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sexta-feira, 23 de março de 2018

23.-As primícias outonais




ANO
 12
Livraria virtual
Www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
3345


O outono de 2018 começou nesta terça-feira... Para alguns poucos leitores desse blogue, que vivem no Hemisfério Norte, começou então a primavera. O outono na região do paralelo 30 do Hemisfério Sul (onde eu moro) é talvez a mais bonita ou a mais saborosa quanto ao clima. Difere da primavera, pois usualmente não há ventos, como aqueles ditos ‘ventos de finados’.
Se diz que é a estação da maturação dos frutos e muitas árvores e arbustos, transmutam–- já em preparação do inverno –- a folhagem verde em um lindo amarelo dourado. Não é sem razão que em inglês outono é também conhecido por fall.
Fiz título desta edição uma palavra que não pertence ao nosso falar cotidiano: Primícias. Uma palavra usada usualmente no plural e está associada ao outono, pois está assim dicionarizada conjunto dos primeiros produtos da terra ou de um rebanho (Priberam). Mesmo que tenha colhido na terça-feira saborosas goiabas, aposso-me metaforicamente para narrar aqui duas primícias. Uma ocorreu na terça e outra na quinta-feira.
Na chuviscosa manhã de terça-feira fui de ônibus a Igrejinha RS, na mesorregião Metropolitana de Porto Alegre e na microrregião de Gramado-Canela, mais precisamente no Vale do Paranhana, a cerca de 82 km de Porto Alegre. O município, um dos maiores produtores de calçados femininos do Brasil tem cerca de 35 mil habitantes.
Colonizado por imigrantes alemães durante o século 19, ainda hoje possui população predominantemente de origem alemã. O nome do município se deve a uma pequena igreja construída pelos imigrantes em 1863. Para celebrar as tradições de seus antepassados a cidade criou a Oktoberfest de Igrejinha.
Meu destino em Igrejinha era a pequena Escola Municipal Dom Pedro II, em Solitária Alta na região colonial do município. A agenda era extensa (três turnos) e desafiadora.
O primeiro desafio foi no turno da manhã. Tentar responder para quase meia centena de alunas e alunos do sexto ao nono ano do Ensino Fundamental: “O que é Ciência, afinal? Ao comparamos Ciência e Religião a carta de Richard Dawkins a sua filha Juliete foi destaque. Confirmou-se, já no primeiro aquilo que sempre tenho dito: ‘é mais complexo, é mais difícil dar aula no ensino fundamental do que ser professor na pós-graduação. Motivado por um painel à entrada da escola, palestra foi dedicada à Marielle, referida como exemplo para as nossas lutas em busca de um Planeta com menos desigualdades.
Curtindo o sucesso da primeira fala, aplaudida extensamente, cumpri aquela que seria a meu juízo atividade mais significativa, mas também mais complexa: visitei quatro grupos: o primeiro era formado por alunos do terceiro ano ensino fundamental; o segundo grupo foi para alunos de quarta e quinta série reunidos; a terceira visita foi para alunos de segundo ano; e a quarta foi para alunos da Educação Infantil e do primeiro ano. Se na tarde de terça tivesse que dar uma palestra em um doutorado não teria tanta dificuldade como tive para fazer essas quatro visitas; todas elas muito diferentes e todas elas muito a meu gosto.
A última atividade nesses três turnos em Igrejinha foram duas falas para 12 dos 15 professores da escola começamos às 18 horas e terminamos depois das 21 horas com 10 minutos de intervalo. Foi uma atividade muito produtiva e muito rica. Na primeira fala falei acerca da (não) intersecção dos saberes acadêmicos / saberes escolares / saberes primevos. Na segunda parte ensaiamos possibilidade de práticas de pesquisas com os alunos tendo como problema (genérico): Como preservar saberes primevos e fazer deles saberes escolares?
Recebi de presente da escola uma linda cesta com produtos coloniais e artesanais da região acompanhada de muito carinho de alunos e professores. Foi um 20 de março de 2018/
Falta uma pergunta: Por que uma escolinha rural na beira da estrada? Minha filha Clarissa e meu genro Carlos são lindeiros com a escola e minhas netas Maria Clara e Carolina são desde agosto alunas da escola. Não se precisa dizer mais nada.
 As primícias da noite de quinta-feira não foram menos emocionantes que as terça-feira em Igrejinha. Em novembro fora convidado para atividades no Instituto Federal Goiás no campus Inhumas. Estabeleci relações com vários colegas. Este ano a Professora Danila Mendonça –- titular da disciplina Instrumentação para o Ensino de Química I –- me escreveu solicitando sugestões e/ou alternativas para trabalhar com um grupo de licenciandos em Química do 5º semestre.
Depois de algumas trocas de WhatsApp acolhemos a proposta, que já realizara com outros grupos. Os alunos leriam e discutiriam em aula o capítulo Diálogo de aprendentes (ver referência*) no qual faço transgrido as fronteiras da ficção e da realidade fazendo uma assamblage** de uma maneira usual muito apreciada pelos leitores.
No terceiro encontro sobre o mesmo texto eu compareci, via teleaula à sala de aulas com os alunos e a professora. Os estudantes trouxeram quase uma dezena de questões. Cada uma dela catalisou uma microaula que se prestou a muitas interrogações. Foram quase duas horas muito enriquecedoras.
Dois pontos fora do script: #1) A professora Priscila, que na mesma hora teria aula de Cálculo com outro grupo, trouxe cerca de duas dezenas de alunos que foram ouvintes muito significativos. #2) Tivemos problemas técnicos e só conseguimos ter áudio num não muito ortodoxo acoplamento de um notebook e smarthfone.  
* CHASSOT, Attico. Dialogo de aprendentes, in MALDANER, Otavio Aloisio (Organizador); SANTOS, Wildson Luiz Pereira dos (Organizador). p. 23-50 Ijuí: Ensino de Química em Foco Editora Unijuí, 2010, 368 p. ISBN 978-85-7429-888-7
** vinho formado pela reunião controlada de dois ou mais varietais em proporções estudadas. Assim, por exemplo, cabernet sauvignon + merlot poderiam formar uma assemblage (o substantivo é feminino, numa evocação à assembleia), ou tanat + pinot noir, outra.
Mas a semana teve tristezas: faleceu a Prof. Dra. Ierecê na madrugada do dia 21.03.2018, uma muito querida colega da Reamec e da Universidade Estadual do Amazonas.
Ela deixou seu epitáfio: "Às vezes somos como a Fênix. Entramos em autocombustão. Morremos. Mas depois renascendo das cinzas. Como a Fênix, carregamos carga muito pesada para uma única existência. Temos que nos dar a chance de outra..." Ierecê dos Santos Barbosa


8 comentários:

  1. Querido Professor!
    Primeiramente gostaria de parabenizá-lo pelas duas atividades: Igrejinha e Inhumas.
    Lendo sobre Igrejinha, me fez admirá-lo ainda mais. Concordo quando diz que "é mais complexo, é mais difícil dar aula no ensino fundamental do que ser professor na pós-graduação." E por isso o admiro e digo sempre que você é minha inspiração de SER PROFESSOR.
    Em segundo lugar, não menos importante, agradeço-lhe mais uma vez pela magnífica noite que nos proporcionou na quinta-feira, 22. Que noite recheada de conhecimento. Que noite recheada de aprendizado.
    Mais uma vez agradeço-lhe por ter aceitado o meu convite. Pela primeira vez dividi a "minha" sala de aula com outro professor. E digo: Foi uma das melhores experiências profissionais que já vivi nesses 18 anos de magistério.
    Espero que possamos fazer isso mais vezes. Foram quase duas horas muito enriquecedoras.
    Por fim, despeço-me da mesma forma que iniciei o comentário: Parabenizando-o pelo seu SER PROFESSOR. Parabéns pelas atividades da semana! E continue nos inspirando.
    Um afago!

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  2. Boa noite professor Chassot, nossa aula de quinta-feira foi muito excelente, fiquei muito honrado e feliz por tê-lo em nossa aula respondendo nossas perguntas, um momento onde pude aprender mais, mas além dos agradecimentos pela aula gostaria de deixar uma questão para senhor para começar um "diálogo de aprendentes", recentemente estava lendo e estudando um pouco sobre Johan Pestalozzi ele diz uma frase muito interessante "é preciso psicologizar a educação", cabe a nós futuros professores de química ou já professores ter o pensamento de "psicologizar a ciência"? Mas uma vez ressalto os agradecimentos da nossa teleaula... Abracos

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  3. Bom dia professor Chassot, queria agradecer mais uma vez pela aula de quinta feira,22.Fiquei bastante feliz pelo seu acolhimento, pela sua bondade em responder cada uma das questões colocadas a você. Logo após a vídeo conferência eu e meus colegas, junto com a professora Danila começamos a pensar no próximo encontro.E obrigado por nos inspirar tanto! Um forte abraço.

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  4. Terça-feira,20/03, uma data,muitos aprendizados!obrigada professor por suas falas, suas inquietações que me inquietam também, por me fazer repensar, me desacomodar. Foi um prazer tê-lo conosco. Espero encontra-lo muitas vezes ainda.

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  5. Chassot, dileto amigo, tua narrativa me fez acompanhá-lo de dentro para fora do Tempo que se impõe de modo tão diferente quanto desigual. Que beleza de experiência com o ensino fundamental! Pois bem, essa é a minha "praia", o meu ambiente e o meu cotidiano, começando na educação infantil. As caravanas literárias que realizamos - Adriana e eu - acontecem, privilegiadamente, em escolas da educação básica. Então, saiba que me senti, completamente, em casa com esta tua blogada. Bom para o teu coração, maravilhoso para os corações das crianças, que conhecendo-o, descobrem paixões novas em quem as viveu e com elas vive. Meu abraço!

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  6. Caro mestre, sabemos das dificuldades e dos grandes desafios sobre ensinar, principalmente na Educação Básica. Especialmente no que se refere ao universo objetivo da área: condições para trabalhar/formação/valorização. Como a educação é base para a constituição de uma sociedade civilizada, preocupa-me os possíveis rumos de nossa nação quando se coloca o ensino numa gôndola sob a (i)responsabilidade de quem pensa com os neurônios do material($), do poder e do conflito.
    A esperança/utopia nos é dada pelo testemunho concreto de seres iluminados que, mesmo passando de meio século de sala de aula, continuam entre crianças, adolescentes e jovens a semear o gérmen do conhecimento. Grande abraço.

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  7. Um mestre... este é Attico Chassot, no sentido literal da palavra. Compartilhando seus saberes por quase 4 horas, de forma incansável, prendendo a atenção de quem o ouve. Grande Mestre Chassot! Ouvi-lo é um privilégio, uma renovação da ideia de que a educação tem e é o futuro. Estendo o agradecimento a sua filha Clarissa, que foi a principal responsável em proporcionar estes momentos de escuta e reflexão a nosso grupo de professores. Meu sincero abraço!

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  8. Muito querida Daniela,
    ]muito obrigado por tuas generosas palavras.
    Já imagino nossa terceira atividade dia 29!
    gratidão pela força

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