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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

16.- KEKULÉ: UM SONHO REVELADOR

ANO
 8
em fase de transição
EDIÇÃO
 2624

Rigorosamente chegamos à última semana do ano. Cada vez mais entramos no efusivo tsunami das festas. Nossas agendas se adensam.
Esta semana poderei participar de até quatro comemorações que me estavam vedadas. Deveria viajar nesta segunda-feira à Boa Vista — única capital de estado brasileiro no hemisfério Norte — para participar amanhã das bancas Leila Ghedin e Iliane Ghedin. Na última quinta-feira fui comunicado que não havia lugar em voo para regressar. Assim a última viagem do ano não acontece e posso cumprir compromissos aos quais justificara ausência.
Na última sexta-feira, após a dolorosa edição acerca do terrível Krokodil, o assunto central foi serendipidade. Prometi, então, nas edições seguintes algumas descobertas serendipitosas. Ontem trouxe o famoso eureca de Arquimedes (Siracusa, 287 a.C. – 212 a.C.). Hoje, depois de evento de 2.300 A.P. conecto o tema a um dos sonhos mais famosos da História da Ciência.
No século 19, especialmente depois de Friedrich Wöhler sintetizar em 1928 a ureia a partir do cianato de amônio e com isto abater o vitalismo a Química Orgânica teve grande impulso. A busca das formas estruturais era algo muito importante.
Na estrutura dos hidrocarbonetos a monovalência do hidrogênio e a tetravalência do carbono era fulcral. As fórmulas de alcanos, alcenos e alcinos ratificavam a teoria. Todavia, havia um hidrocarboneto — benzeno: C6H6 — para o qual não se encontrava proposta que pudesse responder as exigências de valências antes citadas.
O benzeno foi descoberto em 1825 por Michael Faraday (1791 - 1867) no gás de iluminação usado em Londres na época. Em 1834, o químico Edilhardt Mitscherlich determinou a fórmula molecular do benzeno como sendo C6H6.
Durante muitos anos os químicos se esforçaram para descobrir como os seis átomos de carbono e os seis de hidrogênio estavam dispostos dentro da molécula do anel benzênico.
Já na metade do século 19, vários cientistas haviam proposto diferentes fórmulas estruturais para essa molécula. Porém nenhuma dessas proposições conseguia explicar as reações apresentadas pelo benzeno. Foi então que Friedrich August Kekulé von Stradonitz, mais conhecido por apenas Kekulé (1829 - 1896), em 1865, depois de um sonho, propôs a ideia do anel hexagonal, completada no ano seguinte com a hipótese da existência de um par de estruturas em equilíbrio, com a alternância de ligações duplas.
Esta proposta surgiu de um sonho relatado pelo próprio Kekulé: “...Estava sentado escrevendo meu manual, mas o trabalho não progredia; meus pensamentos estavam dispersos. Virei minha cadeira para a lareira e adormeci. Novamente os átomos saltavam à minha frente. Desta vez os grupos menores permaneciam modestamente no fundo. Meu olho mental, aguçado pelas repetidas visões do gênero, discernia estruturas mais amplas de conformação múltipla; longas fileiras às vezes mais estreitamente encaixadas, todas rodando e torcendo-se em movimentos de cobra. Mas veja só! O que é aquilo? Uma das cobras havia agarrado a própria cauda e a forma rodopiava de modo a debochar ante meus olhos. Como se à luz de um relâmpago, despertei; e desta vez, também passei o resto da noite tentando estender as consequências da hipótese.
Senhores, aprendamos a sonhar, e talvez então encontraremos a verdade [...] mas também vamos ter cuidado para não publicar nossos sonhos até que eles tenham sido examinados pela mente desperta.” [ROCKE, A. J. Hypothesis and experimentation in the early development of Kekulé’s benzene theory. Annals of Science, v.42, p. 355-381, 1985 apud Jane Raquel Silva de Oliveira, UFSCar http://cdcc.sc.usp.br/]
Eis um evento serendipitoso: a proposta de Keekulé de uma estrutura em forma de anel para benzeno: C6H6 associada as ligas duplas em ressonância — ainda hoje aceitas na Química moderna — advém de seu sonho com serpente engolindo a própria cauda. 

3 comentários:

  1. Meu querido Attico,

    permita-me um adendo: a cobra sonhada por Kekulé era já bastante conhecida dos alquimistas: o ouroboros, um símbolo de eternidade e infinito (a cobra enrolada não tem fim nem começo), além de representar a perpetuação, que Kekulé pode ter relacionado com a estabilidade química apresentada pelo benzeno.

    Grande abraço,

    PAULO MARCELO

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    1. Muito caro colega e amigo Paulo Marcelo,
      bem lembrado a tua referência a ‘sonhada’ serpente. A Wikipédia ensina que: “Ouroboros (ou oroboro ou ainda uróboro) é um símbolo representado por uma serpente, ou um dragão, que morde a própria cauda. O nome vem do grego antigo: οὐρά (oura) significa "cauda" e βόρος (boros), que significa "devora". Assim, a palavra designa "aquele que devora a própria cauda". Sua representação simboliza a eternidade. Está relacionado com a alquimia, que é por vezes representado como dois animais míticos, mordendo o rabo um do outro. É possível que o símbolo matemático de infinito (∞) tenha tido sua origem a partir da imagem de dois ouroboros, lado a lado.”
      Muito obrigado por tua sempre inestimável ajuda.
      attico chassot

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  2. Benzeno
    Kekulé viu na cobra mordendo o rabo
    Para a molécula de benzeno a solução
    Não atribuiu o sonho a nenhum diabo
    Mas à sua férrea busca de inspiração

    Procurava ele sem trégua noite e dia
    Aromática molécula sem nenhum laréu
    Qual não foi então sua imensa alegria
    Quando viu a cobra em forma de anel

    Ficou assim para sempre consagrado
    Um cruciante problema ele resolveu
    Químicos hoje desfrutam desse legado

    Que Kekulé durante um sonho nos deu
    Hoje ele com Newton está lado a lado
    É venerado na Alemanha onde nasceu.

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