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sexta-feira, 30 de abril de 2010

30 * Tempus fugit


Porto Alegre Ano 4 # 1366

E já chegamos ao ocaso deste abril tão movimentado. Passou o primeiro terço de 2010. O semestre letivo de 2010/1 já está na sua segunda metade. Amanhã será maio; estreia com feriado. Realmente ‘Tempus fugit’.

Esta era a inscrição presente nos mostradores dos relógios. Hoje, parece somos alertados por tantos outros aparatos tecnológicos, como os telefones celulares e mais especialmente o marcador de tempo que tem no cantinho direito de nossos computadores [talvez, dos muitos relógios que temos, esse seja o mais controlador de todos] que nem precisamos mais de relógios convencionais para nos alertar que o tempo foge. O tempo voa, tanto quanto regido por Cronos ou por Cairós.

Ontem contei, aqui, que recebi o convite para escrever um terceiro prefácio neste 2010. Então, trouxe excertos do primeiro que escrevi no livro organizado por Anelise Grünfeld de Luca e Sandra Aparecida dos Santos. Anunciei que hoje traria algo que escrevi para abertura de livro que reúne cinco sumarentos capítulos produzidos por colegas do Centro Universitário Metodista – IPA. Como meu texto tem nove páginas selecionei alguns fragmentos para que meus leitores prelibem a obra anunciada.

Um prelúdio, ou tentativa de oferecer acepipes

Vivo uma vez mais um gostoso desafio. Fazer a apresentação de um livro. Talvez deva creditar este fazer bastante frequente em minhas lides acadêmicas a generosidade de meus colegas, que me elegem por me reconhecerem marcado pela paixão por esse binômio maravilhoso: escrita ↔leitura.

Vou ser repetitivo no ritual de dar a lume a os desafios na escola: olhares diversos sobre questões cotidianas. Permitam-me, por ser démodé, traduzir essa bonita ação de dar a lume: tornar notório, público; declarar, manifestar. Assim, cabe-me nesse prefácio fazer a epifania ou celebrar o aparecimento ou a manifestação reveladora de um novo livro. Esse ritual iniciático se faz em regozijos.

Escreve-se por último àquilo que será lido primeiro, e mais, há a imensa responsabilidade de seduzir o leitor, através de um prefácio. Aqui mais do que seduzir a um futuro leitor quero trazer apenas acepipes, pois os organizadores anunciam na introdução que este livro “tem a perspectiva de trazer alguns elementos que venham a auxiliar no desenvolvimento do cotidiano dos profissionais da área da educação, no que diz respeito à atuação em sala de aula”.

[...]

Vou executar essa epifania em três movimentos. Eles se farão num crescendo – e aqui uso a acepção de uma composição musical – do macro ao micro. Assim vou me permitir uma referência ao lócus de gestação da obra, em um segundo movimento entram em cena os organizadores do livro, para finalizar há um convite para a mirada dos cinco textos amealhados neste livro.

Ao executar o primeiro movimento surgem dois saberes primevos correlatos. Um refere que ‘o fruto não cai longe do pé’ e o outro que ‘pelo fruto se conhece a árvore’. Quando pesquisadores trazem para o público uma nova produção essa vem matizada pelo lócus de pesquisa. Esse livro é marcadamente uma produção eivada (numa acepção positiva de contaminada) no Centro Universitário Metodista IPA, uma instituição de ensino superior multicultural reconhecida pela presença de adultos maiores, de indígenas, de trabalhadores rurais, de afro-descedentes e de africanos. A instituição cultiva, entre suas marcas, processos de inclusão construídos pela constatação de que os problemas que afligem a realidade latino-americana devem constituir pauta das pesquisas tendo como exigência a atenção à transformação do Planeta e mais que essa tenha uma preocupação com uma melhor qualidade de vida. Vale referir que essa inclusão social não se faz explicita apenas na missão da Instituição, mas é marcadamente visível quando se vê o multiculturalismo presente ‘em realidade’, por exemplo, na sala de aula.

Neste livro os autores evidenciam a sua adesão a propostas que se conectam – e mais, aderem – à chegada de políticas afirmativas no Estado Brasileiro. Para estas saudáveis e saudadas realidades a Escola é artefato cultual privilegiado e esse livro é uma tradução disso. Na Constituição brasileira, um dos objetivos da Educação é a preparação de homens e mulheres para o exercício da cidadania. Entre os fins definidos pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, a educação deve estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente. Só essa dimensão que assinalo nesse primeiro movimento dá ensejos para antecipar que ao final vá, entusiasmadamente, recomendar esse livro.

No segundo movimento quero trazer algo dos três organizadores. Primeiro desejo afirmar que organizar um livro não é coletar textos de diferentes autores, batizá-los de capítulos e junta-los e dizer fizemos um livro. E preciso fazer o que fizeram o José Clovis, a Marlis e a Carolina: eleger um fio condutor e entendê-lo como um seminário, na acepção de sementeira para se colocar ideias que germinem análises, sínteses, críticas, ações, propostas. Isso quase permite violar um paradigma e considerar esse livro um ser vivo.

[...]

E esse prelúdio chega, no seu anunciado crescendo, ao movimento final. Falar de cada um dos cinco capítulos. Meu trabalho seria quase dispensado, pois os organizadores fazem isso com primor na introdução. Limito-me assim uma breve menção buscando encontrar ligações nos cinco textos apresentados.

[...]

Acredito que trouxe àqueles e àqueles que me acompanharam nessas tessituras acerca de os desafios na escola: olhares diversos sobre questões cotidianas motivos para se espraiarem nas páginas que estão adiante. Assim, meu voto é um só: à leitura. Sugiro saborear esse gostoso binômio escrita ↔leitura. Esse livro só terá sua epifania pelas ações de seus leitores. Logo, vale fruí-lo.

Centro Universitário Metodista – IPA, outono de 2010.

Na expectativa que o livro de meus colegas seja em breve realidade papável, votos de uma boa sexta-feira e que a chegada do shabath prenuncie um fim de semana, quando por ser o feriado em um sábado dá para muitos um sensação de um quase sequestro de seu fruir. À noite Gelsa e eu temos um jantar na casa das colegas Ana Claudia e Simone. Sabemos que ao cardápio (comida sírio-libanesa) atenciosamente anunciado se aditará (no seu sentido mais pleno) gostosas conversações.

Amanhã, mesmo feriado, mantenho a tradição sabatina: dia de dica de leitura. Anuncio um livro significativo para inaugurar as blogadas de maio: de Bernhard Schlink, mesmo autor de ‘O Leitor’ comentarei ‘O Outro’. Até então.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

29 * Um livro que lembra uma festa de Babete

Porto Alegre Ano 4 # 1365

A manhã tem mais gosto de inverno que ontem, com temperaturas abaixo de 10 graus em vários pontos da cidade. A quinta-feira é marcada por tristezas no cenário familiar. Muito cedo recebemos a notícia da morte de Rosa Knijnik Malinski. Morre a única ascendente paterna da Gelsa. A tia Rosa era irmã de seu pai. Ainda no domingo desfrutávamos de manifestações de sua alegria, fazendo planos aos 92 anos. Foi vitimada por um câncer no pâncreas violento, pois há dez dias não fora diagnosticado. Guardarei dela suas continuadas manifestações de entusiasmo com a vida. Recordo particularmente de sua festa de 90 anos, quando foi certamente a pessoas que mais dançou.

E esta manhã, Tia Rosa nos faz lembrar com tristeza suas manifestações de alegria.

Essa semana, recebi um convite para escrever um prefácio de um livro. Seu autor (e também autor do convite) é meu amigo o Prof. Dr. Enrique del Pércio, ex-Reitor do Instituto Pedagógico Latinoamericano y del Caribe e Professor de Sociologia na Universidade de Buenos Aires. Os leitores de meus textos ou ouvinte de minhas palestras mais recentes o conhecem, pois o tenho referido quando analiso os três significados do in- ao discutir a “indisciplina como metodologia”. Aliás, esse é o terceiro convite do gênero neste 2010.

Os dois outros são livros organizados por colegas: um dele de duas professoras catarinenses e outro de docentes do Centro Universitário Metodista - IPA. Os meus prefácios são textos extensos (7 e 9 paginas) mas escolhi, nesta quinta e sexta-feira trazer para meus leitores excertos de um e de outro. Começo por aquele que escrevi em março.

Para apresentar um banquete, oferecer acepipes é preciso

Uma vez me encontro ante o honroso convite de fazer a apresentação de um livro. Esse é irrecusável. Não sei dizer muito das duas autoras. Anelise Grünfeld de Luca é Química e Sandra Aparecida dos Santos é Bióloga. Uma e outra são professoras e pesquisadoras ligadas ao UNIDAVI – Centro Universitário para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí, em Rio do Sul. Neste 2010 ingressaram como alunas do mestrado em Ensino de Ciências na UFSC. Nosso conhecimento é intérnetico. Há um tempo desenvolveram atividades com seus estudantes que, entre outros fazeres tinha consulta ao meu blogue. Isso ensejou que em outubro do ano passado fosse pela primeira vez a Rio do Sul, para uma série de palestras. Foi então, quando entusiasmadas me apresentaram o projeto do livro, do qual escrevo este prelúdio. Meu contato com a dupla dinâmica – e talvez esse seja o melhor codinome para as duas – continuou. A parceria acadêmica das duas pode ser traduzido pela usual maneira de encerrar as mensagens: Dois fortes abraços! Anelise e Sandra.

Vou ser repetitivo. Escreve-se por último àquilo que será lido primeiro, e mais, há a imensa responsabilidade de seduzir o leitor, através do prefácio. Aqui mais do que seduzir a um futuro leitor quero trazer apenas acepipes, já que a Anelise e a Sandra reservam para final um capítulo sobremesa. Mas não apenas a sobremesa que elas anunciam que me fez pensar em escrever o aperitivo. Miremos um pouco o sumário. Poderia se pensar ser este um livro de um curso de gastronomia (E por que não?) ou manual de culinária.

Assim, pretensiosamente quero oferecer acepipes. Estes estão dicionarizado como tipo delicado de alimento, em pequenas porções servidas como aperitivo. Ou como diz um dicionário de português não brasileiro: simplesmente como guloseima ou pitéu. Vejam que sou pretensioso com essa abertura. Mesmo que se diga que os químicos sejam no campo das Ciências aqueles que mais se aproximam da cozinha, para não frustrar leitores de ter feito promessa enganosa, mesmo sendo graduado em Química antecipo que não piloto bem forno e fogão, logo os prometidos pitéus podem não ser boas guloseimas. A Anelise e a Sandra, com a expertise que eu não tenho em cozinha, no capítulo 3, convidam Primo Levi para nos mostrar que “a cozinha em si é um espaço de experimentações, onde podemos sentir, cheirar, saborear... como bem poderia afirmar um gourmet e, de relações, onde resgatamos gerações passadas através de receitas históricas e culturais, como bem poderiam confirmar nossas avós.”

Quando redijo esse texto, não posso me furtar em imaginar – e permita-me ser redundante e recordar que imaginar é fazer imagens – algo que para mim é dos fazeres mais gratificantes: garimpar, sem conhecer relógio, livros em uma livraria ou em uma biblioteca. Atividade que sonhamos não se perca em tempos de e-books – não tão sucedidos quanto foram badalados – ou de compras internéticas – sem a lubricidade oferecida por uma livraria ou um sebo não-virtuais –. Aliás, é numa situação de (in)decisão pela eleição de um livro, amável leitor / leitora, que imagino o cenário onde serão um dia lidas essas linhas que ouso chamar de aperitivo. Vejo-te como um leitor em potencial que ora folheia o ‘Quimicobiológico’ em uma livraria ou em biblioteca. Talvez vivas a indecisão compro/não compro ou leio/não leio este livro. Chegas aqui e me encontras a conjecturar sobe o mesmo.

[...]

Talvez devesse / pudesse trazer alguns acepipes mais. Todavia dou-me conta que meu aperitivo fica extenso. Corro o risco de enfarar os leitores, que devem estar ávido a saborear os pratos principais que a Dupla Dinâmica preparou. Termino esse aperitivo anunciando que há excelentes sabores e saberes nas páginas que estão adiante. Asseguro que vale degustar. E tudo se encerra com sobremesa oferecida pala Anelise e pela Sandra. E como escrevo da Dinamarca o ‘Quimicobiológico’ oportuniza um último acepipe. Faço para ele uma analogia. Ele é uma festa de Babette. O filme dinamarquês é de 1987, assim permito-me recordar a história.

Dois adolescentes vivem com o pai, um rigoroso pastor luterano, em um

pequeno vilarejo da costa dinamarquesa. Em uma noite de 1871, bate a sua porta uma parisiense pedindo refúgio: Babette foge da repressão à Comuna de Paris e se oferece para ser a cozinheira e faxineira da família. Muitos anos depois, ainda trabalhando na casa, ela recebe a notícia de que ganhara uma fortuna numa loteria em Paris. Em vez de voltar à terra natal, resolve ficar e gastar o dinheiro em um autêntico jantar francês que oferece à comunidade, aproveitando para comemorar o centésimo aniversário do pastor. Seu banquete impressionou os convidados. Babette havia sido chef de cozinha francesa e trabalhado no chique Café Anglais (que existiu de verdade). O diretor trata a comida como "forma de elevação espiritual".

Assim que o ‘Quimicobiológico’ seja fruído como um manjar dos deuses.

Ålborg, 4 de março de 2009

Com votos de uma quinta-feira muito boa para cada uma e cada um. Para amanhã já temos anunciado mais um aperitivo. Lemo-nos então.




quarta-feira, 28 de abril de 2010

28 * Uma santa indignação

Porto Alegre Ano 4 # 1364

Hoje os calendários celebram o Dia da Educação, dia da Segurança no Trabalho e dia da Sogra. Elejo este último para comemorar e assim homenagear a Liba, uma muito querida e dinâmica Sogra, também uma das mais fiel leitora desse blogue. É para ela essa edição.

Preparei esta blogada no ocaso da noite de terça-feira, quando recém chegava do nono (de 18) encontros de Prática Pedagógica do Curso de Filosofia do Centro Universitário Metodista – IPA. Vibro, pois como em outros sete encontros 100% dos alunos estavam presentes. Apenas em um dos encontros faltou um aluno. Tivemos mais uma aula muito produtivo. No Morro Milenar essa noite já estava frio. Alegro-me com o término das chuvas, e aguardemos o anunciado frio. Acontece a manhã mais fria do ano em Porto Alegre: 9,7ºC. Para quem conviveu este ano em fevereiro, em Ålborg , temperaturas de –14ºC, ainda está ameno.

Todos têm na vida momentos de indignação. Há até aqueles que falam em santa indignação. Não entendendo como até o pecado da inveja é, de vez em vez, santificado. Não sei quando a inveja é santa. Por referir-me a Santa, ontem foi o dia de santa Zita.

Eis o que diz o ‘santo do dia’ que recebo diariamente: Santa Zita, Virgem (+ Luca, 1278) Foi durante 40 anos criada de uma família nobre na cidade italiana de Luca. Distribuía aos pobres o pouco que lhe sobrava do salário recebido. Sua santidade foi reconhecida ainda em vida, e confirmada por grande número de milagres. É padroeira das empregadas domésticas e patrona de Luca. Foi a Fernanda, que duas vezes por semana cuida com muita dedicação da Morada dos Afagos que me lembrou que era o dia de sua padroeira. Por favor, não me rotulem de ser uma vez de igrejeiro, como ocorreu com a blogada de São Jorge.

Mas ontem, à tarde para mim, ao invés de Santa Zita, fi-lo dia de Santa Indignação. Há lugares, em nosso mundo real. Que resistimos a ir. Recordo, quando era professor da rede estadual detestava ir à Secretaria de Educação. Sempre me sentia mal atendido. Outro lugar que detesto ir é a cartórios, para reconhecimento de firma ou assemelhados. Talvez porque os cartórios sejam para mim (e para muitas pessoas ) locais onde sempre nos sentimos lesados pelo tipo de serviços – aparentemente – desnecessários que prestam, pelos quais sempre nos sentimos extorquidos não no preço, mas em exigências descabidas. Eles são autenticadores dizendo que documentos ou assinaturas são verdadeiros. Isso seria totalmente desnecessário se não houvesse desonestos.

Pois na tarde desta terça-feira realizei algo que já protelava há alguns dias: o INSS em um processo que tenho em tramitação pede uma prova que tenho habilitação para ser professor, pois talvez eu possa ter exercido todo esse tempo a profissão de professor como um charlatão. Mas não basta uma cópia do diploma, precisa ser autenticada em cartório. Pois a cópia de diploma que tenho pode ser falsificada. Assim precisei fazer uma cópia autenticada.

Pois esse foi meu feito sacrifical da tarde de ontem. Afortunadamente, a duas quadras de minha casa há um tabelionato. Lá me fui, achando que em poucos minutos me desincumbiria da tarefa já, há uns dias, protelada.

Havia uma pequena multidão, mas para cópia e autenticação a fila era pequena. Uma senhora a minha frente autenticava um documento, que eu nem sabia existir: ‘Certificado de Quilometragem Verdadeira’. Como podem existir carros que tenham sua quilometragem adulterada, então deve haver um órgão que emite tal certificado, algo como um diploma, que depois um cartório autentica.

Chegou a minha vez: entreguei meus documentos. Dois diplomas (um de licenciado em Química e outro de Doutor em Ciências Humana) – assim o INSS me reconhecerá como professor, carteira de identidade e carteiro do trabalho. Como três eram frente e verso, um total de sete cópias. Contra a entrega dos documentos, recebi uma ficha para ir ao caixa aguardar a chamada para o pagamento.

O funcionário que recebeu os 4 documentos passou para outro funcionário que emitiu uma guia,discriminando 7 cópias, 7 autenticações, 7 selos digitais e mais ISSQN (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza). Os dois foram juntos a uma fotocopiadora e enquanto conversaram animadamente, às minhas vistas (e impaciência), durante 17 minutos, fizeram as cópias; um serviço que poderia ser feito talvez em cinco minutos.

Terminado esse oneroso serviço, ou dos funcionários levou os originais e cópias a uma mesa onde trabalhavam cinco burocratas. Meus documentos foram colocados em ultimo lugar de uma pilha. Depois de seis minutos (não havia muitos acima) chegou a vez dos meus. Um dos funcionários os tomou, e enquanto contava algo muito jocoso ao seu colega, os separou em dois grupos: um de originais que foram clipsados e outro com as cópias, também clipsados. Os dois conjuntos foram passados para o colega que contava a história, que não interropeu a narrativa, mas apensou em cada cópia dois carimbos: um retangular grande e outro redondo pequeno. Os dois conjuntos foram passados para um terceiro funcionário, que contou o número de cópias e o numero de originais e apôs uma assinatura no carimbo grande. Passou então para um quarto funcionário que colocou cinco selos digitais em cópias e dois selos na guia demonstrativa dos serviços prestados. Depois meus dois conjuntos de documentos foram encaminhados ao caixa, colocados mais uma vez no final da pilha. Quando foi chamado meu número, paguei R$ 22,73 e recebi meus originais com as cópias autenticadas portadoras de um chamado selo digital.

Como podem ver, tinha razão para fazer-me indignado. Sentir-se lesado é algo que incomoda. Nem sempre pode ser ter a tolerância de uma Santa Zita. Tudo logo foi esquecido, pois em casa deleitem-me na escrita de um texto que preparo para uma fala na Universidade de Rio Grande para participar do Seminário Perspectivas de Investigação no Campo da Educação Ambiental e Educação em Ciências, em maio. Desejo que essa quarta-feira seja a melhor para cada uma e cada um. Espero amanhã trazer algo mais agradável.

terça-feira, 27 de abril de 2010

27 * Mudanças na Escola.

Porto Alegre Ano 4 # 1363

As chuvas parecem cessar. Um sol tímido tenta se anunciar. Já há muitos flagelados por enchentes na região Sul. Há notícias em jornal que volume das precipitações, nos últimos seis dias, correspondem a média de três meses. Na coleta de recordes se diz que nesses dias a região teve recordes pluviométrico no Planeta. Por causa da chuva que cai há quatro dias sem parar em todo o Paraná, a vazão nas Cataratas do Iguaçu é 10 vezes maior que o nível considerado normal; 34 cidades foram afetadas no Estado. Em Santa Catarina, as fortes chuvas já deixam 14 cidades em estado de emergência

Tive publicado este ano o texto: Mudanças na Escola. Pátio, Revista Pedagógica. Ano XIV, Fevereiro/Abril 2010, p 10-13, Porto Alegre, ISSN 1518-305X, cujo número temático é “Educação 2010: Do que o Brasil precisa?” Nele comento algumas mudanças ocorridas em tempos não superiores há dez anos em nosso mundo cotidiano que se refletem no mundo escolar, com muita intensidade. Essas também ajudam a determinar a virada na Escola: de emissora à receptora do conhecimento. Listava, então, seis, que estão mais ou menos presentes nessa Escola que (se não mudou) foi mudada:

a) tecnodepedência: as continuadas ofertas de novas tecnologias tornam nossas salas de aulas mais exigente nos fazendo, muitas vezes, reféns de um data-show ou de PowerPoint ou de um telefone celular. São exemplos dessa situação: um celular sem bateria não pode ser substituído pelo empréstimo de outro, pois desconhecemos os números; o arquivo em PowerPoint, que se não abrir pode quase inviabilizar uma palestra ou uma aula.

b) uma hiper-conectividade que nos faz cada vez mais cidadãos públicos e invadidos em nossas privacidades (orkut, facebook, second life, twiter...). As relações amorosas foram significativamente modificadas com as facilitadas alternativas do skipe ou assemelhados.

c) o fim do efêmero onde nossa passagem deixa rastros que mesmo quando pensamos apagados podem ser ‘ressuscitados’ (por exemplo, pelo Google desktop), por outro lado há perda dos valiosos rascunhos ou páginas comentadas.

d) o (não-)engajamento crítico que passa ser primeiro por uma exigência que pode conduzir a participação construtiva ou – ante sua renúncia – pode conduzir a uma alienação que leva a uma vida cultural vegetativa; em caso oposto, corremos o risco de tornarmos adito a rede; uma boa experiência é experimentar viver por 24 horas sem computador ou acesso à internet.

e) a brecha cada vez maior que se estabelece entre os que têm acesso ao conhecimento e os marginalizados. Hoje a diferença ente pobres e ricos – pessoas e países – não só que os pobres tenham menos bem, mas é que estes têm menos acesso ao conhecimento. Temos de diminuir o número daqueles que ainda pertencem ao Movimento dos Sem @rroba (isto é, não tem um endereço eletrônico).

f) os cada vez mais tênue limites entre o humano/não humano que nos fazem a não darmo-nos conta de quanto os robôs são co-participes de nosso cotidiano. Basta dizer que são estes (aqueles de buscadores como o Google) que iniciam nossas pesquisas.

Agora, dou-me conta que depois de comentar essas seis modificações recentes, em minhas falas, nas últimas acrescentei mais três:

g) a aceleração cada vez maior da chegada à adolescência (recentemente os jornais ‘saudavam’ o lançamento de preservativos para meninos de 12 anos ou como dizia a notícia ‘camisinhas para os pintinhos’)

h) a presença cada vez maior da apocrifia [característica ou condição do que é apócrifo (= que não é do autor a que se atribui)] que se traduz num copismo (quase) incontrolável e na invasão de instituições com méritos como a Wikipédia.

i) a presença cada vez maior da droga invadindo e modificando a Escola [o crack, hoje dilacerando almas e cérebros, não era conhecido há 10 anos].

Apresento essa litania para trazer duas considerações: 1) o quanto, nesse tempo de rapidação tecnológica essas modificações devem ser pensadas como em permanente expansões; minha lista teve um acréscimo de 50% em curto espaço de tempo. 2) mesmo que tenha olhado a Escola (que se não mudou, foi mudada) é importante considerar o quanto as mesmas atingem nosso cotidiano de cidadãos. Aliás, na edição de ontem, quando me referi a nossa cada vez menor a leitura de livros – no sentido clássico do termo – creditava a sonegação do tempo de leitura a esses novos ‘confortos’ que nos seduzem.

Muito a propósito de sedução trago uma questão: o quanto o tempo que estamos conectados à rede tem outra sedução Com dimensões diferentes. Parece que temos aí um bom exemplo do quanto, então, somos regidos por Cairos, ou invés de ser por Cronos. Pensem nisso e até amanhã, com desejos que essa terça-feira seja a melhor.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

26 * Sobre correspondências

Porto Alegre Ano 4 # 1362

Começamos a última semana de abril. As chuvas parecem que pararam, mas a umidade relativa do ar é 100%. O chuvoso domingo de ontem, mesmo com nuvens carrancudas teve ao anoitecer um azular para os gremistas.

Estes se dizem ser a metade dos gaúchos. Tenho defendido a tese que aqui não se nasce católico ou luterano (como acontecia, por exemplo, até recentemente com todos que nasciam na Suécia), nem cristão, judeu ou budista, e muito menos ateu. Aqui se nasce gremista ou colorado. Poderia se fazer um estudo de como o pai é definidor da futura ‘religião’ dos nascituros. Aliás, os gaúchos aquerenciados em outras plagas não fazem diferentes. Ontem meu amigo Edni, enviou-me a ‘certidão de nascimento’ de seu neto Gael, nascido em Bilbao, na Espanha, em 5 de abril. Vejam que ele não usa a camiseta do Athletic de Bilbao.

Nesse fim de semana encerramos ciclo dos aniversários abrilinos. Neste domingo, no intervalo do grenal. Cantamos parabéns para Maria Clara que nesta segunda-feira completamente queridamente quatro anos. Nas fotos dois momentos da festa.

É quase senso comum que hoje dedicamos menos tempo em leituras de livros – e aqui estou me referindo àquele genial artefato tecnológico que ontem foi central aqui.

Há uma justificativa para tal. Não é buscar desculpas, mas uma das razões está na quantidade de tempo que envolvemos em responder mensagens. Aqui estou excluindo aquelas, usualmente trabalhosas, que envolvem dar parecer em trabalhos de congressos e artigos de revistas, agora muito mais controlada pelos sistemas de referagem [palavra não dicionarizada, mas corrente na Academia, correspondente a arbitragem; se for incorporado esse anglicismo, sua origem refere-se à referee, juiz] on-line. Pode-se afirmar que se com o advento do correio eletrônico quase abandonamos as cartas pessoais manuscritas e envelopadas, muitas vezes longas e refinadas. Tornamo-nos muito mais escribas, agora, em mensagens pessoais. Trago dois exemplos de mensagens recebidas na semana que passou.

A primeira recebida pelo orkut: oi, o senhor não me conhece, porém atualmente estou estudando o livro do senhor a ciencia atraves dos tempos, o senhor poderia me fornecer uma sintese dos capitulos 1 e 2 (desde já agradeço). A antecipação dos agradecimentos foi desnecessária, pois pensei que o melhor seria não responder, pois não queria trazer a um meu leitor o destilar de minha indignação.

A segunda, de um dos leitores mais fiel deste blogue, que é também, um atuante líder sindical: Queria a tua opinião a cerca da remuneração de palestras. Vou fazer uma proposta, isto é, pretendo levantar uma discussão no sindicato sobre pagamento de palestrantes convidados. E preciso de alguns subsídios. Sei que você atende muitos convites sem se preocupar com a remuneração, muitas vezes só usufruindo da hospedagem e, é claro, a passagem. Mas haveria algum critério para remunerar palestrante? Como é que no exterior isso é feito? Em se tratando de palestras, mini-cursos, oficinas, como pagar aos profissionais dedicados a isso? Que sugestão você pode me dar para que eu subsidie minha proposição?

Como eu iria deixar de responder a tal pedido:

Meu querido amigo, escolheste um péssimo conselheiro. Toda vez que tenho que tratar de honorário de palestras, sou um trapalhão. Já disse que sonho em ter uma secretária que gerisse esse assunto por mim. Antecipo que nunca deixei de dar uma palestra por questão de remuneração. Já percebi pelas mesmas desde R$ 00,00 (quando não um valor negativo, pois não raro tenho valor não ressarcidas despesas mesmo quando não recebo nada) até mais de R$ 2.000,00.

Mas antes de comentar essa variabilidade, quero aditar outro comentário. Não temos entre nós a tradição de pagar por palestras. Em Porto Alegre, está para se iniciar a quarta edição do “Fronteiras do Pensamento” [www.fronteirasdopensamento.com.br]Eis a informação: o acesso ao curso de altos estudos se dará exclusivamente através da aquisição do Passaporte, que garante o acesso as 10 conferências realizadas na cidade de Porto Alegre/RS, no decorrer do ano de 2010. Investimento: R$ 675,00 (Passaporte para todas as conferências). Eu pessoalmente acho caro, até porque sou obrigado a comprar o pacote integral. Talvez se pudesse eleger uma ou duas pagaria, digamos R$ 70,00.

Eu tenho a impressão que em várias de minhas palestras, alguns as assistem parecendo que estão fazendo um favor para mim (ou constrangidos por algum professor), imagina se tivessem que pagar. Talvez para bem remunerar palestrantes tivesse que haver uma educação para o pagamento pela assistência a palestras;

Há uma de minhas palestras que já dei mais de uma centena de vezes (ainda devo fazer esse balanço): A Ciência é Masculina? É, sim senhora! Já tentei fazer uma venda casada do livro homônimo. Paga-se R$ 15,00 (que é o preço do livro) recebe o livro (com direito a autógrafo) e assiste a palestra. Nessa situação, se houver assegurado 100 aquisições não cobraria honorário algum (exceto as despesas de transporte e hospedagem). Com o desconto que recebo da editora (40%) me considero regiamente remunerado. Essa seria uma situação que me agradaria trabalhar com quaisquer de meus livros, pois significa também um retorno à Editora, que investiu em minha obra. Houve sucesso parcial em uma situação, pois depois de tudo acertado, uma grande universidade solicitou se não poderia cobrar menos pelos livros.

Sei que ainda não respondi a tua pergunta. Eis uma resposta liminar. Acredito que deveríamos ser remunerado por qualquer uma de nossas falas (palestras, mesa-redonda, mini-curso) como profissionais que se prepararam para transmitir o resultado de seus estudos. O valor do pagamento tem pelo menos duas variáveis: a primeira, a natureza da instituição para qual vendo (ou doo) minha força de trabalho e outra, a localização da atividade.

Para a primeira, trago dois exemplos antípodas: a) quanto dou cursos para a formação de professoras e professores dos acampamentos e assentamentos do MST; b) quando profiro palestra para uma instituição em fino hotel e esta é antecedida de um lauto café e sucedida por sofisticado almoço. No primeiro caso não cobro nada e no segundo deveria pedir os mais altos honorários.

Para o segundo, faz muito diferença no valor a ser cobrado a localização: há palestras que tomo uma lotação ou um taxi e em minutos estou no local. Outras há que viajo para ir e voltar duas noites consecutivas de ônibus ou, ainda outras, que viajo de avião com demoradas conexões. Nos honorários deveria estar incluído o tempo gasto desde a saída até o retorno a casa.

Há ainda outro detalhe acerca de recepção de honorários. As instituições que convidam, usualmente têm dificuldades burocráticas para pagar. Algo que dificulta é que não possa emitir nota fiscal, por que não tenho uma empresa. Para pagar a uma pessoa física há muitas exigências de documento, como provar que já recolhes já o teto para o INSS para não descontar uma vez mais. Há também o ‘esquecimento’ de fazer o depósito depois da palestra. Já tenho uma mensagem, mais ou menos padrão, que diz: Nunca mais tivemos troca de mensagem, quando me dou conta que já faz mais de um mês que tive a oportunidade de estar com vocês. Espero que tenham recebido dos participantes uma boa aceitação da palestra. Estou escrevendo, não sem certo constrangimento, para saber se o valor dos honorários já foi depositado.

Há outro dado: há muitas de minhas falas são inseridas dentro de congressos essas usualmente não tem remuneração, às vezes, a única benesse e não precisares pagar a inscrição. Mais um detalhe: universidades (especialmente as públicas) usualmente não remuneram nada. Quando te dão um certificado para colocares a fala no Lattes, se consideram isentas de outro compromisso com o palestrante. É também comum que ao invés de pagamento recebamos presentes: um vaso com uma folhagem, uma cesta com produtos típicos, anuários institucionais, que em geral ficam no hotel, pois são volumosos.

Quanto a tua interrogação acerca do exterior, tenho pouca experiência. Já recebi dinheiro e também já recebi apenas mimos.

Na alegria de começarmos juntos mais uma semana, votos de uma boa segunda-feira. Um convite: amanhã, muito provavelmente, mostro a rapidação da desatualização de um texto.

domingo, 25 de abril de 2010

25 * Uma descoberta genial

Porto Alegre Ano 4 # 1361

Neste 25 de abril o calendário das comemorações pessoais – marcos que vamos colocando em nossas vidas, para assinalar nossas passagens – reúne duas celebrações. Uma, os 30 anos de minha filha Clarissa, cuja linda festa foi ontem à noite, e nesta edição são trazidas duas imagens com a minha caçula, que agora é trintinha.

Outra, a evocação dos 23 anos que a Gelsa e eu começamos o nosso estar juntos na vida, com uma foto do casal jubilar, na festa que ao ingressar no 25, teve ‘parabéns’. Há cinco anos, no dia 29 de abril, reunimos ascendentes e descendentes e numa bonita festa, fizemos a celebração de nosso casamento civil.

Este ano associamos a comemoração na festa de ontem e na que ocorrerá hoje (com a festa dos 4 anos da Maria Clara) na casa da Clarissa e do Carlos. Na esteira das comemorações destes 23 anos posso antecipar aos meus leitores que os livros com os quais fui presenteado pela Gelsa, renderão boas resenhas. O excelente “O outro” [de Bernhard Schlink, que originou o filme 'O Amante' do autor de 'O Leitor] que já li ontem, já está agendado para sábado.

Como anunciei na sexta-feira, quando do Dia Internacional do Livro, e ratifiquei ontem: essa blogada dominical é em homenagem ao livro.

Essa reverência começa pela reprodução da quarta de seis esculturas da ‘Caminhada berlinense de ideias’, inaugurada por ocasião da Copa do Mundo da FIFA em 2006 na Bebelplatz, perto da Unter den Linden em frente à Humboldt Universität em comemoração Johannes Gutenberg, inventor da imprensa moderna em Mainz em torno de 1450. Nessa homenagem estão autores alemães. E para que um dos nomes não induza a erro, vale lembrar que Theodor Fontane (Neuruppin, 30 de dezembro 1819 — Berlim, 20 de setembro 1898) foi um escritor alemão, considerado por muitos o mais importante do realismo alemão.

Quando vivemos em mundo marcados pela quase cotidiana apresentação de novas tecnologias: eBook, iPad, iPod, iPhone, mini-computador custa-nos crer que ainda possa haver novidades. Pois, creiam, elas existem.

Hoje pela primeira vez espero conseguir postar um vídeo nesse blogue, quando o popularíssimo YouTube completa cinco anos.

Se, por inabilidade minha postagem não der certo, convido-os a consultar:http://www.youtube.com/watch?v=iwPj0qgvfIs.

Com os melhores votos de um bom domingo, o convite para nos lermos, amanhã, na inauguração da ultima semana abrilina. Até então

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