TRADUÇAO / TRANSLATE / TRADUCCIÓN

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

05.- CHRISTOPHER HITCHENS: 13ABR1949—15DEZ2011 * In memoriam



Ano 6 *** Porto Alegre *** Edição 1982
Desde que soube da morte de Christopher Hitchens desejava prestar aqui uma homenagem ao insigne jornalista, escritor e crítico literário inglês, falecido no último dia 15 de dezembro em decorrência de um câncer no esôfago. Surge uma maneira impar deste blogue trazer algumas ideias de pensador muito especial.
Ocorre que em sua edição do último dezembro, a revista britânica "New Statesman" traz a última entrevista de Hitchens. Seu entrevistador é o biólogo evolucionista Richard Dawkins [muitas vezes presente neste blogue, especialmente quando dos comentários de seu livro mais polêmico: “Deus é um delírio”], também inglês e intelectual afinado com as ideias ateístas de Hitchens. Os dois eram amigos havia 30 anos.
Conhecido por sua memória capaz de lembrar trechos de livros que teria lido há mais de 20 anos, mesmo após muitas doses de álcool, era um polemista incendiário. Vivendo nos Estados Unidos desde 1981, atacava a religião, o racismo e a crença em verdades absolutas.
Além da erudição, foi um jornalista de campo. Viajou ao Iraque, Afeganistão e Coreia do Norte. Conhecia todos os países europeus e boa parte do norte da África.
Fundada em 1913, a "New Stateman" é uma revista de política e cultura. Hitchens se destacou nela como repórter e articulista nos anos 70. Desde 2009, a publicação reserva algumas edições aos cuidados de editores convidados. Escolhido para dezembro, Dawkins usou como temas o humanismo e o ateísmo. Como se trata se uma extensa discussão entre os dois intelectuais, fiz uma seleção de alguns trechos. Uma versão mais completa (também não integral) está em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ ilustrada/17575-meu-inimigo-e-o-absoluto-aquele-que-quer-o-controle-da-sua-mente.shtml
O jornalista Christopher Hitchens em frente ao escritório da revista The New Statesman, em 1978
Richard Dawkins - Tem recordações da "New Statesman"?
Christopher Hitchens - Parece um mundo diferente, uma revista diferente e que aconteceu com uma pessoa diferente. Eu adoraria que eles me entrevistassem sobre isso algum dia, mas prefiro que você e eu foquemos sobre a questão principal da edição, que, obviamente, é nossa causa comum. Meu inimigo é o absoluto, aquele que quer o controle da sua mente
Venho lendo seus ensaios recentes. Sua erudição me espanta. Não consigo pensar em ninguém desde Aldous Huxley que tenha uma base de leitura tão completa e ampla.
Pode parecer que é ampla, mas isso talvez tenha se dado ao custo de ser um pouco superficial. Me tornei jornalista porque um jornalista não precisava se especializar.
Fui a um debate entre Umberto Eco e Susan Sontag, e falou-se sobre a palavra "polímata". Eco disse que era sua ambição ser polímata; Sontag o contestou, dizendo que a definição de polímata é alguém que se interessa por tudo e por nada mais.
Em minha formação, fui incentivado a ler como uma borboleta, pousando sobre um tema e tomando um golinho de néctar, mas sem mergulhar mais fundo.
Como estudioso de George Orwell, você deve ter uma visão particular da Coreia do Norte, de Josef Stálin e da União Soviética e se irritar com o refrão constante: "Stálin foi um ateu".
Não sabemos se foi. Hitler, com certeza, não foi. De qualquer modo, o ateísmo não supõe nenhuma espécie particular de posição política.
[...]
Há uma tendência entre liberais de achar que a religião deveria estar fora de discussão.
Ou até mesmo de achar que existe um racismo antirreligioso, algo que, a meu ver, é uma limitação terrível.
Você acha que os EUA correm o risco de virar uma teocracia?
Não. As pessoas em quem pensamos quando falamos disso — os evangélicos protestantes extremos, que querem realmente uma América comandada por Deus e acreditam que ela foi fundada segundo princípios fundamentalistas protestantes — talvez sejam a ameaça mais superestimada no país.
Que bom.
Eles já foram derrotados em toda parte. Por que isso?
Na década de 1920, tiveram uma sequência de vitórias. Proibiram a venda, manufatura, distribuição e consumo de álcool. Incluíram isso na Constituição. Mais ou menos conseguiram proibir a imigração vinda de países de maioria não branca, não protestante. Eles nunca se recuperaram dessas vitórias.
Nunca se recuperarão do fracasso da Lei Seca. Ou do julgamento Scopes [de 1925, envolvendo o ensino da teoria da evolução nas escolas]. Cada vez que tentaram introduzir o ensino do criacionismo, os conselhos de ensino, pais ou tribunais derrotaram as tentativas, e na maioria dos casos graças ao trabalho de pessoas como você, que mostraram que é bobagem.
Isso é muito animador.
O que me preocupa um pouco mais é a natureza reacionária e extrema do papado neste momento. Por outro lado, parece que o papa não consegue muita fidelidade junto à congregação americana, que desobedece à Igreja abertamente com relação aos anticoncepcionais, o divórcio, o casamento gay, em grau extraordinário e que eu não teria previsto.
Ela está até mesmo se mantendo firme com relação ao aborto, que, em minha opinião, é uma questão moral muito forte e não deveria ser decidida levianamente.
A única ameaça religiosa real nos EUA é a mesma que, lamento dizer, existe em muitos outros países: uma ameaça externa. É o jihadismo, parcialmente cultivado no próprio país; mas em parte o jihadismo americano é fraco e se desacredita sozinho.
Chega a preocupar você a ideia de que, se vencermos e destruirmos o cristianismo, por assim dizer, o vazio poderia ser preenchido pelo islã?
Não. É engraçado, mas não me preocupo com a possibilidade de vencermos. O único que podemos fazer é nos assegurarmos de que as pessoas saibam que existe uma alternativa muito mais maravilhosa, interessante e bela. Não, não acredito que a Europa se encheria de muçulmanos à medida que se esvaziasse de cristãos. O cristianismo derrotou a si mesmo na medida em que se tornou uma coisa cultural. Não há realmente cristãos crentes, como havia gerações atrás.
Na Europa isso é verdade, certamente. Mas e nos EUA?
Acho que há uma tendência que vem de longa data, no mundo desenvolvido e em grandes áreas fora dele, de as pessoas enxergarem as virtudes da separação entre igreja e Estado, porque já experimentaram a alternativa.
A cada vez que algo como uma jihad ou movimento de sharia tomou conta de qualquer país — é verdade que isso só foi possível em casos muito primitivos — o país é uma ruína ainda em brasa, com produtividade zero.
Analisando a religiosidade nos países do mundo e nos diferentes Estados dos EUA, constata-se que a religiosidade tende a estar correlacionada à pobreza e a vários outros índices de carência social.
Sim, é também disso que ela se alimenta. Mas não quero ser condescendente em relação a isso. Conheço muitas pessoas altamente instruídas, muito prósperas e muito reflexivas que creem. Não é inédito que pessoas tenham a ilusão de serem Deus ou o Filho sagrado. É uma ilusão comum, mas, novamente, acho que não precisamos condescender.
Rick Perry [pré-candidato republicano à Presidência dos EUA] declarou certa vez: "Não apenas creio que Jesus seja meu salvador pessoal, como creio que os que não acreditam nele vão para o castigo eterno". Ele foi contestado em relação a essa última parte e respondeu: "Não tenho o direito de modificar a doutrina. Não posso dizer que ela vale para mim, e não para outros."
Frequentemente me perguntam por que os EUA, uma nação de base secular, é tão mais religiosa que países europeus ocidentais que têm uma religião oficial, como os da Escandinávia ou o Reino Unido.
[Alexis] de Tocqueville acertou na mosca. Se você quer uma igreja nos EUA, tem de erguê-la com o suor de sua fronte, e muitos já o fizeram. É por isso que são tão ligados a elas. Os judeus — mas não todos —, surpreendentemente, abandonaram sua religião pouco tempo depois de chegar do Leste Europeu.
Então a maioria dos judeus abandonou sua religião?
Nos Estados Unidos, cada vez mais. Quando as pessoas vieram para escapar da perseguição religiosa e não quiseram reproduzir a perseguição, essa era uma memória muito forte.
Os judeus se secularizaram muito rapidamente quando vieram. Os judeus americanos, como coletivo, devem constituir a força mais secular do planeta, hoje. Isto é, se considerarmos que formam um coletivo, o que não parece ser realmente o caso.
Embora não sejam religiosos, muitas vezes ainda observam o shabat e esse tipo de coisa.
Isso só pode ser algo cultural. Eu celebro o Pessach todo ano. Às vezes até faço um seder [jantar em comemoração à páscoa judaica], porque quero que minha filha saiba que vem de outra tradição, de modo muito distante.
Se ela encontrasse seu bisavô, isso explicaria, porque ele fala iídiche. É cultural, mas o seder do Pessach é também o fórum socrático. É dialético. É acompanhado por vinho. Tem todos os elementos de uma discussão muito boa. E há o destino manifesto.
As pessoas sentem que os EUA são um lugar de sorte. É um país que fica entre dois oceanos, repleto de minerais, de beleza, de riqueza. Para muitas pessoas, realmente parece providencial.
A terra prometida.
Tudo isso e mais o desejo de outro jardim do Éden. Alguns utópicos seculares vieram para cá com a mesma ideia. Thomas Paine e outros todos pensaram na América como o maravilhoso recomeço para a espécie.
Mas isso tudo foi secular.
Muito foi, mas é impossível fugir da liturgia: ela é poderosa demais. Você acaba dizendo coisas como "terra prometida", e isso pode ser usado para fins sinistros.
Mas, em muitos casos, é uma crença benigna. Trata-se só de dizer: "Devemos compartilhar nossa boa sorte". A razão pela qual a maioria de meus amigos não é crente não tem a ver especialmente com terem participado de discussões como as que você e eu temos tido, mas com o fato de que a religião obrigatória na escola os tornou indiferentes à religião.
Ficaram entediados.
Ficaram fartos. Eles pegavam da religião, de vez em quando, aquilo de que precisavam: se precisassem se casar, sabiam aonde ir. É claro que alguns deles são religiosos, outros gostam da música, mas, de modo geral, os britânicos são benignamente indiferentes à religião.
E o fato de haver uma igreja estabelecida aumenta esse efeito. As igrejas não deveriam ser isentas de impostos, como são. Não automaticamente, de todo modo.
Com certeza, não deveriam. Se a Igreja pede que seja dado tempo igual a especulações criacionistas ou pseudocriacionistas... Qualquer igreja que ensina isso em sua escola e recebe dinheiro federal da iniciativa religiosa deveria, por lei, também ensinar o darwinismo e conhecimentos alternativos, para que se ensine o debate. Acho que elas não querem isso.
A religião comparativa seria uma das melhores armas, desconfio.
Hoje a coisa ficou tão insípida em partes dos Estados Unidos que muitas crianças crescem sem qualquer conhecimento de qualquer religião de qualquer tipo. Isso porque seus pais não lhes transmitem esse conhecimento; eles deixam a cargo das escolas, e as escolas têm medo de mexer com isso. Eu gostaria que as crianças soubessem de que trata a religião, senão algum guru ou alguma seita pode fazer a cabeça delas.
Elas são vulneráveis. Eu também gostaria que elas conhecessem a Bíblia, por razões literárias.
Precisamente. Uma parte enorme da literatura inglesa seria de difícil compreensão se as pessoas não conhecessem a Bíblia.
Você teria algo a dizer sobre o Natal?
Sim. Não poderia deixar de haver um feriado no solstício do inverno. A religião dominante não poderia deixar de tomar conta dessa festa, e isso teria acontecido mesmo sem Charles Dickens e todos os outros.
A árvore de Natal vem do príncipe Albert [consorte da rainha Vitória da Inglaterra]; os pastores e os três reis magos são todos invenções.
Cirênio não era governador da Síria, tudo isso. Cada vez mais, o Natal vem se secularizando. E essa mania de desejar "boas festas" é algo de que também não gosto.
É horrível, não? "Boas festas"
Prefiro nossas frases sobre o cosmos.

12 comentários:

  1. Caro amigo! Qaundo leio algo, espero pelo menos ter absorvido alguma coisa que eu carregue para sempre comigo. Na sua postagem de hoje, isso se deu frente o trecho "O cristianismo derrotou a si mesmo na medida em que se tornou uma coisa cultural".

    Como é triste ter que concordar com Hitchens!
    Aguardo ansiosamente a próxima postagem!

    Muita Paz!

    ResponderExcluir
  2. Muito estimado Cristiano,
    duas citações mexeram comigo:
     Uma, que as origens do autoritarismo são as teocracias;
     Outra a minha ingenuidade de nunca ter visto que Madre Teresa acreditava que não se devia dar às mulheres o controle sobre o ciclo reprodutivo. Ela passou a vida militando para que a única cura da pobreza que sabemos confiável não fosse implementada"
    Manifesto meu orgulho de te ter como comentarista aqui
    attico chassot

    ResponderExcluir
  3. Bom dia, Professor!

    Quanto a Madre Teresa, ela defendia o planejamento familiar como método: o que esperar de uma heroína católica, além de que se ocupe das miseráveis e não das causas da miséria? Claro que uma coisa não exclui a outra, mas a misericórdia sozinha só tende a perpetuar a pobreza.

    ResponderExcluir
  4. Caro Attico,

    o comentário acima recordou-me uma frase do Dom Hélder Câmara: "Se dou comida aos pobres, sou chamado de santo. Se pergunto por que os pores têm fome, sou taxado de comunista".

    Pensando nesse tema da miséria, que tal uma blogada sobre o Josué de Castro?


    Abraços,

    PAULO MARCELO PONTES

    ResponderExcluir
  5. Caro Chassot,
    Dois ícones (Dawkins e Hitchens) os quais leio e gosto sobremaneira. O que marcou o pensamento de Hitchens foi sua independência com respeito a "intelligentsia" predominante. Já Dawkins, ao contrário do que você disse, seu livro mais polêmico foi "O Gene egoísta", porque "Deus, um delírio" foi pouco lido e pouco comentado. A maior parte dos religiosos se absteve de lê-lo e partiu para o "não li e não concordo", simples e definitivo. Abraços e parabéns pela blogada maiúscula, JAIR.

    ResponderExcluir
  6. Marilia querida,
    uma filósofa de direito e de fato: Encantou-me tua tese: a misericórdia sozinha só tende a perpetuar a pobreza.

    Obrigado e saudades

    attico chassot

    ResponderExcluir
  7. Meu querido Paulo Marcelo,
    é proverbial a conexão Madre Teresa e D. Helder.
    Acho excelente a sugestão de uma blogada sobre Josué de Castro.
    Talvez já na próxima semana.
    Agradecimentos pelo prestígio que dás a este blogue

    attico chassot

    ResponderExcluir
  8. Prezado Jair,
    tento imaginar como tenha sido o diálogo destes dois titãs.
    Obrigado pela avaliação que fazes da edição de hoje

    attico chassot

    ResponderExcluir
  9. Ave Chassot,

    achei interessante a observação do Hitchens sobre o generalista como uma borboleta. Como me considero um "clínico geral" da Biologia, por ensinar em escola também vejo meus mergulhos um pouco limitados, mas há a vantagem de uma visão plural.

    O Hitchens vai fazer falta, ainda tinha muito o que produzir. Foi um grande jornalista que teve coragem de falar sobre assuntos espinhosos.

    O celebrado Dawkins é, na minha opinião, o maior biólogo da atualidade. Seus livros são verdadeiras obras literárias da Ciência, e sua teoria do Gene Egoísta é elegante e relevante.

    Costumo dizer que a "Origem" é o velho testamento da Biologia, e o "Gene" é o novo.

    Não acho justo julgar ambos por seu ateísmo militante (com aspectos louváveis e outros questionáveis), eles são muito mais que ateus histriônicos, são pensadores que construíram conhecimento universal.

    Grande abraço,
    Guy.

    ResponderExcluir
  10. Caro Chassot,

    a tua postagem traz um tema que tenho me debatido bastante as incoerências de certos ícones exaltados pela imprensa. Não concordo que a expressão "a voz do povo é a voz de Deus!". Na verdade, o povo é manipulado pela mídia e por outros formadores de opinião.

    Um abraço,

    Garin

    ResponderExcluir
  11. Meu caro Guy,
    perspicazes tuas observações evolucionistas. Como disse: deve ter sido lindo ver o debate dos dois titãs.
    A edição de amanhã: “GUY: nosso guya em NYC” está prepostada. Salvo modéstia deste editor: ficou linda.
    Dentro de 5h30min circulará.
    Com muita expectativa

    attico chassot

    ResponderExcluir
  12. Meu caro Garin,
    podes não concordar com o ‘Vox populi, vox Dei’, mas há ‘secula seculorum’ isto parece ser senso comum,
    ¿Quem criou este sentimento? Os manipuladores de opinião (ministros religiosos, mídia...).
    Obrigado por trazeres aqui tua opinião, que conta muito,

    attico chassot

    ResponderExcluir