TRADUÇAO / TRANSLATE / TRADUCCIÓN

terça-feira, 14 de setembro de 2010

14- O tesão dos velhos

Porto Alegre Ano 5 # 1503

Uma terça-feira com seu azul no qual rolam nuvens acinzentadas. Os ventos de finados parecem querer recordar que o inverno está dando adeus.

In memoriam da Professora Flávia Maria Sant’Anna. A abertura desta edição é para homenagear uma de minhas professoras de didática. Ontem ao anoitecer fui à Catedral Metropolitana de Porto Alegre para assistir a missa de sétimo dia da Professora Flávia. Não foi sem emoção que abracei, também em nome da Gelsa, que participava do XI Simpósio Internacional IHU: o (des) governo biopolítico da vida humana, seu filho Rubens e sua nora Vanja. Um e outra, mais recentemente, nos são fraternalmente próximos, pois é no seu Borgheto Sant’Anna, no Vale dos Vinhedos, que temos, de vez em vez, fruído as belezas e as gostosuras da Serra Gaúcha.

Na missa recordei muito as aulas da Professora Flávia. Recordei seus livros. Um deles era o celebrado Microensino e Habilidades Técnicas do Professor, onde conheci o microensino, que a Flávia ensinou pioneiramente. Ela era co-autora também do Planejamento de ensino e avaliação, editado pela Sagra, que por décadas foi muito usado. Lembro também dela como entusiasmada pela taxionomia dos objetivos educacionais de Benjamin Bloom (que ainda evoco: conhecer, compreender, aplicar, analisar, sintetizar e avaliar), do qual ela foi tradutora dos dois volumes editados pela Globo. Foi muito bom ter ido num dia chuviscoso, encontrar-me um pouco com meu passado e reconhecer uma pessoa que foi importante na minha história.

Ainda algo muito relevante de ontem: desde março tenho, em diferentes momentos, dito aqui o quanto as aulas que dou segundas-feiras na UAM - Universidade do Adulto Maior, no Centro Universitário Metodista - IPA são dos momentos mais gratificantes de meu fazer acadêmico. É muito grato lecionar Enfoque Histórico e Sócio Antropológico para mais de meia centena de alunos matriculados e alguns que carinhosamente ‘penetras’ que não tendo conseguido vaga, assistem as aulas.

Ontem, apresentei um texto, do Gilberto Dimenstein que fora publicado na véspera no caderno cotidiano da Folha de S. Paulo. Já o título os fez ‘aceso’: O tesão dos velhos. Transcrevo o artigo, aditando uma ilustração da campanha a que alude Gilberto Dimenstein. Nos diferentes pôsteres da campanha tem a frase "Lembra-se de ter usado isso?" perto de uma foto de alguém posando com uma roupa desse período. Outra frase diz: "Então, lembre-se de usar isso", ao lado da foto de uma camisinha.

É com ânimo de adolescente que o arquiteto Jaime Lerner fala sobre sua experiência de produzir o menor carro do mundo, a ser apresentado nesta semana durante uma feira de design. A ideia é que o microautomóvel não seja vendido a particulares, mas fique em diversos estacionamentos da cidade, para ser alugado por hora, ajudando a aliviar o trânsito. "O carro só tem um problema: eu quase não consigo entrar nele", brinca com seu peso.
Rapidamente muda de assunto: fala das experiências de inovação urbana que o fazem viajar sem parar pelo mundo. Conta que um dos seus projetos, já desenhado, é criar o maior parque linear do mundo, em cima da linha de trem que passa na cidade de São Paulo. "Isso redefiniria o conceito de periferia."
A conversa ruma para questões pessoais e eu lhe pergunto se está namorando. Jaime, viúvo, diz que não vai encontrar ninguém que substitua Fani, sua falecida mulher. Nem se mostra disposto a morar com mais ninguém. Namorar pode ser. "Desde que não me chateie."
Escolhi Jaime, 73 anos, para abrir a coluna de hoje por causa de uma informação divulgada pelo IBGE na semana passada: cresce aceleradamente a faixa etária dos mais velhos. Em apenas um ano, de 2008 a 2009, foram mais 697 mil pessoas -quase a quantidade da redução que houve entre os jovens até os 24 anos de idade.
Estamos vivendo uma redefinição da velhice, uma redefinição acentuada nesta sucessão presidencial.
O Brasil -assim como vários outros países do mundo- está com menos jovens, mas os velhos, de modo geral, estão mais jovens.
Uma prova disso foi uma campanha publicitária lançada na semana passada na Inglaterra depois da descoberta de que as doenças venéreas estão crescendo

especialmente entre os homens com mais de 65 anos de idade. Em sua maioria, eles imaginam que esse tipo de doença é coisa de adolescente e que, portanto, estariam imunes a elas, já que, com mais experiência, saberiam escolher melhor as parceiras.
Por trás disso, segundo os responsáveis pela campanha, estão o aumento da expectativa de vida e o crescimento do número de divórcios, além, é claro, dos novos medicamentos e tratamentos para cuidar da saúde, no geral, e da disfunção erétil, em particular.
Principal personagem desta sucessão presidencial, Lula, 65 anos, é visto muito menos como ex-presidente do que como candidato na próxima eleição, quando já terá quase 70 anos. Ninguém vê problema nisso.
Assim como se especula que, caso saia mesmo derrotado, como reforçou a pesquisa Datafolha divulgada ontem, José Serra talvez dispute a prefeitura paulistana aos 70 anos. Muita gente dentro do PSDB lista uma série de razões para o ex-governador não sair candidato, mas idade não aparece entre elas.
Há um time de brasileiros que vai, aos poucos, redefinindo o que significa ser velho. É gente como Silvio Santos, Hebe Camargo, Jô Soares, Fernando Henrique Cardoso, Boni, Chico Buarque, Caetano, Gil, Niemeyer, Adib Jatene.
De alguma forma, eles se comportam, na sua inventividade, como educadores e ajudam a quebrar o preconceito de que ser velho é apenas esperar a morte.
Uma pesquisa realizada pelo Datafolha sobre a terceira idade mostrou que um terço dos brasileiros com mais 60 anos admite ter depressão. Nesse grupo, o medo da morte é igual ao de ficar doente -isso sinaliza como será complicado preparar os sistemas de saúde para atender a essa clientela.
Psiquiatras alertam sobre o risco de certos preconceitos acabarem atrapalhando o processo de envelhecimento. É que, além dos problemas naturais da idade, é comum a visão que se tem da vida na terceira idade como um momento sem novidades, previsível, monótono, o que, muitas vezes, aumenta a probabilidade de surgirem doenças físicas e psicológicas. Veja quantos acadêmicos, no auge de sua fertilidade mental, se aposentam da universidade.
Isso significa que tesão pela vida se aprende. Ou se desaprende.
Aprende-se, por exemplo, vendo um Jaime Lerner, cercado de universitários, tão satisfeito quanto desajeitado, espremendo-se para entrar no menor carro do mundo.

É fácil inferir o quando minhas alunas e meus alunos terminaram a aula lamentando comigo, como o tempo ‘voou’. Ainda, lamentamos que na próxima segunda-feira, será feriado e não nos encontraremos. Desejo a melhor terça-feira, junto com o convite para nos lermos aqui, amanhã, mais uma vez.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

13- Inteligência e pobreza


Porto Alegre Ano 5 # 1502

Uma segunda-feira que abre a última semana de inverno. Aliás, o fim de semana por estas latitudes foi de tempo carrancudo. É verdade quês as plantas caducifólias se revestem de um verde viçoso. Quando se contempla, por exemplo, as videiras, parece visível a cada mirada o crescimento da brotação. Esta contemplação é algo encantador.

Mas a uma segunda-feira apetece um assunto mais denso. Brindo meus leitores com um texto de Drauzio Varela que foi publicada. Há evidências de que pobreza e Quociente de inteligência estão relacionados. Lembrando que Quociente de inteligência (abreviado para QI, de uso geral) é uma medida obtida por meio de testes desenvolvidos para avaliar as capacidades cognitivas (inteligência) de um sujeito, em comparação ao seu grupo etário. A medida do QI é normalizada para que o seu valor médio seja de 100 e que tenha um determinado desvio-padrão, como 15. Vale a pena conhecermos este texto.

Antes é conveniente recordar que Drauzio Varella (São Paulo, 1 de janeiro de 1943) é

um médico oncologista e escritor brasileiro, conhecido por popularizar a medicina em seu país, através de programas de rádio e TV. Foi também um dos fundadores da Universidade Paulista e da Rede Objetivo, onde lecionou física e química durante muitos anos.

Além das campanhas de prevenção, Drauzio Varella também é um premiado escritor, tanto de ficção para adultos quanto para crianças. Lançado em 1999, o livro Estação Carandiru, que conta sobre seu trabalho com os presidiários do Carandiru, virou best-seller e recebeu o Prêmio Jabuti na categoria "não-ficção". Em 2003, a obra ganhou as telas do cinema num filme do diretor Hector Babenco.

Seu outro livro, Nas ruas do Brás, foi agraciado na Feira Internacional do Livro de Bolonha, na Itália e também na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2001, na categoria "revelação de autor de literatura infantil". Já Florestas do Rio Negro foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2002.

Se medir a inteligência de alguém já é tarefa inglória, imagine estimar seus valores médios em populações inteiras. Talvez não exista na biologia campo mais sujeito a interpretações contraditórias, preconceituosas e apaixonadas.
Em 1990, foi descrito o efeito Flynn, segundo o qual ocorrem aumentos significantes das médias do quociente de inteligência (QI) em curtos intervalos de tempo, à medida que as nações se desenvolvem.
Em 2001, Lynn e Vanhanen fizeram a primeira tentativa de relacionar inteligência com desenvolvimento econômico, ao publicar um estudo sobre o QI médio dos habitantes de 81 países.
Em 2005, N. Broder levantou a hipótese de que a inteligência, assim como outros traços psicológicos, é altamente plástica, portanto adaptável ao ambiente. Como consequência, tende a crescer com a escolaridade e com os desafios cognitivos impostos pelo meio, como os que surgem na migração do campo para a cidade.
Baseado no fato de que os níveis nacionais de QI são menores nos países com mortalidade infantil elevada e naqueles em que os bebês nascem com baixo peso, Broder concluiu que saúde e nutrição podem afetar a inteligência.
O que os estudos não esclarecem, no entanto, é se existe relação de causa e efeito entre essas variáveis, isto é, se a instrução ativa a inteligência ou se indivíduos mais inteligentes estudam mais. O mesmo vale para os que abandonam a agricultura para tentar a sorte na cidade.
Duas conclusões retiradas de vários estudos dão ideia da complexidade dessas interações:
1) O QI de uma população é menor nos países em que as temperaturas permanecem mais altas durante o inverno. Tem certa lógica: frio e neve exigem maior criatividade para sobreviver.
2) Como regra, quanto mais distante da Etiópia estiver o país, mais alto o QI de seus habitantes. Tem a mesma lógica: quanto mais se afastou da terra natal, mais desafios adaptativos o homem foi obrigado a vencer.
A você, leitor que resistiu com bravura à introdução, está reservada a cereja do bolo.
Cristopher Eppig e colaboradores escreveram um artigo na prestigiosa Proceedings of The Royal Society, propondo uma explicação unificadora, daquelas que nos deixa a sensação do por que não pensei nisso antes.
Segundo eles, as causas apresentadas estão por trás de uma variável bem mais relevante: as infecções parasitárias.
Do ponto de vista energético, o cérebro é o órgão do corpo humano que mais consome energia: 87% no recém-nascido, 44% aos cinco anos; 34% aos dez; 23% nos homens e 27% nas mulheres adultas.
As infecções parasitárias interferem com o equilíbrio energético: 1) alguns microrganismos se alimentam de tecidos humanos que precisam ser reparados. 2) outros vivem nos intestinos e prejudicam a absorção de nutrientes. 3) para multiplicar-se, os vírus dependem da maquinaria de reprodução da célula, processo que exige energia. 4) o hospedeiro infectado precisa investir energia para ativar o sistema imunológico; por longos períodos, nas infecções crônicas.
As diarreias na infância têm custo energético especialmente elevado. Primeiro, por causa da alta prevalência -estão entre as duas principais causas de óbitos em menores de cinco anos. Além disso, porque elas dificultam o aproveitamento de nutrientes.
Quadros diarréicos de repetição durante os primeiros cinco anos de vida podem privar o cérebro das calorias necessárias para o desenvolvimento pleno e comprometer a inteligência para sempre.
Diversos trabalhos demonstraram que infecções parasitárias e QI trilham caminhos opostos. Um deles, realizado no Brasil pelo grupo de Jardim-Botelho, mostrou que crianças escolares com ascaridíase apresentam performance mais medíocre nos testes de capacidade cognitiva. E, mais, naquelas parasitadas por mais de um verme intestinal os resultados são piores ainda.
A hipótese de que infecções parasitárias prejudicariam o desenvolvimento da inteligência explica porque a média do QI aumenta rapidamente quando um país se desenvolve (efeito Flynn), porque o QI é mais alto nas regiões em que o inverno é mais frio (menos parasitoses) e porque nos países pobres os valores médios do QI são mais baixos.
No Brasil, existem 38 milhões de residências sem esgoto.

Realmente é dolorosamente triste saber o quanto há ainda brasileiras e brasileiros e também latino-americanos vivendo em condições subumanas. Desejo a cada uma e cada um que o dia seja produtivo e reflexivo.

domingo, 12 de setembro de 2010

12- Uma blogada dominical para curtir ‘babas’

Porto Alegre Ano 5 # 1501

Um domingo que sucede a um sábado chuvoso. A inferir da mirada dos céus nesta madrugada ainda escura teremos um dia cerrado com nebulosidade intensa. Mas não tenho carta de meteorologista, logo e previsão é dada a modificações.

Uma semana que foi de babar netos. Vale retomar dois momentos. Aqui neste

blogue quarta-feira o destaque foi o nascimento do Felipe, filho de minha filha Ana Lúcia e do Eduardo em Estrela. Nesta quinta-feira foi, Dilma Roussef, a muito provável futura Presidente do Brasil, que se fez presente na primeira página dos jornais brasileiros.

Celebrava seu ingresso no avonado com o nascimento do Gabriel, seu neto, filho de sua única filha Paula. Há um sítio para felicitar Dilma por se tornar avó http://www.dilma13.com.br/parabens Há já ali alguns milhares de mensagens. Encanta-me trazer aqui aquela enviada pela Liba, mãe da Gelsa:

Estimada Presidente Dilma:

Eu, que vivo a dupla emoção de ser bisavó e acompanhar tua vitoriosa campanha, que dará continuidade a 8 anos de um governo comprometido com o povo brasileiro, te felicito pelo nascimento de teu neto, certa de que estarás contribuindo fortemente para que as novas gerações – representadas pelo Gabriel recém nascido e pelo Antonio de 3 anos – tenham um país mais justo, onde a riqueza possa ser compartilhada por todos, Liba Knijnik.

Acerca de mais um escândalo forjado pela a revista Veja a candidata à presidência Dilma Rousseff rebateu hoje os ataques à Casa Civil da Presidência da República, motivados por reportagem publicada pelo maior pasquim brasileiro e defendeu que as instituições sejam preservadas. Segundo ela, a campanha adversária tem procurado uma “bala de prata” ao fazer acusações sem provas contra sua campanha.

“Nos últimos tempos, eu tenho visto coisas do arco da velha em matéria de denúncia. Espero que esta campanha não se paute por isso. Estão em busca da bala de prata. Sinto informar que não terão”, afirmou Dilma.

O empresário Fábio Baracat divulgou nota na tarde deste sábado (11) na qual desmente reportagem publicada na edição deste final de semana da revista que hoje parece ser a cloaca do jornalismo brasileiro. Na reportagem, a revista apresenta relato atribuído ao próprio empresário sobre uma suposta negociação com o filho da ministra Erenice Guerra (Casa Civil). Aditado quatro após a postagem

No sábado chuvoso aproveitamos para leituras de jornais e saboroso descansar. À noite fomos assistir ao filme O segredo de teus olhos’ que não me entusiasmou muito. Policial com uma mistura antípoda de drama e comédia não é gênero que me agrada.

Durante 25 anos um crime permaneceu sem solução na memória de Benjamín Espósito. Agora, bem mais maduro, ele decide voltar a essa história, questionando de novo aquele passado de amor, morte e amizade. Porém, essas recordações, postas em liberdade, lembradas tantas vezes, mudaram sua visão desse passado. E reescreverão seu futuro.

‘O segredo de teus olhos’ (El Secreto de Sus Ojos) Gênero: Crime, Drama e Suspense Duração: 127 min. Origem: Argentina e Espanha. Direção: Juan José Campanella Roteiro: Juan José Campanella e Eduardo Sacheri Distribuidora: Europa Filmes Censura: 16 anos Ano: 2009

Cumpro a liturgia das blogadas dominicais: ser breve. Adito meus votos de um bom domingo. Na expectativa de nos encontrarmos amanhã inaugurando mais uma semana.

sábado, 11 de setembro de 2010

11.- Henry & June: uma dica de leitura saborosa

Porto Alegre Ano 5 # 1500

Afeitos a celebrações de números ’redondos’ valeria um brinde a esta sesquimilenar postagem. Chegamos a esta data tão prenhe de marcas para o Planeta a 1,5 mil edições. Numa nota lateral vale acrescentar que o prefixo sesqui significa um + metade. Adito isto, pois há não muito falei a um grupo e referi o sesquicentenário da publicação de ‘Origem das espécies’ ocorrido no ano passado e não havia ninguém que soubesse que se tratava de 150 anos. Claro que também desconheciam, por exemplo, o sesquióxido de alumínio Al2O3.

Não vou comentar o nono aniversário do trágico e quase fantasmagórico 11 de setembro de 2001. Já disse aqui mais de uma vez que esta é uma das datas que todos sabemos o que fazíamos naquela manhã, aqui no sul já recendendo à primavera. Meus familiares, meus colegas e amigos e eu sepultávamos, no momento exato da tragédia, minha mãe no bucólico cemitério do Faxinal. Hoje respiramos mais aliviados porque aquele pastor estadunidense maluco suspendeu a queima de Corães.

Agora, depois da super sexta-feira de ontem onde fui desafiado a falar em um seminário que recebeu o quase hermético título: ‘Das análises (quase) finais’. Fui solicitado a falar acerca da escrita quando a pesquisa se encaminha para a elaboração final. Realmente ter me dedicado ontem a estudar um pouco de Michelangelo foi relevante. Os aplausos dos mestrandos e de minha colega Marlis ao final foi uma muito boa gratificação.

Mas sábado é dia de dica de leitura. Acerca de um mês (07AGO2010) houve numa blogada sabática a trazida de um livro 7.- A ESCRITA CIENTÍFICA NO DIVÃ que tem muito a ver com o seminário que dei ontem de noite.

Todavia, hoje vou virar a mesa. A dica de leitura é hoje antípoda de um escrito acadêmico. Sei que corro o risco de ser acusado de difundir leitura erótica. ¿ E por que não? Afinal os tempos do ‘Index liborum prohibitorum’ são passados. O Concílio Vaticano II (1962/65) que terminou com a inquisitorial prática já é distante. Se não tivesse nenhum argumento para justificar a escolha, voltaria a minha tese, ainda conectada com minha fala de ontem à noite: para bem escrever textos acadêmicos devemos ler ficção. Acrescento muito boa ficção. O livro que trago hoje é daqueles onde são tênues os limites entre a ficção e realidade. [Aqui , de vez em vez, se tem questionado a existência deste limite]. Mas a sugestão é plenamente justificada por tratar-se de um excelente texto. Daqueles que tem parágrafos sumarentos que se rele pensando: Quem me dera soubesse eu escrever algo assim!

Semana passada foi de viagens demoradas com muitas horas de aeroporto e para tal existe um excelente calmante: um livro da Coleção L&PM Pocket. E vejam que soube fazer uma excelente escolha.

Henry & June conta o início da relação de Henry Miller com Anaïs Nin. Henry se muda para França e é convidado, pelo marido dela, a visitá-los. Anaïs, à procura de algo novo, mais espontâneo, logo se apaixona pela vivacidade de Henry. Porém Henry é apaixonado por June.

Anaïs, nutrindo admiração por Henry, começa a observá-lo, e se apaixona pelo amor que ele tem por June. Essa paixão a faz apaixonar-se, também, por June. Em meio a esses sentimentos, inicia-se o caso de Henry com Anaïs, transformando suas vidas, tanto de escritores quanto de amantes.

NIM, Anaïs. Henry & June: Diários não expurgados de Anaïs Nin (1931-1932). Henry and June: From a Journal of Love. – The Unexpurgated of Anaïs Nin. Tradução de Rosane Pinho. Porto Alegre: L&PM, 2007, 256p.(L&PM Pocket, v. 613). ISBN: 978-85-254-1651-3

Anaïs Nin (21 de fevereiro de 1903, Neuilly, perto de Paris — 14 de janeiro de 1977, Los Angeles) batizada Angela Anais Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, foi uma autora nascida na França, filha do compositor Joaquin Nin, cubano criado na Espanha e Rosa Culmell y Vigaraud,de origens cubana, francesa e dinamarquesa. Anaïs Nin tornou-se famosa pela publicação de diários pessoais, que medem um período de quarenta anos, começando quando tinha doze anos. Foi amante de Henry Miller e só permitiu que seus diários fossem publicados após a morte de seu marido Hugh Guiler. Seus romances e narrativas, impregnados de conteúdo erótico foram profundamente influenciados pela obra de James Joyce e a psicanálise. Dentre quase uma dezena de títulos destaca-se Delta de Vênus (1977), traduzido para todas as línguas ocidentais, aclamado pela crítica americana e européia (Wikipédia).

Extraído dos diários de Anaïs Nin (1903-1977), Henry & June é um relato íntimo do florescer sexual da autora. Os relatos são dos últimos meses de 1931 ao final de 1932 da vida de Anaïs Nin em Paris, período em que ela conheceu o escritor estadunidense Henry Miller (que escrevia então Trópico de Câncer) e sua bela mulher, June. Anaïs Nin apaixonou-se pela beleza de June e pela escrita de Miller; logo iniciou com ele um affair que a libertou sexual e moralmente, minou o seu casamento (com o banqueiro Hugh Guiler, que ela chama de Hugo) e a levou à psicanálise. Mas todo o novo mundo do sexo que lhe fora desvendado, seu relacionamento com Hugh e com o primo Eduardo não bastavam para tirar da sua cabeça a feminina June...

Considerado por muitos o melhor livro de Anaïs Nin, Henry & June foi publicado na década de 1980, após a morte da autora. Não constou dos diários publicados em sete volumes a partir de 1969. Discute-se o quanto de ficção e fantasia ele contém, o que torna ainda mais primoroso e saboroso o pícaro texto de Anaïs.

Há um filme estadunidense de 1990 -- Henry & June --, do gênero drama erótico e biográfico, dirigido por Philip Kaufman, com Maria de Medeiros e Uma Thurman nos papéis de Anaïs e June. Eu não assisti ao filme, mas me parece quase impossível imaginar que possa superar o livro.

Quem faz diários como eu, se encanta também com a qualidade da diarista Anaïs. Está aqui a dica de leitura do primeiro shabath do ano 5771. Um muito bom sábado a cada uma e cada um de meus amáveis leitores.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

10- Michelangelo como inspiração

Porto Alegre Ano 5 # 1499

Mesmo com feriadão que envolveu mais de meia semana, parece que esta sexta-feira custou a chegar. É verdade que até ela se transmutar em fim de semana há muitos fazeres. Esta manhã, tenho quatro períodos de aulas no seminário de Historia e Filosofia da Ciência no Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão. E à noite, antecedido por uma sessão de orientação, tenho na disciplina de Prática de Pesquisa sob a responsabilidade da Prof. Dra. Marlis Morosini um seminário para o qual foi proposto o prosaico título ‘As análises finais’. Fui solicitado a falar a cerca da escrita quando a pesquisa se encaminha para a elaboração final. Senti-me desafiado ante o ineditismo, para mim, da proposta.

Montei uma pesquisa-fantasia ‘A contribuição do Projeto Político Pedagógico em Escolas de Ensino Médio de Porto Alegre na formação da cidadania crítica’ para a qual construí uma hipótese: ‘O Projeto Político Pedagógico é desconhecido por um número significativo de docentes e pela maioria dos discentes das Escolas públicas de Ensino médio de Porto Alegre’. Com estes dois elementos construo tentativas de visualizar como escrever a finalização de uma dissertação. Vejo algum leitor franzindo o nariz e outro me achando pretensioso. Farei um exercício, que pode ser infrutífero. Desafio-me, todavia, nesta produção, no mínimo original, para mim.

Quando me envolvo nestes bosquejos (aqui busco a metáfora de um desenho ligeiro, geralmente incompleto e simplificado, sem preocupação com o acabamento, que serve de primeiro passo para a concepção de uma obra de cunho pictórico, escultórico, arquitetônico etc.; um esboço ou um rascunho), não tenho como não reportar aquele que foi talvez um dos meus maiores impactos culturais: Florença, as

estátuas inacabadas de Michelangelo. Foi em julho de 1989, quanto estive a primeira vez na Europa (era o presente que me dera quando fiz 50 anos). Muito me impactaram as estátuas ditas inacabadas de Michelangelo [Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (Caprese, 6 de março de 1475 — Roma, 18 de fevereiro de 1564), mais conhecido simplesmente como Miguel Ângelo ou Michelangelo]. Ele foi um pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano, considerado um dos maiores gênios da história da arte do ocidente.

Nestas magníficas obras de arte parece que vemos aflorar a estátua que o mármore escondia. Assim são nossos escritos – e incluo aqui os textos científicos – sempre inacabados. Sempre por burilar.

O estado inacabado de muitas das obras de Michelangelo tem

intrigado os historiadores. Frequentemente fatores externos, que foram documentados, o levaram a isso, sendo constantemente chamado de um lado para outro pelos papas e príncipes, mas em outros casos não houve qualquer imperativo conhecido que pudesse justificá-lo, e se especula hoje que as tensões entre suas ideias

grandiosas e a dificuldade prática de transportá-las satisfatoriamente para uma forma concreta e limitada pela matéria física podem ter sido um elemento importante nesse fenômeno. Por outro lado essas interrogações aumentaram em mim quando tive o privilégio de ver alguma de suas obras acabadas. Destas destaco duas: a Pietá e Moisés.


Parece que se pode inferir que a escrita eletrônica (estou chamando assim a aquela com computador, em oposição à mecânica – com máquina de escrever ou manuscrita – literalmente escrita à mão) se tornou uma facilitadora deste constante burilar de nossos textos. E aqui não estou incluindo produções ligeiras, como uma edição de um blogue, mas, por exemplo, um romance (ou mesmo um artigo científico) que escrevemos durante semanas e cada vez que retomamos, damos ‘polida’ aqui e outra ali.

Aliás, é essa escrita que determinou também o fim dos rascunhos ou mesmo das páginas originais anotadas pelo autor. Para os escritores contemporâneos não teremos museus disputando acervos como ‘páginas originais de O tempo e o vento anotados por Érico Veríssimo’.

Quando se refere estas obras inacabadas e se imagina a tensão do artista em (não) terminá-las nãocomo não imaginar - e o verbo é prenhe no seu significado: fazer imagens - Sócrates, ao nos propor a maiêutica, inspirado na mãe parteira e no pai escultor. E especialmente desta dizer que a estátua está pronta dentro do bloco de mármore: só se precisa tirar o excesso.

Mas quase me perco neste texto e minha fala de amanhã ainda é um bosquejo. Volto à minha apresentação de hoje de noite. Desejo uma muito boa sexta-feira, saborosamente curtida na expectativa de iluminado fim de semana, que aqui começa com uma dica de leitura.