TRADUÇAO / TRANSLATE / TRADUCCIÓN

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

17.- Um tríduo soteropolitano


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3325



Inauguro esta edição comentando um gentílico que se afigura como exótico, senão pernóstico. Ele está na chamada desta edição. O Priberam dicionariza so·te·ro·po·li·ta·no :
(Soterópoli[s].topônimo [nome helenizado da cidade de Salvador] + -ense)
adjetivo de dois gêneros
1. Relativo à cidade de Salvador, capital do estado brasileiro da .Bahia.
substantivo de dois gêneros
2. Natural ou habitante de Salvador.
O exotismo parece se evidenciar em sua origem na helenização (= tornar-se conforme ao caráter grego) do nome do município de Salvador, capital da Bahia para Soterópolis (cidade de Salvador), a partir da união de "σωτήρ" (transliteração: sōtēr, -os) que significa ‘salvador’ e "πόλις" (transliteração: pólis) cidade, ambos do grego antigo. O segundo polis (cidade, em língua grega) faz parte como topônimo de centenas de cidades brasileiras: Petrópolis, Teresópolis, Ilópolis... cidade de Pedro; cidade de Teresa; cidade da erva-mate Ilex paraguariensis (nome científico da erva-mate).
O esnobismo do gentílico se expande quando se observa que em sua bandeira há uma pomba com um ramo de oliveira e o lema em latim é: “Sic illa ad arcam reversa est" que faz alusão à narrativa do Gêneses, quando Noé recebe a mensagem que as águas do dilúvio baixaram: "Assim ela voltou à arca."
Depois deste extenso e erudito preâmbulo não preciso dizer que estou em Salvador — a histórica capital da Bahia — ou melhor em Soterópolis, a Cidade do Salvador. Cheguei, no começo da tarde desta terça-feira, à cidade fundada em 1549 por Tomé de Sousa como São Salvador da Bahia de Todos os Santos como primeira capital, quando da implantação do Governo-Geral do Brasil pelo Império Português, partir do marco da fundação da cidade, no Forte (de Santo Antônio) da Barra.
A primeira capital do Brasil é notável em todo o país — e também no exterior — pela sua gastronomia, música, carnavais e arquitetura.
A influência africana em muitos aspectos culturais da cidade a torna o centro da cultura afro-brasileira. Por tal recebeu epítetos como ‘Roma Negra’ e ‘Meca da Negritude’, por ser uma metrópole com uma percentagem grande de negros. Segundo dados de 2014, cerca de 82% da população de Salvador se declarou negra. A foto, onde estou com oito alunas do curso de Química da Universidade do Estado da Bahia (UNEB -campus de Salvador) é uma amostra do perfil do alunado:' mulheres negras'.  Esta é uma realidade que Sul branco, por exemplo, não conhece.
De acordo com a Wikipédia, o antropólogo Vivaldo da Costa Lima diz que a expressão "Roma Negra" é uma derivação de "Roma Africana", cunhada por Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opó Afonjá. Nos anos 1940, Mãe Aninha dizia que, assim como Roma é o centro do catolicismo, Salvador seria o centro do culto aos orixás.
O Centro Histórico de Salvador, iconizado na região do Pelourinho, é conhecido pela sua arquitetura colonial portuguesa com monumentos históricos que datam do século XVII até o início do século XX, tendo sido declarado como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1985. Palco de um dos maiores carnavais do mundo (maior festa de rua do mundo segundo o Guiness Book, também por isso Salvador é conhecida como "Capital da Alegria".
Meus colegas baianos foram generosos no oferecer-me experenciar a linda capital. Na quinta-feira, a Carmen e a Tatiana me levaram ao centro histórico. Parece não existir cidade brasileira com tantos atrativos como Salvador. O que vi na ‘hora do almoço’ cobriria parágrafos: passarelas do carnaval, praça Castro Alves, elevador Lacerda, dezenas de igrejas, Pelourinho onde brindaram-me com almoço no Museu Culinário do SESC com quarenta pratos diferentes. À noite nova vivência culinária exótica: a Sílvia, Rodnei e Saulo ofereceram uma rabada, algo inédito para mim.
Mas, eu não vim a turismo — mesmo que afortunadamente sempre se dê ‘roubadinhas’ e se encontre sumarentos momentos de lazer — mas para participar do XII EDUQUI Encontro de Educação Química da Bahia que nesta edição tem como mote Licenciatura em Química: Estagnação, Extinção ou Ressignificação? Recordo já ter participado de pelo menos três EDUQUIs em 2003 em Ilhéus, 2005 em Jequié e 2012 em Salvador. Na edição deste ano a Universidade do Estado da Bahia é a anfitriã.
Na manhã de quarta-feira fiz a palestra inaugural “Das disciplinas à indisciplina”. Aditei ao meu já usual ‘fora temer’ minha preocupação por ter visto naquela manhã, em um prédio do Exército duas imensas faixas com escritos algo similares a “Chega de corrupção! queremos que os militares assumam o poder”. Há temeridade nestes tempos temerosos.
Nas noites de quarta e quinta feiras ministrei oficina acerca da “História da Ciência catalisando à indisciplinaridade” para 25 professores e alunos. Agradou-me muito a atividade.
Nesta sexta-feira retorno a Porto Alegre já pensando em reencontros com muitos parceiros no fazer Educação. Alguns em Goiânia em janeiro no Eduquim e outros no Eneq em Rio Branco em julho.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

10.- Três dias na Noiva do Mar



ANO
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3323

Esta edição ocorre quando retorno de três dias sumarentos em Rio Grande, onde participei de dois eventos. Parti às 22h de sexta-feira, com horário de chegada previsto em Porto Alegre às 03h. Na quarta-feira, cheguei à Universidade Federal de Rio Grande (FURG) conduzido pelo meu atencioso colega Guy Barros Barcellos. À tarde, fiz a palestra de encerramento do IV Fórum Acadêmico Integrado de Química — IV FAIQ. À noite participei de uma confraternização na residência de Maria do Carmo e Manoel no balneário Cassino.
A quinta e sexta-feira foram os dias do 37º Encontro de Debates sobre o Ensino de Química — 37EDEQ — onde ministrei um minicurso e participei uma mesa-redonda.
No Brasil não são muitos eventos que atingem uma realização sequencial com um número tão significativo de edições. E, a esta constatação, adito outra informação que penso bastante rara: estive em todas as 37 edições (no 16EDEQ, em 1996 na Universidade de Santa Cruz, envolvi-me na organização do evento, mas não pude estar ao vivo, por ter feito uma cirurgia na tíbia e na fíbula; enviei mensagem que foi lida pelo meu amigo Edni).
Parece, até para preservação de memórias, algo da gênese do evento, que é importante narrar aqui e agora nosso começo. A Sociedade Brasileira de Química é fundada em São Paulo, em 1978, também para ser alternativa à Associação Brasileira de Química, por demais integrada à matriz da produção da Química industrial. Espaços ficam naturalmente delimitados:  ABQ no mundo da produção industrial (a fábrica); SBQ no mundo da produção acadêmica (a universidade).
Em 1980, se estabelece em Porto Alegre uma regional da SBQ. Ocupo o cargo de secretário regional do RS e para dar visibilidade à novel Secretária Regional da nova entidade, organizo junto com Maurivan, um primeiro EDEQ, que ocorreu em 6 de dezembro, na PUC de Porto Alegre.
Reunimos, então uma centena de professores de Química, dos três graus de ensino, para discutir: “As inter-relações do ensino da Química nas diferentes etapas da escolarização, bem como as interações dos pesquisadores com o ensino”. Estava dada a partida não apenas a realização dos EDEQs mas se lançava sementes para realização de outros eventos regionais (pois o EDEQ, mesmo que não apareça no nome é um encontro gaúcho acerca de ensino de Química) e também Encontro Nacional de Ensino de Química (ENEQ) que são encontros nacionais bianuais, cuja primeira edição foi na UNICAMP em 1982. Há significativas produções por exemplo no VII ENEQ na UFMG, em 1994, quando surgiu a revista Química Nova na Escola.
Em quase 40 anos, houve apenas uma lacuna: em 1991 quando estava programado o XII EDEQ na cidade de Pelotas, assumido pela UCPEL e pela SMED de Pelotas. Houve uma série de tratativas como estabelecimento do programa, convite a palestrantes etc, mas por problemas locais foi quebrada uma tradição ininterrupta, então de 11 anos.
Reviver, neste singelo relato o peregrinar em quase duas dezenas de universidades gaúchas e uma escola técnica embalou saudades. Parece que se pode dizer que o EDEQ que a cada ano reúne centenas de educadores gaúchos incomodados — os acomodados nunca vêm aos EDEQs — com suas ações enquanto profissionais contribuído para a melhoria da Educação gaúcha.
Coube-me a honra se encerrar o evento; disse: ‘Vemo-nos na Ulbra em Canoas em outubro de 2018 no 38 EDEQ!’
Um último, mas importante destaque, talvez cerca de dois terço dos quase meio milhar de participante do 37EDEQ eram jovens alunos de licenciaturas e mestrandos e doutorandos.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

03,- Quinhentos anos da REFORMA LUTERANA


ANO
 12
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EDIÇÃO
3323

Anunciara, ao encerrar última edição deste blogue, que inauguraria as blogadas de novembro com referências ao 5º Centenário Reforma Luterana ocorrido no último dia 31 de outubro. As mídias sociais parecem ter dado pouco destaque ao evento. Por exemplo, a Rádio Vaticana (no programa brasileiro) só comentou a efeméride no dia seguinte.
Na manhã desta sexta-feira foi muito significativo ouvir a Joana Martins Apolinário, no encanto de seus quase 8 anos, falar-me dos feitos de Lutero. Dedico a ela este blogue, produzido a partir do capítulo Escola e Universidade, p. 155-187 do ‘Das disciplinas à indisciplina
Há quando se quer definir o início dos tempos modernos há propostas de eventos, que decretaram modificações significativas na Europa, que podem marcar o fim da Idade Média. Assim, para o seu término são propostos os seguintes eventos (aqui citados em ordem cronológica): 1439: invenção da imprensa // 1453: queda de Constantinopla // 1453: fim da Guerra dos 100 anos // 1492: descoberta da América// 1517: Reforma Luterana // 1534: Reforma Anglicana.
Mesmo que eu não seja historiador, se tivesse de eleger um, a minha escolha seria, para o mais significativo, a Reforma Luterana, desencadeada por Lutero*, talvez marcado pelo meu viés dito ‘igrejeiro’, (leia-se querer ler a história marcada de maneira significativa pela presença da religião). Se fosse eleger outro, seria a invenção da imprensa, reconhecendo-a tão importante, quanto o invento da Internet, talvez, a criação mais revolucionária do Século 20.
Esta blogada não dá conta no destacar as muitas consequências políticas, sociais, econômicas, culturais e educacionais advindas de diferentes cisões no até então quase monolítico domínio da igreja católica romana. Destas cisões são relevantes as consequências da Reforma Luterana. Talvez um dos feitos mais significativos de Lutero foi traduzir toda Bíblia para o alemão, em uma edição de 1534. Antes houve outras traduções parciais (especialmente dos evangelhos) em diferentes idiomas.
A Bíblia de Lutero se torna referência na manutenção da ortodoxia nas igrejas reformada. Ela confere ao alemão o status de língua culta e com isso fortalece o emergente conceito de ‘Estado nação’. Há quem mostre que a língua alemã e mesmo a Alemanha tenham como uma das geratrizes a Bíblia traduzida por Lutero.
Importância mais significativa desta tradução foi que então a Bíblia estava acessível a todos (que soubessem ler). Aqui, vale destacar uma ação muito significativa: Lutero para a facilitação da tradução fez incursões nas cidades próximas para ouvir como falavam as pessoas nos portos e mercados. Ele queria garantir que sua tradução fosse a mais próxima possível da linguagem contemporânea. A tradução de toda a Bíblia para outras línguas (nos anos seguintes surgiram edições em francês, espanhol, tcheco, inglês, neerlandês) foi considerada um divisor de águas na história intelectual da Humanidade.
Os cultos nas igrejas reformadas passaram a ser em vernáculo**, pois além da Bíblia, os hinos foram traduzidos (ou produzidos) na língua local. Ocorre que essa inovação não pode ser fruída pela população, que era em sua maioria analfabeta. Foram criadas, então, escolas junto a cada igreja reformada para se ensinar a leitura, assim o povo poderia ler a Bíblia e ler os hinos nos cultos.
Na educação, o pensamento de Lutero produziu uma reforma global do sistema de ensino alemão, que inaugurou a escola moderna. Seus reflexos se estenderam pelo Ocidente e chegam aos dias de hoje.
A ideia da escola pública e para todos, organizada em três grandes ciclos (fundamental, médio e superior) e voltada para o saber útil nasce do projeto educacional de Lutero. “A distinção clara entre a esfera espiritual e as coisas do mundo propiciou um avanço para o conhecimento e o exercício funcional das coisas práticas”.
Tão importante quanto Lutero para a educação foi Philipp Melanchthon (1497-1560). Durante o período que Lutero passou impedido de se manifestar publicamente, Melanchthon foi o porta-voz da causa reformista e se encarregou de reorganizar as igrejas dos principados que aderiram ao luteranismo. Esse trabalho resultou no projeto de criação de um sistema de escolas públicas, depois copiado em quase toda a Alemanha. A reforma da instrução era uma das principais reivindicações das camadas mais pobres da população, insatisfeitas com as más condições de vida e com o ensino escasso e ineficaz oferecido pela Igreja. Esses foram alguns dos motivos da revolta armada dos camponeses, sangrentamente reprimida em 1525.
Melanchthon e Lutero viam na educação um assunto do interesse dos governantes. “A maior força de uma cidade é ter muitos cidadãos instruídos”, escreveu Lutero. Para isso, foi criado um sistema que atendia à finalidade de preparar para o trabalho e à possibilidade de prosseguir os estudos para elevação cultural. O currículo era baseado nas ciências humanas, com ênfase na história.
Paradoxalmente, a Reforma Luterana é muito benéfica à igreja romana, pois com a contrarreforma há uma refontização, na busca das verdades e das práticas que haviam sido perdidas.
Assim a Escola como conhecemos hoje é produto da Reforma Protestante. A primeira ordem religiosa ensinante da igreja romana (antes as ordens religiosas são pregadoras, esmolantes, orantes, hospitalares, militares...) é a Companhia de Jesus (jesuítas) fundada por Inácio de Loyola em 1531, quase 15 anos depois do histórico 31 de outubro de 1517, quando foram afixadas as 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg.
Claro que não se desconhece que, na Idade Média, particularmente a partir do momento que a Igreja cristã, com Constantino, no século 4º, se faz hegemônica no Império Romano (e este é apenas o mundo do qual sabemos falar) havia escolas e essas se confundem com as ações de educação da igreja. Todavia, é preciso reconhecer que essas escolas (anteriores à Reforma e à Contrarreforma) não eram destinadas a todos, mas apenas as elites. Estas podiam ter tutores para ensinar seus filhos. Também os aspirantes a ordens religiosas tinham o acesso a Escolas de maneira mais privilegiada que a população em geral.
Em síntese, podemos dizer que a Escola, no modelo que temos hoje — muito especialmente na sua dimensão de acesso a todos — é um legado da Reforma Luterana, na inauguração da modernidade. Acrescente-se que esta Escola vem ferreteada com as marcas do dogmatismo herdado da igreja que foi sua geratriz.
Talvez outra dádiva da reforma foi fazer a igreja abandonar muito de suas posturas monacais e assumir-se mais inserta no mundo, preocupada com a realidade terrena, e não sonhar expectante com a futura vida celestial. Há quem possa ler de maneira oposta esse comentário. Foi dádiva? Ou foi perda?
* Martinho Lutero (Eisleben, norte da Alemanha, 1483-1546). Em família estava destinado a seguir a carreira jurídica. Seguindo os desejos maternos, inscreveu-se na escola de direito da universidade de Erfurt. Mas tudo mudou após uma grande tempestade com descargas elétricas, ocorrida em 1505: um raio caiu próximo de onde ele estava passando, ao voltar de uma visita à casa dos pais. Aterrorizado, teria, então, gritado: "Ajuda-me, Sant'Ana! Eu me tornarei um monge!" Tendo sobrevivido aos raios, deixou a faculdade, vendeu todos os seus livros, com exceção dos de Virgílio, e entrou para a ordem dos Agostinianos, de Frankfurt, a 17 de julho de 1505. Aos 25 anos, foi para a Universidade de Wittenberg, onde se formou em estudos bíblicos. Uma viagem à Roma se torna decisiva em sua vida: escandaliza-se com o comportamento do clero. Ao voltar, iniciou carreira de professor e pregador. Segundo a tradição, em 31 de outubro de 1517 foram afixadas as 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. Essas teses condenavam o que Lutero acreditava ser a avareza e o paganismo na Igreja como um abuso e pediam um debate teológico sobre o que as Indulgências significavam. Para todos os efeitos, contudo, nelas Lutero não questionava diretamente a autoridade do Papa para conceder as tais indulgências. Quatro anos depois foi excomungado pelo papa Leão X e reafirmou suas convicções perante os governantes alemães, na Dieta de Worms (reunião parlamentar), de onde saiu condenado. Após um ano refugiado, sob proteção de amigos, retomou a vida religiosa em Wittenberg. Em 1525, casou-se com a ex-freira Katherina von Bora. Nas duas últimas décadas de vida, ganhou prestígio popular, enquanto o apoio dos governantes variava com as circunstâncias. Morreu durante visita a sua cidade natal. 
** Vernáculo: nome dado à língua nativa de um país ou de uma localidade. Até recentemente (anos 50 do século 20), estudos científicos, filosóficos ou religiosos publicados na Europa eram em sua maioria escritos em latim. Já os trabalhos escritos em uma língua local, como o italiano, o espanhol ou o alemão eram denominados de escritos em vernáculo. Pode-se referir a uma língua vernacular em contraste à língua litúrgica. Por exemplo, a igreja católica romana manteve todas suas celebrações litúrgicas em latim até o Concílio Vaticano 2º (1962-65).

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

27.- SNCT: a Matemática está em tudo!


ANO
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EDIÇÃO
3322

A última blogada de outubro 2017 circula quase ao ocaso da 14ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT 2017). Minha participação na mesma foi com uma fala, na noite de terça-feira, para cerca de 150 pessoas, no campus de Capivari um dos 37 campi do IFSP, distribuídos pelo estado de São Paulo, em 35 municípios diferentes.
O lema desta edição da SNCT — que este ano pareceu bem mais discreta, pois uma das marcas do governo do temeroso é reduzir orçamentos — é ‘a Matemática está em tudo!’. Justificar acerca deste ‘estar em tudo’ pode demandar assunto para vários livros.
O convite que recebi do IFSP foi para que abordasse a questão do gênero na Ciência. Meu texto básico foi o livro ‘A Ciência é masculina? E, sim senhora!’ que recebeu uma contextualização para fazer presente o lema da SNCT-2017.
Ao lado das usuais considerações que faço do amplo predomínio masculino na premiação dos laureados com Nobel: Desde 1901 a 2017 nas três premiações de Ciência: 601 laureados dos quais apenas 18 mulheres (3,0%); destas 18, apenas três ganharam a premiação sem ter junto a companhia de homens. Para que não se afirme que a situação está mudando destaquei a situação de 2017: 11H + 00M + 01 organizações: Física, foram três homens; Química, também três homens; Medicina, três homens; Literatura, um homem; Economia, um homem e Paz, uma organização.
Aditei as premiações com o Nobel referências à medalha Fields, popularmente conhecida como o Nobel da Matemática: Medalha Fields, oficialmente conhecida como Medalha Internacional de Descobrimentos Proeminentes em Matemática. É um prêmio quadrienal, concedido a dois, três ou quatro matemáticos, com não mais de 40 anos de idade, durante cada uma das sessões do Congresso da União Internacional de Matemática (IMU). O prêmio de 15 mil dólares canadenses é homenagem ao matemático canadense John Charles Fields. A medalha foi entregue pela primeira vez em 1936, para o matemático finlandês Lars Ahlfors e o matemático estadunidense Jesse Douglas. Entregue a cada quatro anos desde 1950, já houve 56 laureados.
Quando da última premiação em 2014: houve dois laureados que merecem destaque aqui:
Maryam Mirzakhani (na foto): a primeira mulher, assim como a primeira iraniana a receber o prêmio. Ela nasceu e cresceu no Teerã e faleceu nos estados Unidos, onde trabalhava, em 14 de julho de 2017, com 40 anos de câncer de mama, contra o qual lutou por 4 anos. Um gênio? Sim, mas também uma mulher, uma mãe e uma esposa. Ao receber a Medalha Fields, Maryam Mirzakhani declarou: É uma grande honra e ficarei feliz se isto encorajar jovens mulheres cientistas e matemáticas. Estou convencida de que muitas outras mulheres receberão esse tipo de recompensa nos próximos.
O segundo destaque da última premiação é o brasileiro Artur Ávila Cordeiro de Maia [29 de junho de 1979 (38 anos), Rio de Janeiro] tornou-se o primeiro matemático da América Latina a ser condecorado com a Medalha Fields.
Na Matemática, há ainda o Prêmio Abel (em norueguês: Abelprisen) é um prêmio de matemática atribuído anualmente pelo Rei da Noruega. Foi instituído em 2002, por ocasião do bicentenário do matemático norueguês Niels Henrik Abel (1802-1829). Tem um valor monetário equivalente a seis milhões de coroas norueguesas (cerca de R$ 3 milhões ou 800 000€). Já houve 18 premiados, todos homens.
Há poucos dias o El Pais*, na edição em Português, publicou excelente matéria relacionada com esta blogada que se associa ao lema da 14ª SNCT a Matemática está em tudo!’ desta destaco apenas um parágrafo: “Alan Turing é possivelmente o mais famoso dos matemáticos britânicos envolvidos na Segunda Guerra Mundial. Ao lado de sua equipe em Bletchley Park, decifrou o código de comunicação secreta dos nazistas, assentando as bases do uso de computadores para resolver problemas ao utilizar uma sequência de passos lógicos. Entre seus colaboradores estava Joan Clarke, uma das poucas mulheres matemáticas que se envolveu desde o início da guerra. Essa circunstância mudou drasticamente com o desenvolvimento da disputa. No ano de 1945, em Bletchley Park trabalhavam cerca de 10.000 pessoas, das quais cerca de 7.500 eram mulheres, formadas em física, matemática e engenharia, entre outros. Com grande parte dos homens no front, as mulheres puderam ocupar lugares que até então lhes eram vetados”.
UM ANÚNCIO Está pautado para próxima edição uma celebração aos 500 anos da reforma luterana que ocorre na próxima terça, dia 31 de outubro.

sábado, 21 de outubro de 2017

21.- Gilmar Mendes (não) faz trabalho escravo?


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EDIÇÃO
3321

A blogada do terceiro fim de semana de outubro se insere entre duas ações que muito gratificam meu fazer acadêmico. Na tarde de sexta, por três horas falei no 'Seminário de pesquisa' mediado pelos Professores Doutores Marlis Morosini Polidori e Jerri Luiz Ribeiro, do Programa de Mestrado de Reabilitação e Inclusão do Centro Universitário Metodista do IPA e para a noite de terça-feira está agendada uma fala no IFSP, no campus de Capivari, em São Paulo.
No IPA repeti, uma vez mais, que aceito convites em função da admiração de fazer acadêmico dos colegas que me convidam, sem considerar a instituição, que pelo seu Pró-Reitor de Pós-Graduação me demitiu de maneira fascista em fevereiro 2016, as vésperas de iniciar o 16º semestre letivo no IPA. NO IFSP integro, com uma fala acerca das questões de gênero na Ciência, atividades da 14ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT 2017).
Mas o assunto desta edição do blogue é aquele que levou o Presidente da República golpista e ilegítimo a ter unanimidade no Brasil e até no exterior: unanimidade no repúdio ao ato do Ministro do Trabalho, que para cooptar votos da bancada ruralista nas votações que poderiam resultar na aprovação de processo de impeachment, alterou os conceitos de trabalho escravo, quase abolindo a “Lei áurea de 1888” na qual se diz que a Princesa Isabel aboliu a escravatura no Brasil.
“Uma portaria editada pelo Ministério do Trabalho e publicada nesta segunda-feira (16) traz regras que dificultam o acesso à chamada "lista suja" de empregadores flagrados por trabalho escravo no país. O texto também altera o modelo de fiscalização e abre brechas que podem dificultar a comprovação e punição desse tipo de crime” (Folha de S. Paulo).
A portaria também traz novos conceitos de trabalho forçado, jornada exaustiva e condição degradante, incluindo, para que haja a identificação destes casos, a ocorrência de "privação da liberdade de ir e vir" o que não constava nas definições adotadas anteriormente.
Até então, a definição usada pela maioria dos auditores era a que consta do artigo 149 do Código Penal, que tipifica como crime "reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto". A pena é reclusão de dois a oito anos e multa.
A declaração mais hilária, e até obscena foi do Ministro do STF Gilmar Mendes (aquele cujo voto é quase sempre contrário aos interesses nacionais) que afirmou em evento no TSE "Eu, por exemplo, me submeto a um trabalho exaustivo, mas com prazer. Eu não acho que faço trabalho escravo”. A declaração foi feita ao comentar a portaria do Ministério do Trabalho publicada na segunda-feira (16), cujas novas regras dificultam o acesso à chamada "lista suja" de empregadores flagrados por trabalho escravo no país. O texto também altera o modelo de fiscalização e abre brechas que podem dificultar a comprovação e punição desse tipo de crime.
Não consta que Ministro viva situações como a que está na foto que ilustra esta blogada, ou corte cana de sol à sol (sim, das sete da manhã às sete da noite) ou trabalhe em uma carvoaria ou ainda que deva se sentir remunerado se seu patrão pague sua jornada de trabalho apenas com alimentação e pouso (que devem ser muito diferentes aos lautos manjares e a cama perfumada de uma quase divindade do STF).

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

13.- Sobre dois suportes de leitura


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EDIÇÃO
3320

Estou lendo dois livros de um mesmo autor (quase) em paralelo. Um deles, em blogada recente, já foi aqui anunciado lateralmente: é o massudo e instigante Sapiens: uma breve história da humanidade do historiador israelense Yuval Noah Harari. Atualmente é livro de não ficção mais vendido no Brasil. A primeira edição brasileira da LPM é de 2015, a minha de agosto de 2017 é a 24ª. O outro: Homo Deus no qual o professor de História da Universidade Hebraica ensaia o que está no subtítulo: uma breve história do amanhã. Se o título o induziu ser o autor um profeta apocalítico, antecipo que percepção está equivocada.
Do primeiro, falta menos de um terço de suas 459 páginas; do segundo já li cerca de um terço. Se me fosse perguntado qual o melhor dos dois, diria ‘não sei’. Os dois são excelentes. Talvez os dois melhores livros de história dentre os muitos que já li. A minha dúvida na eleição, provavelmente, decorra desta nada usual leitura paralela.
Pois, nesta blogada quero comentar as razões deste esdrúxulo paralelismo. Mas antes trago um breve comentário de um e outro e também do exótico autor dos mesmos.
O primeiro dos livros — Homo sapiens — busca responder interrogação a respeito da qual nunca eu havia pensado: Se há 100 mil anos passados pelo menos seis espécies de humanos habitavam a Terra, porque hoje existe uma única espécie: nós, os Homo sapiens? As respostas são trazidas de maneira fascinante. Endosso o The Times: “Harari sabe escrever [...] de verdade, com gosto, clareza, elegância e um olhar clinico para a metáfora.” O livro é irresumível; há simplesmente, que lê-lo. Ele questiona nossas ideias preconcebidas a respeito do universo. Em 2015, Sapiens foi selecionado por Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, para seu Clube do livro on-line. Mark convidou seus seguidores a ler o que ele descreve como "uma grande narrativa sobre a História da civilização humana
Acerca do Homo Deus, sempre com um olhar no passado e nas nossas origens, Harari “investiga o futuro da humanidade em busca de uma resposta tão difícil quanto essencial: depois de séculos de guerras, fome e pobreza, qual será nosso destino na Terra? A partir de uma visão absolutamente original de nossa história, ele combina pesquisas de ponta e os mais recentes avanços científicos à sua conhecida capacidade de observar o passado de uma maneira inteiramente nova. Assim, descobrir os próximos passos da evolução humana será também redescobrir quem fomos e quais caminhos tomamos para chegar até aqui”. Enfim, história começou quando os homens criaram os deuses (e criaram religiões para a suas latrias) para explicar cosmogonias e terminará quando os homens se tornaram deuses
Feita esta brevíssima apresentação dos dois best-sellers, antes de trazer explicação à minha leitura em paralelo, algo do autor.
Yuval Noah Harari (Haifa, 24 de fevereiro de 1976) leciona no departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém. Especializou-se primeiro em História mediavel e História militar, antes de completar seu doutorado no Jesus College, Oxford, em 2002. Desde então, ele tem publicado numerosos livros e artigos.
Ele agora é especialista em História mundial e processos da macro-história. Sua pesquisa atual se concentra en questões como: Qual a relação entre
a História e a Biologia? Qual a diferença fundamental entre o Homo sapiens e outros animais? Existe justiça na História? A História tem uma direção? Será que as pessoas se tornaram mais felizes com o passar do tempo?
Harari diz que a meditação Vipassana** que ele começou enquanto estava em Oxford em 2000 "transformou minha vida". Ele pratica durante duas horas todos os dias (uma hora no início e no final de seu dia de trabalho, realiza anualmente um retiro de meditação de 30 dias ou mais, em silêncio e sem livros ou mídias sociais. Ele dedicou o Homo Deus a "meu professor, SN Goenka, que me ensinou amorosamente coisas importantes" e disse: "Eu não poderia ter escrito este livro sem o foco, a paz e a visão adquirida com a prática de Vipassana por quinze anos". Ele também considera a meditação como uma maneira de pesquisar.
**[(= VIPASSANA ver as coisas como realmente são), é uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia, onde é ensinada há mais de 2500 anos.]
Harari é vegano e vive em um moshav (tipo de comunidade rural, cooperativa, semelhante aos Kibtuzes que combina fazendas geridas privadamente e coletivização de serviços, como a comercialização de produtos e algumas vezes indústria leve). Também consta que ele não tenha smarthfone.
Transcrevo de extensa lista, de mais de três páginas, dentre mais de duas dúzias de agradecimentos, os dois últimos:
"A Chamba, Pengo e Chili que me ofereceram uma perspectiva canina de algumas das principais ideias e teorias deste livro.
E a meu marido e administrador Ytzik, que hoje já funciona como minha internet de todas as coisas."
Comentário acerca de um dito esdrúxulo paralelismo: Quando a Carla, com entusiasmo recomendou-me Sapiens adquiri a versão física do livro. Comprei-o junto com Tio Petrus (assuntado aqui /SET) que li primeiro pois além de ser ‘levinho’ era um romance envolvendo a história a Matemática. Mas Sapiens pelo seu volume, por sua capa seduzia-me. Comecei imediatamente a ler (isso significa que Sapiens furou a fila de pelo menos uma dezena, que aguardam vez em lugar especial em minha sala). Logo me encantei com o texto.
 No dia 11 de setembro ganhei um inesperado presente. A Gelsa deu-me um ‘Kindle paperwithe’ que nem participou da viagem que começava no dia seguinte. Levei o Sapiens.
Dias depois recomendava à minha colega Maria do Carmo (FURG) Sapiens. Ela respondeu-me recomendando Homo Deus. Fiz então uma experiencia lapidar. Melhor seria dizer antilapidar. Comprei o Homo Deus em versão eletrônica para o Kindle. A experiência me seduz.
O meu smartphone pesa 240g e o Kindle, que pode conter centena da livros (como o Sapiens que pesa 800g), pesa 203g. Só isso faz diferença especialmente nestes tempos que as companhias aéreas cobram fortunas para excessos de peso nas bagagens.
A outras vantagens: a eleição do tamanho das letras; qualquer palavras que não sabemos, o Priberam nos explica em apenas um clique; com todas as palavras consultadas é preparado uma listagem para aperfeiçoar o vocabulário; acerca de qualquer nome próprio ou acontecimento referido, se assim desejarmos, a Wikepédia nos atualiza; as notas de fim de volume são acessadas a um clicar no número das mesmas, com retorno ao texto de onde a chamamos; mesmo que estejamos lendo mais de um livro, ao clicar em qualquer um deles, somos remetidos ao ponto onde paramos; como na edição digital, o número de páginas inexiste, pois depende do tamanho das letras, somos continuamente informados sobre o percentual do volume já lido; recebemos também uma previsão de minutos para terminar cada capítulo, estimado em função de nossa velocidade de leitura.
Deve haver outras benesses que ainda não apreendi. Enquanto escrevo este texto tomo conhecimento de um kindle, a prova d’água, para ler na piscina.
Aos que acham que fui cooptado à nova maravilha: Se me fosse oferecida a digitalização dos cerca de 4 mil volumes de minha biblioteca, em troca da massa de papel que os mesmos produziriam, qual seria a minha resposta? “Não, muito obrigado!”
Só não poder mais evocar historias passeando nas lombadas de livros perfilados nas diferentes estantes já me faz triste. Mesmo que me fosse permitido retirar, talvez duas dezenas de exemplares registrado como “raros e/ou preciosos” como um Alcorão dito de 1680, adquirido na Turquia ou exemplar do livrinho vermelho de Mao, que comprei na China ou um devocionário que fora de minha mãe.... mesmo assim, recusaria, por ora a proposta.
Qual pode ser a diferença que pode nos seduzir na comparação de um massudo livro em suporte físico se comparado com um livro digital invisível? Uma situação que me agrada é ver livros. Hoje me encanta ver raras pessoas lendo livros em sala de embarque ou num voo. Isso parece cada vez mais raro. Veja a sedução de um livro que parece abandonado sobre um sofá te chamando para uns minutos de prazer.
Parece válido prognosticar a existência dos dois suportes. Um e outro têm atratividades. Os olhos, as mãos, o esforço físico parecem nos fazer preferir digital. O saboroso convívio com a interação tátil e ocular se traduzem em vantagens para livro físico. Vivas para os dois.