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quarta-feira, 21 de abril de 2010

21 * Dia de Tiradentes & 50 anos de Brasília


Porto Alegre Ano 4 # 1357

Hoje é feriado nacional. Dia de despertar preguiçoso, como requer um feriado. Café devagar e leituras de jornais mais solta. A manhã é nublada. Agora blogar. A propósito, sou grato às manifestações entusiasmadas a blogada de ontem, postadas nos comentários e também as que me foram repassadas pela Gelsa (que desde Belo Horizonte, onde está participando do ENDIPE, considerou como das melhores blogadas que escrevi), pelo meu irmão Emar (que me chamou de Mc Mahon, o poeta referido ontem) e pela minha irmã Clarinha (que dá mostra de memória privilegiada trazendo a constelação familiar do ‘casal sem modos’). O bloguista agradece emocionado e turbinado para outras assim.

Talvez mais alguns brasileiros, como eu tenho colocado em sua agenda ‘fazer (ou pelo menos começar) o Imposto de Renda. Operação anual, usualmente menos justas a que se submetem os assalariados, pelo menos pela diferença de tratamento que estes têm se comparado aos profissionais liberais e aos empregadores. Mas aqui, não é fórum para lamentações.

Esse feriado de hoje, como muitos outros, corre o risco de ter seu significado apagado. A Inconfidência Mineira, ou Conjuração Mineira, foi uma tentativa de revolta de natureza separatista abortada pela Coroa portuguesa em 1789, na então capitania de Minas Gerais, no Estado do Brasil, contra, entre outros motivos, a execução da derrama e o domínio português. A conspiração foi desmantelada em 1789, ano da Revolução Francesa. O movimento foi traído por Joaquim Silvério dos Reis, que fez a denúncia para obter perdão de suas dívidas com a Coroa. Se vê que então já existia a atual delação premiada.

Os líderes do movimento foram detidos e enviados para o Rio de Janeiro onde responderam pelo crime de lesa-majestade, materializado em inconfidência (falta de fidelidade ao rei), pelo qual foram condenados. Cláudio Manuel da Costa faleceu na prisão, ainda em Vila Rica (hoje Ouro Preto), onde se acredita que tenha sido assassinado, suspeitando-se, atualmente, que a mando do próprio Governador. Durante o inquérito judicial, todos negaram a sua participação no movimento, menos o alferes Joaquim José da Silva Xavier, que assumiu a responsabilidade de chefia do movimento.

Tiradentes, o conjurado de mais baixa condição social, foi o único condenado

à morte por enforcamento, sendo a sentença executada publicamente a 21 de abril de 1792 no Campo da Lampadosa. Outros inconfidentes haviam sido condenados à morte, mas tiveram suas penas reduzidas para degredo, na segunda sentença.

Após a execução, o corpo foi levado em uma carreta do Exército para a Casa do Trem (hoje parte do Museu Histórico Nacional), onde foi esquartejado. O tronco do corpo foi entregue à Santa Casa de Misericórdia, sendo enterrado como indigente. A cabeça e os quatro pedaços do corpo foram salgados, para não apodrecerem rapidamente, acondicionados em sacos de couro e enviados para as Minas Gerais, sendo pregados em pontos do Caminho Novo onde Tiradentes pregou suas idéias revolucionárias. A cabeça foi exposta em Vila Rica (atual Ouro Preto), no alto de um poste defronte à sede do governo. O castigo era exemplar, a fim de dissuadir qualquer outra tentativa de questionamento do poder da metrópole.

Foi alçado posteriormente, pela República Brasileira, à condição de um dos maiores mártires da independência do Brasil e como um dos percussores da República no país.

Frei Betto publicou em www.amaivos.com.br uma releitura não usual da Inconfidência Mineira olhando o mundo das mulheres e seus envolvimentos. É dele excertos que complementa essa blogada.

Nessa cultura machista que nos assola, quase não se destacam as figuras heróicas de mulheres envolvidas com a Conjuração Mineira liderada por Tiradentes. Mulheres que assumiram a coragem de apoiar os homens que amavam, comprometidos com a principal conspiração de nossa história: a que pretendeu libertar o Brasil do domínio português.

Mulheres que padeceram a dor de ver seus companheiros presos, torturados, degredados, os bens sequestrados, a infâmia proclamada sobre sucessivas gerações, sem a esperança de, no futuro, voltar a abraçá-los. Só uma delas o conseguiu.

Tomás Antônio Gonzaga, quarentão, apaixonou-se por Maria Doroteia Joaquina de Seixas, 23 anos mais nova do que ele. Eternizada sob o pseudônimo poético de “Marília de Dirceu”, os poemas apaixonados teriam sido escritos antes de o autor enamorar-se dela. Segundo Tarquínio J. B. De Oliveira, a verdadeira “Marília” é Maria Joaquina Anselma de Figueiredo, viúva enricada, amante de Luís da Cunha Menezes.

Os atritos de alcova entre o governador e o ex-ouvidor de Vila Rica teriam dado ensejo a que este redigisse, sob autoria anônima, as “Cartas Chilenas”, nas quais desprestigia Menezes, tratado pela alcunha de “Fanfarrão Minésio”.

Gonzaga, promovido para a Bahia, valeu-se do noivado com Maria Doroteia para prolongar sua permanência em Vila Rica e, assim, encobrir sua militância na conjuração. A delação de Silvério dos Reis os impediu de casar. O poeta, degredado para Moçambique, ali constituiu família. Maria Dorotéia faleceu em Minas aos 85 anos.

Bárbara Heliodora, mulher de Alvarenga Peixoto, teria evitado que o marido, uma vez preso, passasse de conspirador a delator. Ao ser decretado o sequestro de todos os bens dos conjurados, ela conseguiu provar ser casada em separação de bens e, assim, manter a posse do que lhe pertencia.

O romantismo criou o mito de que Bárbara Heliodora teria enlouquecido ao ver o marido condenado ao degredo na África. As fontes históricas atestam que soube gerir o seu patrimônio e educar os filhos José, João e Tristão, internados no colégio de Itaverava.

Outra mulher que merece destaque é Inácia Gertrudes, a quem Tiradentes recorreu, no Rio, à notícia de que o vice-rei o perseguia. Viúva de Francisco da Silva Braga, porteiro da Casa da Moeda, vivia com sua filha única, de 29 anos, a quem Tiradentes curara de uma chaga cancerosa.

Para evitar maledicências por abrigar o líder conjurado em casa de uma viúva e uma moça solteira, convocou seu sobrinho, padre Inácio Nogueira de Lima, e encarregou-o de procurar seu compadre, o ourives Domingos Fernandes da Cruz, que homiziou Tiradentes. Ali o prenderam.

Quitéria Rita era filha de Chica da Silva com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Chica havia nascido escrava na fazenda do pai de padre Rolim; era, portanto, sua irmã de criação. O padre e Quitéria amasiaram-se, embora não vivessem sob o mesmo teto. Antes de ser preso, Rolim cuidou de internar Quitéria e as filhas no Recolhimento de Macaúbas (ativo até hoje).

Rolim passou 13 anos encarcerado em Portugal. Em 1805, aos 58 anos, retornou ao Brasil e bateu à porta do Recolhimento, onde resgatou Quitéria e os filhos, instalando-se em Diamantina. Como fiel Penélope, ela jamais perdeu a esperança de rever o amado.

Hipólita Teixeira, rica e culta, casou-se com o coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes. Preso o marido, e degredado para a África, teve ela todos os bens sequestrados. Foi ela quem contra-atacou, em carta ao Visconde Barbacena, governador de Minas, a delação de Joaquim Silvério dos Reis. E também redigiu e espalhou os avisos sigilosos dando notícias aos conjurados de que Tiradentes havia sido preso no Rio, a 10 de maio de 1789.

Resta fazer uma homenagem à Brasília que faz 50 anos hoje. Fica a dívida, que talvez salde amanhã. Antecipo o primeiro parágrafo de crônica de Moacyr Scliar na Zero Hora de terça-feira: Na primeira visita que fez ao desolado lugar onde seria edificada a futura capital do Brasil, o presidente Juscelino Kubitschek escreveu no Livro de Ouro de Brasília uma frase que ficou célebre: “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.

Com votos de uma muito boa quarta-feira com feriado. Lemo-nos amanhã.

8 comentários:

  1. Chassot meu Mestre! Especial teu resgate histórico na blogada de hoje. Trazer o conhecimento da trajetória do alferes Joaquim José da Silva Xavier, nosso Tiradentes, é uma contribuiçao significativa, principalmente quando chamas a atençao para a possibilidade da perda do verdadeiro sentido desse feriado. Aliás, o que se tem visto nos últimos feriados é tao somente uma oportunidade de descanso, nunca um momento para reflexões. Uma pena!!! Abraços do JB.

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  2. Meu caro Jairo,
    o comentário de um historiador acerca desta blogada de feriado a engrandece. Por isso, muito obrigado.
    Amanhã homenagearei os 50 anos de Brasília e vou referir alguém que por quase um quinto da vida da Capital da Esperança acompanhou, in loco, a profecia de JK: “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
    Um muito bom chuviscoso feriado

    attico chassot

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  3. Bom dia Professor!
    Mais uma vez encantada com sua forma histórica de abordar!
    =]
    Principalmente no que diz respeito à valorização de nós, mulheres, tão 'perdidas' em meio a essa sociedade, sempre machista!
    E, é claro, isso acabou influenciando minha postagem de hoje, que me fez referir, mais uma vez, à sua.
    Desejo um ótimo feriado!
    Bom descanso!
    []'s

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  4. Muito querida colega Thaiza,
    obrigado por tua análise desta blogada de feriado. Amanhã vou homenagear Brasília onde nos encontraremos em julho no ENEQ.
    Curte feriado com os teus.
    Com amizade um afago do
    attico chassot

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  5. Essas omissões da História em relação às mulheres me fazem pensar o quão penoso é o caminho de umA líder hoje. Conquistar o reconhecimento pelo simples fato de ser mulher esconde uma carga de preconceito, por que nascer mulher não é um mérito, agora, ser reconhecida pelas capacidades, isso sim.

    Por coincidência, nesta semana estava lendo uma dissertação (A Casa de Bonecas)sobre o atendimento às meninas da Fase: as medidas de resociabilização envolvem o “resgate de tarefas femininas”, como lavar as roupas dos meninos, restabelecendo a ordem social e a divisão dos papeis de cada “sexo” na sociedade.

    Obrigada, professor, por trazer estas reflexões no dia de hoje (ontem).

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  6. Muito querida Marília,
    obrigado por mais uma vez trazeres tão oportuno comentário. Realmente a mirada de nossos DNAs grego, judaico e cristão para trazer evidência que não somos machistas por acaso. No meu livro A Ciência é Masculina? É, sim senhora! e nas dezenas de palestras sobre o mesmo acredito que tenho trazido contribuições para a diminuição destas discriminações. Essa dissertação que referes chama-me a atenção. Uma provocação (ou um desafio): tu não te entusiasmarias em fazer uma resenha de umas 30 a 50 linhas para publicares, por primeiro, aqui.
    Um afago com carinho do
    attico chassot

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  7. Muito querida Marília,
    Viva!
    Com expectativas

    attico chassot

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