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sábado, 31 de março de 2012

31.- A DICA SABÁTICA: RIO DA DÚVIDA



Ano 6***  Frederico Westphalen / Porto Alegre  ***Edição 2068
Como na edição de ontem esta é postada, quando recém deixei Frederico Westphalen, devendo chegar a Porto Alegre por volta das 6h. Foi uma sexta-feira de três turnos que valeram a pena, mesmo que imprensados entre duas noites a bordo.
Nas idas/vindas Hotel/URI/Hotel e também em uma circulada após o almoço encantou-me a decoração pascolina. Só na praça fronteira à catedral há mais de uma dezena de coelhos como o da foto. Há referência que em outras ruas ocorre o mesmo. Lojas e restaurantes também têm lindas produções na mesma direção. 
Esta é uma edição para encerrar março que teve um verão canicular e um outono, que já mostrou algo do inverno. Houve um dia (14) que Porto Alegre teve cenas de que pareciam ambientar um dilúvio. Para encerrar o mês, temos águas com gosto especial, creditado às ‘algas de março’. Já que falo em estripulias climáticas, adiro ao convite feito por uma das instituições onde trabalho, cuja proposta está ao lado.
Antes da dica de leitura uma homenagem, muito bem humorada, como a situação exige e permite, ao mais ilustre brasileiro falecido na semana: Millôr Fernandes (1923 - 2012) foi um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor brasileiro. A espirituosa e criativa charge de Quinho.
Na semana passada estive no Mato Grosso e de lá trouxe a inspiração para nossa usual dica sabática de leitura. Na capital e no Estado há muitas homenagens ao mato-grossense Candido Mariano da Silva Rondon, mais conhecido como Marechal Rondon (1865-1958), o que não é sem razão, quando até um dos 27 estados brasileiros — Rondônia — tem esta denominação pelo mesmo motivo: um descente de indígena. Que chega a mais alto patente do exército brasileiro por sua incondicional defesa dos índios.
Lembrei, então, de um livro que li em 2007: O Rio da Dúvida que narra, de maneira primorosa, a história de uma grande aventura de 4,5 meses [dezembro de 1913–abril de 1914] de Cândido Rondon e Theodore Roosevelt, que colocam no mapa um rio que, apesar de seus 1600 quilômetros e de sua importância na cartografia da América, permanecia desconhecido.
Faço de uma resenha que já havia publiquei em Letras & Livros e em Leia Livro — de quem recebo notícias que voltará a circular — a dica deste sábado que despede este março que soube ser multifacetado.
MILLARD, Candice. O Rio da Dúvida: a sombria viagem de Theodore Roosevelt e Rondon pela Amazônia [Original inglês: The River of Doubt: Theodore Roosevelt’s Darkest Journey]. Tradução: José Geraldo Couto. Posfácio: Marta Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, 305p. ISBN 978-85-359-1072-8
Theodore ‘Teddy’ Roosevelt (1858-1919) foi o 25º vice-Presidente e o 26º Presidente (1901-1909) dos Estados Unidos [não confundir Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), 32º presidente dos EUA, com quem não tinha parentesco]. Quando Teddy perdeu para Woodrow Wilson (28º Presidente) as eleições para um terceiro mandato (com um interregno depois do segundo mandato) de presidente dos Estados Unidos, num escapismo à depressão que a derrota lhe impingiu envolve-se em uma expedição de quase sete meses pela América do Sul (1913-14) dos quais os 4,5 últimos meses em companhia do Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.
A expedição foi cuidadosa montada (com muitos erros pela inadequação na seleção de material não apropriada à Amazônia) nos Estados Unidos em um ambiente marcado por uma pirotecnia noticiosa. Roosevelt, que fora mais jovem presidente estadunidense, adorava publicidade e gostava de colecionar fatos que o colocassem em evidência: primeiro presidente originado de uma metrópole, único que tinha sido cowboy, primeiro a viajar de aeroplano (dos irmãos Wright) e de submarino etc. Espírito aventureiro, ele já havia realizado safáris na África e explorado o interior ainda bravio da América do Norte. Teddy tinha orgulho de ser conhecido como ‘bravo como um alce macho’.
Agora, para amargar as frustrações da derrota eleitoral, Roosevelt escolheu um desafio ainda maior: mapear, no coração da selva amazônica brasileira, um rio turbulento e sinuoso, de percurso ainda ignorado, chamado na época de Rio da Dúvida, por conta do total desconhecimento a respeito dele. Surgiu assim a Expedição Roosevelt-Rondon, cujo comando seria dividido entre o ex-presidente estadunidense e o então coronel Cândido Rondon, o maior desbravador do interior do Brasil, responsável pela expansão da rede telegráfica nacional. A expedição amazônica, oficialmente, tinha como objetivo coletar de amostras de flora e fauna para o museu de história natural estadunidense.
Após se envolver com populações indígenas desconhecidas como os temidos Cintas-largas, companheiros de viagem traiçoeiros, animais e doenças quase imbatíveis, peixes carnívoros, insetos agressivos, corredeiras e quedas d’água o ex-presidente conseguiu, aliado à experiência do militar brasileiro, retornar vivo ao seu país, depois de estar quase à morte, vitimado por inflamação em uma perna que exigiu intervenção cirúrgica na selva. Deixa na cartografia brasileira seu nome no Rio Roosevelt, com 1600 quilômetros, que nasce no estado de Rondônia, que em seu percurso, atravessa uma parte do Mato Grosso, entrando a seguir, no estado do Amazonas, onde se torna um afluente do Rio Madeira. Oficialmente, o IBGE o denomina de Rio Roosevelt; a maioria dos estadunidenses, entretanto, usa o nome completo, Rio Theodore Roosevelt, ou apenas Rio Theodoro.
Roosevelt como resultado da expedição escreveu, em 1914, o livro Through the Brazilian Wilderness (Pelas Selvas Brasileiras, Ed. Capo Paperback). Este é uma das dezenas de fontes que Candice Millard – uma jovem escritora estadunidense (nascida em 1967) jornalista e editora da Revista National Geographic – serve-se para escrever seu primeiro livro.
A autora, fruto de exaustiva investigação que a trouxe à Amazônia, faz relatos minuciosos sobre a fauna, a flora e os povos indígenas da região explorada que dão cores muito vivas àqueles que acompanham o relato às quase trágico da expedição marcada por um drama humano intenso em que sobressaem as gigantescas e contrastantes figuras de Roosevelt e Rondon. As narrativas trazidas, mesmo que tenhamos que acompanhar detalhe de uma longa jornada, são muito instigantes. Recomendo entusiasmadamente a leitura.
Adiciono a esta resenha um agradecimento muito especial: se Rondon e Roosevelt colocaram no mapa um rio antes desconhecido de 1600 quilômetros, minha ex-aluna de doutorado Maria Luiza – que quando em 2007, me despedia da Unisinos, generosamente me presenteou “O Rio da Dúvida” dizendo em um cartão que ‘nosso contato [de um semestre] foi intensivo e de grande proveito para mim’ – colocou no meu universo um tema do qual nada conhecia e que valeu muito a pena. Assim esta resenha traz meu agradecimento e uma homenagem para Professora (agora, já doutora) Maria Luiza Bredemeier.

4 comentários:

  1. Muito Douto Mestre Chassot,
    talvez nunca vá ter a oportunidade de ler “O Rio da Dúvida” mas sua muito bem elaborada resenha ensejou ter uma visão tão completa do livro que estou satisfeito.
    Acompanho seu blog há meses: nunca houve uma edição com a lucidez como a desta sexta- feira e nem uma charge como esta de hoje: a mais bonita homenagem a Millor que vi,
    PR la Sálvia

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  2. Caro Chassot,
    Tive o prazer de ler esse livro documento com o relato minucioso das "aventuras" Rondon/Roosevelt. Abraços, sabáticos, JAIR.

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  3. Caro Chassot,
    não tinha menor ideia sobre a existência dessa expedição: muito interessante essa parceria entre Roosevelt e Randon.
    Um abraço,

    Garin

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  4. Boa noite Mestre!
    Veja a coincidência: Esta semana comecei a leitura de O RIO DA DÚVIDA, a história das andanças de Teddy Roosevelt com nosso então coronel Rondon, por rios nunca dantes explorados por cara-pálidas.
    Boa dica!
    Abraços!

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