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domingo, 5 de janeiro de 2014

05.-- PODE-SE MORRER COM /MAS NÃO MORRER DE PARKINSON

ANO
 8
em fase de transição
EDIÇÃO
 2643

Dentro da proposta que se traçou aqui no dia 2, neste domingo se traz alguns comentários acerca do quanto o uso de dopamina no tratamento de Mal de Parkinson teve lances serendípicos. As duas situações de prevenções vistas aqui na sexta-feira (varíola) e ontem (cânceres) evidenciaram quantas milhares de vida foram poupadas. Hoje não será diferente.
Os significativos avanços da bioquímica, na segunda metade do século 20, e das neurociências, mais recentemente, são responsáveis não apenas pela extensão da expectativa de vida, mas também pelo aumento do bem estar aos portadores de doenças incuráveis.
No final da década de 40, do século passado o cirurgião Henri Laborit buscava uma droga para diminuir ansiedade de seus pacientes em cirurgia, mesmo antes da anestesia. Pensou num anti-histamínico, pois os pacientes liberavam histamina por tensões pré-operatórias. Ao usar clorpromazina surpreendeu-se com a “quietude eufórica” de seus pacientes. No final da década de 50, o uso foi expandido para paciente com esquizofrenia grave e doentes puderam ser retirados de asilos, onde eram mantidos em camisas de força e celas acolchoadas e passaram viver uma vida produtiva quase normal.
Então, houve outra descoberta. Uma dosagem excessiva da clorpromazina causava sintomas semelhantes ao Mal de Parkinson (Roberts, p. 244, citado dia 2). Verificou-se então, sem que esse fosse o objeto de investigação, que quem morria desta doença tinha uma ausência quase total de dopamina no cérebro. A solução parecia ser aparentemente simples: repor dopamina no sistema nervoso central. Primeiro isso era feito por injeções. Recentemente há alternativa razoavelmente prática, por via oral, mas não de maneira direta.
Faço a seguir considerações acerca de medicação razoavelmente recente. Não sou farmacêutico nem médico, logo o que trago aqui a seguir é apenas uma tentativa de mostrar avanços significativos nesta área. Não estou fazendo recomendação — muito menos — prescrição. 
Os dois parágrafos seguintes são um pequeno excerto transcrito da extensa bula do medicamento: Prolopa® BD comprimido de 125 mg. Princípio ativo: cada comprimido de Prolopa® BD contém 100 mg de levodopa (L-dopa) e 28,5 mg de cloridrato de benserazida (equivalente a 25 mg de benserazida).
 “A dopamina, que age como neurotransmissor no cérebro, não está presente em quantidades suficientes nos gânglios da base, em pacientes parkinsonianos. A levodopa ou L-dopa (3,4-diidroxi L-fenilalanina) é um intermediário na biossíntese da dopamina. A levodopa (precursora da dopamina) é usada como uma pró-droga para aumentar os níveis de dopamina, visto que ela pode atravessar a barreira hematoencefálica, enquanto que a dopamina não consegue. Uma vez dentro do Sistema Nervosos Central (SNC), a levodopa é metabolizada em dopamina pela L-aminoácido aromático descarboxilase.
Após sua administração, a levodopa é rapidamente descarboxilada à dopamina, tanto em tecidos extracerebrais como cerebrais. Deste modo, a maior parte da levodopa administrada não fica disponível aos gânglios da base e a dopamina produzida perifericamente frequentemente causa efeitos adversos. É, portanto, particularmente desejável inibir a descarboxilação extracerebral da levodopa. Isso pode ser obtido com a administração simultânea de levodopa e benserazida, um inibidor da descarboxilase periférica.”
Uma síntese de/para leigo: a dopamina é responsável pela ativação de sinapses (=ligações) cerebrais. Deficiências da mesma determinam que o cérebro não emita comandos (ou o faça de maneira deficiente) para o corpo executar com competência certas ações do corpo. Esta é uma das características do parkinsonismo. Ocorre que se houver reposição de dopamina, esta não consegue vencer barreiras para chegar ao cérebro. Assim, para reposição da mesma é usada uma droga (L-dopa) que consegue chegar ao cérebro e ali se converter em dopamina. Para inibir que esta transformação ocorra antes de chegar ao cérebro a medicação consiste numa mistura de L-dopa com benserazida, que inibe a transformação (indesejada) da L-Dopa em dopamina antes de esta chegar ao cérebro.
Quando se lê o que esta acima, é preciso encantar-se com a Ciência! Agora, pode-se morrer com Parkinson, mas não morrer de Parkinson, como ainda recentemente.

sábado, 4 de janeiro de 2014

04.- PAPANICOLAU, UM GREGO HEROICO

ANO
 8
em fase de transição
EDIÇÃO
 2642

Dentro da proposta de blogadas serendipitosas, nos emocionamos neste sábado com alguém que prestou grandes contribuições à humanidade. Seu nome está mais associado a um ‘exame’ ou um ‘teste’ para detecção de câncer que é rotina na vida das mulheres do que à sua história muito significativa.
Geórgios Nicholas Papanicolau (1883-1962) nasceu em Coumi, uma vila grega. Formou-se médico de família em Atenas e foi estudar na Alemanha em Iena, Friburgo e Munique. Nesta cidade fez doutorado em Medicina em 1910. Sua vida profissional foi, então, interrompida pela convocação para a guerra dos Balcãs. Após ter servido seu páis na guerra, resolveu fazer malas em 1910 e migrar, porque achava que os Estados Unidos eram a terra das oportunidades. Mas, ao chegar a Nova York, só conseguiu vender tapetes. Levou um ano até conseguir trabalho como assistente de laboratório na Universidade Cornell. Ali, Papanicolau foi professor. Em 1923, ele estudava as mudanças provocadas pelos hormônios no útero. Para isso, analisava as secreções uterinas de pacientes. Foi então que viu uma amostra diferente, cheia de células deformadas. Ela pertencia a uma paciente com câncer. O pesquisador grego fez o mesmo exame em outras doentes e concluiu que aquele tipo de análise diagnosticava tumores. Escreveu um artigo de mais de 100 páginas sobre o assunto e distribuiu o texto durante um congresso médico, em 1928. Mas nenhum colega se entusiasmou com a leitura.
No final do artigo, após descrever o novo teste para o câncer uterino pré-invasivo ele previu: “Uma compreensão melhor e uma análise mais precisa do problema do câncer resultará no uso deste método. É possível que sejam desenvolvidos testes análogos para reconhecer câncer em outros órgãos. Creio que tais métodos poderão ser desenvolvidos no futuro”. O dr. Pap cumpriu sua própria previsão — aquela observação ao acaso, que ele reconheceu ser uma questão de sorte (Roberts, p. 170, citado dia 2) — chegou a ser aplicado ao cólon, rim, bexiga, pulmão, estomago, próstata, mama, seio nasal e até ao cérebro.
Há mais de meio século (em 1962), o Journal Medical World News, no obituário do Dr. Papanicolau, escrevia: “Há 25 anos, o câncer uterino era o maior causador de mortes de mulheres estadunidenses, hoje, de acordo com a Sociedade Americana do Câncer, 180 mil mulheres estão curadas e muito bem de saúde, cinco anos após o tratamento, principalmente, em consequência do exame do esfregaço” (Roberts, p. 169).
Hoje o exame Papanicolau é reconhecido no mundo inteiro como um dos maiores triunfos da medicina. E... por tal ao Dr. Pap a gratidão expressa nesta postagem sabática.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

03.- VACINA TEM A VER COM VACA?

ANO
 8
em fase de transição
EDIÇÃO
 2641

Talvez, mesmos os curtidores do gostoso envolver-se com a etimologia das palavras, em um primeiro relance, não encontrem relação entre vacina e vaca. Atenção: não há nada a ver com ‘vacina contra a febre da vaca louca’!
Quando discuto uma pesquisa do cientista estadunidense Michael Hart, onde ele lista cem nomes que mais influenciaram em todos os tempos a História da Humanidade, publicada no livro The one Hundred e que está detalhada (e criticada) em meu livro A Ciência é masculina? É, sim senhora! há um nome usualmente desconhecido: Jenner (número 70) que hoje é destaque aqui. A ele se atribui “ter apresentado ao mundo uma vacina que salvou muitos milhões de pessoas de uma morte terrível causada pela varíola, e a muitos outros milhões de um temível desfiguramento” (Roberts p. 38 citado ontem).
Edward Jenner (1749-1823) nasceu na localidade inglesa de Berkeley, em 17 de maio. Com apenas treze anos de idade já ajudava um cirurgião em Bristol. Formou-se em Medicina em Londres, e logo em seguida retornou a sua cidade natal, onde realizou experimentos relativos à varíola, na época uma das doenças mais temidas pela humanidade.
Ao observar que pessoas que ordenhavam vacas não contraíam a varíola, desde que tivessem adquirido uma variedade animal mais branda da doença, Jenner extraiu o pus da mão de uma ordenhadora que havia contraído a varíola bovina e o inoculou em um menino saudável, James Phipps, de oito anos, em 04 de maio de 1796. O menino contraiu a doença de forma branda e logo ficou curado. Em 1º de julho, Jenner inoculou no mesmo menino líquido extraído de uma pústula de varíola humana. James não contraiu a doença, o que significava que estava imune à varíola. “Isso foi verdadeira serendipidade. O fato de a varíola bovina ter dado imunidade à varíola veio a Jenner sem esforço de sua parte. Ele teve o bom senso de reconhecer o valor disto e de utilizá-lo” (Roberts, p. 39).
A princípio, a experiência não obteve reconhecimento, apesar de, em 1878, Jenner ter publicado sua pesquisa no livro “An Inquiry into the Causes and Effects of the Variolae Vaccinae, a Disease Known by the Name of Cow Pox".
O reconhecimento em seu país só foi alcançado após médicos de outros países adotarem a vacinação e obterem resultados positivos. A partir de então, Edward Jenner ficou famoso por ter inventado a vacina. A palavra vacina vem do latim vaccinus, de vacca (vaca).
Uma curiosidade [www.ccms.saude.gov.br/revolta/ltempo.html]: A vacinação contra a varíola, entre os hindus, era considerada um ato profano por eles adorarem a deusa da varíola, Shitala Mata. Eles acreditavam que estavam sendo abençoados ao ficarem doentes. As autoridades contornaram o problema alegando que receber a vacina era o mesmo que ser abençoado pela deusa.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

02.- SERENDIPITOSO, bis

ANO
 8
em fase de transição
EDIÇÃO
 2640

Os quatro dias que se inserem entre o feriado de ontem e a próxima segunda-feira, dia 06, são de difícil classificação. Parece que poderíamos considera-los hemiferiados. Defini para hoje e as 4 edições seguintes retomar a um tema que inaugurei, aqui, em 14 de dezembro e que se espraiou até dia 21, com uma exceção no dia 17.
A palavra chave de hoje é uma conhecida daquele que acompanharam aquelas blogadas dezembrinas: Serendipitoso (= Serendipidade). A manchete do dia 14 DEZ e de hoje são as mesmas: Serendipitoso, querendo significar, como foi mostrado então, o que é feliz ou agradável e é descoberto por acaso ou acontece de forma inesperada.
Dia 15DEZ vimos como um sábio grego descobriu que o ourives que o rei Hierão contratara o estava lesando e a serendipidade consagra a sua descoberta como o ‘princípio de Arquimedes’ mesmo que seu criador, surpreso, saísse nu pelas ruas gritando que achara a solução ao problema do rei que lhe fora proposto.
Dia 16DEZ conhecemos como o sonho de Friedrich August Kekulé von Stradonitz, mais conhecido por apenas Kekulé (1829 - 1896), resolve um problema estrutura do benzeno e se tem uma proposta que há quase 1,5 século mantém-se aceita: ‘o anel benzênico’.
Em 18DEZ, na retomada à série foi relatado algo muito serendípico: Fleming e descoberta da penicilina. A esta postagem o leitor Rossano Evaldt Steinmetz Ribeiro alerta em comentário para a contribuição, na mesma direção, mas sem acaso espetacular, do cientista francês Ernest Duchesne (1874 – 1912).
Em 19DEZ nas descobertas serendipitosas se conta como o carrapicho inspirou o Velcro® nome comercial derivado de velvet (veludo) e crochê.
Em 20DEZ se relata dentro da mesma dimensão serendípica a descoberta do uso do lítio no tratamento de psicoses.
Assim, com esta blogada se anuncia um plano serendipitoso. Devo esclarecer que mais uma viajada no livro Descobertas acidentais em Ciências [ROBERTS, Royston M, Campinas: Papirus, 1995 (2ed.) ISBN 85-308-0218-7] deixou-me indeciso na escolha. Talvez, uma proposta poderia ser: Amanhã: vamos ver porque o termo vacina tem a ver com ‘doença de vaca’. No sábado: como uma observação acidental do dr. Papanicolau, no entorno da metade do século passado, passou a salvar da morte milhões de mulheres no mundo inteiro. No domingo: o quanto o uso de dopamina no tratamento de Mal de Parkinson teve lances serendípicos. Na segunda-feira, dia 6: a proposta é lembrar o acaso em descobertas de Roentgen e Becquerel.
Volto a sinalizar que houve uma seleção difícil, e talvez me afaste da mesma. É uma pauta para bem começar os blogares de 2014.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

01.- FELIZ ANO DE PAZ E DE JUSTIÇA

ANO
 8
em fase de transição
EDIÇÃO
 2639

2013 já é ‘ano passado’. Ele, agora, está na gaveta rotulada de ‘recordações’. Assim, foi no ano passado que a cristandade vibrou com um argentino que se tornou Francisco, o Papa do Novo Mundo. Os protestos nas ruas, catalisado pelo preço das passagens dos ônibus, foi no ano passado. Também foi no ano passado que a Rainha perdoou a Alan Turing, por algo que se tinha como crime. Muitos fatos são, agora, eventos do ano passado.
Hoje já é 2014, dito ‘ano novo’. Dentro de um tempo, mais rápido que sonhamos, ele será, também, ano velho.
Hoje é um feriado internacional. O Dia da Fraternidade Universal é um feriado mundial. Também conhecido como o Dia da Paz Universal comemorado, na verdade, em quase todo o mundo no primeiro de janeiro. Não sei há   outro feriado universal.
Nesse dia, as pessoas trocam votos de alegria, de paz e de felicidade para o ano que se inicia.
Hoje é um dia em que se vai falar muito em PAZ ou de PAZ. Mas não podemos esquecer de que não existe PAZ sem JUSTIÇA.
Assim, aqui e agora, os votos para 2014 são de muita PAZ, assentada na JUSTIÇA para cada uma e cada um.