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quinta-feira, 26 de maio de 2011

26. NOTA DE MORTE ANUNCIADA

Ano 5

Passo Fundo

Edição 1757

Esta edição está sendo postada desde Passo Fundo, aonde cheguei quando a quarta-feira se transmutava em quinta-feira, após deixar Porto Alegre às 20h. Antes de referir o que me traz a mais gaúcha das cidades do Rio Grande, devo justificar a portada: NOTA DE MORTE ANUNCIADA Uma vez mais temos uma edição com luto; este é pela luta em favor da sobrevivência do Planeta.

“Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.” A notícia, que tristemente está em muitos jornais internacionais, é trazida neste blogue com a transcrição de documento muito denso, como repúdio e como homenagem aos mártires hodiernos. São estes heróis que devemos trazer como exemplos de civismo e a amor ao Planeta.

NOTA DE MORTE ANUNCIADA
A história se repete! Novamente, choramos e revoltamo-nos:
Direitos Humanos e Justiça são para quem neste país?
Hoje, 24 de maio de 2011, foram assassinados nossos companheiros, José
Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, assentados
no Projeto Agroextrativista Praialta-Piranheira, em Nova Ipixuna – PA. Os
dois foram emboscados no meio da estrada por pistoleiros, executados com
tiros na cabeça, tendo Zé Claúdio a orelha decepada e levada pelos seus
assassinos provavelmente como prova do “serviço realizado”. Camponeses
e líderes dos assentados do Projeto Agroextratista, Zé Cláudio e Maria
do Espírito Santo (estudante do Curso de Pedagogia do Campo
UFPA/FETAGRI/PRONERA), foram o exemplo daquilo que defendiam como projeto
coletivo de vida digna e integrada à biodiversidade presente na floresta.
Integrantes do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), ONG
fundada por Chico Mendes, os dois viviam e produziam de forma sustentável
no lote de aproximadamente 20 hectares, onde 80% era de floresta
preservada. Com a floresta se relacionavam e sobreviviam do extrativismo de
óleos, castanhas e frutos de plantas nativas, como cupuaçu e açaí. No
projeto de assentamento vive aproximadamente 500 famílias. A denúncia das
ameaças de morte de que eram alvo há anos alcançaram o Estado Brasileiro
e a sociedade internacional. Elas apontavam seus algozes: madeireiros e
carvoeiros, predadores da natureza na Amazônia. Nem por isso, houve
proteção de suas vidas e da floresta, razão das lutas de José Cláudio
e Maria contra a ação criminosa de exploradores capitalistas na reserva
agroextrativista. Tamanha nossa tristeza! Desmedida nossa revolta! A
história se repete! Novamente camponeses que defendem a vida e a
construção de uma sociedade mais humana e digna são assassinados
covardemente a mando daqueles a quem só importa o lucro: MADEREIROS e
FAZENDEIROS QUE DEVASTAM A AMAZÔNIA. ATÉ QUANDO?
Não bastasse a ameaça ser um martírio a torturar aos poucos mentes e
corações revolucionários, ainda temos de presenciar sua concretude
brutal?
Não bastasse tanto sangue escorrendo pelas mãos de todos que não se
incomodam com a situação que vivemos, ainda precisamos ouvir as
autoridades tratando como se o aqui fosse distante?
Não bastasse que nossos homens e mulheres de fibra fossem vistos com
restrição, ainda continuaremos abrindo nossas portas para que os
corruptos sejam nossos lideres?
Não bastasse tanta dificuldade de fazer acontecer outro projeto de
sociedade, ainda assim temos que conviver com a desconfiança de que ele
não existe?
Não bastasse que a natureza fosse transformada em recurso, a vida tinha
também que ser reduzida a um valor tão ínfimo?
Não bastasse a morte orbitar nosso cotidiano como uma banalidade, ainda
temos que conviver com a barbárie?
Mediante a recorrente impunidade nos casos de assassinatos das lideranças
camponesas e a não investigação e punição dos crimes praticados pelos
grupos econômicos que devastam a Amazônia, RESPONSABILIZAMOS O ESTADO
BRASILEIRO – Presidência da República, Ministério do Desenvolvimento
Agrário, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Instituto
Brasileiro de Meio Ambiente, Polícia Federal, Ministério Público Federal
– E COBRAMOS JUSTIÇA! ESTAMOS EM VÍGILIA!!!
“Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”

Marabá-PA, 24 de Maio de 2011.
Universidade Federal do Pará/ Coordenação do Campus de Marabá;
Curso de Pedagogia do Campo UFPA/FETAGRI/PRONERA;
Curso de Licenciatura Plena em Educação do Campo;
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra–MST/ Pará;
Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura
– FETAGRI/Sudeste do Pará;
Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras
da Agricultura Familiar – FETRAF/ Pará;
Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB;
Comissão Pastoral da Terra – CPT Marabá;
Via Campesina – Pará;
Fórum Regional de Educação do Campo do Sul e Sudeste do Pará.

Esta triste notícia é paralela com a aprovação do indulto aos desmatadores. A Câmara dos Deputados é dos latifundiários e do agronegócio. Há agora a expectativa que a Presidente vete a emenda famigerada.

Estou em Passo Fundo a convite de estudantes do Curso de Química da Universidade de Passo Fundo. Mais uma vez participo da 10ª Semana do Químico, que este ano se insere nas celebrações do 2011-Ano Internacional da Química. À tarde ministro um minicurso onde discuto História e Filosofia da Ciência e à noite tenho uma palestra. Às 02h de sexta-feira retorno à Porto Alegre.

Como resultado da reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), que ocorreu em 2009, em Glasgow, na Escócia-Reino Unido, proclamou-se 2011 como o Ano Internacional da Química, sob o tema “Química - a nossa vida, o nosso futuro”. A agenda de comemorações foi organizada pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

O objetivo do Ano Internacional da Química é celebrar as contribuições da química para o bem-estar da humanidade. A química é fundamental para a nossa compreensão do mundo e do cosmos. As transformações moleculares são centrais para a produção de alimentos, medicina, combustíveis e inúmeros produtos manufaturados e naturais. A programação do Ano Internacional da Química também será inserida nas atividades da Década da Educação e do Desenvolvimento Sustentável (2005-2014), estabelecida pela UNESCO. Assim, as atividades programadas para 2011 dão ênfase à importância da química para os recursos naturais sustentáveis. Além disso, no ano 2011 comemora-se o 100º aniversário do Prêmio Nobel em Química para Marie Sklodowska Curie, o que, de acordo com os organizadores, motivará uma celebração pela contribuição das mulheres à ciência.

Esta blogada marcada celebrações de tristezas e de júbilo serve também para aditar votos de uma muito boa quinta-feira. Há ainda o convite para mais uma edição amanhã ainda desde Passo Fundo.

12 comentários:

  1. Caro Chassot,

    tais mortes anunciadas nos mostram o quanto ainda precisamos combater o egoísmo, a intolerância, a ambição, que permeiam as ações de nossa espécie.

    A terra, que deveria ser por todos compartilhada, torna-se subterfúgio para cortar a trajetória de vidas humanas, privando familiares e amigos da presença importante do companheiro que cai, vitimado pela prevalecência do TER ao SER.

    É de se lamentar tantas mortes pela inexistência de diálogo. É de se chorar a esperança trocada por um banho de sangue.

    Arde no peito a revolta contra atos tão vis em sua essência, tão mesquinhos em seu contorno.

    É de se estranhar que o ser humano, dentre todos os animais, por muitas vezes se mostre tão pouco humano.

    Abraços,

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  2. Chassot,
    Fico triste com acontecimentos desse teor, acho que Estado brasileiro é impotente frente a esses bestiais desmatadores que não medem consequências para alcançar seus lucros ilícitos. Mais do que a floresta, o que está em jogo é o futuro da humanidade, se a coisa continuar assim não haverá futuro. Abraços, JAIR.

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  3. Meu querido Paulo Marcelo,
    a tua dor e a tua indignação são minhas. Não palavras para dizer da barbárie;
    Um afago com saudades desde Passo Fundo.
    attico chassot
    “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”

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  4. Muito estimado Jair,
    nossa indignação se adensa com as marcas da barbárie. Adiro a tua tristeza. Concordo: o futuro é ameaçado.
    Obrigado por prestigiares o este blogue desde San Diego.
    attico chassot
    “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”

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  5. Prof. Lairton Tres26 de maio de 2011 08:19

    Prof. Chassot! Bem vindo a Passo Fundo e a X Semana do Químico. Ficamos honrados com sua presença e desejamos um bom trabalho aqui conosco ajudando a difundir o conhecimento químico neste ano em que a Química é proclamada internacionalmente. Acreditamos que através da Educação Química temos muito a contribuir com a formação da sociedade nos desafios da alfabetização científica e no entendimento da ciência em nosso cotidiano. Também lamentamos a morte dos extrativistas, defensores da natureza. Que mais uma vez, o sangue derramado sobre a terra, sangue dos defensores da terra, sirva para nos mostrar que precisamos urgentemente criar uma nova relação com a natureza: uma relação ética de amor, humanismo, cuidado, solidariedade e respeito com a vida.

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  6. “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”~
    ************
    Muito estimado colega Lairton
    ~~ releva remeter a resposta à Cassiane, ao Chaves e ao Rafael, mas minhas buscas ao teu endereço foram infrutíferas; peço para um deles te repassar ~~
    recebo comovido tuas boas vindas. Estou muito contente de estar mais uma vez na UPF. Tenho laços distantes com a Química esta terra. Em 1978 dei um curso promovido pelo DGE 35 ( ou 38 ¿ainda se fala nisso?). É bom nesta tarde e nesta noite estar com vocês.
    Realmente para todos nós, para ti principalmente com uma história de ambientalista o crime do Pará contrista.
    Vale a frese que hoje é lapidar: “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”
    Até depois
    attico chassot

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  7. Meu Caro! A indignaçao que foi tema de meu comentario na ediçao anterior era referente a este fato: a morte anunciada destes dois bravos defensores da floresta amazonica. O Brasil parece estar se especializando na liquidaçao daqueles que defendem a natureza. Ja temos muitas referencias em nosso curriculo: Chico Mendes, Irmã Dorothy, agora o casal Claudio e Maria do Esp. Santo. E o pior é ver a lentidao da justiça em desvendar e encarceirar esses exploradores da madeira e da pecuária, os mesmos que cumprimentaram Aldo Rebelo ontem na Camara Federal.JB(indignado)

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  8. Bom dia Professor.
    Inicio meu comentário de hoje com a frase que inicia a 'nota de morte':
    "Direitos Humanos e Justiça são para quem neste país?"
    Talvez devessemos dizer:para o bolso de quem.
    =/
    É triste saber sobre estas mortes, ainda mais da forma como foram[eu já havia visto no telejornal], mas é mais lamentável ainda quando se junta à decisão da câmara...
    "Que país é esse?!"
    Os interesses giram...
    E, como o senhor mesmo disse:tristezas e júbilos marcam este dia de hoje..
    Um abençoada quinta-feira.

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  9. “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”
    ****
    Meu bravo Jairo,
    adiro a tua indignação. Chico Mendes, Irmã Dorothy, Cláudio & Maria do Espirito Santo Silva são os mártires de agora,
    Obrigado por antecipares tua indignação
    attico chassot
    “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”

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  10. Caro Chassot,

    a esteira de corpos estendidos pela ineficiência do Estado brasileiro parace interminável. Contudo, não desanimemos. Precisamos fazer o que estiver ao alcance de cada um para demonstrar toda a indignação com esse tipo de fato. Dependendo da nossa indignação e da nossa luta, quem sabe um dia esses mortos irão se transformar em florestas. Tenho fé!

    Um abraço,

    Garin

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  11. “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”
    ****
    Muito querida Thaiza,
    Realmente vale repetir a pergunta que trazes: "Direitos Humanos e Justiça são para quem neste país?"
    A tua indignação é também a de muitos brasileiros que viram os vendilhões vencerem na Câmara.
    Que os mártires hodiernos nos abençoem
    attico chassot
    “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”

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  12. “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”
    ****
    Muito estimado Garin,
    a dor que nos toma com mais esse bárbaro assassinato e teu comentário, lembram-me a frase de Tertuliano (citada de memória) “ O sangue dos mártires é semente de novos cristãos’. Ou estes mártires hodiernos (Chico Mentes, Irmão Doroty, Cláudio e Maria Espirito Santo) são exemplo para não nos entregar.
    Com agradecimentos por teu comentário
    attico chassot
    “Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”

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