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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

21.-O DOSTOIÉVSKI DO GRANDE INQUISIDOR


Ano 7***www.professorchassot.pro.br***Edição 2395
A chuva tão desejada parecia ser uma canção de ninar embalando um fim de sesta. Minutos depois informações de que “em uma hora registra-se em Porto Alegre o maior volume de água em seis anos; outra estação registrou quase a metade da média histórica do mês em apenas meia hora. Tubulação de 59 milhões é rompida. Há morte e feridos devido a chuvarada na cidade”.
Eu trabalhava na parte superior de minha casa, encantado com o ver chover. Batem à porta, pois não havia energia elétrica. Era a vizinha da frente. Água de meu totalmente alagado piso inferior invadia outro apartamento. Um cano de drenagem pluvial do jardim rompera-se e fez do meu closet uma cascata. Todas minhas roupas, aparelhos eletrônicos, forração ensopados. Nunca em minha história fora vítima de fenômeno climático como na tarde de ontem. Afortunadamente, ilesos todos meus livros. Algo maravilhoso foi ver a solidariedade de muitos vizinhos socorrendo-me apatetado sem iniciativa.
A publicação do interrogante texto Deus hipotético de L.F. Veríssimo, nesta terça-feira — ao lado de fazer emergir questionamentos do quanto aqueles que creem se sentem mais seguros que os incréus que laboram em incerteza — suscitou interrogações acerca da parábola do Dostoievski sobre o encontro do Grande Inquisidor com Jesus Cristo. L.F. Veríssimo confessa não saber como termina o conto. Isto, provavelmente, fez curiosos a muitos.
Acolhendo proposta de pauta de um leitor, se propôs um tríduo dostoievskiano. Ontem se trouxe algo do conto o Grande Inquisidor; hoje a proposta é falar de seu autor e amanhã, informações sobre o cenário: Sevilha, à época da Inquisição. Assim, aqui e agora, a segunda sessão da proposta para conhecer um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos.
O autor: Fiódor Mikhailovich Dostoiévski nasceu no dia trinta de outubro de 1821, em Moscou, no meio de uma família bastante religiosa. Seu avô foi sacerdote e seu pai chegou a cursar um seminário, mas abandonou a vocação eclesiástica para seguir a carreira médica. Assim como seu pai, Fiódor sofria de epilepsia.
Foto e assinatura: fonte Wikipédia. 
Dostoievski sempre gostou muito de literatura e lia diversos autores russos e ocidentais. Em relação à sua formação religiosa, aprendeu a ler em um livro que relatava episódios bíblicos, intitulado As cento e quatro histórias do Antigo e do Novo Testamento. Junto com seus irmãos, tinha um professor de História Sagrada, de quem ouvia com interesse principalmente os assuntos relacionados ao nascimento e a morte de Jesus Cristo. Dostoievski ia sempre à missa com seus pais.
Em 1838, Dostoievski ingressou na Academia de Engenharia Militar de São Petersburgo. Em 1844, abandonou a carreira militar para seguir a carreira literária, pois era disso que gostava e para isso se sentia vocacionado.
Dostoievski era contra a escravidão apoiada pelo Estado russo. Por esse e por outros motivos começou a fazer parte de uma sociedade secreta e clandestina que se posicionava contra a escravidão vigente em sua época. A participação nessa associação foi a causa de sua prisão, em 1849. Dostoievski ficou exilado por dez anos na Sibéria. No exílio, ele lia bastante a Bíblia e os ensinamentos do presídio marcaram-no por toda sua vida. Foi na prisão, entre os ladrões e assassinos, que ele afirma ter encontrado homens de caráter profundo e inspiração para alguns de seus escritos posteriores.
Ainda na Sibéria, em 1855, Dostoievski começou a trabalhar seu romance intitulado Recordações da Casa dos Mortos, publicado somente em 1862. Essa obra faz referência à sua prisão. Foi entre 1865 e 1871 que Dostoievski escreveu Crime e Castigo — tido como sua obra magna —, O Jogador, O Idiota e Os demônios, respectivamente. Em 1880, Dostoiévski terminou Os Irmãos Karamazovi (onde está inserido o conto que catalisa nosso tríduo).
A obra dostoievskiana explora a autodestruição, a humilhação e o assassinato, além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio: seus escritos são chamados por isso de "romances de ideias", pela retratação filosófica e atemporal dessas situações. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas ideias.
Dostoiévski tinha enfisema pulmonar e começou a apresentar constantes hemorragias que o levaram à morte no dia vinte e oito de janeiro de 1881.

5 comentários:

  1. Dostoiévski seria o nosso Augusto dos Anjos? É interessante como o sofrimento exacerba o potencial filosófico, dentre tantos exemplos lembraria Michel Foucault, que pela discriminação sofrida em sua vida por conta de sua orientação sexual, orientou seus estudos aos mais fracos, mulheres, crianças e doentes mentais.

    abraços

    Antonio Jorge

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  2. Limerique

    Dostoievski me induziu à leitura
    Com seus contos cheios de amargura
    Na minha mocidade
    Cheia de alacridade
    O escritor disse o que é literatura.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Chassot,

    que horror teu naufrágio nas alturas!!

    Para consolar-te posto abaixo um poema proceloso de Hasse, feito para o libretto da ópera Artaxerxes. Musicada por Handel, J. Christian Bach e Vinci.

    Vo solcando un mar crudele
    senza vele, e senza sarte:
    freme l'onda, il Ciel s'imbruna,
    cresce il vento, e manca l'arte;
    e il voler della fortuna
    son constretto a seguitar.

    Infelice in questo stato
    son da tutti abbandonato:
    meco sola é l'innocenza,
    che mi porta a naufragar.

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  5. Vou sulcando um mar cruel,
    sem as velas, sem o leme:
    num Céu negro, a onda cresce,
    não navego e o vento geme;
    e o mal, que o fado me tece,
    sou obrigado a aceitar.
    Mui infeliz neste estado
    por todos abandonado:
    comigo, só a inocência,
    que me leva a naufragar.



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