TRADUÇAO / TRANSLATE / TRADUCCIÓN

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

* * * É UM CLÁSSICO!... * * *

 


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  •  ANO 17*** 20/01/2023***EDIÇÃO 2068

O tema da blogada desta semana foi gestado no assistir a Roda Viva, na segunda-feira. Não sou muito dado a assistir televisão. Minha fonte de notícia é o rádio. A lazer opto pela  leitura de livros em suporte papel ou no kindle. Podem me rotular de ‘antigamente’. Roda Viva é (quase) o único programa que assisto, com uma fidelidade de missa dominical. Não raro me perguntam: O que estás lendo? Este interrogante oportuniza falar da TAG Experiencias Literárias : (https://mestrechassot.blogspot.com/2018/08/24-tag-experiencias-literarias.html). Os meus netos surpresos no convío de cerca de 4 mil livros grelam os olhos e não resistem: Vô tu já leste todos estes livros? Não! têm muitos que deixo para quando me aposentar!

Na última segunda-feira, 16 de janeiro, no centro da Roda estava Jorge Caldeira. Nasceu no dia 20 de dezembro de 1955, em São Paulo.  Jorge Caldeira é escritor, doutor em ciência política e mestre em sociologia. Bacharel em CCiências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). Caldeira é especialista na história do Brasil. Nos últimos anos, dedica-se a analisar a questão ambiental.

É autor de livros como Mauá, empresário do Império e do best seller A história da riqueza no Brasil, que analisa as bases e o desenvolvimento da nossa economia, costumes e governos. Também escreveu livros sobre Diogo Antônio Feijó, José Bonifácio, Noel Rosa, Ronaldo, Guilherme Pompeo, Júlio Mesquita e outros personagens citados em obras como Brasil – A história contada por quem viu, 101 brasileiros que fizeram história e História do Brasil com empreendedores.

Eleito para integrar a Academia Brasileiras de Letras no dia 7 de julho de 2022.  Nos últimos anos, dedicou-se a analisar a questão ambiental. No discurso de posse, em novembro, ele comparou o Brasil a um grande jardim que precisa ser cultivado e cuidado para ter um futuro promissor. “Para restaurar o equilíbrio perdido, criar um futuro, é necessário tratar da natureza como um jardim. Como uma nova construção do homem. E lembrar que o paraíso é descrito como jardim. Esse grande jardim pode ser o Brasil. O país tem a natureza mais produtiva do planeta. Precisa saber dar valor a ela, pensar nela. Só assim, o homem brasileiro capturará, como dinheiro, o preço do carbono. Esta será a fonte de riqueza, numa economia de equilíbrio entre homem e natureza. Como se sabia desde sempre”.

A A maior parte da Roda Viva (que está disponível na página da TV Cultura) foi dedicada ao último livro BRASIL PARAÍSO RESTAURÁVEL  de Jorge Caldeira, onde mapas como os da capa acima, se mostram referidos às áreas de diferentes regiões proporcionais a produtibilidade da natureza. No sábio dizer da escritora e professssora Leyla Perrone-Moisés “este livro já é um clássico!”.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

** * * DOIS DOMINGOS ANTÍPODAS * * *

  

 

 ANO 17*** 13/01/2023***EDIÇÃO 2066

A primeira semana de 2023 nos sabia à alma lavada com lavanda. Talvez, seja mais eufônico: lavada com alfazemas. No primeiro blogue de 2023, a propósito da morte do Papa Bento, o Sábio, ao se discutir Religião e Ciência, a Sílvia Chaves, UFPA, postou “Nossa live em 2020 demonstra que o diálogo Ciências-Religião não só é possível como pode ser interessante, alegre e fraterno. Ótima blogada! Ao que comentei: Obrigadíssimo, Sílvia querida! dentre a centena de lives na qual embalamos diálogos -- sem saber que viveríamos a dolorosa perda do Licurgo, partícipe conosco de memorável live onde vivemos amorosamente o dialogo entre Religião e Ciências

Pandemia / Educação a distância / Mestrandos e doutorandos defenderem dissertações e teses sem nos vermos jamais pessoalmente orientando e orientadores / mortes coroadas /…/ e muito mais eram lembranças pálidas. O primeiro dia de janeiro tem apenas um mote: as saborosas evocações da  terceira investidura do Lula como presidente do Brasil. Parecia que borrasca cessava. 

Assistimos por mais de três horas desde a saida de Lula do hotel, a passagem pela catedral, a chegada na Câmara onde houve protocolos na assunção ao cargo de Presidente e pronunciamento de discurso muito significativo. Depois houve o deslocamento no Rolls Royce para a Esplanada dos Três Poderes. Aqui houve a surpresa decorrente da negação dos ainda Presidente e Vice Presidente se negarem a entregar a faixa: uma representação da nação se fez alternativa: uma catadora, um deficiente, um indigena, um homoafetivo… também o cachorro da primeira da primeira dama, recolhido há epoca da prisão de Curitiba. Ascendido ao parlatório Lula, uma vez mais fez uma fala de cerca de 30 minutos, da qual trago um pequeno mas denso excerto: Foi para combater a desigualdade e suas sequelas que nós vencemos a eleição. E esta sera a grande marca do nosso governo (...) E assumo o compromisso de cuidar de todos os brasileiros e brasileiras. sobretudo aqueles que mais nescessitam, e acabar outra vez com a fome neste País.

Os jornais de segunda-feira, dia 2, mostravam imagens da comovente remexida na outorga do símbolo do poder do Presidente saindo de cena sem entregar a faixa: até quem não curtia pets fez a cadela Resistência parecer unanimidade nacional. As vigilias de dias e noites no presídio de Curitiba sob mando do carcereiro Moro pareciam esquecidas. O povo brasileiro se fazendo em uma assamblage da nação Brasil foi um sucesso.

As cenas nas quais havia pessoas estas pareciam formigas tal a imensas quantidades de pessoas que nem nos lembrávamos que ainda pudesse haver questionamentos às urnas eletrônicas. A primeira página de um jornal brasileiro exemplifica meu relato.

 

 

   

  Domingo, dia 08 de janeiro, no mesmo local, uma enxurrada de vândalos transforma o festivo primeiro domingo do ano em um cenário de horror e de destruição. O Brasil viveu neste domingo - 8 de janeiro de 2023 - uma página triste e lamentável de sua história, fruto do inconformismo de quem se recusa a aceitar a democracia. Não preciso (até porque não tenho condições)  fazer uma minuciosa descrição. As brasileiras e os brasileiros (e também muitos humanos de outros países) acompanharam no segundo domingo do ano, estarrecidos, os atos de vandalismo e terrorismo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

Frente a esses atos, houve manifestações no Brasil e no exterior dos mais absolutos repúdios, uma vez que atentam ao estado democrático de direito e ao patrimônio público. As brasileiras e os brasileiros (e também muitos humanos de outros países) acompanharam no último domingo, dia 8 de janeiro, estarrecidos, os atos de vandalismo e terrorismo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. A escolha dos locais para a vandalização (Esplanada dos Três Poderes: Congresso Nacional / Palácio da Alvorada / Tribunal Superior de Justiça) não óderia ser mais emblemática.

Ajuda-me, mais uma vez, a edição semanal desta sexta-feira o excelente PONTO Newsletter do qual transcrevo os dois textos que encerram esta segunda blogada deste já machucado 2023.. 

Brasil de Fato www.brasildefato.com.br 

Ponto Newsletter <ponto@brasildefato.com.br>


“” “Lua de fel.O governo Lula assumiu há poucos dias e estava recém empossando ministros, tomando as primeiras medidas administrativas e esboçando sua política econômica quando foi pego desprevenido numa tarde de domingo. Passado o olho da tormenta, pode-se dizer que o resultado da crise que eclodiu no dia 8 é ambíguo. Por um lado, até as emas do Planalto sabiam que os bolsonaristas estavam a caminho de Brasília e pode-se dizer que a ameaça foi negligenciada. Mas Lula e seus ministros têm a seu favor o álibi de que estavam há poucos dias no poder para ter pleno conhecimento e controle da situação. Mais importante são as consequências políticas. A começar pela imediata mudança da pauta: saíram de cena as políticas que o governo vinha propondo desde as eleições (combate à fome, crescimento econômico, reconstrução das políticas públicas…), assim como o rançoso mantra do mercado contra a política fiscal, e entrou em pauta a repressão ao golpismo e a defesa das instituições. A intervenção no Distrito Federal e o afastamento de Ibaneis Rocha reafirmaram a autoridade de Lula sobre os governadores. E a indiscriminada destruição que atingiu a sede dos três poderes contribuiu para endossar a posição de Lula como chefe de Estado. No geral, pode-se dizer que as instituições saem fortalecidas, ao menos simbolicamente, com a unidade em defesa da democracia e de enfrentamento ao golpismo, assim como os que ocupam os postos de comando no momento: o presidente da República, os presidentes da Câmara, do Senado, do STF e, em especial, o presidente do TSE Alexandre de Moraes. E, para provar que a política brasileira não é para amadores, a gravidade do momento inverteu até o posicionamento sobre o crime de terrorismo. A proposta que sempre foi defendida pela direita agora é mobilizada pela esquerda para enquadrar os bolsonaristas. O risco, no entanto, é que o governo se torne um permanente refém da agenda golpista.”

“A resposta dura de Lula na reunião com os governadores - fazendo menção a dois temas que causam arrepios por baixo das fardas: a responsabilidade pelas tortura e pela ditadura militar e depois mandando às favas a balela de que as forças armadas são o poder moderador - é sinal de que a paciência acabou e que o governo sabe que precisa tomar as rédeas do aparato armado de uma vez. Por hora, Múcio e os militares se sustentam em cordas bambas. Menos sorte tiveram as faces públicas da intentona: Ibaneis Rocha e Anderson Torres. A ressaca do dia seguinte foi suficiente ainda para respingar no guarda costas de Bolsonaro, Augusto Aras, na candidatura do ex-ministro bolsonarista Rogério Marinho para a presidência do Senado e para deputados e filiados do PL, PP, PSD, Podemos, Republicanos e Cidadania. E tudo indica que a hora de Bolsonaro está para chegar depois que a PF encontrou na casa de Anderson Torres um plano golpista impresso e auditável, enquanto os dados revelados de gastos do cartão corporativo indicam o financiamento público das motociatas e da doce vida de Carluxo e irmãos.

O título desta edição é um saudosismo do professor de Química que se fez Professor de Ciências. "antípoda" adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros 3. Diz-se de ou o que se encontra em lugar diametralmente oposto a outro. 4. Que ou o que constitui o oposto de algo. = CONTRÁRIO  (Priberam).

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

EX MORTUIS NIHIL NISI BONUM

 

 ANO 17*** 06/01/2023***EDIÇÃO 2065

À última segunda-feira, além das saborosas evocações da  terceira investidura do Lula como presidente do Brasil, acompanhei pela Rádio Vaticana significativa programação catalisada pela morte de Bento 16. O testamento espiritual de Joseph Aloisius Ratzinger é uma preciosidade, pois contém também uma aula de teologia de fé católica. 

{NOTA DO EDITOR: Há um tempo não uso mais números romanos, pois os mais jovens não os conhecem. Neste texto, nas citações uso números romanos. Quando transcrevo citações, mantenho como no original.}

Já contei que recém posto o blogue no entardecer da sexta-feira, já estou assuntando a próxima edição. Estava buscando um tema para a primeira blogada2023, quando, à noite, minha colega Alessandra, da Unifesspa, de um barco viajando Oriximiná> Santarém sugere que a morte de Bento 16 seria um bom assunto para uma próxima edição. A sugestão foi aceita. Por tal vou tecer esta blogada com ‘uma notícia’ e um ‘texto jornalístico'. Transcrevo os dois textos e após cada um deles teço comentários acerca dos mesmos.

O primeiro texto foi publicado em 10/10/2022 na Aleteia {= site católico diário publicado em vários idiomas ‘destinado a espalhar -- como se auto define -- os ensinamentos de Jesus pela internet’} no qual é comentado que Bento 16 publicara instigante livro em diálogo com um matemático ateu. Eis o texto, numa edição de Francisco Vêneto, jornalista, filósofo e tradutor: A caminho em busca da verdade” testemunha a abertura da Igreja à ciência e àqueles que não acreditam em Deus. O Papa Emérito Bento XVI publicou um novo livro no qual mantém um instigante diálogo com o matemático ateu italiano Piergiorgio Odifreddi (Cuneo, Piemonte, 13 de julho de 1950) é um matemático, lógico e historiador da ciência italiano, que já foi presidente honorário da União de Ateus, Racionalistas e Agnósticos.

O título em italiano do novo livro é “In cammino alla ricerca della Verità“, que pode ser traduzido livremente como “A caminho em busca da verdade“. Ainda não há edição oficial em português. O original foi apresentado ao público no último 6 de outubro, em Roma.

A obra, que testemunha a abertura da Igreja à ciência e àqueles que não acreditam em Deus, consiste na troca de correspondências entre Bento e Odifreddi entre os anos de 2013 e 2022, além de contar os encontros ocorridos entre o pontífice emérito e o matemático ateu.

Os intercâmbios tiveram origem em 2011, quando Odifeddi publicou uma carta aberta ao então Papa reinante. A carta começava citando um livro do próprio cardeal Joseph Ratzinger escrito em 1968: “Introdução ao Cristianismo“. Bento só teve tempo para dedicar-se a uma resposta em 2013, depois da sua renúncia ao pontificado.

A demora em responder foi amplamente compensada pela profundidade do Papa Emérito, que deu origem a uma amizade duradoura com o cientista descrente.

Aliás, dom Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, descreve essa amizade como “coisa rara”, dada a imensa diferença de posicionamento entre os dois amigos. O padre Federico Lombardi, ex-porta-voz vaticano, também comentou a atitude de Bento XVI em responder ao matemático ateu: “É um sinal da sua atenção ao diálogo entre a fé, a razão e a ciência, e da própria atitude voluntária e aberta com a qual ele sempre viveu. Se até um Papa e um ateu podem conversar com amizade, isto significa que nós também talvez possamos nos comportar assim na vida”.

As primeiras cartas entre Bento e Odifreddi tratavam de fé e ciência, mas, conforme a amizade entre os dois se aprofundava, passaram a versar também sobre a vida e a morte, a antropologia, além de questões de lógica. Aliás, os dois se aproximaram ainda mais durante um período doloroso de luto: em 2020, Bento XVI perdeu seu irmão e Odifreddi perdeu sua mãe.

Apresento a seguir meus comentários ao texto de Francisco Vêneto: Os argumentos para justificar o diálogo entre o Papa e o  matemático são frageis e mais, há muito usuais. Considerar essa amizade como “coisa rara”, dada a imensa diferença de posicionamento entre os dois amigos como algo excepcional é exagero, pois algo similar faz parte de nosso cotidiano. Trago apenas um exemplo: tenho um reconhecido amigo, doutor em literatura, de quem fui orientador em estágio pós-doutoral, que é pastor e que já se hospedou em minha casa com quem posso dialogar por horas, sem qualquer estremecimento. Tenho amigos de distintas religiões e alguns que não sei se têm religiões. Tenho familiares muito próximos e queridos que são budistas. Assim não surpreende que até um Papa e um ateu podem conversar com amizade. Parece passaram tempos que, quando fazíamos palavras cruzadas, aparecia ‘homem mau com 4 letras: ateu’. De uma maneira não rara se vê que os ateus são convertidos de religiões herdadas dos pais. Hoje temos uma geração que são ateus de berço. Assim surpreende o destaque ao diálogo entre a fé e a razão. Na Universidade ele é frequente e fertil e não há a marca de proselitismo, presente de maneira mais usual nas religiões.

O segundo texto é de Julian Rodrigues, jornalista e professor brasileiro, ativista do movimento LGBTI e de Direitos Humanos e foi publicado em a terra é redonda’ em 31/12/2022, dia do falecimento do Papa Emérito. Não vou antecipar meu posicionamento discordante ao texto de Rodrigues; ele é expresso no primeiro parágrafo: O desaparecimento de Joseph Aloisius Ratzinger merece um brinde. Perdoem-me os mais sensíveis, sobretudo os católicos. Mas nenhuma pessoa de boa vontade pode deixar de comemorar a morte do senhor Joseph Aloisius Ratzinger.

Não vou entrar aqui em questões de fé. Meu ateísmo marxista é profundamente respeitoso com as crenças das pessoas. Qualquer papa é um dirigente político internacional. A linha teológica- -tática-geopolítica de cada um dos chefes da Igreja Católica tem grande peso (cada vez menor, é verdade) na luta de classes.

Vamos falar de Joseph. O alemão consolidou e reforçou o aggiornamento iniciado pelo polonês Karol Józef Wojtyła. João Paulo II (que reinou de 1978 a 2005) não só interrompeu a fagulha progressista que João XXIII havia aceso, como guinou tudo à direita. Junto com Margaret Tatcher e Ronald Reagan foi um dos artífices da ordem neoliberal. Anticomunista até a medula, Karol perseguiu e puniu os teólogos progressistas em todo o mundo. A história é conhecida: nosso Leonardo Boff – ideólogo da teologia da libertação foi punido com a pena de “silêncio obsequioso” em 1984. Sempre achei muito chic esse castigo –coisa de instituição milenar. Só lembrei de Karol porque Joseph já mandava muito desde o papado dele. Era o chefe da Congregação da Doutrina da Fé. Não sou especialista, mas consta que esse cargo equivaleria a algo como um Suslov – entendedores entenderão.

Há algo excepcional na biografia de Joseph Aloisius Ratzinger (além de ser islamofóbico, sexista, homofóbico, tradicionalista, autoritário, vaidoso, neoliberal). O sujeito foi deposto sutilmente. Aposentado na marra. Os sábios chegaram à conclusão que aquele alemão mal humorado, chato, com cara de nazi e sapatos vermelhos Prada estava queimando muito o filme da Igreja Católica Apostólica Romana. Aí, elegeram um anti-Ratzinger: Bergoglio. Um papa progressista, simpático, argentino, terceiro-mundista.

Bento XVI agiu sempre como um homofóbico militante: “o conceito de casamento homossexual está em contradição com todas as culturas da humanidade” escreveu ele. Jorge Mario Bergoglio, por outro lado, vai avançando quase no limite: “se um casal homossexual quer levar uma vida em conjunto, os Estados têm a possibilidade de lhes segurança, estabilidade não só para os homossexuais mas para todas as pessoas que se desejem juntar. Mas o casamento é o casamento”. Quanta diferença!

O papado de Joseph Aloisius Ratzinger é indissociável de sua renúncia. Optou por sair de cena em meio a várias crises principalmente àquelas relacionada aos crimes de abuso sexual que vieram à tona. Milhares de vítimas, mundo afora relataram terem sido violentadas por padres católicos. Trata-se de algo quase trivial – inerente à organização da igreja e à formação dos sacerdotes.

Joseph Aloisius Ratzinger foi arrastado para o epicentro dessa crise. Não era mais coisa apenas de malucos padres norte-americanos. Ele próprio foi acusado de ter sido conivente com abusos ocorridos no final dos anos 1970, em Munique, quando era o arcebispo da região.

Nos EUA o negócio é tão grave, que a Igreja topou pagar, num único acordo, 88 milhões de dólares para cerca de 300 vítimas – abusadas entre 1950 e 1980 na Diocese de Camden, em New Jersey. Mas é muito pior: são milhares de padres católicos denunciados, de 10 mil para cima. É uma coisa absurda!

Relembro tudo isso porque Joseph Aloisius Ratzinger nada fez para enfrentar esses escândalos, que, na verdade, apenas expuseram uma prática aparentemente usual. Homens proibidos oficialmente de fazer sexo e gozar – e que, ademais, tem vários privilégios, só pode dar nisso. Quando a Igreja Católica vai revogar o celibato? E ordenar mulheres? 

O nojo que a Igreja Católica tem do corpo, do gozo, do prazer é uma fábrica de doenças. Os fiéis fingem que seguem as regrais morais, mas pobre dos padres! Joseph Aloisius Ratzinger operou apenas retrocessos, na linha de uma Igreja mais ritualista, machista, opressora, homofóbica, elitista, e, claro, muito mais hipócrita. R.I.P, primeiro senhor papa impitimado. Não deixará saudades.

Este segundo texto pode ser lido pelo menos em duas dimenções: uma quanto à forma; outra quanto ao conteúdo. Tanto em uma como em outra das dimensões eu não as faço em uma defesa de Bento 16, até porque não pertenço à Igreja do papa. Enquanto professor, e mais pontualmente como orientador e avaliador de teses e dissertações, preceituo que as discordâncias (ou uma oposição) devem ser mais educadas que os elogios. 

No texto em pauta, no primeiro parágrafo de menos de quatro linhas, estão ferreteadas marcas de sentimento de intensa animosidade relativamente ao papa recém falecido ‘que merece um brinde ao seu desaparecimento’, que parece motivado por antipatia, ofensa, ressentimento ou raiva. Considero-me uma pessoa de boa vontade mas jamais me ocorreu comemorar a morte do ‘senhor Joseph Aloisius Ratzinger’. Parece, há uma leitura numa dimensão formal encharcada de ódio em quase cada análise. Isto posto, não vou mais assinala-las. 

Quanto ao conteúdo há que considerar situações no texto de Rodrigues  onde não emergem referências algo positivo, que é usual em obituário. Não recomendaria, muito menos esperaria a recomendação título desta blogada herdada dos romanos ex mortuis nihil nisi bonum {dos mortos nada a não ser o bem}. Bento 16 deixa pelo menos duas peças positivas para o acervo da Igreja Católica Romana:

(1) o Cardeal Ratzinger foi muito mais que um distinguido teólogo em seu breve papado de 7 anos (24/04/2005>28/02/2013). Ele não apenas fez releituras da teologia como ensinou, mas enquanto renomado teólogo católico muito escreveu. Esta produção é um legado apropriado à conservadora Igreja católica. No papado de 26 anos de seu antecessor Karol Józef Wojtyła (e desde 2014, São João Paulo II) Ratzinger foi muito mais que o chefe da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Tribunal do Santo Ofício, ou o sucessor do Tribunal da Inquisição). Se o Cardeal Ratzinger assestou seus óculos nas Teologias da Libertação e não as aprovou, foi natural -- não estou julgando o veto pois não sou teólogo e muito menos vaticanólogo -- que Leonardo Boff e outros ideólogos fossem punidos com a pena de “silêncio obsequioso”. Além de um ‘nome simpático’ esta punição é muito mais branda que fogueira, punição de tempos não tão distantes. Nesta terça e quarta feiras as milhares de pessoas que foram se despedir na basílica de São Pedro não vão se despedir do sucessor de João Paulo II nem do Papa Emerito. Lembro o quanto sabíamos do Cardeal alemão pré-papa. Lembro do começo da tarde de 19 de abril de 2005: sabíamos, dos dias anteriores, que pelas 13 horas ocorria o anúncio do resultado do escrutínio da votação da manhã. Estávamos, talvez um grupo de 10 pessoas, no hall do Centro de Ciêsncias Humanas da Unisinos nos preparando para entrar em aula. A televisão informava que a fumaça era branca. Temos papa! Mais uns minutos. O nome do Cardeal Joseph Aloisius Ratzinger foi anunciado e o nome do novo papa. Desânimo total. Eu manifestei minha desilusão atirando ao chão os livros que portava para aula que tinha a seguir. Cercamos nosso colega Professor Carlos Roberto Velho Cirne Lima que fora colega de doutorado de Ratzinger. Queríamos sua opinião.  Queríamos consolo. Foi difícil dar aula aquela tarde.

(2) Uma segunda contribuição para o catolicismo romano foi a renúncia de Bento 16, há 10 anos. Há época foi um dos momentos mais bombásticos no Ocidente. Já vivemos tantas situação desde fevereiro de 2013 que parece natural trazermos relembranças. Ajuda-me em uma sintese a Wikipedia.   

A renúncia do papa Bento 16 foi anunciada na manhã do dia 11 de fevereiro de 2013, quando o Vaticano confirmou que ele renunciaria ao papado em 28 de fevereiro, às 20h. A decisão de Bento XVI em renunciar ao cargo de líder da Igreja Católica o tornou o primeiro papa a abdicar do posto desde o papa Gregório 12, em 1415, que o fizera durante a Grande Cisma do Ocidente, e o primeiro a renunciar sem pressão externa desde o papa Celestino V, em 1294. Foi um gesto inesperado, já que na história moderna os papas se mantiveram no cargo até a morte, para que só então fosse escolhido um sucessor. O papa comunicou que sua saúde frágil era a razão de sua renúncia. O Conclave de 2013 elegeu seu sucessor, Francisco.

Em https://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%BAncia_do_papa_Bento_XVI há cópia na integra em português de extensa carta de renúncia escrita por Bento 16.

Para o filósofo Giorgio Agamben, "ao realizar a grande recusa, Bento 16 deu provas não de covardia, como Dante (Dante Alighieri, [séculos 13/14, considerado o maior poeta da Italiano) escreveu talvez injustamente sobre Celestino V, mas Bento 16 foi de uma coragem que adquire hoje um sentido e um valor exemplares. Diante de uma cúria que se esquece totalmente da própria legitimidade e persegue obstinadamente as razões da economia e do poder temporal, Bento 16 escolheu usar apenas o poder espiritual, do único modo que lhe pareceu possível: isto é, renunciando ao exercício do vicariato de Cristo. Desse modo, a própria Igreja foi posta em questão desde a sua raiz.

Após a demissão, o Vaticano explicou que isso aconteceu devido principalmente a sua velhice, e não por causa de suas condições de saúde que são boas para uma pessoa dessa idade, uma declaração que vai de acordo com o anúncio feito pelo Pontífice.

Há os que não aceitam a tese de que Bento 16 ao realizar a grande renúncia, tenha dado de prova coragem mas sim de covardia  que se conecta com aquilo que talvez seja o ‘crime’ maior: a pedofilia de um número significatívo do clero em diferentes países, inclusive no Brasil. Isto por diferentes razões me eximo comentar, aqui. Agora, quando escrevo Francisco, em cadeira de rodas (= sinal de pré-renúncia?) preside as exéquias de seu antecessor.