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sábado, 25 de janeiro de 2014

25.— UMA ASSAMBLAGE FRANCO-SUÍÇA

ANO
 8
ANNEMASSE França

EDIÇÃO
 2663

A edição deste primeiro sábado desta série de relatos de um bloguista curtindo as férias-2014 é uma assamblage. Aprendi essa palavra em rótulos de vinhos. No Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, um enólogo explicou-me que consiste de vinho formado pela reunião controlada de dois ou mais varietais em proporções estudadas. Aqui a assamblage se faz com dois pequenos recortes desta jornada ferial.
Aproveito meu estar nesta conurbação franco-suíça para evocar cada um dos dois países, cujas fronteiras, aqui, são quase obliteradas. Da França vem um relato pessoal de ontem e o flavor suíço traz a repercussão de manifestação planetária.
Um dos atrativos de nossas viagens são sempre mercados e feiras. Mais uma vez há que encontrar marcas da história ancestral da humanidade, onde estes artefatos foram/são formadores de espaços culturais. Por mais de duas horas vivemos na feira ao céu aberto das sextas-feiras de Annemasse.
Sintetizar emoções amealhadas então é difícil. Talvez, o destaque principal é uma identificação que faz a maioria dos pontos de venda distinguidos: Agricultura biológica. Mesmo sabendo da imprecisão da expressão (equívoco igual à expressão usual no Brasil: Agricultura orgânica), pois toda a agricultura (mesmo com sementes transgênicas ou com defensivos tóxicos) é orgânica ou biológica.
Aqueles que vendem produtos marcados etiquetados como de Agricultura biológica têm, na maioria das vezes, mais duas características que são muito significativas: uma, os comerciantes são os próprios produtores; outra, são alimentos para localívoros [detalhe na edição desta terça-feira]. Isto me fez evocar meu filho André que se envolve na produção de alimentos por meio de uma Agricultura saudável.
Frutas, hortaliças, temperos, embutidos e queijos estão entre os produtos mais ofertados e em todos há referências à procedência. Há variedades de diferentes produtos: por exemplo, de batatas, tomates (conheci o chamado ‘coração de boi’), alfaces. Há dezenas de tipos de queijos (se diz que a França tem mais de 300 variedades desta sua iguaria típica), inclusive um famoso queijo da Abadia de Tamié produzido monges trapistas desde 1132. A Abadia Notre Dame de Tamié, que fica perto Albertville, na Savoia, na distante de Annemasse.
Dentre o muito que poderia destacar da feira algo que também me impressionou foi a qualidade das caminhonetes usadas pelos produtores para trazer e expor seus produtos.
Ainda deste meu dia em Annemasse uma emocionante referência: conheci, em monumento público, um pouco da história de Miguel Servet (Villanueva de Sigena, Espanha, 29 de setembro de 1511 — Genebra, 27 de outubro de 1553). Ele foi teólogo, médico e filósofo aragonês, humanista, interessando-se por assuntos como astronomia, meteorologia, geografia, jurisprudência, matemática, anatomia, estudos bíblicos e medicina. Servet foi o primeiro europeu a descrever a circulação pulmonar. Participou da Reforma Protestante e, posteriormente, desenvolveu uma cristologia não-trinitariana. Condenado por católicos e protestantes, foi preso em Genebra e queimado na fogueira como um herege por ordem do Conselho de Genebra, presidido por João Calvino. Já agendei um blogue especial sobre Michel Servet.
A composição suíça da assamblage é mais inóspita e amarga. Paradoxalmente, mesmo estando aqui, não estou mais perto da estação turística de Davos, que meus leitores brasileiros que acompanham mais uma edição do Forum Econômico Mundial. Talvez, até mais longe, pois meu acesso a jornais franceses se faz de maneira penosa para mim, por limitações idiomáticas, mesmo que o francês fosse a língua de meus antepassados, que migraram do cantão suíço de Friburgo para serem agricultores no vale do Caí, no Rio Grande do Sul.
Mas alguns informes que também circulam em jornais brasileiros merecem ser trazidos: Apenas 85 pessoas no mundo detêm 46% de toda a riqueza produzida no planeta, segundo um novo relatório, divulgado no Fórum Econômico de Davos. O documento realça a incapacidade de políticos e líderes empresariais em deter o crescimento da desigualdade econômica.
Em outro relatório, divulgado na semana passada, o Fórum Econômico Mundial já abordava a desigualdade e a concentração de renda no mundo como o mais sério risco de danos políticos e instabilidade na próxima década. Na segunda década do século 21 confirma-se, integralmente, a Lei Geral da Acumulação Capitalista formulada assim em O Capital, do economista Karl Marx: “À medida que diminui o número dos potentados do capital que usurpam e monopolizam todas as vantagens deste período de evolução social, cresce a miséria, a opressão, a escravatura, a degradação, a exploração, mas também a resistência da classe operária”.
A Organização Internacional de Trabalho (OIT), em linha com a miséria causada por um sistema global intrinsecamente injusto, mais de 200 milhões de trabalhadores estão desempregados no mundo. Apenas a União Europeia tem mais de 30 milhões de pessoas sem emprego e 127 milhões vivendo na pobreza extrema. Na França, mil empregos são destruídos por dia e cinco milhões estão sem trabalho. Na América Latina e Caribe a taxa de desemprego entre os jovens é de 13,7%, ou 22 milhões; na Espanha, 56%, e na Grécia, 61%. Ainda de acordo com a OIT, 73 milhões de jovens estão desempregados e este índice continua crescendo.
Na Alemanha, um dos maiores exportadores do mundo e país mais rico da União Europeia, 30% da população vivem abaixo da linha de pobreza e 7,45 milhões de trabalhadores têm “miniempregos”, nos quais o trabalhador recebe 450 euros (R$ 1.200) por mês. Caso esses trabalhadores fossem somados à população desempregada, o desemprego pularia de 7% para 24%.
Na principal cidade dos Estados Unidos, Nova York, 50 mil trabalhadores moram em abrigos porque seus empregos são de baixa remuneração e na Espanha, até junho de 2013, 20 mil famílias foram despejadas de suas casas.
Esta evocação a Davos, não só traz um sabor amargo, mas faz evocar as lutas de “Um outro mundo é possível” das edições da última virada do século do Fórum Social Mundial. Parece somos perdedores... 

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Meu caro professor!
    Realmente são dados que nos fazer refletir sobre muitos aspectos. Incluindo a vida humana, ciência, enfim, sobre o SER.
    Fico pensando naquele ditado popular de que o "Sol nasceu para todos".
    Então, apenas 85 precisam de tanto sol assim?
    Continue nos brindando com as benesses deste magnífico "passear".
    Um carinhoso 'quebra-costela'.

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  3. JUSTIÇA SOCIAL
    Em foco perversa economia mundial
    Que garante concentração da riqueza
    Remunera descabidamente o capital
    E remete a grande maioria à pobreza

    Os muito ricos se tornam milionários
    Os mais pobres só carregam o piano
    São como pequenos riachos tributários
    Que engrossam rio que forma oceano

    Algum dia haverá justiça nessa luta
    Aquele que trabalha será reconhecido
    Melhor remunerada será sua labuta

    E desse pobre, vida terá algum sentido
    Ele até comerá a parte boa da fruta
    E agruras desta luta terá esquecido.

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  4. Pai

    Que Ótimo Aproveita !


    Saudades dos nossos domingos !

    Bernardo Carla MA Bêtania

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  5. Tal qual teu herdeiro o Bernardo, evoco-te; aproveita!

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