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domingo, 31 de janeiro de 2016

31.-UM POUCO EM CASA EM PARIS

ANO
 10
Mais uma vez em Paris
EDIÇÃO
3132

Desde a noite desta sexta-feira, a Gelsa e eu estamos mais uma vez em Paris. Como já contei, em outra narrativa de viagem, foi em Paris, em julho de 1989 — ano do bicentenário da Revolução Francesa — que fiz o début em viagens internacionais (excluídas aquelas chegadinhas a alguns países fronteiriços). Era meu presente de 50 anos.
Talvez, não tenha sido sem razão que elegesse a capital da França para estrear nesta gostosa paixão por viajar, que faz que nos últimos 27 anos, tenha amealhado 49 países, em pelo menos uma viagem anual. Recordo, que quando desembarquei a primeira vez em Paris, na Rua Gay-Lussac — algo nada trivial para um professor de Química — sentia-me orientado na cidade, pois havia lido livros e vistos filmes, que faziam os cenários da capital da França familiares. Depois daquele julho de 1989, estive na cidade luz várias vezes.
Mas ao chegar aqui, agora, senti que já fazia mais de três anos da última estada. Sentia saudades de estar aqui. Assim, faço deste hiato rumo a Porto Alegre, que começou na tarde da última sexta-feira em Budapeste e terminará na noite de quarta, uma pretenciosa preparação do chegar em casa.
Na escrituração deste preâmbulo sinto um pouco a inserção francesa em minha cultura. Há um patrimônio de minha ancestralidade paterna que oriunda do cantão de Friburgo na Suíça chegou ao Brasil, em novembro de 1855, falando francês; depois foi germanizado pelos colonos alemães. Não raro, quando declino meu sobrenome sou inquieido se sou (de descendência) francês. Há que considerar que pertenço a uma geração, que na Escola teve muito mais influência francesa, que a posterior que se abeberou fortemente da cultura estadunidense. Minhas escolas no ensino fundamental foram de religiosos católicos de origem francesa: as irmãs de São José de Chambery e os irmãos maristas fundados por Marcelino Champagnat em Lavallá. Ainda, enquanto aluno marista, estudei nos livros da coleção FTD — que chamávamos por brincadeira de Fede Todo Dia — que na verdade significa Frère Théophane Durand, (Superior Geral da Congregação Marista de 1883 a 1907); ainda hoje uma editora brasileira marista fundada em 1902. Talvez, uma síntese deste franco-culturalismo poderia ser que sabíamos entoar La Marselhesa tão bem, ou melhor, que o hino nacional brasileiro.

O lema dos revolucionários de 1789: Liberté, egalité, fraternité se muito integrado aos ideais que estão, ainda hoje, quase como uma proposta de vida. Não é sem razão que o 14 de julho transcende na ara das celebrações ao 7 de setembro e ao 20 de setembro, mesmo que no pavilhão da República Rio-grandense esteja inscrito o mesma lema. Não é sem razão que se diz que a Revolução Francesa extrapolou e extrapola a França.
Merece um destaque especial no mundo ocidental: René Descartes (1596-1650), matemático, físico e filósofo foi um dos mais importantes pensadores franceses. Se olharmos as quatro mais significativas revoluções científicas (Copernicana, Lavoisierana, Darwiniana e Freudiana) vemos que se considerarmos o Século das Luzes é no Século 18 que temos a construção do conhecimento migrando da Itália para França (e então em paralelo com a Inglaterra). Das revoluções antes citadas na França ocorre a segunda e com a publicação por Lavoisier do Traité Elementaire de Chémie, em 1789, se diz estabelecer-se a certidão de nascimento da Química Moderna. Ainda não se pode esquecer talvez o tributo maior do Iluminismo para a História e Filosofia da Ciência: Enciclopédia Francesa, que teve no mínimo na Modernidade o impacto que tem a Wikipédia na Pós-modernidade. Dentre os iluminista vale destacar Rousseau, Voltaire, D’Alembert e Diderot.
Na literatura merece destaque Victor Hugo, com sua obra mestra: Les Misérables. Na larga lista de autores, os mais recorrentes são Proust, Émile Zola, Maupassant, Balzac, Flaubert, Marguerite Duras, Stendhal e Camus. Sem esquecer, é claro, os poetas Baudelaire, Rimbaud, Valéry.
Se houvesse que ressaltar a Ciência francesa mais recente, Pierre e Marie Curie como estrelas de primeira grandeza. Não há como deixar de lembrar a continuada inspiração de Claude Bernard. Claro que na contemporaneidade há influencia francesa na nossa formação é quase inumerável. Lembro, rapidamente: Durkheim Bachelard, Bourdieu, Grignon, Passeron, Foucault, Lévi-Strauss, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Elisabeth Badinter, Deleuze, Maffezzoli, Morin. Claro que esqueci a muitos.
Assim, se faço de Paris um ponto de adaptação para transição de uma cultura muito exótica para mim (romena e húngara) recém vivida para nesta volta à casa, mesmo que a escala seja marcada por densos e carinhosos afetos familiares, há uma muito forte densidade cultural. Por tudo isso é muito bom estar aqui.

5 comentários:

  1. Maître Docteur Chassot,
    félicitations pour le texte de son approche à la culture française. Faits saillants personnels et historiques sont amenés joliment présentés. Peut-être que nous avons manqué une référence à la langue française si près aux Portugais.
    Une fois de plus le beau texte de voeux,
    antoine

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  2. Estimado Antoine, o anônimo.
    Obrigado por teu comentário. Na elaboração do texto amealhei aquelas situações que me ocorreram livremente, na minha última manhã de Hungria.
    Na manhã deste domingo, visitando o Palais de la Découverte, por exemplo, dei-me conta, ao ler as legendas dos materiais expostos, da diferença em estar em museu na França se comparado com as experiências recentes em museus na România e na Hungria.
    Isso vale especialmente na linguagem escrita, onde o meu entendimento é quase 100%, mas não vale para minha compreensão de uma exposição oral. Ainda esta manhã, assistia um neurocientista, falando para crianças acerca do treinamento de ratos e não entendi muitas das exposições feitas.
    Mais uma vez obrigado por teu comentário, que evidencia o teu alerta para a omissão que cometi e também por teu texto em Francês, que mostra o fácil acesso para nós da língua de Victor Hugo.
    achassot

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  3. Ao visualizar os símbolos estampados na bandeira francesa, aqui ilustrado, não fica difícil compreender a "globalização" dos ideais revolucionários em meados do século das luzes. Assim como ainda incomoda a muitos, fato que 2015 ficou marcado como o ano em que o terrorismo marcou presença na França ao atingir tais ideais, especialmente a ideia de liberdade. Talvez a justiça (social) seja a mais ausente num mundo de riqueza tão concentrada. Fraternidade: sonho ou utopia? Prefiro vivenciá-la.
    Fraternalmente,
    Vanderlei e família

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  4. Ave Magister,

    dos gauleses elencados me encantam Bachelard e Morin. Lembremo-nos, também, dos compositores: Gounod, Lully, Offenbach, Ravel, Debussy, Bizet e Berlioz. Também estudei sob os auspícios das irmãs de São José de Chambery, no colégio Santa Jeanne d'Arc.
    Boas iluminações em Paris. Saudades desde Atlanta
    Guy

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