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terça-feira, 21 de outubro de 2014

21.- ABORTO: DESCRIMINALIZAR, É PRECISO!


ANO
 9
Bom Dilma!
EDIÇÃO
 2933

Primeiro cumpre-me agradecer ao prestígio oferecido à edição de ontem deste blogue. Houve um pico com mais de quinhentos acessos até o começo da noite. Isto antes do período de maior acesso (entre 20 e 24 horas). Também o alerta à blogada que postei no Facebook recebia, depois de seis horas de postagem, mais de meia centena de curtidas e 27 compartilhamentos. Recebi mensagens como ‘vou usar a blogada em discussões no meu grupo de estudos’. No FB, destaco compartilhamento feito pela professora de Química e mestranda da UFRGS Bruna Carminatti: Como sempre, as palavras do Mestre Attico Chassot nos ajudam a refletir, com seriedade e compromisso, sobre as situações importantes da sociedade.
Escrevo, hoje, acerca de um tema polêmico: o aborto. Mesmo que não advogue que vá esclarecê-lo, o assunto precisa ser comentado em termos eleitorais. Ele vem na esteira desta notícia, colhida no UOL:
A Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, que reúne diversas denominações evangélicas de 14 Estados, decidiu apoiar Aécio Neves no segundo turno, após ter feito campanha para Marina Silva. “Vamos caminhar com Aécio e indicar nas igrejas o voto no candidato, como aconselhamento", diz o pastor Ronaldo Pereira, presidente da entidade que tem cerca de 2.800 pastores.
A justificativa para ser "contra a continuidade do atual governo" é o PT defender o Plano Nacional de Direitos Humanos. "Somos contrários ao aborto, à união estável entre pessoas do mesmo sexo e à adoção de crianças por homossexuais", diz Pereira.
A confiável beata Marina está fora do páreo. Opta-se, então, pelo santo de pau oco tucano que construiu uma pista de pouso em propriedade familiar. Aquele que escapou do bafômetro e amealha muitas outras passagens pouco edificantes na rotina noturna de um senador, fartamente documentados na internet e imprensa escrita. Que os ricos escolham um patricinho bom vivant... concordo. Mas, quando fiéis tementes a Deus sejam enganados por lobos travestidos em meigas ovelhas, deve ser denunciado.
Realmente a questão do aborto é tema de pauta do Plano Nacional de Direitos Humanos, defendido pelo PT. Mais do que ser contra o mesmo é preciso olhar o noticiário chocante dos últimos dias que “trouxe à tona uma realidade a que amiúde se faz referência nos debates acerca do aborto, mas sobre a qual ainda pesa espesso véu de abstrações e julgamentos moralistas” (Editorial / Folha de S. Paulo, de ontem).
Mesmo sabendo que os números sejam pouco fidedignos, há um grande contingente de mulheres vitimado pelos maus-tratos e pelas péssimas condições em que operam as clínicas clandestinas de aborto. Há uma situação desumana que na grande maioria dos países desenvolvidos, seria encarada com o respeito inerente aos problemas de saúde pública.
Pode-se reprovar, ou não, a escolha de uma mulher quando busca interromper a gravidez. Mas é difícil aceitar que se considere criminosa uma pessoa que nada mais é do que a vítima dos que se aproveitam da clandestinidade para cobrar pelos serviços que prestam sem controle nem escrúpulos.
A demanda pelos infames serviços de grupos não cessa de crescer. Certamente é preciso investir mais em campanhas de esclarecimento público e na ampliação do acesso a métodos anticoncepcionais, como a pílula do dia seguinte. Diminuindo, assim, as gestações indesejadas, há de diminuir também o total de mulheres que, em desespero, lançam mão do aborto, um recurso sempre traumático (Editorial / Folha de S. Paulo, de ontem).
Mas, como indica a experiência de muitos países desenvolvidos, seria o caso de perguntar se não é a clandestinidade que produz o crime, em vez de, como habitualmente se pensa, ser o crime a causa da clandestinidade.
Ser a favor da descriminalização do aborto é ser a favor da vida. Esta é a olhada que se espera poder oferecer. Barganhar votos em cima da dor de mulheres que vivem dramas por serem violentadas em seus corpos e em seus direitos parece crime maior do que abortar.
Hoje, dolorosamente temos no Brasil abortos realizados por pessoas de alto poder aquisitivo em clínicas particulares de luxo, indetectáveis, por acordo verbal entre paciente e médico, facilitados pela enorme quantia de dinheiro que é cobrada por um aborto e as mulheres sem poder econômico, que têm abortos feitos no banheiro, com agulha de tricô, cabide, navalhas ou galhos. Repito: Ser a favor da descriminalização do aborto é ser a favor da vida.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

20.- MUDAR, PARA NÃO MUDAR


ANO
 9
LIVRARIA VIRTUAL  em www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
 2932

Começa hoje, talvez, a semana mais importante do ano. Pelo menos, a mais nervosa. No domingo que passou, de vez em vez, encontrava-me conjecturando como viverei o entardecer do próximo domingo. Com sol ainda alto, com este horário verão, já teremos ‘a voz das urnas’. Há dois resultados que definirão com serão o Brasil e vários Estados (entre eles o Rio Grande do Sul) nos próximos anos.
Nos últimos dias li muitas análises. Escutei debates. Ouvi numerosas declarações de votos. Impressionam-me certas razões para votarem num candidato. “Eu acho a Dilma antipática” é justificativa de pessoas de quem eu esperava, no mínimo, uma avaliação política. O jornalista Luiz Fernando Vianna, autor de livros sobre música popular brasileira, entre eles "Geografia Carioca do Samba" e "Aldir Blanc - Resposta ao Tempo” escreveu na p. A2 da Folha de S. Paulo, na sexta-feira, um texto que merece ser lido. Ele está a seguir, com dois assinalamentos meus em cor.
A volta do senhor Aécio Neves não deve apenas às suas eventuais qualidades a ascensão impressionante de sua candidatura. O ódio que, espalhado pelas duas campanhas, domina o segundo turno indica que ele encarna aspirações mais profundas.
O senador mineiro é branco, conquistador, bem educado, rico de berço, nunca trabalhou (a não ser em política), está no topo das sociedades rural (sua família é dona de fazendas) e urbana (frequenta as praias, boates e os restaurantes da zona sul carioca). Representa o cume da pirâmide econômica e cultural brasileira, o ponto para onde boa parte da classe média olha com admiração e inveja.
Um montante desses eleitores cogitou votar em Marina Silva. Mas ela é autodeclarada negra, ex-doméstica, analfabeta até os 16 anos, nortista, carola, de saúde frágil e, mais grave, é cria do PT. Não faz parte do clube. Não é confiável.
O sentimento antipetista, que se fortaleceu com a piora da economia e com as graves denúncias de desvios de recursos da Petrobras, encontrou em Aécio o seu colo natural.
A legítima irritação com a corrupção faz ressurgir o grito do "mar de lama", que já elegeu Jânio Quadros e Fernando Collor, tendo antes contribuído para a morte de Getúlio Vargas — cujo fiel ministro da Justiça era Tancredo Neves, avô de Aécio.
O Bolsa Família dá condições mínimas de vida a 50 milhões de pessoas e aquece a economia de pequenos municípios; o Luz para Todos leva energia elétrica a cafundós esquecidos; o ProUni, o Fies e as cotas põem pobres nas universidades. Programas como esses são rechaçados por certas camadas da população, pois bagunçam um contrato social de 500 anos.
Sob um talvez sincero discurso de mudança, Aécio oculta um de restauração quase monárquica, de devolução do poder aos senhores de sempre. Muda-se para não mudar.   

domingo, 19 de outubro de 2014

19.- MAIS UMA DOMINGUEIRA FAGUEIRA


ANO
 9
LIVRARIA VIRTUAL  em www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
 2931

Como a edição de ontem, o poemeto trazido hoje tem origem naquelas mensagens que chegam aos borbotões e cuja maioria tem como destino uma lixeira. Não conheço a autoria. Pareceu-me saboroso para embalar um domingo que tem uma hora a menos.
Quando nasci, era preto.
Quando cresci, era preto.
Quando pego sol, fico preto.
Quando sinto frio, continuo preto.
Quando estou assustado, também fico preto.
Quando estou doente, preto.
E, quando eu morrer continuarei preto!
E tu, cara branco.
Quando nasces, és rosa.
Quando cresces, és branco.
Quando pegas sol, ficas vermelho.
Quando sente frio, ficas roxo.
Quando te assustas, ficas amarelo.
Quando estás doente, ficas verde.
Quando morreres, ficarás cinzento.
E vem me chamar de homem de cor?
(Escrito atribuído a uma criança angolana).

sábado, 18 de outubro de 2014

18.- A ESTRANHA


ANO
 9
A G E N D A  em www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
 2930

O texto desta sabatina tem origem naquelas mensagens que chegam à catadupa. Não conheço a autoria. Apenas alterei dois personagens do último parágrafo.
Necessariamente não subscrevo o texto na sua íntegra. Mas há que reconhecer que contem instigantes no relato, mantendo suspenses. Por tal vale faze-lo parte de uma fugaz presença num sábado marcado por rituais de troca de horário.
 A ESTRANHA Alguns anos depois que nasci, meu pai conheceu uma estranha, recém-chegada à nossa pequena cidade. Desde o princípio, meu pai ficou fascinado com esta encantadora personagem e, em seguida, a convidou a viver com nossa família.
A estranha aceitou e, desde então, tem estado conosco. Enquanto eu crescia, nunca perguntei sobre seu lugar em minha família; na minha mente jovem ela já tinha ganho um lugar muito especial.
Meus pais eram professores da Educação básica... minha mãe me ensinou o que era bom e o que era mau e meu pai me ensinou a obedecer.
Mas a estranha era nossa narradora. Mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias. Ela sempre tinha respostas para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, história ou ciência.
Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro! Sabia, como poucos, qual seria o tempo no dia de amanhã. As previsões meteorológicas sabidas por meu avô eram contraditas.
 Levou minha família ao primeiro jogo de futebol. Fazia-me rir, e me fazia chorar. A estranha nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava.
Às vezes, minha mãe se levantava cedo e calada, ia à cozinha para ter paz e tranquilidade, enquanto o resto de nós ficava escutando o que aquela que já não era mais estranha sempre tinha a dizer. (Agora me pergunto se ela teria rezado alguma vez para que a estranha fosse embora).
Meu pai dirigia nosso lar com certas convicções morais, mas a estranha nunca se sentia obrigada a honrá-las.
As blasfêmias, os palavrões, por exemplo, não eram permitidos em nossa casa… nem por parte nossa, nem de nossos amigos ou de qualquer um que nos visitasse.
Entretanto, nossa visitante de longo prazo usava sem problemas sua linguagem inapropriada que às vezes queimava meus ouvidos e que fazia meu pai se retorcer e minha mãe se ruborizar.
Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool. Mas a estranha nos animou a tentá-lo e a fazê-lo regularmente. Fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo, e que os charutos e os cachimbos fossem distinguidos.
Falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo. Seus comentários eram, às vezes evidentes, outras sugestivos, e geralmente vergonhosos. Agora sei que meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante minha adolescência por essa estranha.
Repetidas vezes a criticaram, mas ela nunca fez caso aos valores de meus pais, e mesmo assim, permaneceu em nosso lar!
 Passaram-se mais de cinquenta anos desde que a estranha veio para nossa família. Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era no princípio.
Não obstante, se hoje você pudesse entrar na casa de meus pais, ainda a veria em seu canto, esperando que alguém quisesse escutar suas conversas ou dedicar seu tempo livre a fazer-lhe companhia...
Seu nome? Bom... nós a chamamos Televisão. Agora ela tem um esposo que se chama Internet e um filho que se chama Smartphone. Ambos mais invasivos que ela.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

17.- ALGO DA HISTÓRIA DA MEDICINA


ANO
 9
LIVRARIA VIRTUAL    em www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
 2929

Nesta quinta, de muito granizo e de continuadas chuvaradas no Rio Grande do Sul, envolvi-me em leituras e escritos acerca do começo da modernidade, para compreender um pouco mais a Escola e a Universidade de então. Lateralmente buscava algo para a blogada de hoje. Lembrei-me que amanhã, dia 18 de outubro, dia de são Lucas é o dia do médico. São Lucas, o evangelista, deve ter sido um médico grego, contemporâneo dos apóstolos, sendo mencionado por Paulo em epistolas.
Essas evocações catalisaram a trazida de algo acerca da História da Medicina. Ajudou-me o Prof.Dr.HC João Bosco Botelho (Dr. HC significa doutor Honoris Causa). Ele é editor de um excelente blogue sobre o tema — www.historiadamedicina.med.br/ — dele ofereço um texto que traz uma visão panorâmica da Medicina. A ilustração não pertence à fonte citada. A publicação deste texto e, também, uma homenagem aos médicos, que cumprimento por antecipação.
TRATAMENTOS DA DOR: DA IDADE MÉDIA AO SÉCULO 20 Os tratamentos oferecidos pela Medicina para vencer a dor, na Europa central, no medievo, estavam atados aos preceitos de Hipócrates, século 4 a.C., e Galeno, século 1 d.C.: o desequilíbrio dos humores levaria às doenças e, em consequência, alteraria os temperamentos, causando dores.
O famoso médico francês Guy de Chauliac, em 1363, na sua obra Grande Cirurgia, definiu a dor como sendo qualquer fator que determinasse o desequilíbrio dos humores. Como todos os tratamentos estavam baseados na intenção de equilibrar os humores por meio de retirada intencional de sangue e secreções do corpo, os tratamentos consistiam nas sangrias, vomitórios, cataplasmas e vegetais, como a salsaparrilha, para provocar a diarreia.
Novos entendimentos da dor atados ao sofrimento coletivo foram provocados quando os países europeus, além de suportarem as mortes provocadas nas guerras intestinas, foram dizimados pela peste negra.  As terríveis dores e sofrimentos antecedendo a morte inevitável nos pestilentos, mesmo sendo interpretados como sinais da cólera de Deus, empurraram a busca de respostas que pudessem cessar o desespero.
O Renascimento trouxe o desvendar dos corpos. Os estudos da anatomia são retomados e, em 1543, é publicado o extraordinário livro La fabrique du corps humain, de André Vesálio. Os corpos abertos e o afrouxamento das proibições pela Igreja impulsionam novos avanços.
As mudanças já iniciadas, o desvendar dos corpos pela anatomia e a posição dos filósofos, mesmo com a condenação de Galileu, em 1633, instigam novas leituras da dor, acompanhadas de inevitáveis rupturas com o cristianismo.
Destacam-se, no século 17, o médico inglês Harvey, em 1628, com a publicação do Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in anima, demonstrando os erros de Galeno sobre a circulação do sangue e Marcelo Malpighi, em 1666, com o livro De viscerum structura inaugurando micrologia. Esses livros determinaram o início do processo de enfraquecimento das teorias de Hipócrates e Galeno, até então, aceitas como dogmas, nas universidades cristãs.
Na segunda metade do século 18, os intelectuais, laicizaram a dor. Na França, as rápidas mudanças sociais provocadas pela revolução trouxeram à lembrança os horrores da peste negra e induziram a maior valorização da dor sob a compreensão laica. Entre essas mudanças, destacaram-se: proibição dos sepultamentos nas igrejas, construção dos esgotos e reservatórios de água potável, normas rígidas de higiene pública, desvinculação das universidades do poder eclesial e construção de hospitais sem laço administrativo com a Igreja.
As práticas médicas oitocentistas retomaram nova tentativa de ordenar a dor, adaptando-a às concepções da fisiologia e do pensamento micrológico: dor tensiva (redução da fratura); dor pulsátil (acompanha o ritmo das artérias); dor gradual (presença de líquido na cavidade, como da hidropisia; dor pruriginosa (no prurido intenso, como na sarna).
O século 19 colhendo os frutos da anatomia e da fisiologia amadurece a busca da dor no nível celular, em estreita consonância com a tendência de levar a doença à célula, iniciada no século 17 por Marcelo Malpighi.
No século 20, os progressos para os tratamentos das dores alcançaram dimensão nunca imaginada ser possível. Os estudos genéticos possibilitaram que os analgésicos conseguissem controlar a dor lancinante contínua, como as causadas por alguns tipos de câncer na fase terminal.
BOTELHO, João Bosco.  TRATAMENTOS DA DOR: DA IDADE MÉDIA AO SÉCULO 20 www.historiadamedicina.med.br (Acesso no dia 16/10/2014).