TRADUÇAO / TRANSLATE / TRADUCCIÓN

sábado, 26 de dezembro de 2009

26*Teoria da Viagem - Uma poética da Geografia

Porto Alegre Ano 4 # 1241

Um sábado que sabe a segunda-feira. Eu trai-me; às 07h estava na porta da Academia, imaginando-me segunda-feira. Ante a porta fechada, voltei depois de um pequeno périplo pelo quarteirão; um calor muito úmido mandou-me logo para a casa.

Mas este sábado é muito especial: se faz inserido no recesso das festas de fim de ano. E esse período, que quase se transmuta em férias, lembra viagens. Sendo sábado, honrando uma tradição que começou em 4 de abril, por sugestão do leitor Marcos Vinicius Bastos, é dia de dica de leitura. Assim, para celebrar a completação do nono mês das dicas de leituras sabatinas, o tempo é próprio para falar muito gostoso que sabe a uma ‘teoria de viagem’ mergulhada em ‘uma poética da geografia’.

Abri a semana comentando alguns livros novos que incorporava à Biblioteca da Morada dos Afagos. Um deles foi Teoria da viagem, poética da geografia – um livro muito recente do filósofo Michel Onfray, que me foi presenteado pela Gelsa. Lateralmente vale dizer que no ‘amigo secreto’ natalino a Laura, sabendo-me bibliófilo, presenteou-me com Indignação de Phliip Roth, o autor que desfruto há muito. Uma primeira ‘espiadela’ tentou-me em fazê-lo furar a fila. Contive-me. Como anunciei no correr da semana, a dica da semana é livro de Michel Onfray.


O autor é um filósofo francês. Nasceu em 1959, em Argentan, no seio de uma família de agricultores normandos. Fez doutorado em Ciências Política e Jurídica. Lecionou Filosofia, no ensino secundário durante 20 anos em um liceu em Caen. Descrente do modo como se ensina Filosofia aos alunos, em 2002, fundou a Universidade Popular de Caen, uma universidade gratuita e heterodoxa, cuja concepção se assenta nos princípios do seu manifesto La communauté philosophique, que busca voltar às raízes do humanismo ocidental. Onfray defende que não há Filosofia sem Psicanálise e os seus escritos celebram o hedonismo, a razão e o ateísmo.

De Onfray esse blogue (e também Sete Escritos sobre Educação e Ciências) já referiu em mais de uma oportunidade Tratado de ateologia (Martins Fonte, 2008). Há em português, editados pela Rocco, Ventre dos Filósofos (1990) e Política do rebelde (2001). Pela Martins Fontes há também Contra-história da Filosofia vol. 1 e 2 (2008). Dele possuo também Le souci dês plaisird: construction d’une éotique solaire (Flamarion,2008) e La inocencia del devinir (Gedisa, 2008).

Como autor de mais de 50 livros envolvendo temas como citei acima, é alvo do ódio religioso de muitos. Em um blogue fundamentalista, opinando acerca deste prestigiado autor, encontrei: “Michel Onfray vai arder no lago de fogo e enxofre de satanás, por colocar conhecimento na cabeça das pessoas; é um que coisa mais terrível, tinha que ser ateu, são todos anti-cristos satanistas filhos do demônio e assassinos”. Ou ainda isso “Bom para e Cristão é fazer uma fogueira e queimar os outros. Fazer faculdade, universidades e fazer as pessoas pensarem é pecado.” Quase não parece que estamos encerrando a primeira década do século 21.


Eis a ficha do livro de hoje: ONFRAY, Michel. Teoria da viagem, poética da geografia. [Théorie Du Voyage (Libraire Générale Française, 2007)] Tradução Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2009. 112 p. 21 cm. ISBN 978-85-254-1918-7

A edição brasileira tem esmerado acabamento. Surpreende 22 páginas em branco no ‘entremeio’. Credito-as como espaço para absorver a densidade filosófica das outras 90. Em Portugal o livro foi lançado em abril pela Quetzal Editores. Esta editora evoca a ave trepadora da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz e origem de Quetzalcoatl (serpente emplumada com penas de quetzal), divindade dos Toltecas, cuja alma, segundo reza a lenda, teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.

Onfray parte do relato de Caim e Abel, no livro fundante da civilização judaico-cristã quase nos inquirindo: Qual é a origem do desejo da viagem? Porque nos sentimos mais nómadas ou sedentários? Porque somos impelidos para o movimento constante, a deslocação, ou amamos o imobilismo e as raízes? Porque mantiveram alguns povos a sua marcha inexorável, pastoreando os seus rebanhos? E porque se dedicaram outros a um só lugar, onde cuidaram dos seus campos? A energia que anima estas formas de vida tão distintas, estes dois arquétipos, é a mesma que anima o resto do universo, e que as combina obscuramente em cada um de nós.

O conceito de viagem ainda faz sentido, num mundo on-line e globalizado? Michel Onfray, pensador francês hedonista, autor de diversos livros de divulgação de filosofia, defensor do ateísmo e da autonomia do pensamento e da vida, faz, em Teoria da viagem: poética da geografia, um elogio à arte de viajar. O viajante Onfray – para quem filosofar só é possível a partir de uma experiência autobiográfica – resgata os significados primeiros de se sair em busca do desconhecido. Remontando à história de Caim (agricultor, sedentário) e Abel (pastor, nômade), ele estabelece dois pólos entre os quais todos oscilamos: nomadismo versus sedentarismo, e amor ao movimento versus paixão pelo imobilismo, pelo enraizamento. É sobre as experiências vividas sob o signo do nomadismo, do espírito da viagem que versa este volume de ensaios. Se por um lado, como afirma Onfray, o mundo resiste às tentativas de colocá-lo em palavras, neste manual da aventura ele recupera os estados de alma do viajante primordial e nos recorda uma lição ancestral: o aprendizado do mundo se dá ao mesmo tempo em que o aprendizado de nós mesmos. Como resultado, Teoria da viagem se oferece como um personalíssimo inventário de reflexões andarilhas, que têm a ver com memória, com amizade, com subjetividade, com perder-se, com a escolha de um destino. Graças ao estilo poético e informal que o tornou um dos filósofos mais lidos da contemporaneidade, Onfray atinge o pastor que há em todos nós. Após a leitura, este livro terá assegurado um lugar na bagagem – real ou afetiva – do leitor.

Onfray em sua Teoria da viagem estuda a viagem em três momentos: o Antes; o Durante; e o Depois. Para cada desses momentos traz oportunas teorizações. “No começo, muito antes de qualquer gesto, qualquer iniciativa ou vontade deliberada de viajar, o corpo trabalha, à semelhança dos metais sob a canícula do Sol... O desejo da viagem tem a sua fonte nessa água lustral e morna, alimenta-se estranhamente desse manto metafísico e dessa ontologia germinativa. Só nos tornarmos nômades impenitentes se instruídos na nossa carne nas horas do ventre materno, redondo como um globo, como um mapa-múndi. O resto revela um pergaminho já escrito...”.

"Viajar tornou-se, não apenas uma espécie de apelo da humanidade civilizada e com um mínimo de meios econômicos, mas também uma vitória sobre a eternidade; porque a viagem nos salva do que perdura e que não é tão eterno como julgávamos. Pertencendo a um mundo em que cada minuto tem um preço e uma medida exata, o viajante recupera a poesia, a inutilidade, os monumentos em ruínas, os papéis que hão de ser arquivados fora da memória, as varandas dos hotéis, os instantes fugidios de prazer e de clandestinidade. Ele é verdadeiramente um espião; e o mundo inteiro é o seu território.”

Em Teoria da Viagem - Uma Poética da Geografia, Michel Onfray reflete sobre a origem do desejo de viagem. Por que razão nos sentimos mais nômades ou mais sedentários?

Por que somos impelidos para o movimento constante, a deslocação - ou amamos o imobilismo e as raízes? porque mantiveram alguns povos a sua marcha permanente, atravessando continentes? E por que se dedicaram outros a um só lugar, onde cuidaram dos seus campos? A energia que anima estas diferentes formas de vida, estes dois arquétipos, é a mesma que anima o resto do universo, e que as combina em cada um de nós".

E para as diferentes etapas da viagem uma recomendação de Onfray “A genealogia de ícones inconscientes úteis para escolher destinações ganha em celebrar o texto, o livro, o romance, o poema, o relato de viagem. Qualquer linha de um autor, mesmo medíocre, aumenta mais o desejo do lugar do lugar descrito do que as fotografias, muito menos filmes, vídeos ou reportagem. Entre o mundo e nós, intercalaremos prioritariamente as palavras”.

Esta aí uma boa sugestão para essas férias. Teoria da viagem, poética da geografia. Adito votos de um muito bom sábado e o convite para amanhã conhecer os quatro textos premiados do desafio natalino deste blogue. Curtam o recesso.

2 comentários:

  1. Mestre Chassot, o livro de Onfray parece-me ser algo inédito: um filosofar sobre os impulsos de sedentarismo e nomadismo. Não me recordo de outro filósofo que fale sobre isso, especialmente com tanto detalhamento e aprofundamento como Onfray.
    Com toda a certeza, é uma dica de leitura valiosa que é trazida hoje.
    Ótimo dia.

    ResponderExcluir
  2. Meu caro Marcos,
    realmente , quando partimos de um de nossos ‘mitos’ fundantes: Caim (agricultor, sedentário) e Abel (pastor, nômade), Onfray estabelece dois pólos entre os quais todos oscilamos: nomadismo versus sedentarismo, e amor ao movimento versus paixão pelo imobilismo, pelo enraizamento. É muito impressionante o quanto na leitura do livro nos enxergamos. O texto ajudou-me numa muito válida auto-análise.
    Convido-te e te encontrares como co-autor da blogada de amanhã.
    Que o fim de semana continue supimpa,
    attico chassot

    ResponderExcluir