFSE.
Hoje, faço um relato preliminar de atividades que estou desenvolvendo na UAM - Universidade do Adulto Maior, que pretende com a mirada de cinco gerações para diferentes construtos culturais ver nossa história. Em diferentes sessões, em segundas-feiras consecutivas, se está contemplando um dos seguintes construtos: a) castigos físicos a filhos; b) valorização da virgindade; c) cuidados com a contracepção; d) trabalho da mulher fora do lar; e) acesso da mulher à universidade; f) obediência à autoridade da igreja; g) (in)tolerância religiosa.
Na aula do dia 11 de maio, fizemos considerações acerca do item: a) castigos físicos a filhos. As cinco gerações contempladas são: 3ª) a nossa, e nesta o nós são os alunos da UAM e eu. Estes, cerca de 40 profissionais jubilados em diferentes profissões, que cursam este semestre a disciplina Aspectos antropológicos do desenvolvimento, têm idades que variam de 60 anos a mais de 90. Parece não ser usual um professor ouvir, em mais de uma oportunidade, justificativas como esta ‘não estive na aula passada, pois tive que ficar com meu bisneto’. Assim esta geração vive num período que pode ser datado como de 1920 a 2015. Nós, porque eu, com 75 anos, nela me incluo.
As gerações predecessoras e sucessoras são: 2ª) de nossos pais, para a qual calculamos um período que compreende aproximadamente 1900 a 2000. 1ª) de nossos avós pode ser pensada num período que vai de 1850 a 1950. A 4ª) geração de nossos filhos, que no grupo envolvido na análise começou no entorno dos anos 1950. A 5ª) é aquela de nossos netos, que para o grupo começa no entorno de 1980. Assim nossas olhadas, talvez se possa considerar que se estendam por um período de cerca de 170 anos.
Partimos da hipótese de que em termos geracionais mais amplos, quaisquer dos construtos (ou dimensões observáveis no nosso estar em sociedade) que considerarmos, as (dis)semelhanças tenham este provável desenho:
1ªG = 2ªG ≠ 3ªG ≠ 4ªG = 5ªG.
A primeira questão poderia ser: Será que as gerações que nos antecederam (pais, avós, bisavós...) e as que nos sucedem/sucederão (filhos, netos, bisnetos...) não se sentiram/sentem/sentirão como nós uma geração sanduiche. Como se visualiza na hipótese acima.
Isto é, somos aquela ‘distinguida geração’ que viu acontecer as grandes mudanças comportamentais (ou de costumes) e as mudanças tecnológicas?
Parece que se pode afirmar que tanto em termos comportamentais e tecnológicos a grande marca da virada ocorre nos anos sessenta/oitenta. Se quisermos estabelecer ícones para cada uma das dimensões, poderíamos colocar a pílula anticoncepcional para um e a internet para outro.
Anunciei um relato preliminar. Não é difícil imaginar a riqueza dos relatos que foram evocados acerca de castigos físicos a filhos para um período de 1,5 século. Não é fácil, todavia, sintetizá-los.
Houve os que foram peremptórios: nunca recebi castigo e nunca castiguei. Houve alguns que evocaram singulares castigos, ainda lembrados, mesmo passados setenta anos. Nestes há os que se sentiram merecedores de punições e outros que ainda hoje protestam inocência ou se reconhecem vítimas de trapaças de irmãos. Houve, mesmo entre os injustiçados, uma tentativa de mostrar a concessão de perdão ao pai castigador. A mãe apareceu menos com executora do castigo. Em alguns relatos a mãe sentenciava a pena, mas o pai era executor. Isso em relação aos ancestrais.
Quantos aos sucessores parece consenso que muitos usaram com os filhos, vez ou outra, (com destaque para a excepcionalidade), a ‘palmada educativa’ mas que isto é algo muito raro (ou até inexistente) de seus filhos com os seus netos, sendo que isso jamais ocorre de avós para com os netos.
Esta breve síntese foi discutida com o grupo na aula do dia 18 de maio. Houve algumas novas contribuições que estão presentes na síntese acima. Preparamos a atividade do dia 25; houve a proposição de olharmos d) trabalho da mulher fora do lar, em um período de mais de 150 anos que temos nas memórias dos participantes.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

14.- PARA UMA QUINTA MUITO ESPECIAL

14.- PARA UMA QUINTA MUITO ESPECIAL
ANO
 9
EDIÇÃO
 3040
Após a pequena atratividade (já esperada) acerca de duas únicas encíclicas não escritas em latim, que se constituíram nas edições de segunda e terças feiras, imerjo, uma vez mais no mundo da Academia. Este parece mais a gosto de meus leitores. Esta imersão tem a ver com a densidade acadêmica da tarde de hoje e com o quanto, também a noite é prenhe de emoções, pelo que ela projeta para a esperada sexta-feira, 15 de maio. Com estes dois momentos, faço a tessitura da blogada de hoje.
O ser professor tem ônus e tem bônus. Estes parecem muito mais significativos que aqueles. E dentre os mesmos, algo que me encanta — e isso ocorre em qualquer nível da carreira do magistério — é a não rotina. Exemplifico: por mais que preparemos uma aula, desenhando as interrogações que levaremos a discussão, as estratégias que desenvolveremos para superarmos a concorrência dos smartphones, esta aula poderá se revelar (e não raro é isto que ocorre) numa grande caixa de surpresas.
Esta tarde tenho uma banca de qualificação de uma orientanda minha. Esta qualificação é impar e tem ineditismos para mim. Mesmo que tenha já levado à sagração, (corrijo-me): à titulação, 30 mestres e 5 doutores e tenha presentemente como orientandos seis mestrandos e dois doutorandos, a qualificação desta tarde tem ineditismos.
A Mariana Vianna Potrich não é a primeira psicóloga que levo a qualificação. É a terceira. Desde que ingressei no Centro Universitário Metodista do IPA, em agosto de 2007 sou professor e orientador no Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão.
O mestrado profissional é uma recente alternativa ao mestrado acadêmico. Trata-se de um curso de pós-graduação stricto sensu, com duração idêntica à do mestrado acadêmico, que requer o mesmo grau de comprometimento e que possibilita o acesso ao doutorado e a docência em instituições de ensino que exigem o grau de mestre.
Há diferenças entre o mestrado acadêmico e o profissional. Comento uma: o produto final do mestrado acadêmico é de maneira usual, a produção de uma dissertação escrita a ser defendida para uma banca; no mestrado profissional o trabalho final pode se dar em forma de projeto, material didático, aplicativos, estudo de caso, desenvolvimento de software, protocolo de atendimento, patente, escalas de avaliação, técnicas específicas, material didático, entre outros. Qualquer desses produtos também é apresentado a uma banca examinadora e deve ser desenvolvido e avaliado com o rigor de uma pesquisa em nível de mestrado.
Obrigo-me apenas citar mais uma diferença (esta uma felonia) entre os mestrados acadêmico e profissional: os mestrandos do acadêmico podem receber bolsas da Capes, os do profissional, não. Isso é tão discriminatório que retomarei em edição exclusiva.
Os sete mestres que orientei no Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão do IPA fizeram dissertações. A Mariana é minha orientanda que leva a qualificação um produto. Tenho ainda dois outros orientandos que também pretendem fazer um produto.
Qual o produto que ela pretende elaborar? Sua proposta é a elaboração de um livro, que contará a história de um casal que recebe a noticia que o filho recém-nascido tem Síndrome de Down. Este livro é destinado aos familiares de crianças com Síndrome de Down. Ele se propõe descrever o desenvolvimento e o processo de inclusão escolar, destas crianças nos primeiros anos de suas vidas, a partir do olhar de um Serviço de Estimulação Precoce. É num serviço desta natureza que a Mariana, há alguns anos, centra suas atividades profissionais. Há que convier que é um trabalho desafiador e muito significativo.
Outra característica da banca desta tarde é quase uma iniciação de meu aprendizado com co-orientação. A orientação à Mariana tem participação do Prof. Ricardo Pavani, que tem expertise em orientação de produtos. É bom aprender com os mais experientes. A banca de avaliação da proposta da Mariana está anunciada ao lado.
A minha quinta-feira traz outro destaque. Hoje à noite viajo, via rodoviária, para Chapecó, no oeste catarinense. Volto a duas universidades — Unochapecó e UFFS — que já me acolheram em outros momentos.
Já há alguns meses, a professora Cláudia Maria Grando, Coordenadora do Curso de Matemática, da Unochapecó convidou-me para uma fala na Semana da Matemática, pois os estudantes trabalham com A ciência através dos tempos. O convite se expandiu e a fala Exigências da Ciência para estar no mundo da Academia hoje incluirá na noite desta sexta também as semanas acadêmicas dos cursos de Biologia e de Física. Na parte da tarde, na Unochapecó que é minha anfitriã nesta viagem, realizo, catalisado pelo mote Das disciplinas à indisciplina, um encontro informal com professores dos cursos de Matemática, Biologia e Física e também professores e estudantes do Mestrado de Educação e Mestrado em Ciências Ambientais.
Pela manhã, Antônio Valmor de Campos, que foi meu orientando no mestrado, com uma significativa dissertação acerca de agricultores que cultivam milho crioulo, me recebe na Universidade Federal da Fronteira Sul, onde é professor para a fala Das novas exigências ao estar mundo da Academia para acadêmicos e professores do curso de pedagogia e do mestrado em educação.
Está justificado o destaque que dou a esta quinta e também as repercussões que faz na sexta. Volto para Porto Alegre, após a fala da noite.


terça-feira, 12 de maio de 2015

12.- UMA ENCÍCLICA EM ALEMÃO


ANO
 9
EDIÇÃO
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Na última edição deste blogue meus leitores me estranharam falando de encíclicas papais. Então destaquei que só encontrei duas encíclicas que não são escritas em latim: uma em italiano em 1931 “Non abbiamo bisogno” (“Nós Não Precisamos”) sobre o fascismo e outra em 1937, em alemão “Mit brennender Sorge” (“Com profunda preocupação)” sobre o nacional-socialismo e o nazismo.
Estas duas são de autoria do Papa Pio XI (Achille Ratti 1857-1939), papa de 1922-1939. Pio XI que em sua juventude foi destacado alpinista, e antes de ser papa desempenhou diversas missões diplomáticas fora do Vaticano no conturbado período entre as duas guerras. Como papa, além das duas encíclicas vernáculas antes referidas, publicou várias outras em latim, língua que usou em muitas pregações. Enquanto papa, mostrou-se apaixonado pela ciência desde cedo e bom observador do desenvolvimento tecnológico, fundou a Rádio Vaticano, em colaboração com Guglielmo Marconi, modernizou a Biblioteca Vaticana e reconstituiu, em 1936, a Pontifícia Academia das Ciências, admitindo também pessoas não católicas e até mesmo não-crentes.
Mas anunciei que queria dar destaque, nesta edição à importante encíclica Mit Brennender Sorge (Com profunda preocupação) de 14 de março de 1937. Ela condena a ideologia nazista e seu racismo "pagão". Foi a primeira condenação explícita ao nazismo feita por um chefe de Estado e contém o que a maioria dos historiadores considera uma ataque pessoal a Adolf Hitler, referido no texto, como "um profeta louco de arrogância repulsiva”. A encíclica também desperta interesse historiográfico por ser um dos raríssimos documentos oficiais da Santa Sé não escritos em latim. Por tratar-se de uma mensagem destinada especificamente à Igreja na Alemanha, Pio XI optou por redigi-la diretamente em alemão.
Concluída a redação, cópias da encíclica foram enviadas clandestinamente para a Alemanha para não serem apreendida pela Gestapo e reproduzidas por imprensa ligada à Igreja Católica. As cópias foram distribuídas aos bispos e ao clero para serem lidas em todas as paróquias alemãs na homilia das missas do dia 21 de março de 1937, festa de Domingo de Ramos. Acredita-se que a data tenha sido escolhida por ser uma das festas do ano litúrgico em que a presença de fiéis e autoridades costuma ser maior, aumentando o impacto da mensagem. A retórica usada pelo Papa Pio XI no documento é de uma agressividade raramente vista em documentos papais nos tempos modernos.
A reação de Hitler por meio da Gestapo foi violenta e recrudesceu a perseguição aos católicos alemães, ocasionando a prisão de mais 1100 clérigos. Publicada ainda em 1937, época em que Adolf Hitler gozava de certo prestígio na opinião pública ocidental e a guerra parecia uma possibilidade remota, a encíclica surpreendeu pelo tom decisivo e foi alvo de algumas críticas na imprensa secular e de alguns católicos que não compreenderam a atitude do Pontífice.
A Encíclica Mit Brennender Sorge fala de "direitos humanos inalienáveis dados por Deus" e invoca uma "natureza humana" que passa por cima de barreiras nacionais e raciais. No documento, o Papa Pio XI adverte: "Todo aquele que tome a raça, o povo ou o Estado (...) e os divinize em um culto idolátrico, perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus". O pontífice critica o que chama de "mito de sangue e solo", afirmando a incompatibilidade entre racismo e cristianismo. De modo específico, o documento condena o antissemitismo e reafirma bula papal do século 13 que prevê a excomunhão automática para os perseguidores de judeus. A esse respeito, o texto da encíclica também ressalta o caráter indissolúvel da Aliança entre Deus e o povo israelita e recorda a natureza judaica de Jesus Cristo.
Na época foi uma surpresa geral para os fiéis, as autoridades e a polícia, a leitura da encíclica nas missas, em todos os templos católicos alemães, que eram então mais de 11.000 igrejas. Seu impacto entre as elites dirigentes alemãs foi forte. Em toda a breve história do Terceiro Reich, nunca recebeu este na Alemanha uma contestação de amplitude e gravidade que se aproximasse da que se produziu com a Mit brennender Sorge. No entanto, o controle intensivo que o regime exercia sobre a imprensa e a falta de liberdade de circulação de informações impediu que o impacto fosse maior entre as massas, sendo seu conteúdo prontamente censurado e respondido com uma forte campanha publicitária anticlerical. No dia seguinte a leitura nos púlpitos, paróquias e sede de dioceses alemãs foram visitados por oficiais da Gestapo que apreenderam cópias do documento.
Como era de se esperar, no mesmo dia, o órgão oficial nazista, Völkischer Beobachter, publicou uma primeira réplica à encíclica que foi também a última. O ministro alemão da propaganda, Joseph Goebbels, foi suficientemente perspicaz para perceber a força do documento e entendeu que o mais conveniente era ignorá-lo completamente, fazendo uso do extensivo controle dos meios de comunicação que o Reich já possuía na altura para censurar o conteúdo e qualquer referência a ele.
Após a leitura e publicação da encíclica, as perseguições anticatólicas tiveram lugar, e as relações diplomáticas Berlim-Vaticano ficaram severamente estremecidas. Em maio de 1937, mais de mil padres e religiosos são lançados nas prisões do Reich e 304 sacerdotes católicos são deportados para Dachau em 1938. As organizações católicas são dissolvidas e as escolas confessionais interditadas.
Até a queda do regime nazista, cerca de onze mil sacerdotes católicos (quase metade do clero alemão dessa época) "foi atingido por medidas punitivas, política ou religiosamente motivadas, pelo regime nazista", terminando muitas vezes nos campos de concentração.