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sexta-feira, 7 de outubro de 2022

ANO 17*** 07/10/2022***EDIÇÃO 2054 ANO 17***

    Recordo, não raro, aquele último domingo de outubro de 2018. Então, por duas horas, esperamos terminar a votação no Acre para serem divulgados os resultados do resto do Brasil, então já apurados. Recebemos uma cacetada: o Presidente eleito do Brasil era um capitão quase ignoto que derrotara o Haddad. Neste domingo, 02 de outubro de 2022, o golpe foi muito mais doloroso. O capitão não era mais um desconhecido. Era muito pior do que se imaginava. Não preciso narrar o que estão sendo estes quatro anos que estamos vivendo. O presidente evoca a cada fala o fascismo: regime (como o estabelecido por Benito Mussolini na Itália, em 1922), que faz prevalecer os conceitos de nação sobre os valores individuais; é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um dono absoluto de sua verdade.

Não sou politólogo para trazer análises daquilo que nos reservam os resultados do universo dos eleitos e dos eleitores. Os brasileiros, em sua maioria, professam o bolsofascismo. Não é apenas o Brasil vulnerável ou atacado pelos mais ricos que aderiu às posturas do messias. Pobres e ricos -- talvez mais ricos que pobres -- se transvestem com os símbolos pátrios e os conspurcam. Há muito me incomoda uma autoproclamação: o Rio Grande do Sul é o Estado mais politizado do Brasil. Não! Aqui o bolsofascismo é maioria e já tem aura de religião.

Uma máxima laudada: “Ninguém é dono do voto de outrem!" Não vale para a religião que anunciou: quem votar de maneira diferente daquilo que foi definido pelos pastores deve ser julgado (e, se for caso, castigado pela igreja).

Àqueles que ao meu confranger, fraternalmente, me consolam: Lula vai, ganhar no segundo turno! respondo: o Presidente da República não é a única peça e nem sempre a mais importante de um intrincado xadrez chamado República Federativa do Brasil.

Troquemos de canal: Há alguns que, a cada quatro anos, vivem a Copa do Mundo. Estes têm tanta alegria quanto a editora do álbum quase milionário. Há outros que a cada outubro acompanham os anúncios dos laureados com os Prêmios Nobeis. Assim, de maneira muito provável, ainda, podemos ratificar o livro que já por nove edições responde a pergunta que está na capa: A ciência é masculina? é, sim senhora! Por ora, faremos uma mera contabilização de números. Vale recordar que cada um dos seis prêmios pode ser distribuído para 1 ou 2 ou 3 laureados. Eis os nove laureados dos três prêmios Ciência de 2022: Física: 3 homens / Química: 2 homens + 1 mulher / Medicina: 3 homens. Assim, em 2022 nos três prêmios de Ciências: 8 homens + 1 mulher. Atualizando a nona edição do livro, eis os totais de premiados e os totais de mulheres desde 1901:  Física 4 mulheres dentre 226 premiados / Química 8 mulheres dentre 197 / Medicina 12 mulheres dentre 237 laureados. 

Dentre 660 láureas conferidas desde 1901, 24 (= menos de 4%) foram recebidas por mulheres.

Como curiosidade algo dos três outros prêmios: Literatura 15 mulheres (este ano, Annie Emaux, uma francesa com 82 anos) dentre 114 premiados. Paz (este prêmio pode ser concedido, também, a organizações) 16 mulheres dentre 99 pessoas e 34 organizações; Este ano o laureado é homem.. Economia (concedido desde 1968): das 67 premiações houve apenas uma mulher laureada. O premiado de 2022 será conhecido dia 10. 

Como sobremesa: Steven Shapin, em seu sumarento tratado acerca de estudos históricos da Ciência:  Nunca  pura (ISBN 978-85-8054-110-6) traz narrativas excepcionais, mostrando o quanto e como os que fizeram/fazem a Ciência são seres humanos, logo esta não é uma produção incólume. Por tal, eu me atreveria rebatizar a obra como “Maculada concepção”. Um dos destaques dentre muitos homens e de algumas poucas mulheres presentes na obra do professor da cátedra de História da Ciência da Universidade de Harvard é René Descartes (1596-1654).  Lateralmente, recomendo o livro O caderno secreto de Descartes resenhado na edição deste blogue de 27 de maio deste ano. 

As narrativas do Século 17 de Shapin são saborosas. Há um capítulo que descreve uma singular História da Medicina. Talvez, devêssemos dizer: História de uma não Medicina. Aquele que referimos como o mentor do método da Ciência é narrado como Descartes, o Médico. Este afirma que chegados aos 30 anos não precisamos mais de médicos, pois então já nos conhecemos de tal maneira que sabemos qual o regime alimentar devemos seguir. O filósofo da Ciência Moderna faz o seu tratamento marcado por rigorosos e estudado regimes alimentares. Além de seu tratamento, Descartes tem clientes, inclusive dentre a aristocracia. Prescrições são preparadas, por exemplo, para as diferentes estações do ano, pois estas se diferenciam no tamanho dos poros.

Não cabe aqui e agora detalhar as concepções cartesianas de medicina produzidas para que se vivesse mais e melhor. Trouxe o tema como contra exemplo da medicina que ‘nos cuida’ hoje. No meu recente périplo por três hospitais ratifiquei o quanto somos cada vez mais tratados por especialistas que diagnosticam o ouvido direito, mas não são capazes de fazer um prognóstico do ouvido esquerdo. Parece -- e a observação é muito pessoal -- que sabemos muito pouco acerca dos diferenciados metabolismos de nosso corpo. Trago um exemplo: uma tarde, no terceiro hospital (portanto, já mais de 37 dias de meu medicalizado inverno 2022).  Entra um médico e afirma vamos tirar líquido da pleura. Pergunto (por não saber o que dizer): quando? Resposta: agora. A aparelhagem do médico é ínfima. Um anestésico faz a punção de uma agulha ser indolor. Por sucção um recipiente vai coletando um líquido quase transparente. 1,5 litro informa o médico do lado esquerdo; em outro dia retiraremos do outro lado. Convoco minha leitora ou meu leitor a imaginar uma garrafa de água mineral de 1,5 litro alojada no lado esquerdo. Eu não sabia onde se localizava a pleura. Mais! Eu nem sabia o que era pleura; muito menos que eu tinha pleura. Aliás, devo reconhecer que meus conhecimentos anatômicos são sofríveis. Sou um contra exemplo das concepções cartesianas acerca do autoconhecimento de meu corpo.

Votos de um bom fim de semana a cada uma e a cada um. Oxalá leiamo-nos na próxima sexta-feira.


A

3 comentários:

  1. A ciência continua masculina, na premiação, mas está cada vez mais feminina em sua produção.
    A alegria do Brasil desbotou nos últimos tempos, muitos golpes na esperança foram desferidos. Mas seguimos e seguiremos sempre lutando pelo que acreditamos, porque sabemos que a história não é linear.
    Saúde, amigo querido.

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  2. ALERTA: O comentário, por um problema operacional, está assinado por mim. A autoria é da Prof. Dra. Silvia Chaves, da UFPA, Belém PA.

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    1. Sílvia querida, releva o problema operacional. Não consegui dar outra solução. Tentei. Realmente mesmo que a produção seja das mulheres ainda há um apagamento de autorias. Nestes dias de círio não há com não como não lembrar aquele de 2019 que estávamos juntos na assistência. Amanhã, há que rezar muito pelo Brasil.

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