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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

27- Mais um quase ocaso agustino

Porto Alegre * Ano 5 # 1484

A esperada chuva chegou. Na madrugada ela se fez sinfonia.

É a última sexta-feira do agosto 2010. Este talvez seja recordado por queimadas que enfumaçam grande parte do país.

Tenho neste dia concorrida agenda no Centro Universitário Metodista - IPA. Pela manhã quatro horas de aulas no Seminário de História e Filosofia da Ciência no Mestrado Profissional de Reabilitação e Inclusão. Às 17 horas, palestra O que é Ciência, afinal? no seminário dos mestrados e às 19h a quarta fala para o curso de Ciências Biológicas, nos encontros promovidos pela professora Isabel Gravato, hoje com a discussão: “A Escola não mudou! Foi mudada!” Que os deuses que cuidam de pendrives e de gargantas me projetam.

Desejo, de maneira diferenciada bisar aqui aquilo que foi tema da blogada do dia 19: Hiroshima e Nagasaki. Sirvo-me de um texto publicado no www.amaivos.br Tenho orgulho de ser parceiro da produção de um das mais significativas plataformas ecumênicas da blogosfera brasileira. Ainda na semana passada seu diretor escrevia: Querido Chassot: Muito obrigado pela sua generosidade e pelo seu carinho de sempre ! É um prazer e uma honra tê-lo na nossa equipe. Espero que sejamos parceiros nessa missão por muitos anos! Um abraço forte Tony Piccolo. Assim, agrada-me oferecer, de vez em vez, produções daquele prestigiado sítio, que se prepara celebrar 10 anos de realizações. O texto que trago, produzido por uma das mais respeitadas teólogas brasileiras, é outra recordação de um dos mais tétricos acontecimentos da história da humanidade.

"Meninos" atômicos

Maria Clara Luchetti Bingemer
professora do departamento de teologia da PUC-Rio

Parece amarga ironia que hajam sido batizadas de “meninos” (Little Boy e Fat Boy) as duas bombas atômicas que há sessenta e cinco anos atrás caíram sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, lançadas por aviões estadunidenses. Numa segunda feira, 6 de agosto de 1945, o avião Enola Gay deixava cair seu fardo destruidor sobre Hiroshima. Três dias depois era a vez de Fat Boy ser lançada sobre a cidade de Nagasaki.

Menos de uma semana depois, em 15 de agosto de 1945, o Japão se rendia e a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim. Foi uma guerra que deixou atrás de si o maior saldo de mortes da história da humanidade. Além do genocídio do povo judeu, a média de pessoas que morriam durante a guerra beirava os 5000. O fim daquele genocídio era algo pelo qual a humanidade ansiava ardentemente.
No final daquele mesmo ano, no entanto, o número de mortos por causa das bombas era de aproximadamente 140 mil pessoas em Hiroshima e 74 mil em Nagasaki. E o número de mortos nos anos seguintes, vitimados pelas sequelas das radiações, era muito maior.

A amargura da ironia se torna maior. À destruição causada pela guerra se acrescenta outra ainda maior. Para deixar de matar por um lado, mata-se mais e mais cruelmente pelo outro. Parece o mundo um desses doentes terminais que ao tratar de um mal, desencadeia outro e ao tomar um remédio que cura uma doença desperta outro no organismo frágil e esgarçado.

O capitão Theodore Van Kirk, tripulante do avião que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima há 65 anos, entrevistado, não deixou transparecer um único sentimento de angustia ou arrependimento pela violência que protagonizou. Ao contrário, disse sentir-se orgulhoso da missão que, segundo ele, salvou muitas vidas e pôs fim a uma odiosa guerra. Acrescentou, no entanto, que esse tipo de arma não deveria voltar a ser usada nunca mais.

Van Kirk declarou na entrevista que havia pleno conhecimento dele e de seus companheiros do tipo de armamento que levavam. Isso fez com que passassem a noite anterior ao lançamento da bomba jogando pôquer, já que não podiam dormir. O “menino”explosivo que carregavam requeria vigilância permanente.

Sessenta e cinco anos depois, o triste aniversário se celebra como de praxe. Minuto de silencio pelos mortos. Discursos emocionados relembrando as vítimas e emitindo desejos de paz. Os “hibakusha”, como são chamados em japonês os sobreviventes da tragédia causada pelos “meninos”atômicos, estiveram no centro das celebrações dos tristes sucessos de 1945 no Japão. Receberam o preito de homenagem dos visitantes ilustres.

No entanto, essa celebração teve um toque diferente. Ali comparecerem pela primeira vez nesse tipo de cerimônia representantes dos Estados Unidos, Reino Unido e França. As três grandes potências que eram protagonistas da Segunda Guerra e aliadas no bombardeio a Hiroshima e Nagasaki marcaram presença no Japão em sinal de apoio ao desarmamento nuclear.

Parece que cresce a consciência de que não se combate a violência com mais violência. Ou de que a vitória final não é daquele que tem mais potencial destrutivo. Os dois “meninos”atômicos e perigosos que deixaram esse rastro de dor e morte no Japão há 65 anos precisam ser definitivamente varridos da história e do cenário mundial.
Pois, como bem disse o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, a única maneira de assegurar que as armas nucleares não serão usadas é eliminá-las. Se outros “meninos”como o pequeno e o gordo do Enola Gay ficarem à solta, os habikusha podemos ser todos nós

Torcendo que os senhores do mundo aprendam a lição. Seria fabuloso se pudéssemos dizer: “Armas atômicas nunca mais!”

Hoje é o Dia do Psicólogo. Minha homenagem a alguns de meus leitores que exercem esta importante profissão, vou fazer com uma mensagem que recebi ontem à noite de minha orientanda a psicóloga Thaíssa Hass. Professor, só para lhe contar que amanhã é dia do Psicólogo. E que as reflexões trazidas a partir da blogada de hoje, estão num momento muito apropriado. Vejo colegas que seguem o exemplo do médico da comédia de Molière que o senhor citou, e isso é triste e acaba por desvalorizar a profissão que existe justamente para discutir e mudar os rumos de assuntos como o que o senhor blogou hoje. Um beijo, Thaíssa

Que a sexta-feira seja agradável a cada uma e cada um. Apresento o convite de lermos amanhã aqui. Apenas recordo que as blogadas sabáticas falam de leituras.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

26- Diagnósticos em debate

Porto Alegre * Ano 5 # 1484

Peço que seja relevado, mas desde a última edição, alguns parágrafos quando postados se convertem em caixa alta. Peço ajuda para uma possível solução.

Ontem, de maneira muito continuada aqui sonhávamos ver a chuva que ameaçava cair e nesta queda, por arraste, levar a densa ‘fumaça’ que há alguns dias tolda-nos a visão do horizonte. Mas a chuva ficou apenas em tímidos respingos. E as queimadas continuam.

Estou postando esta blogada antes de ir a Academia Treinar esta manhã. Mesmo que faça isso, usualmente três vezes por semana, hoje cabe o registro aqui. Completo nesta data 5 anos de AT. Ratifico o costume de sermos dados a celebrar certos marcos. Festejo hoje meu primeiro lustro. Talvez um dia faça dele um quartel.

Hoje, desejo brindar leitores com a última crônica semanal de Moacyr Scliar publicada sábado no caderno Vida. Mas antes me permitam dizer algo do autor do texto dolorosamente ilustrativo.

Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre, mais precisamente no bairro Bom Fim, em 23 de março de 1937. É formado em medicina. Scliar publicou mais de setenta livros, entre crônicas, contos, ensaios, romances e literatura infanto-juvenil. Seu estilo leve e irônico lhe garantiu um público bastante amplo de leitores, e em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tendo recebido antes uma grande quantidade de prêmios literários como o Jabuti (três vezes), o Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) (1989) e o Casa de las Americas (1989).

Suas obras frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, e também temas como o socialismo, a medicina, a vida de classe média. O autor já teve obras suas traduzidas para doze idiomas. Entre suas obras mais importantes estão os seus contos e os romances O ciclo das águas, A estranha nação de Rafael Mendes, O exército de um homem só e O centauro no jardim, este último incluído na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, feita pelo National Yiddish Book Center nos Estados Unidos.

Agora, ofereço o texto. Parece incrível que ele esteja narrando algo da História da Medicina daquele que foi o século de nascimento de meus avós.

Diagnósticos em debate

Vocês têm ideia do que seja drapetomania? Provavelmente não. O estranho termo vem do grego, drapetes, fugitivo, e significa mania de fuga. Um diagnóstico médico, portanto. Foi proposto em 1851 pelo dr. Samuel A. Cartwright, da Louisiana, no escravagista sul dos Estados Unidos. Segundo o dr. Cartwright, era um mal que acometia os escravos negros que insistiam em escapar das fazendas. Esse mal, dizia o bom doutor, não tinha tratamento, mas podia ser evitado com a aplicação de chicotadas a escravos rebeldes e também com a amputação – isso mesmo, a amputação – dos dedos dos pés.

Convenhamos: a medicina evoluiu bastante desde aquela época. Isto não impede que ainda surjam diagnósticos controversos. Foi o que aconteceu com a última edição do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Problemas Mentais (DSM), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA). Muito famoso, mas não aceito pacificamente; no passado, foram várias as polêmicas suscitadas. Um exemplo: a inclusão do homossexualismo na lista de distúrbios sexuais, o que desencadeou uma onda de protestos e levou a APA a voltar atrás, considerando o homoerotismo uma variante do comportamento sexual normal.

Recentemente novos diagnósticos foram objeto de discussão. É o caso das entidades batizadas como síndrome de risco de psicose, distúrbio de desregulação de temperamento e também aquilo que os americanos chamam de toddler tantrums, os ataques de zanga das crianças. Dois médicos ingleses, Til Wykes, do Instituto de Psiquiatria do Kings College de Londres, e Felicity Callard, da Universidade de Cardiff, publicaram artigo no Journal of Mental Health expressando sua preocupação com diagnósticos considerados imprecisos e exagerados: será que não estamos todos sujeitos a uma desregulação de temperamento? E qual a criança que, em algum momento, não grita, não esperneia?

Os diagnósticos são cada vez mais numerosos: eram 106 na primeira edição do DSM e passaram para 365 na quarta revisão, um aumento de mais de 300%. Pode ser o resultado de um refinamento dos critérios usados para categorizar entidades mórbidas, e pode alertar doutores para problemas em potencial, mas mesmo assim para muitos esse incremento parece estranho. Não falta quem veja aí o dedo da indústria farmacêutica, para a qual um diagnóstico é igual a um ou a vários medicamentos, em geral usados por longo tempo.
Vamos deixar bem claro: na imensa maioria dos casos, a medicação beneficiou extraordinariamente os pacientes. A revolução psiquiátrica dos anos 50 representou um grande avanço. O alerta se refere àqueles casos em que uma variação do normal é considerada doença. Numa época, usou-se o termo “medicalização” para a situação na qual a medicina e, sobretudo, os remédios adquirem um poder extraordinário.
Em O Alienista, Machado de Assis conta a história de um doutor que praticamente mandava em uma cidade, decidindo quem ia para o hospício. Uma situação caricatural; mas, pelo jeito, os doutores Wykes e Callard acham que não é tão impossível assim.


Permito-me insistir em algo. Scliar narra propostas médicas do dr. Samuel A. Cartwright que são contemporâneas de nossos avôs e foram feitas na nação que deu/dá lições de democracia. A essa impactante revelação, adito apenas votos de uma muito boa quinta-feira a cada uma e cada um de meus amáveis leitores.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

25- Alfabetização científica: questões e desafios para a Educação

Porto Alegre Ano 5 # 1483

Esta é uma blogada para fazer anúncios. Chegaram ontem exemplares da quinta edição do Alfabetização científica: questões e desafios para a Educação. Alegro-me trazer esta boa nova aqui. Há também nesse novidar um ressaibo (pequeno) de amargor.

O leitor que conheceu algum exemplar de uma das quatro edições anteriores deste livro talvez, quando se encontrar como exemplares da nova edição, tenha uma surpresa. Houve um significativo emagrecimento físico do livro.

CHASSOT, Attico. Alfabetização científica: questões e desafios para a Educação. Ijuí: Editora Unijuí. [1ª ed 2000] 5ª ed. 2010, 212 x 120 mm. 480g 368 p. R$ 45,00 ISBN 978-85-7429-893-1. Aquisição na livraria virtual em www.attticochassot.com.br

Esse parece ser um dos sinais desses tempos pós-modernos que essa blogada de fazer anúncios quer visitar. Hoje um livro de 438 páginas, como foram as quatro edições anteriores, não é mais palatável. A nova edição tem 368 páginas. Há pelo menos duas determinações para uma tão radical ablação de capítulos inteiros e de parte de outros: a primeira, hoje se lê menos em suporte papel – isso tem sido comentado aqui de vez em vez; outra, razões econômicas exigem que os livros, pelo menos dessa área, sejam de menor custo ou fisicamente menos volumosos.

Assim, justificada a edição adelgaçada, não vou detalhar cortes que determinaram uma redução de cerca de 20%. Mas suprimir 70 páginas não é trivial.

As operações de poda de vegetais sempre me são dolorosas. Muitas vezes procuro dar destino especial aos ramos excluídos. Imagine-se, então, o que significou exclusões de um livro que por dez anos foram presenças na obra. Mas acerca de ler menos, trago uma ‘justificativa’:

Em 2009 concedi uma entrevista à Revista Episteme e a Prof. Dra. Russel Teresinha Dutra da Rosa, Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação da UFRGS, perguntou-me, entre vários interrogantes: Sei que és um leitor voraz e um escritor muito produtivo, tens inúmeras publicações, já registraste teu hábito de produzir diários e também discutiste o papel das bibliotecas. Como foi a história da tua relação com os livros, com a leitura e a escrita? Eis a abertura de minha resposta: Muito provavelmente essa é uma das mais instigantes perguntas desta entrevista. Começo com algo que vai decepcionar, pois muito me decepciona recentemente. Destruo – não sem dó – em mim o mito do leitor voraz. Essa perda: lamento muito. Leitor voraz no sentido daquele que acolhe um livro, ficção ou não ficção, e vai para uma rede – esse instrumento de repousar que lembra o útero materno – fruir a leitura. Lamentavelmente essa benesse é mal substituída por horas de teclar e ler sob a vigilância severa do ‘meu feitor’, como chamo meu computador. Considero a leitura no computador como algo sensabor ou insípido. O suporte papel é algo que tem uma sensualidade incomparável. Sentir o cheiro do livro. Manuseá-lo na estante. Curtir-lhe a lombada. Avaliar sua história material. Tudo isso nos é sonegado na leitura em suporte eletrônico.

Não busco culpados para essa alteração de nossa cotidianidade. Há uma justificativa


para tal. Não é buscar desculpas, mas uma das razões está na quantidade de tempo que envolvemos em responder mensagens. Aqui estou incluindo aquelas, usualmente trabalhosas, que envolvem dar parecer em trabalhos de congressos e artigos de revistas, agora muito mais controlada pelos sistemas de referagem [palavra não dicionarizada, mas corrente na Academia, correspondente a arbitragem; se for incorporado esse anglicismo, sua origem refere-se à referee, juiz] on-line. Pode-se afirmar que se com o advento do correio eletrônico quase abandonamos as cartas pessoais manuscritas e envelopadas, muitas vezes longas e refinadas. Tornamo-nos muito mais escribas, agora, de mensagens pessoais. Poderia amealhar dezena exemplos de mensagens que recebo: trago apenas uma dos dias que escrevo este texto. A recebi (com as máculas à linguagem usuais naquele cenário) pelo orkut: oi, o senhor não me conhece, porém atualmente estou estudando o livro do senhor a ciencia atraves dos tempos, o senhor poderia me fornecer uma sintese dos capitulos 1 e 2 (desde já agradeço). A antecipação dos agradecimentos nos parêntesis foi desnecessária, pois pensei que o melhor seria não responder, pois não queria trazer a um meu leitor o destilar de minha indignação, a mais um que me pede para fazer seus deveres escolares.

É quase senso comum que hoje dedicamos menos tempo em leituras de livros – e aqui estou me referindo àquele genial artefato tecnológico em suporte papel – que está muito bem celebrado como a genial ‘novidade’ que supera eBook, iPad, iPod, iPhone, mini-computador e outras parafernálias tecnológicas recentes em um vídeo que recomendo em http://www.youtube.com/watch?v=iwPj0qgvfIs

É nesta dimensão que faço o convite para fruirmos mais uma edição deste Alfabetização científica: questões e desafios para a Educação, que como nas quatro anteriores, tem seus direitos autorais destinados ao Departamento de Educação do Movimento dos Trabalhares Rurais Sem Terra. Talvez isso explique porque dentre os meus livros é esse que mais me emociona.

A primeira edição foi no ENEQ de 2000 na PUC em Porto Alegre. Agora, na celebração do 10º aniversário, um convite para curtir mais um livro em suporte papel. A este convite adito votos de uma muito boa quarta-feira.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

24- De agostos trágicos

Porto Alegre Ano 5 # 1482

Madrugada que pelos prognósticos anunciam dia quente. Agora mais de 25ºC. Ontem houve superação de 35ºC, com a continuada fumaça das queimadas de Tocantins. Não é primavera no inverno. Parece já estarmos no verão.

Ainda na última quinta-feira evoquei aqui que desde o final da primeira metade do Século 20, em agosto há uma usual tétrica comemoração. Referia-me então que a cada ano se evoca trágico agosto de 1945: os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki. Tinha menos de seis anos e não me recordo do fato. Mas de um momento seguinte tenho um registro: Como éramos das poucas famílias que tinham rádio recordo que os vizinhos vinham ‘ouvir rádio’ em nossa casa. A transmissão radiofônica que tenho mais remota lembrança é aquela do retorno dos Pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, retornando da Guerra em 1945. Lembro do repórter narrando que ‘agora já se vê a sombra da bandeira nacional em águas brasileiras’. Talvez esteja fantasiando.

Mas este 24 de agosto é trágico na história da humanidade e também na história do Brasil.

Massacre de São Bartolomeu, de François Dubois Hoje é dia de são Bartolomeu. O massacre da noite de São Bartolomeu foi um episódio sangrento na repressão dos protestantes na França pelos reis franceses, católicos. As matanças, organizadas pela casa real francesa, começaram em 24 de agosto de 1572 e duraram vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas, vitimando entre 30 mil e 100 mil protestantes franceses (chamados huguenotes). Nas primeiras horas da madrugada , dezenas de líderes huguenotes foram assassinados em Paris, numa série coordenada de ataques planejados pela família real.

Este foi o sinal inicial para um massacre mais vasto. Começando em 24 de agosto e durando até outubro, houve uma onda organizada de assassínios de huguenotes em cidades como Toulouse, Bordéus, Lyon, Bourges, Rouen, e Orléans.

Relatos da quantidade de cadáveres arremessados nos rios afirmam uma visível contaminação, de modo que ninguém comia peixe, pelas condições insalubres do local. Não foi o primeiro nem o último ataque massivo aos protestantes franceses.

No Brasil, em 24 de agosto de 1954 tivemos a morte trágica de Getúlio Vargas. Getúlio Dorneles Vargas (São Borja, 19 de abril de 1882 - Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1954) foi presidente da república do Brasil em dois períodos. O primeiro teve duração de 15 anos ininterruptos, de 1930 a 1945.

No segundo período, em que foi eleito por voto direto, Getúlio governou o Brasil como presidente da república, por 3 anos e meio: de 31 de janeiro de 1951 até 24 de agosto de 1954, quando se matou. Suicidou-se em 1954 com um tiro no coração, em seu quarto, no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. Getúlio Vargas foi um dos mais controvertidos políticos brasileiros do século XX. Sua influência se estende até hoje. A sua herança política é invocada por pelo menos dois partidos políticos atuais: o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

Em 25 de agosto de 1961, no meu primeiro ano de magistério, houve outra convulsão agustina na política brasileira. A renúncia do presidente Janio Quadros, com menos de sete meses de governo.

Jânio da Silva Quadros (Campo Grande, 25 de janeiro de 1917 — São Paulo, 16 de fevereiro de 1992) foi um político e o vigésimo segundo presidente do Brasil, entre 31 de janeiro de 1961 e 25 de agosto de 1961 — data em que renunciou, alegando que "forças terríveis" o obrigavam a esse ato. Em 1985 elegeu-se prefeito de São Paulo pelo PTB. Foi o único sul-mato-grossense presidente do Brasil.

Jânio chegou à presidência da República de forma muito veloz. Em São Paulo, exerceu sucessivamente os cargos de vereador, deputado, prefeito da capital e governador do estado. Tinha um estilo político exibicionista, dramático e demagógico. Conquistou grande parte do eleitorado prometendo combater a corrupção e usando uma expressão por ele cunhada: varrer toda a sujeira da administração pública. Por isso o seu símbolo de campanha era uma vassoura.

Foi eleito presidente em 3 de outubro de 1960, pela coligação PTN-PDC-UDN-PR-PL, para o mandato de 1961 a 1966, com 5,6 milhões de votos - a maior votação até então obtida no Brasil - vencendo o marechal Henrique Lott de forma arrasadora, por mais de dois milhões de votos. Porém não conseguiu eleger o candidato a vice-presidente de sua chapa, Milton Campos (naquela época votava-se separadamente para presidente e vice). Quem se elegeu para vice-presidente foi João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro. Os eleitos formaram a chapa conhecida como chapa Jan-Jan.

Animados pelo pensamento mágico temos razões para apelarmos aos anjos e as bruxas pedindo tranquilidade ao Brasil e ao mundo nesses dias de agosto que nos faltam. Mas, vamos com calma: por hora os votos são de uma boa terça-feira e o desejo de nos encontramos amanhã, uma vez mais, aqui.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

23- Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo

Porto Alegre Ano 5 # 1481

Manhã que anuncia em termo de temperaturas primaveris. Agora em torno de 20ºC com previsão como ontem, que se chegue quase a 30ºC, com continuada nebulosidade, que se atribui a queimadas em regiões mais ao Norte. As azaléias floridas anunciam o ocaso de agosto.

Na blogada de ontem, cabia muito bem trazer algo leve. Por tal elegi falar do filme que Gelsa e eu assistimos. Ocorre que termos quebrado um jejum de mais de meio ano – o último filme fora Avatar em 01FEV10 – das salas de cinema, nos reavivou um hábito que desejamos voltar a cultivar. Assim, no final da tarde fomos, mais uma vez ao cinema.

Mesmo que pareça exótico, começar a última semana completa de fevereiro, falando de cinema, acredito que vale contar aqui daquilo que nos maravilhou ontem. Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo mistura a linguagem do documentário com a linguagem da ficção. Um título muito lindo! Quando, contei a minha filha Ana Lúcia que assistiríamos a esse filme, ela disse: “Este poderia ser o mote de vocês dois que estão sempre viajando, mas estão sempre voltando...por que se amam”.

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo [I Travel Because I

Have to, I Come Back Because I Love You ] Brasil, 75 minutos, 2009 Dir.: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Drama. Censura: 14 anos

Apaixonado pela esposa uma botânica, o geólogo José Renato precisa fazer sozinho uma longa viagem pelo sertão nordestino. Com uma relação amorosa recém terminada, ele curte apenas saudades. Até as flores que encontra evocam a (ex/sempre) amada. As constatações geológicas trazidas são primorosas.

Longe dela, ele terá que realizar uma pesquisa de campo para definir o possível percurso de um canal, que irá amenizar o problema da seca na região. Apesar de a construção ser um alívio para muitas populações, pode ser um grande problema para aqueles com quem Renato cruza, já que provavelmente a região será alagada.

Avaliando o terreno, ele percebe na seca e na pobreza daquelas pessoas uma sensação parecida com a que está tendo. Apesar de não ter dificuldades com a falta de recursos, José Renato sente um grande vazio, pela distância da mulher que ama. À medida que a viagem avança, as saudades ficam cada vez maiores, e a distância física dela parece ser o menor dos problemas entre os dois.

Vale ler Fred Burle: Os relatos são ilustrados com imagens que imitam o poético formato de Super 8, que traz consigo a atmosfera de filme caseiro ou de registros documentais que se fazia na década de 60. O protagonista sequer aparece em tela. A leitura dos escritos é feita por Irandhir Santos (de Besouro) com tanta emoção que a impressão que ficou foi a de que conhecemos o personagem, sem nunca tê-lo visto. Em momentos emocionantes, ele entrevista moradores da região, perguntando-lhes qual o ideal de vida deles. Os sonhos almejados são medíocres, mas demonstra a humildade daqueles moradores e o quanto eles pedem pouco para se considerarem felizes. A definição de “uma vida de lazer” é tocante.

[...] Numa sequência, o geólogo relata uma de suas aventuras amorosas, oriundas de enorme carência e solidão, na qual só há fotos e sons de lugares. Nem ele ou a prostituta aparecem, mas eu podia jurar que vi toda a situação acontecer.

Os diretores mesclaram ficção e realidade com tamanha maestria e sutileza que não se sabe onde termina um e começa o outro. Ousaram na experimentação de linguagem, na montagem de sequências justapostas, no jogo de composição de sons e sensações, no tratamento arriscado das imagens e na confiança de que tinham um roteiro maravilhoso em mãos. Fizeram um filme que traduz em som e imagens tudo o que o cinema é capaz de fazer, com poesia e inventividade. In www.fredburlenocinema.com

Selecionado para o Festival de Veneza, onde fez sua premiére mundial, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é uma obra experimental realizada pelos cineastas Marcelo Gomes, de Cinema, Aspirinas e Urubus, e Karim Aïnouz, de Madame Satã e O Céu de Suely. Para o longa, os diretores usaram imagens não utilizadas em seus filmes anteriores, incluindo o documentário Sertão Acrílico Azul Piscina, que também filmaram em conjunto.

Com a absolvição de meus queridos leitores pela trazida, numa segunda-feira que abre uma semana de muitos fazeres, algo tido como de lazer. Parece que até nos temas do blogue se faz aflorar as culpas judaicas. Adito meus votos de um muito bom dia. Por ora, arquemos um encontro aqui, amanhã. Até então.