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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

31.— NUMA DATA MUITO HISTÓRICA

ANO
 8
Frederico Westphalen
www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
 2577


Antes de adentrar no que se faz central nesta edição destaque para talvez uma das datas históricas mais significativas da humanidade —, duas referências acadêmicas, uma e outra pertinentes a minha estada aqui em Frederico Westphalen, onde cheguei na madrugada de ontem. Retorno quase meia-noite de hoje, depois de assistir a palestra do Prof. Pedro Demo.
Merece um registro especial a minha fala, na manhã de ontem, para alunos das oitavas séries da EEEF Conselheiro Edgar Marques de Mattos. Fiquei vivamente impressionado como a Edgar é uma escola de referência para a comunidade durante os sete dias da semana. Falar para os alunos de minha orientada Camila foi um momento sumamente prazeroso. Aliás, ontem tive frutuosos momentos de orientação com cada uma de minhas quatro mestrandas da URI.

Agora a outra referência: Uma das minhas orientandas, a Silvia Daiana Parussolo Boniati, apresenta a uma banca formada pelos professores doutores Oto João Petry da Universidade Federal da Fronteira Sul e Arnaldo Nogaro da URI sua proposta de dissertação, cumprindo um dos rituais mais adequadamente nominados ‘qualificação’. A Sílvia, como se pode ver na apresentação ao lado, estuda um dos problemas mais relevantes na Educação básica, especialmente dos anos iniciais: a avaliação. Estou muito entusiasmado com a garra desta jovem professora, que examina com competência sua escola em Taquaruçu do Sul.
Se houvesse, em nível mundial, a escolha de datas importantes, para serem celebradas como ‘feriados mundiais’ eu votaria em ’31 de outubro’. 31 de outubro de 1517 é, a meu juízo, talvez a data mais importante da história, pelo menos do mundo ocidental.
Hoje é feriado em alguns munícipios do Ceará, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e, provavelmente, em outros estados.
No dia 31 de outubro, celebra-se o Dia da Reforma Protestante. Assim comunidades luteranas, em geral, originárias de colonização alemã, conseguiram entre os feriados municipais, fazer de cada dia 31 de outubro, dia festivo.

Neste dia, no ano de 1517, Martinho Lutero, em alemão Martin Luther, (10NOV1483//18FEV1546), que nasceu e morreu em Eisleben, um sacerdote católico agostiniano e professor de teologia afixa nas portas da Igreja de Wittenberg, na Alemanha, as 95 teses contra a venda de indulgências. Na pintura cena da afixação com uma das teses; a outra ilustração mostra teses em alemão gótico.
Indulgência é o mérito, por boa ação ou compra, da remissão da pena dos pecados. Verdadeiros abusos eram cometidos nesta época. As pessoas achavam que não precisavam mais da graça, da fé, da palavra de Deus, nem de Jesus Cristo, compravam uma carta de indulgência e pronto, a salvação estaria garantida. Era o pensamento da época. Era a onda religiosa do momento.
Martim Lutero argumentou contra isso. Ensinou que a Igreja devia pregar a salvação pela graça e fé, mediante a ação de Jesus Cristo, revelado nas Sagradas Escrituras. Com certeza, nem ele tinha consciência das proporções que tomaria este movimento. Novas rupturas e até novas guerras se justificaram a partir de então. Mas também uma autêntica e verdadeira vivência do Evangelho volta a se fazer presente, entre católicos e protestantes, motivada pela atitude de Lutero.
Esta denúncia pública às práticas da igreja romana não tinha o intuito de cisão. Mas, esta houve e foi muito maior que separar de Roma a igreja alemã, igrejas outros países — especialmente os europeus escandinavos — se fizeram protestantes (ou luteranas). Todavia, muito mais significativo que o cisma, foram as consequências políticas, sociais, econômicas, culturais e educacionais.
Condoo-me com a ignorância de nossa história quando pergunto pelo significado de 31 de outubro em aula e há alunos que lembram o colonialista ‘halloween’ que não tem nada de nossa história.
Não conheço muitos leitores em cidades onde hoje é feriado. Faço votos de um bom feriado a uma leitora diária: Elzira, de Maravilha, Santa Catarina, próxima de Frederico Westphalem donde escrevo. Agradar-me-ia saber de outros leitores que hoje curtem a evocação daquele histórico 31 de outubro de 1517.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

30.— REPÚDIO A UM INSOLENTE OFENSOR


ANO
 8
Porto Alegre/Frederico Westphalen 
EDIÇÃO
 2576

Quando esta edição entrar em circulação já terei vencido mais de 1/6 das mais de seis horas da viagem entre Porto Alegre e às (quase) margens do rio Uruguai. Nesta quarta e quinta-feira minhas atividades estarão referenciadas ao Programa de Pós Graduação em Educação da URI, campus Frederico Westphalen.
Na manhã de hoje mostro a Ciência como um dos óculos para lermos o mundo natural para alunas e alunos das oitavas séries da Escola Estadual de Ensino Fundamental Conselheiro Edgar Marques de Mattos. Minha presença nesta escola ocorre por ter a Camila Guindini Camargo, minha orientanda, há muito, me convidado para falar com seus alunos. Na parte da tarde tenho sessões individuais com minhas quatro orientandas.
Já havia pautado outro tema para esta edição quando recebo a carta que transcrevo e me faço solidário. Adito, apenas, que há muito anos, as posturas insolentes do ofensor — um economista, dito especialista em Educação —  me irritam.

CARTA ABERTA AO SENADO FEDERAL
EM REPÚDIO À DECLARAÇÃO PRECONCEITUOSA
DO SR. CLAUDIO DE MOURA CASTRO
Brasil, 28 de outubro de 2013.
As entidades e os movimentos da sociedade civil que participam dos debates para a construção do novo Plano Nacional de Educação (PNE), desde a I Conae (Conferência Nacional de Educação, 2010), manifestam seu repúdio e exigem retratação pública à “proposição” desrespeitosa apresentada pelo Sr. Claudio de Moura Castro, em audiência pública realizada no dia 22 de outubro de 2013, na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal.
Na ocasião, buscando reforçar seu argumento de que o PNE é inconsistente devido à participação da sociedade civil, o referido expositor sugeriu, em tom de deboche, que sua proposta ao plano seria oferecer “um bônus para as ‘caboclinhas’ de Pernambuco e do Ceará se casarem com os engenheiros estrangeiros, porque aí eles ficam e aumenta o capital humano no Brasil, aumenta a nossa oferta de engenheiros” (sic).
Preconceituosa, a “proposição” é inadmissivelmente machista e discriminatória. Constitui-se em uma ofensa às mulheres e à educação brasileira, inclusive sugerindo a subjugação das mesmas por estrangeiros. Além disso, manifesta um preconceito regional e racial inaceitável, especialmente em uma sociedade democrática. Entendemos que a diversidade de opiniões não pode significar, de forma alguma, o desrespeito a qualquer pessoa ou grupo social.
Compreendemos, ainda, que tal manifestação representa um desrespeito ao próprio Senado Federal, como Casa Legislativa que deve ser dedicada ao profícuo debate democrático, pautado pela ética e pelo compromisso político, orientado pelos princípios da Constituição Federal de 1988 e de convenções internacionais de Direitos Humanos. A elaboração do PNE, demandado pelo Art. 214 da Carta Magna, não deve ceder à galhofa, muito menos quando preconceituosa.
Por esta razão, os signatários desta Carta esperam contar com o compromisso dos parlamentares e das parlamentares em contestar esse tipo de manifestação ofensiva aos brasileiros e às brasileiras. Nesse sentido, esperamos as devidas escusas do Sr. Claudio de Moura Castro, que com seus comentários discriminatórios desrespeitou profundamente nossa democracia e a sociedade.
Movimentos e entidades signatárias (por ordem alfabética):
ABdC (Associação Brasileira de Currículo)
Ação Educativa - Assessoria, Pesquisa e Informação
ActionAid Brasil
Aliança pela Infância
Anfope (Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação)
Anpae/DF (Associação Nacional de Política e Administração da Educação – Distrito Federal)
Anped (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação)
Assopaes (Associação de Pais de Alunos do Espírito Santo)
Auçuba Comunicação Educação
Campanha Nacional pelo Direito à Educação
CCLF-PE (Centro de Cultura Luiz Freire – Pernambuco)
Cedeca-CE (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará)
Cedes (Centro de Estudos Educação e Sociedade)
Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária)
CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação)
Contee (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino)
Escola de Gente - Comunicação e Inclusão
Fineduca (Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação)
Flacso Brasil (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais)
Fojupe (Fórum das Juventudes de Pernambuco)
FOMEJA (Fórum Mineiro de Educação de Jovens e Adultos)
Fóruns de Educação de Jovens e Adultos do Brasil
Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente
Geledés - Instituto da Mulher Negra
Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos)
Instituto Avisa Lá
IPF (Instituto Paulo Freire)
Mieib (Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil)
Mova Brasil (Movimentos de Alfabetização de Jovens e Adultos do Brasil)
Movimento Mulheres em Luta do Ceará
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
Omep/Brasil/RS – Novo Hamburgo (Organização Mundial Para Educação Pré-Escolar)
RedEstrado (Rede Latino-americana de Estudos Sobre Trabalho Docente)
Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos
Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação).
Unipop (Instituto Universidade Popular)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

29.— MAL EDUCADOS & UMA NOITE INSONE


ANO
 8
LIVRARIA VIRTUAL em
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EDIÇÃO
 2575


Quando empunhamos uma bandeira e encontramos parceiros, ganhamos uma injeção de ânimo. A violação à nossa causa pode ser estímulo a não esmorecermos em nossa defesa. Na última noite na qual o sábado se transmutou em domingo, os convivas de um fino restaurante do bairro onde moro resolveram antecipar o carnaval. Avançaram na madrugada, desrespeitosamente, com um barulho ensurdecedor.
Na edição do dia 10 deste mês, ao clamar por silêncio, ou melhor, por menos barulho, nas academias de ginástica, trouxe uma entrevista com o renomado pesquisador Iván Izquierdo, do Centro de Memória da PUCRS, da qual retomo um breve excerto: “O ruído constante traz impactos mentais. O barulho extremo era uma forma de tortura nas prisões, por exemplo. O barulho que nos distrai, que nos impede de perceber o que está acontecendo, pode ser fatal. É perigoso. É uma das grandes causas de estresse. E estresse se morre”.
Na Folha de S. Paulo deste domingo, o crítico de arte e poeta Ferreira Gullar, em sua crônica semanal recordou uma tragédia recente: “Não faz muito tempo, um cidadão de mais de 60 anos invadiu o apartamento acima do seu, aqui no Rio, e matou a tiros o casal que morava ali; em seguida, suicidou-se. E qual foi a causa dessa tragédia? Barulho, excesso de barulho”. Todos concordamos que se trata de um caso extremo, mas não deixa de ser indicativo do alto nível de ruídos de todo tipo que atormenta nosso cotidiano.
O barulho parece fazer parte da cultura brasileira, pelo da população urbana. Tenho uma relação de trabalho em uma cidade gaúcha, que exige que viaje para lá durante a noite. Mais de uma vez fui impedido de uma ‘descansadinha’ após o almoço, porque é natural que um carro de som, faça propaganda móvel pelas ruas centrais. E quem reclama é, no mínimo, um chato.
E tanto isso é verdade, ou seja, que o barulho é parte de nossa cultura, que Ferreira Gullar, na crônica antes referida destaca “que os órgãos oficiais não apenas se omitem no combate à poluição sonora, como, pelo contrário, ajudam a poluir. Quer um exemplo? As sirenes dos carros de bombeiros e dos carros de polícia. Quando qualquer um desses veículos passa em frente a minha casa, corro e fecho as janelas, além de tampar os ouvidos. São sirenes absurdamente estridentes, que soam numa altura alucinante e sem necessidade, sem razão plausível. A finalidade dessas sirenes é abrir caminho, no trânsito, para esses veículos. Ou seja, basta que os motoristas que estão à frente do carro da polícia a ouçam para que ela cumpra sua função. Não é necessário que todas as pessoas num raio de centenas de metros tenham de ser atordoadas por tais sirenes, nem quem está a várias quadras de distância nem muito menos quem está em seu apartamento, vendo televisão, conversando ou dormindo”.
Realmente há que concordar com Ferreira Gullar: eu não preciso saber que uma ambulância célere está pedindo passagem ou que o caminhão dos bombeiros está correndo em uma avenida que nem posso ver. Não vejo, mas os ouço. O pior é quando temos a seleção musical, usualmente de gosto díspar do nosso, do jovem que estaciona seu carrão em nosso quarteirão.
Talvez valesse conscientizar-nos que: menos barulho possa significar mais saúde.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

28.— ACERCA DE UM SEGREDO DE POLICHINELO

ANO
 8
LIVRARIA VIRTUAL em
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EDIÇÃO
 2574


Os dias para encerrar outubro serão plenos. Hoje à noite depois de minhas aulas de Teorias do Desenvolvimento Humano para a licenciatura em Música, compareço, via Skype, em atividade que minha orientanda Silvia Daiana Parussolo Boniati, do Programa de Pós Graduação em Educação da URI de Frederico Westphalen realiza em seu estágio de docência. Nesta quinta-feira, a Silvia submeterá sua proposta de dissertação à qualificação.
No momento em que as biografias suscitam amplo debate, é importante analisar o interesse cultural de publicá-las. Textos sobre a vida de filósofos e artistas, por exemplo, iluminam aspectos de suas obras, mas, como todo trabalho do gênero, devem ser encarados como uma reinterpretação, e não verdade absoluta. Pois neste domingo li, na Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, um excelente texto Reinvenção da existência de Evando Nascimento, apresentado com a epígrafe: Não há chave única para o texto de uma vida do qual reproduzo aqui, com outro propósito, alguns excertos.
[...] Fui convidado a dar um testemunho para o trabalho biográfico de Benoît Peeters sobre Jacques Derrida (1930-2004), que estava se iniciando em 2007. Refleti muito sobre o que seria relevante ou não narrar, principalmente por ter convivido com o pensador num momento de grande fragilidade física. A biografia foi publicada em 2010 e recebeu resenha extremamente elogiosa da psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco no "Le Monde".
[...] Peeters realizou uma pesquisa de fôlego durante três anos, lendo uma massa documental gigantesca e entrevistando uma centena de pessoas na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. É o tipo de abordagem que historiadores, jornalistas, críticos, teóricos e escritores desempenham com competência.
No entanto, há um episódio no volume bastante desagradável. Trata-se de um relacionamento extraconjugal, mas que era do conhecimento da família de Derrida, bem como de grande parte do meio intelectual parisiense; era, por assim dizer, um segredo de Polichinelo. Peeters poderia tê-lo ignorado, mas preferiu narrá-lo com todas as letras, porém igualmente com grande senso ético.
Qualquer desconfiança que o leitor possa ter quanto à validade de narrar o episódio se dissipa quando um dos filhos de Derrida conta sua versão dos fatos, com algum sofrimento, mas sem fazer nenhum julgamento moral. Daí se pode concluir que foi muito salutar não omitir essa informação, tanto por fidelidade à história, quanto — em nome dessa fidelidade — para evitar a hagiografia, ou seja, transformar aquele que foi considerado o filósofo mais influente da segunda metade do século 20 num santo.[...]
Meu uso destes parágrafos é para contar, que nesta leitura, dera-me conta, que mesmo tendo já ouvido muitas vezes não sabia o significado e a origem da locução: segredo de Polichinelo .
O sempre eficiente Priberam esclarece o significado: Informação que devia ser secreta, mas que já é do conhecimento de todos.
Na Wikipédia aprendo que Polichinelo é uma antiga personagem-tipo e burlesca do teatro, cujas raízes remontam à Roma Antiga e que teve maior desenvolvimento com a ‘commedia dell'arte’. É a versão napolitana do Arlequim. O bufão polichinelo é personagem ridículo, sem traquejo, ingênuo. Polichinelo resume em si mesmo a unidade dos contrários, com algumas versões de sua estória colocando-o até mesmo como hermafrodita ou filho de plebeu e nobre.
A Wikipédia registra também um verbete referido a exercício físico, não relacionado com a locução que catalisa esta blogada.
Em www.dicionarioinformal.com.br registra: Polichinelo é o nome de uma antiga personagem, cômica, de teatro, cujas raízes remontam à Roma Antiga. Era caracterizado por uma pessoa com um longo nariz, corcunda, de barriga enorme, vestido de roupas coloridas e usando um barrete na cabeça. Nas comédias assumia um papel de pobre serviçal, mas ambicioso, enamorado da filha do patrão, a Colombina. Na Alemanha era visto como um bobo, na Inglaterra era visto como sendo esperto e malandro.
Não encontrei explicação mais convincente para o uso da locução ‘segredo de Polichinelo’. Posso inferir que seja porque o personagem descrito de maneira tão pícara não possa guardar segredo. Agradecimentos a quem puder aditar algo mais.

sábado, 26 de outubro de 2013

26.—ACERCA DE UMA JORNADA EM PARINTINS

ANO
 8
M A N A U S – AM
EDIÇÃO
 2573


O retorno à meteórica chegadinha à Parintins— cerca de 20 horas —, já teve a primeira etapa vencida. Já estou em Manaus donde, durante a noite, parto numa viagem de 4 horas ao Rio de Janeiro, e pela manhã um voo de 2 horas me leva a Porto Alegre.
O ponto mais significativo de minha estada nos currais dos bois Garantido e Caprichoso foi, a tarde, a fala “Como fazer de saberes primevos, saberes escolares”. Por mais de duas horas falei para cerca de 250 professores e alunos de escolas da região. Antes e depois da mesma dei entrevistas para duas televisões. A fala seguiu-se muitos autógrafos e fotos.
Visitei pela manhã oficinas onde estudantes demonstraram com muita competência, alguns dos saberes detidos por populações ribeirinhas da ilha amazônica onde está a segunda cidade mais importante e populosa do estado. Ver a parte empírica da tese da Célia Serrão, minha orientanda de doutorado na REAMEC foi o mais emocionante. É difícil destacar qual o saber primevo — extração de óleos, produção de pigmentos, cerâmicas resistentes a estilhaçamentos, produção de cosméticos, fabrico de velas — trazido à Escola era o mais significativo. 
Talvez sem fazer outros menos relevante destaco a casa da farinha, onde os alunos construíram uma cabana com um grande forno para aquecer o tacho e produzir farinha a partir de mandioca. A farinha é algo presente em todas as refeições da população local e há muitos jovens que não têm a mínima ideia de seu fabrico. Na foto: eu com a Célia e sua mãe dona Raimunda, a farinheira.
Somente tendo o privilégio de estar aqui, e ver estas diferentes atividades valeu a extensa viagem. Sou muito grato à Célia, à Aldalúcia Gomes — minha sempre eficiente livreira — e à Ângela Figueiredo, que nesta sexta-feira foi uma cicerone muito competente.
Foi muito bom ter estado em Manaus e Parintins. Nesta houve oportunidade de pousar junto a uma representação das valentes guerreiras amazônidas.
Esta postagem ocorre por cortesia de João Victor Rebouças do Centro de Atendimento ao Turista — CAT da Amazonastur no aeroporto internacional Eduardo Gomes, de Manaus.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

25.—DESDE PARINTINS - AM


ANO
 8
GARANTIDO
CAPRICHOSO
EDIÇÃO
 2572


Quando esta edição circular, às 00h de sexta-feira, estarei
chegando em Parintins, quando aqui ainda são 22h de quinta-feira. Passei a tarde e o começo da noite em Manaus (minha 5ª estada este ano; volto em dezembro).
No aeroporto fui recebido por Irlane Maia, minha orientanda de doutorado, Ana Cláudia Maquiné e Antônio Risoto; este obsequiou ao grupo, saborosa caldeirada manauara. Mesmo com a celebração do 344º aniversário, tive sessões de orientação. Aqui em Parintins, minha anfitriã é a Celia Serrão, também minha orientanda de doutorado.
É a segunda vez que venho a Parintins. Estive em agosto de 2012 aqui. Jair Lopes, o comentarista-poeta deste blogue, então, ‘limeriqueou’ assim:
De Manaus Chassot foi
A Parintins para dizer um oi
"Caprichoso" por ter ido
Com retorno "Garantido
"
Afinal aportou na terra do Boi.

Revisito o que escrevi ano passado: Se tivesse de referir apenas uma marca de Parintins diria que é a forte marca do bipolarismo bovino Caprichoso/Garantido ou Azul/Vermelho ou Boi preto com estrela na testa/Boi branco com coração na testa.
Isto está traduzido nos comerciais, orelhões,
diferentes produtos e até na arena (=bumbódromo) com as cadeiras divididas exatamente entre as duas facções. Se diz (e isso também é negado) que o Garantido é do povão e o Caprichoso é da elite.
Adicionar legenda
Parintins está no interior do estado do Amazonas, próximo a divisa com o estado do Pará. Com uma população de cerca 102 mil habitantes é segundo município mais populoso do estado (superado apenas pela capital Manaus. Em nível nacional, é o 139º mais populoso entre os municípios que integram o interior brasileiro, sem pertencer a alguma região metropolitana. É sede de diocese da Igreja católica de significativo poder civil (proprietária de jornais, rádios, televisões e muitas terras). Sua padroeira é Nossa Senhora do Carmo a qual está dedicada imponente e moderna igreja catedral.
Está localizada à margem direita do rio Amazonas, na ilha Tupinambarana. A vegetação, típica da região amazônica, é formada por florestas de várzea e de terra firme, tendo, ao seu redor, um relevo composto por lagos, ilhotes e uma pequena serra.
Em um raio de pouco mais de duzentos quilômetros do município, encontram-se algumas das principais cidades do interior do Amazonas e do Pará – Itacoatiara, Manacapuru, Maués, Manicoré, Presidente Figueiredo, Santarém, Itaituba, Oriximiná, Óbidos, Altamira, entre outras – sendo o acesso a essas cidades principalmente via transporte fluvial, muito comum na região amazônica. O acesso à capital Manaus, distante 315 km se dá por 1 hora de avião que só viajam à noite devido aos pássaros ou por barco, numa viagem de mais de 15 horas.
Parintins é um dos pontos turísticos mais importantes da Amazônia. É um dos principais patrimônios culturais da América Latina devido ao Festival Folclórico de Parintins. Todos os anos, ocorre o tradicional festival folclórico de Parintins com a apresentação dos bois Caprichoso e Garantido. O festival é uma manifestação folclórica conhecida no norte do país como Boi Bumbá. A festa anual ocorre no último fim de semana de junho.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

24.— UMA DISCUSSÃO BIZANTINA

ANO
 8
LIVRARIA VIRTUAL em
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EDIÇÃO
 2571


Depois das ‘chateações’ narradas ontem, esta manhã viajo a Manaus. Mesmo lá sendo feriado tenho agendado encontros com orientandas e com colegas. À noite viajo para Parintins. Os voos são noturnos, na região amazônica, para contornar problemas devido a pássaros.
Escrevo depois de na região metropolitana de Porto Alegre se ter vivido nesta quarta-feira o maior caos da história da BR-116 que, devido a excepcionais chuvas esteve por várias horas, completamente interditada (e com isso toda a comunicação com o vale dos Sinos e conexões) na região de Esteio. A essa interdição associou-se a paralisação de trens.
A propósito da 10ª Semana Nacional da Ciência e Tecnologia, uma das razões de minha viagem à Amazônia, trago uma interrogação usualmente recorrente em falas desta natureza: o que é mais importante a Ciência ou Tecnologia?
Antecipo que esta é uma discussão bizantina, mas vestibularmente, ofereço uma mirada a estes dois mentefatos culturais.
Mesmo que Alan F. Chalmers tenha escrito um livro de quase 300
páginas What Is This Thing Called Science? ou O que é essa coisa chamada Ciência?  publicado no Brasil como ‘Que é Ciência, afinal? (São Paulo: Brasiliense, 1993), trago uma definição considerada por alguns como reducionista, mas que responde a nossas necessidades cotidianas: A Ciência pode ser considerada como uma linguagem construída pelos homens e pelas mulheres para explicar o nosso mundo natural.

Para responder o que é tecnologia, há uma obra monumental de Álvaro Viera Pinto (1909-1987): O Conceito de Tecnologia. (vol. 1) 532 p. e (vol. 2), 796 p. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005, mas contenta-nos uma definição como Tecnologia (do grego τεχνη — "ofício" e λογια — "estudo") é um termo que envolve o conhecimento técnico e científico e as ferramentas, processos e materiais criados e/ou utilizados a partir de tal conhecimento. Por exemplo, são artefatos tecnológicos uma colher de madeira ou um sofisticado telefone celular.
Perguntara: o que é mais importante a Ciência ou Tecnologia? e antecipara que isso era uma discussão bizantina algo como discutir sexo dos anjos, ou seja uma discussão infrutífera, inócua, sem sentido. Mesmo acusado de querer dar ‘uma aulinha’ vale lembrar a origem desta expressão: Em 1453, Constantinopla, capital do decadente império romano oriental, encontrava-se sitiada pelas tropas otomanas. Enquanto o imperador Constantino XI e 7 mil soldados enfrentavam 80 mil invasores, ocorria um Concilio da igreja (ortodoxa), no qual os doutos religiosos debatiam entre outros temas qual o sexo dos anjos... O Império Bizantino foi tomado pelos turcos, sob a bandeira do Islã, quanto aos debates, não houve acordo!

Parece natural afirmar que a Ciência faz crescer a Tecnologia e esta faz crescer a Ciência. Eis um bom exemplo: quando no século 17, Galileu Galilei importa lentes dos holandeses de Delft e com estas constrói telescópios e com estes ratifica as ideias heliocêntricas de Copérnico (que não conhecera telescópios) inclusive para tentar convencer o papa e os cardeais (na pintura). Assim, ele usa artefatos tecnológicos construídos com conhecimentos científicos. Logo é bizantina a querela acerca de quem é mais importante.
Poderíamos aditar que Galileu usufrui economicamente da Ciência e da Tecnologia: vende telescópios aos mercadores de Veneza para estes fazerem explorações na bolsa de mercadorias, observando a aproximação de navios com tal ou qual produto, assim elevando ou baixando os preços, conforme a ausência ou presença desta ou daquela mercadoria.
Com votos para que fruamos as benesses da Ciência e da Tecnologia e continuamos tendo uma muito boa 10ª Semana de C&T.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

23.— (DES)AGENDANDO PALESTRA

ANO
 8
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EDIÇÃO
 2570


Esta é mais uma edição que ocorre inserta na 10ª Semana Nacional da Ciência e Tecnologia. Minha participação na mesma se consubstanciaria em falas em Manaus e Parintins no Amazonas. Não é sem ‘chateação’ que registro contratempos que esvaziam parte de minhas ações em plagas amazônicas.

Os anjos que cuidam de nossas agendas, mesmo que competentes, não raro nos pregam peças. Vivo hoje consequências de um engodo que me frustrou. O convite que está aditado à direita se transmuta em um desconvite. Preciso esclarecer porque a palestra não ocorrerá hoje (quando estou em Porto Alegre) e não pode ser transferida para amanhã (quando estarei em Manaus).
Na manhã de segunda-feira, quase por acaso, descobri que uma viagem Porto Alegre/Manaus/Parintins, há semanas programada era na quinta-feira e não quarta-feira, como imaginado. Agenda que, então, transbordava é esquecida, para buscar solução. Lateralmente, seja permitido registrar a quantidade de tempo que se perde em tarefas administrativas pré/pós-viagem. A seleção de voos, conexões e outros quetais como prestações de contas não só são estressantes como se transformam em sumidouro de horas preciosas.
Na situação presente, a tentativa de antecipar em 24 horas cada um dos dois trechos custava R$ 745,00 + 535,39 = 1.280,39. Uma exorbitância se considerarmos que cada um dos trechos custara: R$ 776,29 + 195,57 = 971,86. Paradoxalmente alterar o horário custa mais que o que fora pago pela passagem.
Havendo ou não dinheiro parecia não justificável se devesse participar desta extorsão. Decidimos manter o que anjos agendaram (errado).
Mantida a viagem para amanhã segue-se uma nova decepção: a fala do convite não podia ser passada de hoje para amanhã, por então ser feriado em Manaus. Assim, um engano ocorrido (e não controlado) há tempo não apenas me frustra não falar amanhã acerca de Ciência & Tecnologia em Manaus e reduz em cinquenta por cento minha estada em Parintins, resumida, assim, a menos de 24 horas.
Assim o plano de deixar Porto Alegre, hoje às 6h30min, escalar em Confins e às 11h (13h HBV) estar em Manaus, para as 14h30min falar em C&T desfez-se em fumarolas. Amanhã viajo, e redimo-me um pouco dos enganos da agenda.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

22.—FAMÍLIA: QUAL?


ANO
 8
LIVRARIA VIRTUAL em
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EDIÇÃO
 2569


Estamos vivendo a 10ª Semana Nacional da Ciência e Tecnologia. Como nas edições anteriores estou, uma vez mais, envolvido. Houve, nesta, contratempos de agenda. Disto falo em outra edição.
Ontem comentei, aqui, acerca do Dia Nacional de Valorização da Família evocado nesta segunda-feira. Talvez devêssemos dizer ‘dia da sagrada família’ ou da ‘família bem comportada’ que segue o ‘modelito’ do outdoor que estampo. Quem melhor responde qual família celebra-se é Maria Berenice Dias* em texto publicado na imprensa no último sábado. Vale refletir.
Que família? Soa no mínimo estranho ter sido instituído o dia 21 de outubro como Dia Nacional de Valorização da Família. Claramente mais uma das tantas tentativas de formatar os vínculos afetivos dentro de um único modelo conservador: matrimonializado, patriarcal, patrimonial, indissolúvel, hierarquizado e heterossexual.
O fato é que, tanto o Estado quanto todas as religiões, credos e crenças sempre tentaram amarrar e eternizar os vínculos afetivos. Para isso, foi criado o casamento. Simples contrato considerado uma instituição, um sacramento, com a só finalidade de impor ao par o dever de se multiplicar até a morte.
A sacralização do matrimônio como única forma de constituir família sempre teve — e ainda tem — efeitos nefastos. Durante mais de meio século, as uniões extramatrimoniais, chamadas de marginais ou ilegítimas, não eram consideradas família. Com isso, a Justiça fez legiões de mulheres famintas, pois nunca lhes concedeu nem alimentos, nem direito a qualquer bem.
As uniões paralelas são outro exemplo. Batizadas mais recentemente com o nome de poliamor ou uniões poliafetivas, continuam alijadas do sistema legal, na vã tentativa de fazê-las desaparecer. Mas condenar à invisibilidade, negar efeitos jurídicos, acaba por chancelar o enriquecimento injustificado do homem que mantém duplo relacionamento.
De igual modo, as uniões formadas por pessoas do mesmo sexo, que são alvo da mais perversa exclusão social e legal. A saída foi criar a expressão homoafetividade, que ressalta mais a natureza afetiva do que meramente sexual do relacionamento. Certamente foi o que levou a Justiça a reconhecer as uniões homoafetivas como entidade familiar e assegurar acesso ao casamento.
Mas não basta a construção jurisprudencial. Há a necessidade de uma legislação, não só para conceder direitos, mas também para criminalizar a homofobia. Este foi o compromisso assumido pela OAB ao elaborar o Estatuto da Diversidade Sexual e coordenar um movimento nacional de coleta de assinaturas para apresentá-lo por iniciativa popular.
Mas o que se vê no Dia Nacional de Valorização da Família são comemorações promovidas por igrejas evangélicas afrontando até o que preconiza a Constituição Federal, que reconhece como entidade familiar, merecedora da especial proteção do Estado, não só o casamento como também a união estável e a família monoparental.
Na realidade dos dias de hoje, é indispensável ter uma visão plural das estruturas vivenciais, inserindo no conceito de entidade familiar todos os vínculos afetivos que, por imperativo de ordem ética devem gerar direitos e impor obrigações.
Não é mais possível viver em um mundo que exclua pessoas do direito à felicidade. Afinal, esta é a finalidade da sociedade e a razão de ser do Estado. Por mais piegas que possa parecer, é só isso que todos queremos: o direito de ser feliz.
* Maria Berenice Dias (Santiago, RS, 1948), uma jurista brasileira, é filha e neta de desembargadores, tornou-se, em 1973, a primeira mulher a ingressar na magistratura no estado do Rio Grande do Sul. Desembargadora aposentada foi fundadora do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM). Cunhou a palavra homoafetividade, para retirar o estigma sexual que envolviam as relações de pessoas do mesmo sexo, fazendo-se reconhecer este novo modelo de família. Palavra que inclusive já está nos recentes dicionários brasileiros.