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domingo, 13 de agosto de 2017

!3.— Desde Cartagena

ANO
 12
EDIÇÃO
3311

                                        


Não é demais repetir: desde o dia 30 de julho, data que este blogue completou 11 anos, frequência é semanal, circulando aos fins de semana; isto é: desde pôr-do-sol de sexta-feira ao pôr-do-sol de domingo.

Hoje escrevo na madrugada de domingo, desde Cartagena na Colômbia — cidade que há muito desejava conhecer — onde cheguei o final da manhã de ontem.

Na última edição deste blogue contei que já estivera neste importante país latino-americano em 2009. Então fiz cinco falas em Bogotá (3), Medelín e Pasto. Então, fui lembrado que não estivera em uma linda cidade colombiana. A Wikipédia me ensinara que “Cartagena das Índias ou, simplesmente, Cartagena é a capital do departamento de Bolívar. É a quinta maior cidade do país, e a segunda maior da região, depois de Barranquilla; e sua região metropolitana é a quinta maior concentração urbana da Colômbia”.

Vim à Cartagena depois de ter estado em Bogotá na Universidad Distrital Francisco José de Caldas, no Programa de Doctorado Interinstitucional em Educación, onde na quinta-feira, dentro do Seminario de Miradas Contemporáneas en Educación apresentei a palestra “Desde a la certeza as las incertezas”.
 Na sexta participei como jurado, na apresentação pública da tese, aprovada com louvor, “Relaciones ciencia – religión y enseñanza de la evolución. Estudio de casos con profesores de biología de educación básica secundaria” pelo agora doutor Gonzalo Peñaloza Jiménez, A tese foi dirigida pelo Dr. Carlos Javier Mosquera Suárez, Reitor da Universidade Distrital.

Na tarde sexta, as doutorandas Claudia Maria, Marisol e Yamil, me oportunizaram conhecer a montanha de Monserrate, o mais conhecido dos cerros Orientais de Bogotá. Junto com montanha de Guadalupe é um dos morros tutelares da cidade. Monserrate tem uma altitude de 3152 metros e localiza-se sobre a cordilheira oriental. Os morros de Bogotá, de origem sedimentaria, têm pelo menos 16 milhões de anos de idade. Até meados do século 17 foi conhecido como morro das Neves. A basílica do Senhor de Monserrate é lugar de peregrinação religiosa desde a época colonial e constitui-se numa atração natural, religiosa e gastronômica da cidade. Pode-se subir ao morro por caminho peatonal, por funicular ou por teleférico, que foi a nossa opção. Almoçamos no lindo restaurante Santa Clara. Lá em cima o soroche (tonturas e dificuldades respiratórias) que ‘nos brinda’ de maneira usual Bogotá é aumentado.

Minha referência anterior à Cartagena era através de um colombiano de Arataca: o renomado jornalista e escritor colombiano Gabriel García Márquez, (1927—2914) laureado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1982, autor do clássico do gênero literário realismo-fantástico latino-americano Cem Anos de Solidão, de 1967, viveu por muitos anos em Cartagena, cuja casa vi ontem. Esta cidade foi inspiração para dois de seus livros: Ninguém Escreve ao Coronel, de 1961 e El amor en los tiempos del cólera (O Amor nos Tempos do Cólera), de 1985.

Mas é, ainda a Wikipédia que me ensina que Cartagena tem uma das mais significantes atividades econômicas os complexos marítimos, pesqueiros, petroquímicos e o turístico. A cidade foi fundada em 1 de junho de 1533, e foi batizada em homenagem a Cartagena, na Espanha. No entanto, o assentamento de vários povos indígenas na região da Baía de Cartagena data de 4000 a.C. Durante o período colonial, a cidade teve um papel fundamental na administração e na expansão do Império Espanhol nas Américas, sendo sede de governo e moradia dos vice-reis espanhóis. O centro histórico de Cartagena, conhecido como a cidade fortificada onde à tarde de ontem bati pernas por mais de cinco horas, foi declarado Patrimônio Nacional da Colômbia, em 1959, e posteriormente Patrimônio Mundial pela Unesco, em 1984. Em 2007, suas fortificações e planejamento arquitetônico militar foram declarados como a quarta maravilha da Colômbia.
Cartagena foi um dos mais importantes portos comerciais durante o período colonial espanhol nas Américas. Era especialmente utilizado para escoar ouro e prata aos portos da Espanha de Cartagena, Cádiz e Sevilha para a Coroa Espanhola. O ouro e a prata, extraídos de minas, principalmente, em Nova Granada e no Peru eram transportados até Cartagena, e embarcados nos galeões espanhóis, passando pelo porto de Havana, Cuba com destino aos portos da Espanha.
Cartagena veio a se tornar, ao longo do período colonial, um dos maiores centros do comércio de escravos oriundos da África (juntamente com Veracruz, México; era a única cidade oficialmente autorizada, pela Coroa Espanhola, a realizar o comércio de escravos nas Américas. Os primeiros escravos africanos que chegaram em Cartagena usados, como mão-de-obra, como cortadores de cana, em abrir estradas, construir prédios e fortalezas e, também, para destruir tumbas da população aborígene do Sinú, para encontrar ouro e outras preciosidades que faziam parte dos acessórios funerários.
Em 5 de fevereiro de 1610, foi instaurado o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, em Cartagena, através de um decreto emitido pelo rei Filipe II. O Palácio da Inquisição — que conheci na tarde de ontem e revi esta manhã — de arquitetura colonial, concluído em 1770, ainda preserva sua fachada original. Quando Cartagena declarou sua independência da Espanha, em 11 de novembro de 1811, os inquisidores foram intimados a deixar a cidade. A Inquisição voltaria, depois da Reconquista, em 1815, mas acabaria por desaparecer completamente, seis anos depois, após a derrota espanhola, forçada por tropas lideradas por Simón Bolívar.
Nestas pouco mais de 24 horas que passei na histórica cidade aprendi muito. Sou particularmente agradecido ao senhor Luís Carlos, guia do Museu do Ouro, que se auto-intitula “reconhecido historiador e professor” que extrapolou em muito os seus fazeres no Museu do Ouro levando-me a praças (quando as praças têm bancos são parques, corrigia-me, Don Luis) igrejas e ao prédio do extinto Tribunal do Santo Ofício. 
Acerca das extensas caminhadas da tarde de ontem e da manhã de hoje tenho uma adjetivação: árduas. O sol era muito quente, as calçadas muito estreitas (apenas para uma pessoa) esburacadas e com degraus muito altos. Esta manhã vis um citytour de ônibus, pela parte extra-muros. Não valeu muito pois não era dada nenhuma informação histórica.
È muito significativo se observar o número de luxuosos estabelecimentos comerciais (hotéis, restaurantes...) e culturais (bibliotecas, universidades...) que foram recuperados de antigos monastérios, mosteiros, claustros. Um exemplo de cada grupo que visitei: o hotel mais luxuoso de Cartagena (hotel Santa Clara) foi um convento de irmãs Clarissa. A Universidade de Cartagena tem diversas dependências, em prédios históricos, como o Claustro de los Agustins, que foi um mosteiro de frades agostinianos,
Esta blogada que complementei nos aeroportos de Cartagena e Bogotá tem uma síntese: eu fui a Cartagena e ali aprendi bastante. Ratifico algo que escrevi no meu diário de ontem: Fazer turismo sozinho é algo triste. Antes do voo Bogotá/ Guarulhos pretendo postar este texto. Amanhã será bom estar na minha Morada dos Afagos. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

05.— Inauguram as edições hebdomadárias

ANO
 12
Agora, com edições semanais
EDIÇÃO
3310

 

 


Na última edição, na tentativa conferir uma sobrevida a este blogue, anunciei que haveria uma edição por semana, com circulação aos fins de semana. Esta é a primeira edição hebdomadária — palavra erudita para caracterizar um evento que ocorre a cada semana.

Escrevo no day after à lutuosa confirmação que os tempos temerosos se estenderão. Eu não tenho condições emocionais para narrar os sentimentos de tristeza e nojo que me assolam.

Esta escrita é tecido na viagem de mais de três horas entre Belém e Rio de Janeiro, donde prosseguirei à Porto Alegre.

Cheguei, pela segunda vez este ano, à capital do Pará na tarde de terça-feira. Ontem cumpri uma agenda com dois pontos. Pela manhã, com os colegas Leila do Socorro R. Feio, Licurgo P. de Brito e Jônatas Barros e Barros participei da defesa de tese da doutoranda Rocío Rubí Calla Salcedo, que teve como orientador o Prof. Dr. José Jerônimo de Alencar Alves. Na foto, da esquerda para direita: Jônatas, Jerônimo, Rocío Rubi, eu, Leila e Licurgo.

Rubí, professora da UFAP em sua tese OS PRIMORDIOS DO ENSINO DE CIENCIAS NA MODERNIDADE AMAPAENSE (1947–1963), investigou a introdução das Ciências no Território do Amapá, analisando os discursos dos governantes, os decretos de leis, os regulamentos, os jornais da época, arquivo do único colégio de então e outros fatores relacionados à educação. Foi possível perceber o movimento de introdução das disciplinas científicas no currículo do Colégio Amapaense em momentos específicos, atendendo aos discursos governamentais em vigor e em consonância com o projeto maior de introdução das ciências modernas na Amazônia e de toda atitude de estabelecimento dos novos costumes “modernos” na região.

Ao encerrar minha intervenção, onde trouxe análises e contribuições à versão final evoquei um dito atribuído a Tolstoi “Se quiseres conhecer o mundo, narra primeiro a tua aldeia”. Vi isso na postura da Rubi, uma peruana há 15 anos no Brasil, quis conhecer como ocorreu a introdução das Ciências no então Território Federal do Amapá criado em 1943; obtidas algumas respostas procurou ver como tal aconteceu na Amazônia e mesmo na multiculturalidade formada pelos Brasis.

À tarde atendi a convite do Grupo de Estudos em Educação Matemática e Cultura Amazônica (GEMAZ) e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Filosofia e História da Ciência (GFHC) falei para mais de 100 professores, mestrandos e doutorandos discutindo as exigentes e necessárias transição da certeza às incertezas. Nesta atividade tive a satisfação de ter um grupo de cerca de 40 graduandos do curso de Química que usam o livro A Ciência através dos tempos em uma de suas disciplinas.

Duas perguntas foram centrais na animação das discussões: Por que não houve revoluções científicas no Oriente? e Por que houve revoluções científicas no Ocidente?

Houve, então, uma terceira pergunta: acerca de nossas leituras do Ocidente e do Oriente: dados dois grupos: #1) Selvagens terroristas; #2) Pessoas de cultura... Quem é Ocidental? Quem é Oriental? Quem são os outros? Quem somos nós?

Depois deste relato de fazeres na primeira semana agostina anuncio uma segunda semana muito especial. Na segunda-feira vou a São Lourenço do Sul, para no campus da Universidade Federal do Rio Grande participar no Curso de Licenciatura em Educação do Campo Ênfase em Ciências da Natureza e Ciências Agrárias do 1º Seminário de Ciências na Educação do Campo: “Fortalecendo a Formação de Professores em Ciências da Natureza e Agrárias”.

Na quarta-feira viajo à Bogotá para da defesa da tese: ”Relaciones ciencia – religión y enseñanza de la evolución. Estudio de casos con profesores de biología de educación básica secundaria” na Universidad Distrital Francisco José de Caldas no Programa de Doctorado Interinstitucional em Educación e também para proferir um seminário “Desde a la certeza as las incertezas”.

Nesta viagem sonho conhecer Cartagena de Índias, pois quando em 2009 dei palestras em cinco diferentes universidades colombianas foi me dito que deixara de estar em uma das mais lindas cidades. Talvez, agora.

domingo, 30 de julho de 2017

30.— 11 anos de blogares

ANO
 12
No dia do 11º aniversário
EDIÇÃO
3309

 

 

 


Hoje, assinalo os 11 anos deste blogue. Esta é a primeira edição do ano 12. Foi em 30 de julho de 2006 que este blogue começou. Na primeira edição deste mês cometi um engano que se consubstanciou nas aberturas das outras edições.

 Aniversários marcam a nossa completação — num período de 365,25 dias — de uma volta de nosso Planeta ao redor do Sol, são usualmente festejados. Mas também são próprios para balanços e tomada de decisões.

Festejamentos não cabem. Os tempos temerosos são lutuosos. Vivamos o direito dado pelo impostor.

Balanços têm diferentes focos. No último ano foram postadas 111 edições, foram acrescentados três outros diferentes países como locais de postagem. A frequência média de acessos diários em alguns meses do ano foi mais de 600 e que houve nos dias (quando de relatos de férias) com picos bem maiores. Há dados para triunfalismos.

Mas há outros. Ratifica-se a significativa queda nos números de leitores. Há, pelo menos dois anos, venho afirmando que hoje as leituras em suportes eletrônicos têm exigências muito diferenciadas que aquelas de julho de 2006, quando dei-me o privilégio de blogar. Neste mês de julho, com uma única exceção (dia 26, com mais de 700 acessos) dificilmente passou-se de 150.

Ouvido os sinais, busco alternativa para continuar ágil neste espaço. Assim, anuncio que a partir deste próximo agosto, as edições serão semanais, postadas sempre no fim de semana. Para mim o findi inicia ao pôr do sol de sexta e termina ao pôr de sol de domingo.

 Experimentemos. Estou, mais uma vez, expectante com o hebdomadário que se inicia. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

28.— Ajude a salvar a UNILA

ANO
 11
Quase no dia do 11º aniversário
EDIÇÃO
3308

 

 

 

Abro esta edição, quase no dia do 11º aniversário deste blogue, com um convite especial: na edição natalícia, no próximo domingo, apresento alternativa em busca de maior vitalidade no blogar aqui.  

Para esta edição trago uma denúncia e um apelo. O jornalista José Pedro Martins publicou nesta semana na AGÊNCIA SOCIAL DE NOTÍCIAS http://agenciasn.com.br/arquivos/11331 uma significativa e muito importante matéria acerca de emenda que modifica a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e a tenta transformar em uma escola agrícola. Isto, no mínimo, ameaça integração latino-americana e todo um projeto educacional muito inovador. Na foto: Unidade do Jardim Universitário, em Foz do Iguaçu (Foto Divulgação)

 Há uma prática usual de regimes ditatoriais, como é nosso atual governo. Há um propósito explícito: há que borrar tudo que possa evocar os governos que renovaram o país entre 2003 a 2016. Parece que a Educação, com sobejas razões, seja o alvo preferido. Se olharmos as 17 Lula-Universidades, mais as dezenas de Campi criados depois de 2003 ou ainda os 38 Institutos Federais com mais de 300 campi é forçoso reconhecer que um número significativo de brasileiros se constituem na primeira geração que chega à universidade. Isso muda a fisionomia do Brasil. As elites, ao contrário, querem uma pequena sociedade de abastados. Eles precisam de Universidades assépticas nas quais seus filhos não possam ter aulas junto com os pobres. Esse projeto não é solitário. Ele faz parte dos instrumentos que se precisa ter para promover de fato um apartheid no Brasil. A senzala deve voltar a ser o local destes que, não tendo um pedigree cultural, querem ingressar numa Universidade.

O apelo é por si evidente: ajude a salvar a UNILA

Antecipo, do texto antes destacado o seu encerramento:

A INDIGNAÇÃO DO MESTRE
Autor de vários livros, ex-professor em muitas universidades (como PUC-RS, Unisinos, ULBRA e UFRGS), Attico Chassot mantém, aos 77 anos, a indignação da juventude. É dele uma reação crítica e apaixonada em relação à emenda que muda o perfil na UNILA. “A elite brasileira não aceita que muitos de nós nos sintamos mais latino-americanos que brasileiros. Só falta impor que comecemos a usar uma bandeira nacional na lapela, como o troglodita presidente estadunidense”, comenta o professor Chassot, que atuou como professor visitante na Aalborg Universitete, da Dinamarca, e é professor-pesquisador e orientador de doutorado na REAMEC – Rede Amazônica Ensino de Ciência.
Ele entende que a elite brasileira também deseja “processar uma integração global que é apenas uma globalização de mercados, onde as pessoas importam pelo seu poder de compra”. Nesse sentido, em sua opinião, “a extinção da UNILA (e também o sucateamento de universidades e institutos federais) é uma exigência para ajudar a alcançar estas duas metas, uma e outra segregacionistas”.

O professor Chassot destaca que a UNILA foi uma das 17 Universidades criadas no governo de Luis Inácio Lula da Silva. Citando a diversidade de origens dos alunos e professores e os vários cursos oferecidos, ele defende que a UNILA é “muito mais que um conjunto de prédios”. A UNILA, hoje, acrescenta, “é muito mais que o sonho de um presidente que acredita que o acesso à educação transformaria não apenas um país, mas todo um continente que tem países latino-americanos nas três Américas e por tal a UNILA consagra, celebra e fortalece nossa latinidade. Extinta a UNILA isso tudo desaparece”, avisa o educador, um entusiasta da integração latino-americana, tendo sido professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI).

sexta-feira, 21 de julho de 2017

21.— ‘A VIDA NA TELA’

ANO
 11
No mês do 12º aniversário
EDIÇÃO
3308

 

Talvez a rapidação destes novos tempos esteja impedido que nós não vejamos algumas das transformações que sofremos [aqui a ação verbal foi escolhida com rigor]. Tenho como certo que a maioria dos minguados leitores deste blogue seja homens e mulheres do século 20.

Por tanto nenhum de nós teve em sua infância as atuais tecnologias de comunicação. Lembram das emoções de escrever uma carta. Envelopa-la. Ir ao correio. Talvez, escolher um selo especial, pois sabíamos que o destinatário era filatelista. Ainda existem filatelista? A filatelia foi o artefato cultural que mais me envolvi e talvez já há um quartel que não mexa no meu álbum de selos.

Falar de fazeres que não existiram na geração de nossos avós e e também não na de nossos filhos, aos quais até o e-mail já é obsoleto, poderá parecer que somos de tempos dinossáuricos. Cada vez mais parece que não estamos vivos se não estivermos conectados.

Há que acreditar que existe vida fora da tela. No esteirar da edição anterior, partilho aqui o texto que o escritor Élcio Mário Pinto, comentarista deste blogue, que escreveu no ROL Região online — www.jornalrol.com.br — desta semana.

 ‘A VIDA NA TELA’

Os três meninos entraram, acompanhados pela mãe. Calculei as idades: 7, 6 e 4 anos. Enquanto o menor brincava, corria e movimentava-se muito, os outros dois se interessavam por outra coisa: o celular. Graças à insistência do caçula, aquele de 6 anos cedeu e começaram a brincar de esconde-esconde. Mas, desde que a mãe entregou-lhe o aparelho, o menino de 7 anos nada mais fez. Sequer olhou para onde pisava enquanto caminhava para dentro do prédio. Lá, também não se importou com mais nada! Os outros dois correram, passaram pelo detector de metais e voltaram com a brincadeira do esconde-esconde. Percebi que sorriam muito e eu entendi que estavam felizes com o que faziam. Mas, o menino maior, sequer olhava para qualquer lado. Nada, absolutamente nada no mundo interessava a ele mais do que os joguinhos apresentados na tela do celular.

Então é assim, eu pensei. É assim que se faz para que alguém, com tão poucas experiências e convivências tenha um só interesse, não se importando com mais nada e com mais ninguém?

Para o menino de 7 anos, a brincadeira não interessava. Também não interessava o que os mais novos faziam. Deviam ser irmãos, foi o meu outro pensamento. E daí? Daí, nada! também não era motivo suficiente para deixar o celular e brincar.

Acompanhei aqueles meninos, do momento que desceram do carro, foram ao prédio, ficaram um tempo lá e voltaram. O menor, muito criativo, já se imaginava abrindo a porta do carro ao lado dizendo que era da polícia. Talvez as cores preta e amarela e aquele desenho que parecia um distintivo, fossem o suficiente para convencê-lo.

Finalmente, pensei que no menino de 4 anos ainda havia a criatividade que sonha, tão necessária a uma criança saudável, cheia de imaginação e que gosta de criar para viver intensamente, muito mais do que o cotidiano oferece. Talvez, seja esta a melhor definição de ser escritor: sua intensidade criadora só se satisfaz com muitas vidas, ainda que imaginadas. Quem sabe em seu interior, todas estejam, sempre, acontecendo vibrantemente!

Bem, a família partiu e eu fiquei pensando nos três meninos e no que as crianças são transformadas quando os recursos tecnológicos separam, segregam, dividem e matam a inventividade de quem deveria brincar, conhecer a Natureza, conviver com as pessoas e ser feliz com as coisas, não com as imagens das coisas. Será que voltamos aos ensinamentos do velho filósofo grego Platão? Dizia o mestre que tudo o que vemos é só um reflexo da Realidade verdadeira e absoluta. Parece-me que invertendo este ensinamento, com a tecnologia das telas pode-se dizer, que a educação das crianças está transformando o virtual em algo absoluto, sem o qual não se pode viver.

Mas, digo agora: a vida, definitivamente, não acontece na tela. Ela acontece na Natureza!

terça-feira, 18 de julho de 2017

18.— De um comentarista de escol

ANO
 11
No mês do 12º aniversário
www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
3307

 

 

 


Há um tempo tenho expressado aqui, o quanto os blogues caducam. Ou, talvez sejam incapazes de vencer a concorrência que lhe fazem outros muitos lócus de informações e de conhecimento que se enredam nesta mega-rede que quase desconhecíamos antes do último quartel do século 20. Assim como, enquanto professores temos uma imensa dificuldade de superar a magia de um smartphone nas mãos de alunos em sala de aula, hoje vemos a cada dia se esvaírem leitores dos blogues. No começo deste ano ter cerca de trezentos leitores diários era uma festa para quem já teve quase mil, a cada dia. Agora quando ultrapasso de 150 iludo-me que ainda vale a pena escrever uma blogada.
Também os comentários rareiam cada vez mais. Mas... às vezes ocorre um solitário que merece ser guindado ao texto principal, pois se diz que não acendemos uma lâmpada para esconde-la atrás de uma porta e sim para expomo-la.
 Na penúltima edição trouxe Amós Os, uma vez mais. Então ele ratificava uma afirmação recorrente em minhas falas: a necessidade de sermos curiosos. Esta edição recebeu um comentário que me permito catapultar para que mais leitores o fruam. Ele é do escritor Élcio Mário Pinto, de Sorocaba, cujos contos já fizeram histórias aqui. Vale fruí-lo!
Aos que acreditam, cabe: "Senhor, não permita que em mim, a curiosidade se finde. Não permite que o meu descanso seja a distância do querer aprender, saber e descobrir. Não me deixe, tão sossegado e apaziguado, que não mais me interesse por encontrar as razões, as causas e os motivos do que acontece." Aos que optam por outras vias de existência, cabe o entendimento de que, sem curiosidade, estar não passa de ser sem razão de existir. O que sobra de mim se perder a curiosidade ou se a tirarem de mim? Se, pela tortura, pelo engodo, pelas mentiras e por todas as maldades daqueles que querem me convencer de que os bonzinhos são os que saqueiam nosso país ou pelas informações, intencionalmente, escondidas, sem a curiosidade para entender o que fazemos e o que fazem de nós pelo que fazemos ou deixamos de fazê-lo, não importa. Importa é que sem a santa curiosidade dos crentes ou o desejo profundo do entendimento, impedidos ou mortos, não há existência digna para a criatura humana. Por isso, compartilho com teus leitores, querido Chassot, neste espaço democrático e transparente, de luta e resistência, de persistência e busca de que, em cada querência, em cada casa e em cada canto, a curiosidade sobreviva e grite liberdade, contra o golpe que, ainda, resiste. Maldito seja!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

13.— Hoje, o leitor é o autor

ANO
 11
No mês do 12º aniversário
www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
3306

 

Um preâmbulo
Quando, em junho estive em Araputanga – MT, um jovem orgulhosamente exibiu um exemplar de meu Memórias de um professor: hologramas desde um trem misto dizendo que ele comprara o último exemplar na Amazon. Ao autografa-lo brinquei dizendo: ‘agora este exemplar tem mais valor, pois realmente o livro não é mais encontrável’.
Na mesma ocasião autografei para o Lupércio Das disciplinas à Indisciplina, que ele disse estar estudando no Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Física FCARP. Tempos depois, entre várias mensagens, numa das quais aprendo que o nome latino de meu interlocutor significa aquele que afasta o Loborecebo uma produção literária acerca de meu livro mais recente, que autorizado por seu autor, partilho com leitoras e leitores deste blogue. Vejo, também que Lupércio é o Fauno: divindade da mitologia romana, por vezes associado à divindade grega Pã.
Manifesto a minha gratidão ao Lupércio, que provavelmente, dá ao Lobo presente em seu prenome o segundo dos dois significados mitológicos antagônicos (por um lado representa o bem, e nesse contexto, nele encontramos a astúcia, bem como alguns traços humanos que a esse animal são atribuídos, os quais incluem inteligência, sociabilidade e compaixão; por outro lado, a representação do mal, compreendendo nesse sentido a crueldade, a luxúria, bem como a ambição) deste personagem que povoou as historinhas de nossa infância.
Das disciplinas à Indisciplina: para envolver-se no fazer Educação.
Lupércio Guilherme Rodrigues Ribeiro[1]
O livro ‘‘Das disciplinas à indisciplina’’, objeto deste ensaio, divide-se em 10 capítulos, um prelúdio e uma ‘‘protofonia’’, palavra presente na vida daqueles que se envolvem com música, o autor coloca as relações daquele que se envolve no fazer Educação como uma música constituída de um binômio escrita-leitura, colocando a representação rupestre como a primeira forma de aprendizagem deste binômio, e convida seus leitores a manter a relação escrita-leitura através do suporte papel, sem reduzir que os meios digitais possam produzir novos saberes para o processo de aprendizagem.
O prelúdio com José Clovis de Azevedo é o convite escrito por um amigo, e que define o livro resumidamente, depois de concluir a leitura é compreensível, Chassot escreve para que seus leitores se envolvam no sotaque “Chassot”  Definido os 10 capítulos, assestar o óculo para ler o mundo, e arrumando a caixa de ferramentas aponta para as formas e desafios de leitura e escrita que os professores se envolverão no fazer educação-ciência, como cada um se apega as formas de ler o mundo e como escolhe suas ferramentas, uma vez mais enfatiza a relação escrita-leitura como centralidade no livro, que começa a desafiar os leitores em discussões presentes do cotidiano.
O autor utiliza de dois óculos: Religião e Ciência mostra-se necessário assestar o óculo destes, para uma continuidade do livro, que busca centrar o leitor de que não o relaciona com fatos históricos, e sim colocar a relevância das transformações que vivemos acerca de cinco revoluções paradigmáticas, e indaga-nos sobre por que as revoluções científicas ocorrem em só um lado da história, por que somos fortemente marcados pelas religiões. No fazer ciência coloca todos os marcantes do século 20, no que se diz o marco das transformações da modernidade, e a passagem do tempo das certezas para as incertezas, e começa a envolver-nos no fazer Educação com uma passagem importante da história ‘escrita’ por Martinho Lutero e constituída pelos professores nos presentes dias do século 21. Destaca a ‘Escola e Universidade’ e questiona, a escola mudou ou foi mudada?
Se faz importante os díspares em sua resposta mostrar a escola como formadora de Educação, e os meios de mudanças que está presente na escola cotidiana, a rápida informação através dos cliques, e questiona se a escola transmite conhecimento ou informação. O leitor se envolve no ‘desmembrar’ do autor e chega em “Das disciplinas à indisciplina” capítulo que dá nome ao livro, que traz os métodos disciplinares e indisciplinares na formação do conhecimento científico, e o termo in em um ‘Crescendo’ na relação das disciplinas. O saboroso capítulo está finalmente adentro dos professores que se envolve no fazer Educação, com a indisciplinaridade mostrada pelo autor, no entrave de mostrar a importância de manter os saberes primevos vivos, como na conservação de sementes do milho crioulo e a sedução do milho híbrido com a biopirataria. Construir ciência com os saberes populares transformando-os em saberes escolares caminhando na indisciplinaridade do rigor dos métodos científicos.
Evoco aqui palavras do autor, em que a Escola e a Universidade que abeberaram o seu conhecimento e formou sua Educação, pode não estar presente na mesma formação dos meus filhos e netos. Precisa-se conservar os saberes em extinção, como dito em metáfora “Quando um velho morre é como uma biblioteca que queima”.
[1] Lupércio Guilherme, 22 anos, graduado em Licenciatura da Educação Física pela Faculdade Católica Rainha da Paz em Araputanga-MT. Apaixonado por esportes, especialmente corrida de longa distância "ex-atleta", e por leituras acerca de educação. E-mail: lupercio.rr@gmail.com