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sábado, 21 de junho de 2014

21.- PARA FICAR MAIS EM CASA


ANO
 8
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 2811


A julgar pelas temperaturas desta sexta-feira — negativas em várias localidades da região do sul do Brasil — o inverno, que começa ‘oficialmente’ hoje, será rigoroso. Para meus leitores do hemisfério Sul: votos de um bom inverno e curtam hoje a noite mais longa do ano. Para aquelas e aqueles do hemisfério Norte: um aprazível verão. Não esqueço os que residem na zona equatorial: desejo uma meteô saudável.
Como inverno envolve, também, ficar mais em casa, trago uma crônica de Ruy Castro — o reconhecido biógrafo de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda — publicada na segunda-feira na p. A-2 da Folha de S. Paulo, que se for profética, nos fará ficar mais em casa nas quatro estações.
Cemitérios urbanos Não é ficção científica. A Amazon está "desenvolvendo" um software que, ao ser apontado para qualquer produto – numa livraria, farmácia, confecção, loja de brinquedos e o que você quiser –, "reconhecerá" esse produto, e ela (sempre ela) o comprará para você. Trata-se do Dash Amazon, a próxima maravilha a ser acoplada ao seu smartphone, e com a qual você poderá realizar o seu ideal de comprar tudo sem sair de casa.
Resta saber o que acontecerá a essas lojas e a todas as outras. Por algum tempo, elas ainda resistirão, reduzidas à condição de imensos showrooms de uma gigamegaempresa – a qual começou vendendo discos e livros pela internet e, hoje, embora muitos não saibam, vende de grampos de cabelo a submarinos. Por enquanto, seu ataque ao comércio organizado acabou apenas com as lojas de discos no mundo inteiro e já começou a fechar as livrarias nos EUA. Nada que se compare ao que acontecerá quando o Dash Amazon for uma realidade.
Cada item comprado com um clique representará duas pessoas a menos no balcão  — a que compra e a que vende — e, em pouco tempo, uma loja fechada na rua ou no shopping. Imagine o mundo sem o comércio varejista, que emprega milhões de pessoas, paga bilhões em impostos e dá vida às cidades –aliás, foi ao redor desse comércio, na forma de um mercado ou feira, que as cidades nasceram e prosperaram.
Sem ele, elas se tornarão cidades-fantasmas — "cemitérios urbanos, povoados por gangues e milícias", segundo meu amigo Rui Campos, da Livraria da Travessa, e quem me alertou para o perigo. Curiosamente, ninguém parece preocupado. A tecnologia é tão sedutora e apaixonante que nos impede de enxergar os seus "desprodutos", como os chamava Décio Pignatari.
A Amazon conta com nosso egoísmo e comodismo. Faz muito bem. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

20.- ACERCA DA CERCA


ANO
 8
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EDIÇÃO
 2810

A proposta, ou melhor: a mania, de querer a cada dia postar algo é um excelente indicador para darmo-nos conta de nossa — não tão rara — esterilidade intelectual. Quando vejo, por exemplo, que no feriado gélido aqui da região mais sureña do Brasil, à meia manhã, os leitores do blogue anda não chegaram a duas dúzias, quase enrolo a bandeira.
Vejo então a Espanha, que na quarta-feira amargava sua prematura eliminação de um torneio ao qual chegara dona do título, arrastar, no dia seguinte, milhares de pessoas às ruas para saudar uma monarquia, tida como rota e embolorada, com o rei Felipe 6º, produzido numa família real marcada por escândalos. Talvez nesses paradoxos, mais precisamente, nestas contradições que me revitalizo e alinhavo alguns escreveres.
Desde domingo estou lendo um livro robusto (tem 590 páginas) e sumarento (pois se tece em três histórias paralelas) que exige disciplina para leitura. Esses dias copeiros não poderiam ser mais propícios para um quase reaprendizado de leituras tão extensas em suporte papel. Já antecipo que em breve trarei um comentário mais denso acerca do intrigante “O homem que amava cachorros”. Por ora o refiro aqui para dizer do quanto um presente que ganhei no dia dos namorados está me capturando.
Ainda nesta semana comentava de como a poderosa Fifa interfere ditatorialmente nas agendas. Eis uma manchete dos jornais de ontem: “Tradicional procissão de Corpus Christi não irá ocorrer hoje em Porto Alegre, devido à Copa do Mundo”. Isto sem jogo aqui ou do Brasil. Faltou apenas decreto de desobriga de assistência a cultos religiosas durante estes dias.
Aliás, não é só nas agendas, até nos costumes a Fifa se mete. Causou desagrado à interventora que chegassem à arena Beira-rio tantas pessoas trajando camisetas do Grêmio e do Internacional com a marca Banrisul. Como o banco que patrocina as duas equipe gaúchas não é um dos patrocinadores da Fifa, é presença das camisetas foi considerada indevida.
Mas para que a citação do livro que leio, não fique nesta blogada como Pilatos no credo, o calhamaço (não na acepção pejorativa: Mulher feia e pretensiosa, mas significando livro volumoso) tem me ensejado, também, saboroso entretimento com as palavras. Por exemplo ‘comissura dos lábios’. Como eu sempre vira a palavra comissura associada a lábios, pensava tratar-se de uma redundância dizer que alguém levara o cigarro à comissura dos lábios ou roubara um beijo que tangenciara a comissura dos lábios.
Ledo engano. Primeiro o Google desktop me assegura que, nos últimos 20 anos, não há nenhum registro que alguma vez eu tenha escrito a palavra comissura. O Priberam a dicionariza assim:
 co·mis·su·ra 
substantivo feminino 1. Ponto onde duas superfícies se reúnem formando ângulo. 2. Junta. 3. Linha ou ponto de junção. 4. Sutura. 5. Abertura. 6. Fenda. Um exemplo dado pelo dicionário:
pé·-de·-ga·li·nha 
substantivo masculino Ruga junto às comissuras das pálpebras. [Mais usado no plural.]
Para ter uma vez usada a palavra lembrei-me que poderia encerrar esta blogada dizendo: Encantei-me com meu vizinho quando discutíamos acerca da comissura da cerca que nos faz lindeiros.

Aprendo também, em outro dicionário (www.infopedia.pt/termos-medicos), que a palavra tem uso em anatomia.
§                                                                                               comissura labial ponto de união dos lábios no canto da boca
§                                                                                               comissura nervosa feixe de fibras nervosas que unem entre si duas regiões do cérebro, do cerebelo e da medula e que tem designações próprias e diversas (basal, branca anterior, branca posterior, caudal, do hipocampo, cinzenta, olivar etc.)
§                                                                                               comissura palpebral ou ocular ponto de união das pálpebras nos cantos do olho
§                                                                                               comissura vulvar ângulo anterior ou posterior onde se unem os lábios da vulva

quinta-feira, 19 de junho de 2014

19.- GALILEU GALILEI E O DIA SANTO DE HOJE


ANO
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 2809

Hoje, é feriado em muitos municípios brasileiros. Ou melhor, é uma "Festa de Guarda", isto é, para os de fé católica é obrigatório assistir missa inteira. Mas este ano certamente a poderosa Fifa deverá emitir um decreto de desobriga.
Esta comemoração festiva remonta ao século 13. A Igreja Católica sentiu necessidade de realçar a presença real do "Cristo todo" no pão e vinho consagrados. A medieva festa de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano 4º em 1264. Em muitas cidades, ainda hoje, há costume ornamentar as ruas por onde passa a procissão com tapetes de colorido vivo e desenhos de inspiração religiosa.
Mas qual a relação desta festa com Galileu Galilei? O grande rompimento entre Ciência e Religião, parece acontecer em 1543, quando Nicolau Copérnico propõe um novo modelo para o sistema solar que contraria o modelo bíblico. “Não é mais o sol que gira em torno da Terra, mas a Terra é que gira em torno do sol”, diferente do que está no livro de Josué (10, 12-14). A proposta copermicana é ratificada por Galileu em várias obras, especialmente em “Diálogo sobre os dois principais sistemas de mundo” (1623). A adesão ao heliocentrismo já havia concorrido para Giordano Bruno terminar na fogueira, em 1600.
Apesar de, aparentemente, estas revelações terem gerado a cisão entre os dois pontos de vista, a questão central de toda a discussão, ocorre quando Galileu foi julgado aparentemente por sua ratificação do heliocentrismo.
Parece oportuno ler uma pungente confissão pública: "Eu, Galileu, filho de Vicente Galilei de Florença, com a idade de setenta anos, juro que sempre acreditei, acredito agora e com a ajuda de Deus acreditarei no futuro em tudo o que sustenta, ensina e prega a Santa Igreja Católica e Apostólica. Mas por ter eu — após ter sido com preceito intimado juridicamente por este Santo Ofício a que deixasse completamente a falsa opinião de que o Sol seja o centro do mundo e que não se mova, e de que a Terra não esteja no centro e que se mova; e a que não tivesse, defendesse, nem ensinasse de qualquer modo, nem por voz, nem por escrito, a falsa doutrina referida; e por ter sido notificado de que esta doutrina é contrária às Sagradas Escrituras — escrito e imprimido um livro no qual trato da mesma doutrina já condenada e apresento razões com muita eficácia em seu favor, fui julgado veemente suspeito de heresia, isto é, de ter tido e acreditado que o Sol seja o centro do mundo e esteja imóvel e que a Terra não seja o centro e que se mova. Portanto, querendo retirar da mente de Vs. Eminências e de todo fiel cristão esta veemente suspeita (...) com o coração sincero e fé não fingida abjuro, e amaldiçoo e detesto os erros e heresias acima (...)".
Rigorosamente o julgamento [Galileu frente ao tribunal da inquisição romana, pintura de Cristiano Banti (fonte Wikipédia).] que conduziu a esta confissão fora um simulacro (A ciência através dos tempos, p. 149). Era fácil aceitar o senso comum marcado pelas propostas de Aristóteles há mais de 20 séculos. Havia um impasse muito maior que fora subtraído das discussões. Galileu ensinava mais de um século antes que Lavoisier ‘que uma substância só se transforma em outra substância, se houver alteração de sua natureza’. Ocorre que isso fere frontalmente o dogma da transubstanciação, ou seja, quando o pão e o vinho se transformam em corpo e sangue de Cristo. Por tal era importante silenciar Galileu, que até morrer aos 78 anos não pode mais ensinar ou escrever livros.
Essa ‘leitura’ católica da Última Ceia é diferente — leia-se, mais fácil—, no luteranismo e na maioria das igrejas surgidas após a Reforma (1517) — para o qual o pão e o vinho representam (não são) o corpo e sangue de Cristo. Por isso que segunda-feira eu escrevia que dia santo católico de hoje é a celebração de uma das mais significativas dissemelhanças do catolicismo e as demais denominações cristãs. 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

18.- TEMPO É INCRIÁVEL


ANO
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 2808

Um dos princípios basilares que rege a termodinâmica, ou se quisermos, que governa nosso universo cognoscível (ou aquele que é nosso habitat) é que não se cria energia e nem matéria. Elas são apenas transformáveis. O princípio da conservação da energia e a lei (lavoisierana) da conservação matéria regem nossas relações energéticas. O alerta: ‘Economize energia!’ é de certa maneira mal posto, quando não se específica a qual modalidade energética nos referimos. A grande síntese está na lapidar equação atribuída a Einstein: E = mc2 que rege as transformações de matéria e energia.
¿E o tempo? Também é incriável. Não sei como se equaciona a máxima capitalista: tempo é dinheiro. Muito menos qual a lógica dos teóricos que nos afirmam: é preciso saber administrar o tempo.
Estes dias de ditadura da Fifa, onde a toda poderosa se adonou de nossas agendas e impôs novas rotinas, vemos que ela faz com o nosso tempo. Esse apossamento de agenda se dá não apenas entre os professos da poderosa multinacional, mas inclusive naqueles que são incréus ao futebol.
Veja-se a situação da mãe que coloca o filho na ‘Educação infantil’ também porque tem um trabalho, sujeito a horário. Ela recebe da escolinha ou da creche um aviso: na próxima terça-feira, fecharemos às 15 horas em função da Copa! Não estou falando das aulas que se deixam de ser dadas, das reuniões que são canceladas ou dos postos de saúde que reagendam consultas. Lembro apenas da mãe que tem compromissos empregatícios e por causa de uma partida de futebol, que nem é na sua cidade, tem sua vida transtornada.
Eis uma evidência empírica acerca de como o tempo não é criado: se no período copeiro, a cada dia temos cerca de seis horas de transmissões de jogos, há um tempo consumido em futebol, no qual outras atividades cessam. Por exemplo, este blogue tem, por ora, menos leitores. Claro que não consigo concorrer com o produto ‘ofertado’ pela potente Fifa. Vale observar dois gráficos. Um, emitido no dia 09JUN e indica os acessos de 02 a 09 de junho, logo pré-copa. Os índices de acessos diários chegam a tangenciar 600. Outro, do dia 17 e revela o período de 09 a 17, os índices chegam no máximo a 400.
Meu exemplo: uma transferência de atividade irrelevante. Perda de leitores para o futebol. É fácil, imaginar outras. O tempo copeiro é um tempo tirado de outros fazeres. Um destes a leitura deste blogue.
Então: um agradecimento muito especial, para os que leem, ou pelo menos acessam, o blogue nesses dias. Obrigado a cada uma e cada um.
Mas a copa oblitera nossas relações. Assim, como quase apagou o dia dos namorados, quase me esqueço de cumprimentar colegas, pelo dia do químico, que é hoje. Ah! Também é o dia do evangélico, que determina ser feriado em alguns estados e municípios brasileiros.

terça-feira, 17 de junho de 2014

17.- Eleições & Copa não são imiscíveis


ANO
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EDIÇÃO
 2807

Lembro quando aprendi o adjetivo imiscível. Estudava soluções. A água e o azeite, diferente da água e do álcool, são imiscíveis. Quem defendesse que eleições e copa são imiscíveis, constata, nestes primeiros dias da mesma, o quanto são miscíveis. A blogada de ontem, ratifica, um pouco isso.
Quando leio as declarações dos próceres mais representativos do PSDB a propósito do lançamento de candidatura partidária à presidência da república assustei-me. Não há como não fazer analogias.
Neste domingo, no mesmo jornal que lia as declarações de FHC, Serra e Alckmin sobre o PT e sobre Dilma (e eles parece que não tinham nada a dizer se seu partido e de seu candidato) lia acerca do resultado das eleições para o Parlamento Europeu, no fim de maio: ocorreu na prática o fortalecimento dos partidos de extrema direita no continente.
As eleições europeias confirmaram uma tendência observada já há alguns anos na maior parte dos países do continente: o crescimento espetacular da extrema direita. Esse é um fenômeno sem precedente desde os anos 1930. Em muitos países, essa corrente obtinha entre 10 e 20%. Hoje, em três países (França, Inglaterra e Dinamarca), ela já atinge entre 25 e 30% dos votos. O caso francês é o mais grave; o avanço da Frente Nacional ultrapassa todas as previsões, mesmo as mais pessimistas.
Seria um erro acreditar que o fascismo e o antifascismo são fenômenos do passado. Um e outro parecem surgir revigorados. A crise econômica que castiga a Europa desde 2008 parece que favoreceu, de maneira predominante mais a extrema direita do que a esquerda radical. Se no Brasil, termos passado imune à crise em 2008 favoreceu a eleição de um terceiro governo mais a esquerda, parece natural para a direita, agora, tripudiar com a crise e anunciar que se vai varrer o PT do poder.
Lembrei-me, então, que além de estudar miscibilidade de solutos e solventes li ‘O 18 brumário’ de Karl Marx. Por tal, parece que as próximas eleições presidenciais serão brumosas, mesmo que elas ocorram na primavera.