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sexta-feira, 13 de julho de 2018

13.,- DOIS CANADAS NEM SEMPRE VISTOS PELOS TURISTAS



ANO
 12
Livraria virtual
Www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
3360
É uma aziaga sexta-feira 13. Escrevo em Vancouver no Canada. Há uma semana vivo uma realidade inédita para mim.
Quando se está a primeira vez em um país, como turista usualmente, se busca ratificar ou retificar nosso Imaginário acerca do país.
Este imaginário foi construído ao longo de nossa história: os livros que lemos, os filmes que assistimos, os noticiosos e, talvez, algumas aulas de geografia decoradas.
Chegados ao país visitado o nosso imaginário vai se transformando em realidades pelo que observamos, pelo que vivemos e assim por diante... a ratificação ou a retificação depende de quanto trouxemos em nosso imaginário.
 Parece haver alguma diferença significativa quando se trata de um país muito desenvolvido ou quando estamos num país de menor qualidade de vida.
Há uma semana cheguei pela primeira vez ao Canadá; mais precisamente a Vancouver, única cidade canadense que visitei. Parece que trazia uma boa generalização acerca do país; mas acerca da cidade conhecia muito pouco.
Em uma semana foi relativamente fácil dar por existente aquilo que esperava encontrar em um dos países mais desenvolvimento do planeta. Isto é desenhar uma grande metrópole capitalista do século 21.
Maciços formados por altos edifícios, muitos com uma arquitetura imponente que dá a Vancouver o título de ‘cidade de vidro’. Vi logo um muito eficiente sistema de trânsito com muitos carros, ou melhor com muitos carrões, se deslocando de maneira continua por avenidas margeadas por árvores e muitas flores; essas avenidas, em muitas situações têm sobrepostas outras rodovias que se interconectam por rotatórias que à primeira vista parecem ser complexos labirintos.
 Estava numa cidade que tem um dos portos mais movimentados da América e o contato da cidade com o mar oferece inúmeras atrações turísticas, que não tenho condições de descrever.
Uma imponente capital do Século 21 tem, como Vancouver, muitos movimentados mercados onde a oferta de produtos ditos ‘orgânicos’ e artesanais parece querer mostrar quanto o ‘deus mercado’ também é bonzinho. A moderna ‘city’ tem muitos museus, galerias de arte, teatros, inúmeros restaurantes e cafés e poucas igrejas. Tem uma biblioteca pública com um acervo invejável onde se incluem obras raras em prédio belíssimo (foto). Tem um lindo jardim botânico e um muito didático aquário inserto em parque de mais de 400 hectares.
Há edifícios sólidos de bancos. Há universidades com posição de destaque no ranking mundial. Estive em duas famosas com campus imponentes: UBC – University of British Columbia e SFU Simon Frase University. Na UBC dou destaque ao Museu de Antropologia MOA.
Vancouver é realmente a orgulhosa capital da província da British Columbia que nas placas dos automóveis exibe o dístico ‘Beautiful British Columbia. Tem também muitos monumentos aos grandes vencedores.
E os vencidos?
 Há um grupo significativo de moradores de ruas, São andrajosos. Mas parece receberem de instituições beneficentes ‘um café da manhã’.
Na UBC MOA assisti a uma exposição temporária: ARTS OF RESISTANCE Politics and the Past in Latin America. Foi então que ‘me caiu a ficha’. Eu não conhecia nada da História do Canadá.
Há uma história dolorosa e dramática. Na busca de uma narrativa em português a escolha foi: A tragédia indígena no Canadá de Elaine Tavares do Instituto de Estudo Latino Americano IELA UFSC de 12 de Agosto de 2015. Este texto enseja extensas reflexões.
Desde os anos 90 do século passado que a América Latina viu crescer – em uma nova e forte onda – a luta dos povos indígenas pelo direito a sua cultura e ao seu modo de vida. Considerando que a invasão das terras de Abya Yala provocou morte, destruição e genocídio, esse movimento de ascenso das lutas indígenas é também um processo de reconstrução da memória. A verdade sobre o “descobrimento” é a realidade da dor e da negação de centenas de povos, nações e civilizações que aqui já existiam antes da chegada dos invasores.

Mas, não é apenas a América Latina que se levanta em luta. Na parte norte da América, os povos indígenas também fortalecem as batalhas pela verdade, desvelando as chagas do extermínio de suas gentes.

No Canadá, por exemplo, existe hoje uma campanha para que toda a população saiba o que aconteceu com os povos originários depois da chegada dos colonizadores e também num passado não muito distante, como é o caso das “Escolas Residenciais”, criadas para o que chamavam de “reeducação” dos indígenas. Na verdade, um crime contra a vida, um genocídio cultural sem precedentes. Essa é uma tenebrosa história que está vindo à tona a partir da denúncia dos sobreviventes, visto que elas existiram até o ano de 1993.

Segundo informações da Comissão da Verdade e da Reconciliação, desde a invasão do Canadá sabe-se que as igrejas realizavam uma sistemática ação de destruição da cultura, através da evangelização, mas a partir do ano de 1840, o estado oficialmente assume uma parceria ao criar as primeiras escolas para indígenas na cidade de Ontário. O governo então dava os recursos, e as igrejas providenciavam a “educação”. Só que o que era para ser um processo de inclusão dos povos originários à vida do país, acabou sendo um circo de horrores.

Em 1898 já existiam 54 escolas no país dentro do modelo de “Escolas Residenciais”, o que no Brasil se assemelharia aos internatos. E era para esse tipo de escola que eram mandadas as crianças indígenas, num atentado sem limites contra suas crenças e seus costumes. Em 1946 foi registrado o número máximo de escolas: 74. E, segundo a lei, os pais que se recusassem a mandar os filhos eram punidos criminalmente. Não havia escapatória. Os indígenas eram obrigados a enviar os filhos para o inferno.

 Mais de 150 mil crianças foram praticamente sequestradas, separadas de seus pais e internadas nas escolas que eram mantidas pelas igrejas Anglicana, Católica, Presbiteriana e Metodista. Ali não era permitido falar o idioma indígena e todos os costumes autóctones eram negados. “Eles diziam que éramos do diabo”, lembra uma das sobreviventes. O objetivo era formar “europeus de pele escura”, eliminando o contato com a família e apagando o passado cultural.

Não bastasse isso, muitas dessas crianças eram submetidas a violências de toda a ordem, inclusive sexuais. A comissão que hoje trabalha para trazer á luz todos esses crimes, cometidos com o apoio do estado canadense, já documentou 3.200 mortes de crianças nessas escolas, decorrentes de maus tratos, abandono e suicídio. “O governo canadense manteve essa política de genocídio cultural porque queria se desvincular de suas obrigações legais e financeiras com os povos indígenas e assim poder controlar suas terras e seus recursos”, denunciam.

Segundo o relatório da Comissão, as denúncias de maus-tratos e violências já começaram a pipocar no final dos anos 40, mas poucos se importaram. Conta-se que havia diferenças no trato das crianças conforme as diferentes igrejas, mas, ao fim, todas elas partilhavam da ideia-chave da proposta que era defendida por Egerton Ryerson, Superintendente de Educação do Canadá no ano de 1847 e que iniciou a malfadada experiência: “A educação dos índios não deve simplesmente consistir no treinamento de suas mentes, mas também na eliminação dos hábitos e sentimentos de seus ancestrais, na aquisição de novas linguagens, artes e costumes da vida civilizada”.

No início do século XX, uma nova lei reforçava a ideia das escolas residenciais e o apagamento da cultura autóctone, e em 1920 encontra-se o registro da fala do Superintendente Geral da Casa dos Comuns, Duncan Campbell Scott, que mostra bem qual era a intenção dos nobres governantes: “Nosso objetivo é continuar até que não exista um só índio no Canadá que não tenha sido absorvido ao corpo político e que já não exista qualquer problema indígena no Departamento Índio. Esta é a meta dessa lei”. E assim, por mais de cem anos, as crianças indígenas foram submetidas à tortura e ao esquecimento de sua origem.

Mas, homens como Duncan e outros da sua estirpe jamais poderiam entender que um mundo não se destrói assim, à força. Seria preciso que todos fossem eliminados fisicamente. O que não aconteceu. Assim, apesar de toda a dor, de todo apagamento cultural, a vida indígena resistiu e, hoje, os sobreviventes da tragédia das escolas residenciais abrem a caixa de pandora do mundo “civilizado, primeiromundista” do incensado Canadá.

São momentos de muita emoção os vividos pelos sobreviventes nos inúmeros encontros que realizam para contar de suas experiências. Campanhas midiáticas foram criadas para que a verdade venha à tona e para que o governo do Canadá reconheça os crimes do estado.

Depois de todo o processo desencadeado pela Comissão, o governo já pagou mais de quatro milhões em compensação pelos danos causados e o primeiro-ministro do país pediu desculpas oficiais, mas os indígenas não consideram isso suficiente. Por isso, ainda lutam pela consolidação de uma série de demandas e recomendações sobre o tema que somam 94.

Entre as reivindicações os indígenas exigem que as famílias sejam mantidas juntas, que a cultura originária seja protegida, que falar sua própria língua não seja proibido e que se crie uma Lei de Línguas Indígenas, que não haja mais castigo para as crianças indígenas ,que seja garantido o direito de viver sua cultura, que se crie uma política de educação capaz de garantir ao indígena a sua real inserção na vida do país, que haja um pedido de desculpas oficial por parte dos líderes das igrejas e que haja uma lei garantindo a proteção das comunidades indígenas.

O mundo precisa saber que até os anos 90 crimes dessa natureza ainda eram cometidos no Canadá. É uma luta dura e difícil, mas a qual os povos indígenas do Canadá estão determinados a travar. Pela verdade e pela justiça.

Com eles, estamos!

Um comentário:

  1. Caro amigo, obrigado por divulgar novos saberes. Gostei de conhecer esta outra versão.
    Abraços do Guy, em Rio Grande

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