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terça-feira, 1 de setembro de 2015

01.- MINHA SOGRA ENCANTA-ME


ANO
 10
LIVRARIA VIRTUAL em www.professorchassot.pro.br
EDIÇÃO
 3076
Há quase 30 anos, que o 1º de setembro não marca, para mim, apenas o inicio da Semana da Pátria. Há outra celebração nesta data. Assim, hoje, este blogue faz uma comemoração muito especial.
Cheguei pensar, em fazer um estudo acerca de uma figura mal querida no imaginário de diferentes culturas. Desde o filosofar dos caminhoneiros, ao aprendermos na sabedoria dos para-choques: Feliz foi Adão que não teve sograaté um intelectual que escreveu: Conscience is a mother-in-law whose visit never ends["A consciência é uma sogra cuja visita nunca termina” citação atribuída a H. L. Mencken (1880-1956), escritor estadunidense] há variadas manifestações deste mal querer.
Liba e eu na noite deste sábado, 29AGO2015
Não vou buscar como se deu a construção negativa da figura da sogra. Pois, aqui e agora, homenagear uma pessoa muito querida que hoje faz 94 anos. Posso narrar dela o antípoda ao que o senso comum diz da sogra. Preciso policiar-me, para não fazer aqui uma hagiografia e sim um bosquejar acerca de Liba Juta Knijnik. Ela é minha sogra.
Nos propósito deste texto não está detalhar a história da menina que nasceu em 01 de setembro de 1921, em Rawa-Ruska, uma aldeia da Galícia, hoje território da Ucrânia, que, então, era parte da Polônia. Quando a Gelsa e eu este ano estivemos na Polônia quisemos ir a Rawa-Ruska. Nos desaconselharam com a recomendação de que não se visita região em guerra.
A crise que se abatera na Europa, nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), fizera do pai da Liba um desempregado. A mãe, quando jovem, tinha vivido 10 anos trabalhando nos Estados Unidos. Na América, entre outros aprendizados, se tornou fluente em inglês. Ao voltar para visitar a família na Polônia, a conflagração mundial impediu a mãe da Liba de voltar aos Estados Unidos. Casa, então, na sua aldeia.
Quando o casal vê aumentadas suas dificuldades de sobreviver na Europa, pai resolve vir fazer a América. Deixa na Polônia a esposa com três meninas: Liba, Teresa e Reisla, das quais Liba é a mais velha, com menos de cinco anos. O pai vem para o Brasil, primeiro para o Rio de Janeiro e Belo Horizonte e depois para Porto Alegre. Com seu trabalho envia dinheiro para a esposa e filhas na Polônia, para realizar um sonho: reunir novamente a família na terra que ele já adotara. Quando Liba tinha nove anos, surge a oportunidade de imigrarem para o Brasil, onde o pai conseguira uma licença para fazer vir a família. Em 1930, a mãe e as três meninas deixam a Europa e durante 18 dias cruzam o Atlântico. Liba recorda que foram dias difíceis, mas permeados de sonhos com uma nova Pátria. Chegam ao Rio de Janeiro, depois de uma quarentena de 8 dias na ilha das Flores, vêm para Porto Alegre, onde o pai já estava estabelecido e recebe a mulher e as três filhas. E a capital do Rio Grande do Sul se torna a cidade do coração da menina polonesa.
Liba estudara na Polônia até a quarta série. Lá iniciara seus estudos em uma escola de freiras católicas e depois estudou em uma escola pública. Chegada a Porto Alegre Liba é matriculada na Escola de Educação e Cultura, no final da Oswaldo Aranha, no Bom Fim, que originaria o Colégio Israelita Brasileiro. Ingressa na terceira série sem saber uma palavra em português, que aprende junto com iídiche e com o hebraico. Das três línguas duas eram completamente novas para ela e de iídiche, mesmo que fosse a língua falada por seus pais, nunca havia aprendido sua escrita. Nos cálculos de aritmética levava vantagem sobre seus colegas, pois os faz em polonês, sua língua materna. Os pais, não sem sacrifícios, conseguem uma professora para ensinar português para as três meninas. Em 1931 e 1932, Liba faz a 3ª e a 4ª séries no Colégio Israelita e, em 1933 e 1934, a 5ª e a 6ª séries no Grupo Escolar Paula Soares.
Em 1935 realiza um sonho: ser normalista para tornar-se professora primária. Ingressa, por seleção pública, na Escola Normal General Flores da Cunha, o Instituto de Educação. Em 1937 concluí o curso. Com 16 anos a menina que há 7 anos chegava a Porto Alegre sem saber uma palavra em português era uma professora destacada.
Agora Liba é uma profissional. Inicia suas atividades de magistério, em 1938, na escola onde começara como aluna no Brasil: o Colégio Israelita Brasileiro. Um ano depois, começa trabalhar no Colégio Batista. Primeiro como auxiliar da Escola Infantil para logo em seguida tornar-se professora de português, à noite, em um curso de jovens e adultos. Porém, vivia-se a Segunda Guerra Mundial que interferia na vida da jovem professora. Uma estrangeira não podia lecionar Português, História e Geografia do Brasil. A Inspetora Professora vem ao Colégio Batista e faz um termo assumindo a responsabilidade e autoriza Liba a lecionar. Um excelente exemplo de superação da burocracia com bom senso.
Aos 18 anos, em 1940 naturaliza-se brasileira e em 1943, mesmo já sendo professora há seis anos, presta os exames do Artigo 100 para regularizar sua situação escolar pertinente ao ensino fundamental. Integra-se fortemente no país que o seu pai escolhera como a nova Pátria.
Em 22 de junho de 1946, Liba realiza um novo sonho de mulher. Contrai núpcias, para usar uma expressão dos registros sociais de então, com Ruben Knijnik, um jovem promissor estudante de medicina, já muito conceituado e pertencente a uma das famílias mais influentes da comunidade judaica gaúcha. Era um pouco a história da menina pobre que casa com o moço rico. A senhorita Weissblüth se torna a Senhora Knijnik. Isso é significativo na ascensão social da jovem professora.
A maternidade, que no primeiro lustro dá ao jovem casal três filhas, não priva o magistério da professora entusiasmada. Conjuga as condições de esposa recém alçada a outra estatura social e de mãe sempre extremosa, com um continuado ser professora.
Se este texto, que busca trazer ilustrações sobre uma mulher educadora tivesse apenas um segmento, seria este em que se precisaria buscar as mais fortes tonalidades na palheta de fazeres da Liba. Foi no Instituto de Educação, I.E., no entorno em que a instituição ícone de formação de professoras e professores primários no Rio Grande do Sul se fazia centenária, que Liba fez história e ajudou mudar a história da casa de ensino a qual se dedicou muito intensamente. Ser formadora de professoras e professores, por mais de um quarto de século no Instituto de Educação foi distintivo na carreira de Liba. Nas limitações deste texto não posso trazer muitos detalhes.
Em 1955, a atarefada professora abre uma nova frente. Quer se preparar ainda melhor. Faz vestibular para o Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por sua classificação - 1º lugar -, recebe uma bolsa que consistia na liberação da regência de classe, mas simultaneamente surge a oportunidade de tornar-se Professora Assistente de Didática do Curso Normal no I.E. Mais um grande sonho, então, passa a tornar-se realidade: formadora de professoras e professores. Não tem dúvidas na opção. Mesmo com três meninas menores de sete anos, decide cursar a Universidade e assumir o ensino de Didática, abrindo mão da bolsa de estudos. É assim esposa, mãe, aluna e professora. Reconhece ter sido esse um período de muito intensas atividades. Em 1957 recebe o título de Bacharel em Pedagogia e em 1958 cola grau como Licenciada em Pedagogia, tendo obtido média 9,26 nos quatros anos de curso, classificando-se em 2º lugar.
Em 1960, por razões familiares residiu em Buenos Aires. Então colaborou no Setor Cultural da Embaixada do Brasil desenvolvendo atividades no Centro de Estudos Brasileiros. Na mesma oportunidade teve participação na comissão do Ministério de Educação e Justiça da Argentina encarregada de elaborar um projeto para formação de professores.
De volta à Porto Alegre, há um período de grandes atividades no I.E. onde desempenha as atividades diversas dentro da carreira docente. Em 1979, após a morte de Ruben, ingressa no Curso de Mestrado do Programa de Pós Graduação em Educação da UFRGS. Obteve o título de Mestre em Educação, na área de concentração Ensino com a dissertação “Criatividade no ensino” em 1981.
Na intensa atividade de ser formadoras de professoras e professores marcada com um continuado e intenso aperfeiçoamento profissional há uma atividade, entre muitas, que merece um destaque especial: as Classes laboratórios. Nesse fazer, muito provavelmente, está a marca que faz Liba uma educadora muito distinguida.
As Classes laboratórios estão extensamente documentadas no livro Apostando no Aluno que está comentado no segmento seguinte. Foi uma tarefa ingente. O livro foi escrito pois a equipe acreditava que atingiriam colegas que vendo a coragem do grupo teriam coragem de fazer uma escola mais humana.
Hoje, mais de 30 anos depois da experiência que marcou a Educação entre março de 1976 a dezembro de 1980, Liba ainda recorda emocionada a realização e a credita especialmente a um grupo de colega que com ela teve a coragem de mudar a Escola. Acredito que esse assunto mereceria ser estudado e poderia ser excelente tema para uma dissertação ou tese em um Programa de Pós-Graduação em Educação na linha de História da Educação brasileira.
Não posso na limitação deste texto me estender em comentários. Trago apenas o meu encantamento com a experiência e reconhecimento pala coragem que tiveram aquelas mulheres que há tempo que já se faz distante pesavam em uma Educação cuja marca era apostar nos alunos e nas alunas.
Talvez um dos maiores legados que Ruben Knijnik tenha deixado um amor à arte brasileira contemporânea. Ele era um mecenas das artes e muitos artistas gaúchos começaram com sua inestimável ajuda financeira. Não é sem razão que em seu jazigo, no cemitério israelita haja uma linda escultura de Stockinger e na rua com que a cidade de Porto Alegre o homenageou conste “Médico e Protetor das Artes”.
Se alguém tentasse imaginar a agenda da Liba muito provavelmente se enganaria. Sua mesa de trabalho é sempre plena de livros abertos. Prepara uma fala em alemão para apresentar no curso de que frequenta. Além deste curso faz curso de inglês e frequenta uma academia de ginástica.
Está a par de todas as notícias especialmente daquelas que envolvem a política nacional. As filhas ainda a fazem, com muita frequência, primeira leitora de seus textos acadêmicos, aos quais não é apenas competente revisora de língua portuguesa, mas a crítica arguta dos conteúdos, mesmo que os textos versem sobre etnomatemática, o filosofar de Wittgenstein ou estudo de algum caso psicanalítico. Estas leituras a tornam atenta ao que esta acontecendo no mundo acadêmico, especialmente o que é relacionado com a Educação.
Fiz tessituras. Juntei fragmentos. Fiz-me um pouco hermeneuta. Produzi um texto que a cada momento me fez aumentar a minha admiração pela amorável mulher que esbocei neste ensaio.


3 comentários:

  1. Querido Chassot,

    Uma vez lhe disse que meu tema favorito de tuas blogadas são as notícias.
    Suas e das tribos Chassot e Knijnik.
    Por isso, estou em festa hoje, dia 1º.
    Gostei muito da foto e das aproximações à vida tão rica da Liba.
    Um grande abraço para você, parabéns para a aniversariante e, talvez até
    mais, para tod@s que têm o privilégio da convivência próxima com esta
    pessoa tão especial.
    Tavinho

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  2. Querido amigo!

    Já estava a sentir falta de tuas falas virtuais, sempre tão carregadas de sentidos e sentimentos.

    Então, por favor, retransmita à senhora sua sogra, Liba Juta Knijnik, meus cumprimentos compartilhados.

    Hoje, de modo especial, fiz-me acompanhar de tua produção "A Ciência através dos Tempos".

    Abraços de festa pela amizade!
    Élcio
    Sorocaba
    01/09/2015

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  3. O mundo se humaniza no momento em que o sujeito reconhece o outro e o respeita como outro.
    E quando se trata de referenciar àquelas pessoas que cuidaram zelosamente por aquele ser que conosco convive matrimonialmente é uma atitude monstruosa para poucos grandes homens.
    Querido mestre, sabemos que tudo isto é verdadeiro, tornando este ato mais admirável ainda.
    Grande abraço.

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