TRADUÇAO / TRANSLATE / TRADUCCIÓN

domingo, 31 de março de 2013

31.- FELIZ PÁSCOA


ANO
7
Serra Gaúcha
Bento Gonçalves
EDIÇÃO
2433
Como ontem, esta edição é postada desde Bento Gonçalves na sempre curtida Serra Gaúcha, que hoje já recebe nosso adeus. Esta  domingueira se faz singular. Vejo que o meu dizer ‘Feliz Páscoa’ a meus leitores se biparte a dois estratos distintos.
Àqueles que creem acolhem meus votos de maneira distinta da dos incréus [incréu, palavra que soa pejorativa; assim como crente, pois no senso comum, se aplica para os adeptos de religiões neopentecostais].   Enfim, quis referir que meus votos de Feliz Páscoa são para os que creem e para os que não creem. Aqui sempre há evocação do livro de Umberto Eco e Carlo Maria Martini (este ex-cardeal de Milão, recentemente falecido): Em que creem os que não creem?
Para os que creem dos votos são de júbilo pela gloriosa transmutação de uma Sexta-feira Santa marcada pelo dor e pela derrota por um domingo de vitoriosa ressureição. Realmente aquelas e aquelas que vivem esse mistério ungidos pela fé e marcados pela liturgia da Semana Santa, muito provavelmente, vivem alegrias inenarráveis.
 Aos que não creem os votos Feliz Páscoa são endereçados desejando que possam ser curtidos dias de recesso laboral e vibrações no acompanhar as celebrações míticas que fazem aflorar lembranças gostosas da infância.
A uns e outros — e também aqueles que sabem fazer das duas dimensões uma glamorosa simbiose — as melhores alegrias neste domingo pascoal.

sábado, 30 de março de 2013

30.- SEXO, DESVIO E DANAÇÃO



ANO
7
Serra Gaúcha
Bento Gonçalves
EDIÇÃO
2432
Esta edição é postada em Bento Gonçalves. Optamos para curtir o feriado pascoal e ver as árvores se dourarem com os tons outonais. Viemos ontem e voltamos amanhã. Daqui, votos de fruído sábado de aleluia, esperando que a ‘malhação de Judas’ seja algo de antanho.
A dica sabática de leitura é de um livro que ainda não li. Trago hoje texto que transcrevo — com autorização — do espacoacademico.wordpress.com, onde o professor Antonio Ozaí da Silva mantém um excelente blogue. Assim, a seguir, a resenha de um livro que já me atiça.
 RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, 204 p.  ISBN: 978-85-71-10258-3.
Concluí a leitura da obra Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média, escrita por Jeffrey Richards. Hereges, bruxos, judeus, prostitutas, homossexuais e leprosos, são grupos minoritários segregados e perseguidos. Embora cada grupo tenha características diferenciadas, o discurso condenatório que constitui o elo da corrente que aprisiona e mortifica corpos e mentes considerados desviantes pode ser sintetizado numa palavra: sexo. Mesmo a lepra termina por ser associada à lascívia, ao desejo sexual, e, portanto, é vista como punição ao pecado carnal.
Por que a moral religiosa e pública condena o sexo? Por que a sexualidade exige o controle absoluto? Na Idade Média, a Igreja Católica foi a instituição predominante na vida moral e espiritual das pessoas. O poder do pastorado almejava controlar todas as esferas do cotidiano, especificando, inclusive, que atos sexuais eram permitidos, onde, quando e com quem. O desejo sexual foi identificado como o mal maior, “um mal acima de todos os males”, segundo Santo Anselmo (1933-1109). O ilustre arcebispo de Cantuária apenas expressava a atitude típica e comumente aceita pela cristandade medieval. As raízes da censura ao sexo estão nos fundamentos originários da religião cristã:
       “Pois a cristandade foi, desde seus primórdios, uma religião negativa quanto ao sexo. Isso significa dizer que os pensadores cristãos encaravam o sexo, na melhor das hipóteses, como uma espécie de mal necessário, lamentavelmente indispensável para a reprodução humana, mas que perturbava a verdadeira vocação de uma pessoa – a busca da perfeição espiritual, que é, por definição, não sexual e transcende a carne. É por isso que os ensinamentos cristãos exaltam o celibato e a virgindade como as mais elevadas formas de vida” (p. 34). [1]
Na concepção cristã medieval o sexo não inclui o prazer:
        “Os teólogos medievais enfatizaram que era um pecado mortal fazer amor com a esposa unicamente por prazer. “Um homem que está ardentemente apaixonado por sua esposa é um adúltero”, disse São Jerônimo no século IV, uma opinião frequentemente reiterada no decorrer da Idade Média” (Id.).
Dessa forma, toda relação sexual “fora do casamento, tanto heterossexual quanto homossexual, era pecado, e, dentro do casamento, só deveria ser usado para fins de reprodução” (Id.). As autoridades eclesiásticas chegaram ao cúmulo de prescrever como deveria ser o sexo sem pecado, isto é, restrito a objetivos reprodutivos:
       “A Igreja prescrevia a forma apropriada da relação. A única forma permitida era a que se conhece hoje em dia como “a posição do missionário”, frente a frente com o homem por cima e a mulher embaixo. Todas as outras variações eram punidas. A relação anal incorria em penitência de sete anos. Havia uma penitência de três anos para o coito dorsal, com a mulher por cima; isto era considerado contrário à natureza, a qual determinava que o homem deveria ocupar a posição dominante. O sexo oral também recebia três anos, assim como a relação com a penetração feita por trás, considerada como algo que rebaixava o homem ao nível das bestas, porque cavalos e cães copulam desse modo. O sexo anal e oral eram provavelmente considerados como contraceptivos, embora não seja especificamente mencionado. Os penitenciais incentivavam os casais a praticarem sexo somente à noite e mesmo assim parcialmente vestidos. Fica claro que o sexo era visto como algo essencialmente vergonhoso” (p. 40).
Por outro lado, a relação sexual, ainda que com objetivo meramente reprodutivo, era interditada sob determinadas circunstâncias:
        “A Igreja regulamentava a atividade sexual dentro do casamento, proibindo-a em todos os dias de festas religiosas e jejuns (dos quais havia 273 no século VII, embora já estivessem reduzidos para 140 no século XVI), aos domingos e nos períodos em que se considerava que a esposa estivesse impura (durante as regras menstruais, durante a gravidez, durante o aleitamento e por quarenta dias após o parto)” (p. 39).
A demonização do sexo na Idade Média foi também uma forma de estigmatizar as minorias desviantes, geralmente associadas às práticas sexuais abomináveis e em desacordo com a opinião eclesiástica e das autoridades civis – mas também enraizadas no senso comum. Embora inaceitável, do ponto de vista da modernidade, podemos fazer o esforço de compreender o pensamento teológico-civil medievalista, considerando-se o contexto histórico, cultural, etc. Mas, o que dizer da persistência dos estigmas e da postura condenatória em pleno século XXI? Por que será que atitudes e pensamentos medievais sobre a sexualidade persistem e sentenças de danação ainda são proferidas? Por que o sexo continua a ser concebido como pecado? Não teria sido mais apropriado se o Criador tivesse decidido por criaturas assexuadas?!
[1] Todas as citações são da obra acima referida.

sexta-feira, 29 de março de 2013

29.- QUEM CUIDA DO CUIDADOR?



ANO
7

EDIÇÃO
2431
Mesmo que minhas evocações de Sexta-feira Santa (fortemente marcadas em proibições: assoviar, martelar, varrer casa, ordenhar vacas, ouvir rádio,... — salvo se fosse música clássica) hoje residam no escaninho folclore, a edição de hoje é original.
O ‘cuidado’ é assunto que está na crista da onda. Há trabalhos acadêmicos (como o de Ilíria François Wahlbrinck) que cuidadosamente se envolvem com o tema. Quem assistiu ao excelente filme ‘Intocáveis’ [Direção: Olivier Nakache e Eric Toledano. Produção: França, 2011] provavelmente se perguntou: Quem cuida do cuidador?
No último dia 19 o tema ganhou unção papal. A seguir trago a homilia inaugural de Francisco (extraída, como a foto) de www.vaticano.va onde apenas abrasileirei o português de Portugal) com quase de três dúzias de referências ao assunto, que assinalei. Com esta edição a manifestação de meu respeito à data.
"
Queridos irmãos e irmãs!
Agradeço ao Senhor por poder celebrar esta Santa Missa de início do ministério petrino na solenidade de São José, esposo da Virgem Maria e patrono da Igreja universal: é uma coincidência densa de significado e é também o onomástico do meu venerado Predecessor: acompanhamo-lo com a oração, cheia de estima e gratidão.
Saúdo, com afeto, os Irmãos Cardeais e Bispos, os sacerdotes, os diáconos, os religiosos e as religiosas e todos os fiéis leigos. Agradeço, pela sua presença, aos Representantes das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, bem como aos representantes da comunidade judaica e de outras comunidades religiosas. Dirijo a minha cordial saudação aos Chefes de Estado e de Governo, às Delegações oficiais de tantos países do mundo e ao Corpo Diplomático.
Ouvimos ler, no Evangelho, que "José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua esposa" (Mt 1, 24). Nestas palavras, encerra-se já a missão que Deus confia a José: ser  guardião. Guardião de quem? De Maria e de Jesus, mas é uma guarda que depois se alarga à Igreja, como sublinhou o Beato João Paulo II: "São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo".
Como realiza José esta guarda? Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entender. Desde o casamento com Maria até ao episódio de Jesus, aos doze anos, no templo de Jerusalém, acompanha com solicitude e amor cada momento. Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida, na ida a Belém para o recenseamento e nas horas ansiosas e felizes do parto; no momento dramático da fuga para o Egito e na busca preocupada do filho no templo; e depois na vida quotidiana da casa de Nazaré, na carpintaria onde ensinou o ofício a Jesus.
Como vive José a sua vocação de guardião de Maria, de Jesus, da Igreja? Numa constante atenção a Deus, aberto aos seus sinais, disponível mais ao projeto d'Ele que ao seu. E isto mesmo é o que Deus pede a David, como ouvimos na primeira Leitura: Deus não deseja uma casa construída pelo homem, mas quer a fidelidade à sua Palavra, ao seu desígnio; e é o próprio Deus que constrói a casa, mas de pedras vivas marcadas pelo seu Espírito. E José é "guardião", porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão; mas vemos também qual é o centro da vocação cristã: Cristo. Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação!
Entretanto, a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Génesis e nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos. É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. É cuidar uns dos outros na família: os esposos guardam-se reciprocamente, depois, como pais, cuidam dos filhos, e, com o passar do tempo, os próprios filhos tornam-se guardiões dos pais. É viver com sinceridade as amizades, que são um mútuo guardar-se na intimidade, no respeito e no bem. Fundamentalmente tudo está confiado à guarda do homem, e é uma responsabilidade que nos diz respeito a todos. Sede guardiões dos dons de Deus!
E quando o homem falha nesta responsabilidade, quando não cuidamos da criação e dos irmãos, então encontra lugar a destruição e o coração fica ressequido. Infelizmente, em cada época da história, existem "Herodes" que tramam desígnios de morte, destroem e deturpam o rosto do homem e da mulher.
Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos "guardiães" da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para "guardar", devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura.
A propósito, deixai-me acrescentar mais uma observação: cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura. Nos Evangelhos, São José aparece como um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura!
Hoje, juntamente com a festa de São José, celebramos o início do ministério do novo Bispo de Roma, Sucessor de Pedro, que inclui também um poder. É certo que Jesus Cristo deu um poder a Pedro, mas de que poder se trata? À tríplice pergunta de Jesus a Pedro sobre o amor, segue-se o tríplice convite: apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio Papa, para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afeto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos, aqueles que Mateus descreve no Juízo final sobre a caridade: quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, doente, na prisão (cf. Mt 25, 31-46). Apenas aqueles que servem com amor capaz de proteger.
Na segunda Leitura, São Paulo fala de Abraão, que acreditou «com uma esperança, para além do que se podia esperar» (Rm 4, 18). Com uma esperança, para além do que se podia esperar! Também hoje, perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança. Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança! E, para o crente, para nós cristãos, como Abraão, como São José, a esperança que levamos tem o horizonte de Deus que nos foi aberto em Cristo, está fundada sobre a rocha que é Deus.
Guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos: eis um serviço que o Bispo de Roma está chamado a cumprir, mas para o qual todos nós estamos chamados, fazendo resplandecer a estrela da esperança: Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!
Peço a intercessão da Virgem Maria, de São José, de São Pedro e São Paulo, de São Francisco, para que o Espírito Santo acompanhe o meu ministério, e, a todos vós, digo: rezai por mim! Amém."

quinta-feira, 28 de março de 2013

28.- ENSINO & FOSSA SÉPTICA

ANO
7

EDIÇÃO
2430

A edição desta Quinta-feira (Santa) não rima com a solenidade da data. Espraio-me no ensino sujo lembrado ontem aqui. Trago um artefato desconhecido de gerações mais jovens.
Falo de ‘fossa asséptica’ trazendo excertos do capítulo: A educação nas ciências: para além das disciplinas que está no livro Perspectivas de investigação no campo da Educação Ambiental & Educação em Ciências [HENNING, Paula Corrêa et alii, Rio Grande: Furg, 2011a ISBN 978-85-7566-168-0]
Quando refiro que não queremos um ensino asséptico estou defendendo um ensino sujo. A sujeira não existe quando há assepsia. Vale lembrar em que substantivo usualmente está o substantivo séptico: fossa séptica. A fossa presente em situações onde não esgoto cloacal.
As fossas sépticas são unidades de tratamento primário de esgoto doméstico nas quais são feitas a separação e a transformação físico-química da matéria sólida contida no esgoto. É uma maneira simples e barata de disposição dos esgotos indicada, sobretudo, para a zona rural ou residências isoladas. No Rio Grande do Sul, essa é maneira mais comum na maioria dos balneários litorâneos. Aqui algo lateral: as fossas devem ser sépticas, pois funcionam como biodigestores para degradar as fezes, logo é desrecomendável colocar no vaso sanitário produtos de limpeza, especialmente bactericidas, pois esses vão exterminar a flora bacteriana que tem na fossa e as fezes não serão degradadas. Séptico (contrário de asséptico) significa sujo. Você encontra este adjetivo associado ao substantivo fossa. A fossa deve ser séptica, pois ela funciona como um estômago, para fazer a digestão das fezes. Quando colocamos detergentes, principalmente alcalinos, estamos destruindo a fauna bacteriana, e a fossa deixa de ser séptica, deixando de cumprir as suas finalidades.
Assim a proposta é de o ensino seja séptico, isso é encharcado na realidade cotidiana onde buscamos o conhecimento. A Escola, modelada na Igreja à sombra de quem nasceu – sempre buscou desvincular-se do mundo onde está inserida. Uma evidência desta postura da igreja está no detalhe de que até muito recentemente os membros de ordens religiosas trocavam de nome, para mostrar seu abandono ao mundano. Na escola, à medida que ascendemos aos níveis maiores de ensino, quando mais limpo, mais matematizado, o ensino parece de ‘mais bom tom’. Nem parece que a Ciência é um instrumento para a leitura do mundo natural (que não é asséptico).
A assepsia é uma característica que está muito presente no ensino, principalmente quando se ascende aos graus maiores do ensino. Parece importante mostrar um ensino limpo, como se o que se ensina tivesse sido construído por mentes privilegiadas, e coubesse ao professor contar o que os mais iniciados descobriram. É conhecida a exemplificação [e o fato é real] do professor de ciência que ensinava as partes da árvore, usando slides e desenhos no quadro-negro, quando no pátio, ao lado de sua sala, havia várias árvores, que não foram lembradas. Acredito que cada um poderia ilustrar convenientemente ações docentes que são completamente desvinculadas da realidade. É provável que quando nos perguntamos “porque estou ensinando este conteúdo?” e não temos uma resposta convincente é porque, provavelmente, este conteúdo é inútil para os alunos.

quarta-feira, 27 de março de 2013

27.- ENSINO MAIS SUJO!




ANO
7

EDIÇÃO
2429
De repente, na manhã atarefada desta segunda-feira, uma surpresa! Recebo um alerta do Facebook que Estácio Victor escreveu:
""Há necessidade de tornar o nosso ensino mais sujo, isto é, encharcá-lo na realidade" (CHASSOT, Attico)."
Logo em seguida, alguém faz uma interpretação menos ortodoxa à afirmação:
“Até porque inchar números com educação continuada e ProUni não é nada muito condizente com a realidade!”
Isto recebe a contestação imediata do Victor desde Belém do Pará:
O contexto não era esse, mas vale a interpretação. A ideia é de um ensino menos matematizado (inclusive para a matemática — para não tornar o termo pejorativo) e próximo de uma realidade que não é sempre exata.
De vez em vez, enquanto acalmava impaciências de orientandas — quatro delas resolveram no ocaso do domingo pautar minha segunda-feira — interrogava-me onde fizera a afirmação sobre uma desejada sepsia (e não assepsia) no ensino. Comecei a pass(e)ar por livros e artigos na busca de pegadas. Os eficientes robôs do Google foram hábeis em dar pistas. À noite, serenadas as solicitações, escrevia:
Estimado Estácio Vitor, obrigado por ressuscitares uma afirmação minha há um tempo adormecida no Alfabetização científica: Questões e desafios para a Educação, cuja 1ª edição é de 2000 (atualmente circula a 5ª). Há um tempo não recordava está ideia. Encontrei três artigos (dois de etnomatemática e um de etnobotânica) que a citam. Agradeço também por zelares por uma mais conveniente interpretação.
Ontem, depois das aulas de Teorias do Desenvolvimento Humano da tarde e da noite, havia um blogue a postar. Optei por trazer o relato que Estácio Vitor catalisou.
As citações presentes nos três artigos antes referidos, esta no Alfabetização científica: Questões e desafios para a Educação, no capítulo: ‘Buscando um ensino menos apolítico’ onde diz:
“É preciso abandonar a assepsia. Há necessidade de tornar o nosso ensino mais sujo, isto é, encharcá-lo na realidade. Há usualmente, uma preocupação de se fazer um ensino limpo. A matematização parece ser um indicador de quanto o que ensinamos é para mentes privilegiadas e, portanto, desvinculado da realidade do mundo do que se pretenderia explicar.”
Num dos artigos: Educação matemática e geometria: possibilidades e limitações de um processo pedagógico etnomatemático, Elaine Maria Ludwig Kerber, professora da Escola Estadual de Ensino Médio Poço Antas, traz sua experiência como especialista em Ensino de Matemática, na Univates, quando escreve:
De fato a escola, na maior parte das vezes, não problematiza o currículo escolar, aceitando-o como “algo dado” e não sujeito a possíveis modificações e contestações. Parece querer um currículo “seco”, não imbuído da realidade e da cultura dos alunos. Nesse sentido, Chassot (2001, p. 98) afirma: [segue a citação transcrita acima].
Um segundo artigo Reflexões sobre inclusão/exclusão no âmbito da Educação Matemática, publicado em 2007, na Revista do ICHLA, de autoria das então doutorandas: Claudia Glavan Duarte e Vera Lúcia da Silva Halmenschlager [esta particularmente lembrada aqui com saudade evocando seu prematuro falecimento] traz a mesma citação, em contexto parecido.
No terceiro texto Etnobotânica no currículo de ciências do ensino fundamental na educação de jovens e adultos – EJA, André Boccasius Siqueira, hoje doutor em Educação cita o mesmo excerto, em artigo apresentado na ANPEDSUL. Relatando seu trabalho de dissertação de mestrado, feito sob minha orientação.
Assim, agradeço ao paraense Estácio Victor me ajudou rever alguns textos e catalisou esta blogada. Adito votos de uma curtida quarta-feira.

terça-feira, 26 de março de 2013

26.- ¡FELIZ ANIVERSÁRIO... PORTO ALEGRE!



ANO
7

EDIÇÃO
2428
Nesta terça-feira Porto Alegre está de aniversário. Nascida em 1772 e batizada com o nome de Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais, completa 241 anos. Durante este período, mudou várias vezes de nome: Porto de Viamão (século 18), depois Porto do Dorneles, em seguida Porto de São Francisco dos Casais e, finalmente, Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre.
É a cidade que fiz minha há mais de meio século, pois vivo aqui desde 1958. Devo dizer que gosto da cidade que é a cidade natal de meus filhos e da maioria de meus netos. A foto que faz homenagem é do meu filho André, um fotógrafo que tem na cidade uma de suas musas.
Não vou fazer destaque aos meus encantamentos pela cidade. Se diz ser uma das cidades mais arborizada do Brasil, isto talvez seja determinante de meus maiores apreços pela badalada ‘capital de todos os gaúchos’. Acredito folclórica (seria melhor dizer: ridícula), a afirmação blasonada aos quatro ventos que ela tenha “um dos mais lindos pores-do-sol do mundo”. São lindos, sim!... como todos e qualquer um.
Outro vangloriar-se tolo da cidade é a frase de seu brasão e de sua bandeira: “Mui Leal e Valerosa Cidade de Porto Alegre”. Esse é título (documento de concessão na ilustração), outorgado pelo Imperador Dom Pedro II, em 1841 à cidade, quando a esta capturada aos farrapos (movimento separatista) se mantém leal ao Império, logo não aderindo mais aos revolucionários, sendo atestada por este título sua deserção aos farroupilhas.
Mas, olhando mazelas mais recentes: desagrada-me em Porto Alegre seu sistema de trânsito. O transporte público é moroso e quase inservível. O deslocamento de carros particulares parece ser a cada dia mais lerdo e, ultimamente, com justificativas: são as obras da Copa.
Algo que é injustificável: a Prefeitura Municipal fazer propaganda na imprensa, com um bordão que traduz no mínimo falta de bom senso: “Somos uma cidade que não para de crescer!” Qual a vantagem de ser uma cidade grande? Para que pagar para badalar isso?
Mesmo assim, Porto Alegre é demais. E, é tri-legal morar aqui no paralelo 30

segunda-feira, 25 de março de 2013

25.- AINDA BATENDO NA MESMA TECLA



Ano 7
ANO 7

EDIÇÃO
2427
Estamos em uma semana muito especial para aqueles estão inseridos no mundo cristão: a semana santa iniciada ontem e que culmina do domingo com a celebração da Páscoa. Também, para os de fé judaica estes são dias que envolvem celebrações pascais.
Familiarmente, por questões de agenda dos filhos, fizemos no entardecer de ontem uma celebração com os netos aqui na Morada dos Afagos. Estavam oito dos nove (citados cronologicamente): Maria Antônia (quase 14 anos), Guilherme, Maria Clara, Antônio, Pedro, Felipe, Carolina, Betânia (2,5 meses); lembramos o Thomas, que vive no exterior.
O vídeo aqui comentado ontem, os silenciou por um momento. Depois foi a corrida em busca dos ovos.
Havia proposto dar um tempo para assuntos ligados a dimensão religiosa, recorrente aqui, desde 11 de fevereiro quando do anúncio da resignação de Bento 16, chegando ao ápice em 13 de março com a escolha de Francisco.
Todavia, recebi sábado esta mensagem: Amigo prof. Chassot: Na assentada da poeira de eleição do novo papa (como você mencionou na blogagem de hoje) publico amanhã [na imprensa de Belém do Pará] o artigo que vai em anexo, com minha contribuição para o assunto. Abraços, José Carneiro.
Preparava esta edição quando a minha amiga e colega Conceição (esposa do Zé Carneiro) dá-me notícia do sepultamento neste domingo do irmão do Zé: Manuel —um Google ambulante, em se tratando de filmes —. Assim a publicação do texto é também uma homenagem a um cinéfilo, que herdou do seu Duca, referido aqui ainda em blogada recente, o DNA fílmico.
O Papa, portenho e estiloso: O mundo inteiro ficou sabendo, em meio a expectativas generalizadas, que a eleição do novo Papa, o chefe unitário da Igreja Católica, decorreu na mais perfeita tradição canônica, a não ser pela surpresa resultante da escolha inédita feita pelos Cardeais do Conclave: o ungido é argentino (embora de ascendência italiana), jesuíta (nunca houve um Papa oriundo dessa ordem religiosa), não era favorito (sequer cotado na bolsa das apostas jornalísticas) e adotou o nome pioneiro de Francisco, como passará a ser conhecido. Coroando tudo isso, já na sua primeira apresentação pública, da janela do Vaticano de onde se dirigiu aos fiéis e aos turistas em geral na Praça de São Pedro, o Papa Francisco, em curtas palavras, demonstrou todo o seu poder de comunicação com o público, deixando de lado a liturgia para expor, de maneira bastante simples, suas idéias nessa primeira aparição pública, após eleito. Isso foi o suficiente para sua aceitação coletiva, tendente a crescer na medida em que aumentarem os sorrisos papais e, subseqüentemente, sua atuação a frente da Igreja Católica.
Ante a surpresa da escolha do cardeal argentino – que considerou a si mesmo vindo do fim do mundo, numa alegoria feliz à Patagônia – a imprensa mundial não demorou a expor o perfil do Papa Francisco, na sua atividade diária em Buenos Aires e espraiada pelo país. Foi quando, então, o mundo conheceu um homem ilustrado, mas simples, que preferia andar de metrô ao invés de carros de luxo, que cozinhava ele próprio a sua comida e que fazia clara opção pelos pobres, sem descurar, contudo, da defesa dos dogmas tradicionais da Igreja – que condenam a homossexualidade, por exemplo – o que lhe teria rendido alguns arrufos com o atual governo argentino. Houve também insinuações vinculando-o à ditadura militar da década de 1970, sem repercussões, todavia, capazes de toldar a sua biografia, embora isso não deva ser desprezado, agora ou no correr dos tempos.
Os dias seguintes à eleição confirmariam o estilo que ele pretende impor daqui por diante, quebrando protocolos conhecidos, driblando a rígida segurança que o Vaticano impõe aos prelados e fazendo valer, na medida do possível, a sua agenda, como foi o caso de se dirigir ao hotel em que ficara hospedado antes do Conclave, para pagar sua despesa pessoal. Já entronizado formalmente no papado, o argentino Francisco diplomaticamente usou seu sorriso aberto para confraternizar com a Presidenta argentina, e com os Chefes de Estado – de países católicos ou não – que foram homenageá-lo.
Diante da crise que a Santa Madre Igreja vem atravessando – como a pedofilia e os desmandos financeiros do banco do Vaticano – e sobre a qual não há espaço aqui para os devidos aprofundamentos, o Papa Francisco já deu sinais claros de que pretende, gradativamente, ir enfrentando os problemas mais pontuais, quem sabe os mais pessoais, a fim de oferecer satisfação direta aos milhões de fiéis que esperam dele ações efetivas nesse rumo. Quanto a isso, só o tempo é que poderá dizer se a Igreja Católica encontrou o caminho difícil do saneamento. Certamente voltarei a este assunto candente.
Se o Papa Francisco for arisco e driblador como Messi, ousado como Maradona, filosófico como Jorge Luis Borges e se continuar popular como Carlos Gardel, aí sim, pode-se inferir que o Papa argentino tem tudo para registrar sua marca à frente do Vaticano. Esperemos, sem pressa, que seja uma boa marca, a ser difundida pelo mundo afora e por todos os séculos. 

domingo, 24 de março de 2013

24.- PRELIBANDO EVOCAÇÕES PASCAIS




Ano 7***  www.professorchassot.pro.br Edição 2426
Hoje é domingo de ramos. Começa uma semana que nos traz evocações. Rituais religiosos embalaram a infância de muitos de nós. Marcavam a passagem dos tempos. Era a espera do natal. Era a espera da semana santa. E estas passagens não nos fez incólumes. A inocência perdida fez esboroar mitos, crenças, fé e por tal, ilusões.
Não vou fazer divagações. Ofereço a meus leitores um filmete: www.youtube.com/watch?v=XZ78NKjX7Uw é uma celebração muito terna de crianças da Educação Infantil de uma comunidade luterana do Paraná, Em cinco minutos representam o dia de ramos, a última ceia ~~ só esta cena vale o filme ~~, a sexta-feira santa e o domingo da ressurreição.
Haverá os que se encantarão vendo a doçura (e a ingenuidade) dos pitoquinhos. Outros talvez se revoltem com a catequização dogmática imposta às crianças. Entre estas duas leituras cabem muitas outras. Vale curtir. Com augúrios de um bom domingo a cada uma e cada um. Aos de fé cristã, adido votos uma boa semana santa.

sábado, 23 de março de 2013

23.- UM ROMANCE SOBRE RELIGIÕES




Ano 7***  www.professorchassot.pro.br Edição 2425
Hoje a dica sabática está num espraiamento dos envolvimentos que tivemos — uns mais, outros menos — com os continuados surpreenderes do jesuítico-franciscano. Passada já uma novena da bombástica fumaça branca, a fuligem parece assentando. Espera-se sopros removedores / renovadores.
Trago comentários de livro que li há mais de cinco anos: A viagem de Théo - Romance das religiões de Catherine Clement foi, há um tempo, apontado como o homólogo de O mundo de Sofia. O que este representou para a Filosofia, aquele significa para as religiões. Esta resenha a escrevi originalmente para o extinto sítio ‘Leia Livros’ da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
CLEMENT, Catherine A viagem de Théo - Romance das religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, 626 p. ISBN 85-7164-819-0
Em A viagem de Théo, Catherine Clement (foto), uma francesa nascida em 1939, que estudou Filosofia e Ciências Humanas. 
Autora de mais de 30 livros traduzidos em 24 idiomas. Hoje mora na África, nos leva a fazer uma viagem maravilhosa pelo Planeta, com dois personagens centrais – Théo e Tia Marthe –para conhecer as relações de homens e mulheres com o sagrado.
Théo é um jovem adolescente francês, que mora em Paris, vive com o pai, a mãe e duas irmãs e tem uma namorada senegalesa. Gosta daquilo que os adolescentes gostam música, computador, namorar; mas também gosta muito de livros e de estudar sobre religiões. Repentinamente, Theo é acometido de grave e desconhecia enfermidade. Vem em seu socorro, tia Marte. Ela é uma figura extravagante, quando jovem casara-se com um japonês na Tailândia e cinco anos depois se separa para tornar-se mulher de um banqueiro australiano, do qual depois se torna uma rica viúva e uma dama cosmopolita, que esbanja vitalidade. Quem ganha com isso são os sobrinhos. E nesse contexto que tia Marthe salva Théo.
A proposta da tia é tirar o menino da cama e lhe mostrar ao vivo aquilo que vira nos livros. Empreendem uma viagem que começa em Jerusalém e segue-se por muitas outras cidades das quais algumas são Cairo, Tóquio, Jacarta, Nova York, Roma, Delfos, Dacar, Moscou, Istambul. Nessas diferentes estadas, mesmo que a centralidade seja a religião, a autora vai nos envolvendo com outras produções culturais locais e nós leitores nos tornamos viajores partícipes das emoções de Théo e Marthe. Ocorre que esta não é apenas uma grande conhecedora da geografia e da história dos locais visitados, mas também tem conhecimentos acerca das diferentes religiões, trazendo respostas muito enriquecedoras às continuadas interrogações do sobrinho.
Objetivo é ver e estudar, e até viver, localmente as razões pelas quais homens e mulheres se aproximam de uma determinada religião e porque a vivem tão intensamente. E mais, por que tantos têm vontade, ou até sentem necessidade, de ter uma vivência espiritual? Por queoutros que se sentem mais sendo ateus? Ou outros são religiosamente agnósticos?
Assim Théo e tia Marthe viajam a lugares onde querem encontrar os fundamentos do catolicismo, do judaísmo, islamismo, protestantismo, budismo, taoísmo. Visitam templos, locais sagrados, participam de festas e rituais. Essas participações usualmente são por demais envolventes, mesmo àqueles que nelas se envolvem (apenas como expectadores) sem professar determinada religião. Se contar que no roteiro da viagem se inclui Salvador, podemos imaginar a dupla conhecendo os ritos afro-brasileiros e o entendimento do sincretismo que se faz com os rituais e com os santos do catolicismo.
Vale destacar que o livro de mais de 600 páginas apresenta um extenso (10 páginas) índice remissivo que se faz de excelente aplicabilidade pois é apresentado em quatro formatações diferentes, facilitando o acesso a: i) nome de lugares; ii) religiões e seus adeptos; iii) nomes de pessoas e entidades mitológicas ou lendárias; e, iv) palavras ligadas a uma religião ou a uma prática religiosa.
Por esta apresentação, acredito que as leitoras e os leitores deste blogue que quiserem conhecer acerca das histórias das religiões poderão fazer companhia a dupla. Muito provavelmente viajarão em um mundo que trará revelações