TRADUÇAO / TRANSLATE / TRADUCCIÓN

sábado, 11 de julho de 2015

11- ELE EXISTIU E EXISTE, POIS NARRAMOS SUA HISTÓRIA


ANO
 9
EDIÇÃO
 3059

11 de julho sempre foi, na minha infância e adolescência, uma data especial. Era o dia do aniversário do pai. Agora, me dou conta que não dizíamos ‘o meu pai’. Não cabia o possessivo. Era ‘o pai’. Parece que o simples artigo se traduz em super-possessivo. Hoje, o pai faz 109 anos. Sim, ele faz 109 anos. Aqui mais uma vez, uma questão gramatical.
Quando, há nove anos, filhos, netos e bisnetos, comemoramos o centenário de nascimento dele, o evento foi marcado pelo mote: “Naquele tempo existia um homem. Ele existiu e existe, pois narramos sua história.” Assim justifica-se o tempo presente: ele faz 109 anos e não o condicional faria.
Dando crédito que nossos ancestrais deixam de existir somente quando nós os esquecemos, a edição do blogue de hoje é para dizer algo de Affonso Oscar Chassot (1906-1987). A narração quer contar dele para fazê-lo presente. É claro que este narrar não tem a assepsia exigida de um verbete da Wikipédia. É salutar que em muitos de nossos escritos possamos / devamos não nos policiar pela neutralidade.
Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores do século 20, falecido em 2012, escreveu, entre obras, o livro (Pessoas extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998) acerca de pessoas cujos nomes são conhecidos apenas pelos parentes e pelos vizinhos. Esse texto é para falar de uma pessoa que também é extraordinária.
Ainda evoco uma cena do frio dia 9 de julho de 1987. Era uma quinta-feira, dia normal de trabalho. Havíamos velado meu pai durante toda noite. Na metade da manhã houve uma missa na capela mortuária. Após se formou um cortejo fúnebre da cidade de Montenegro até o cemitério do Faxinal. Num momento, de um dos carros em que estou olho para trás. Vejo dezenas de carros, que se estendiam por pelo menos por alguns quarteirões. Perguntei-me: que fizera esse marceneiro, para que tanta gente deixasse os seus fazeres para vir sepultá-lo num bucólico cemitério, não muito distante da casa onde nascera?
Não é difícil entender as homenagens que muitos homens públicos e também algumas mulheres proeminentes recebem, quando se completam aniversários de efemérides que marcaram suas vidas. Também é fácil compreender porque aquelas pessoas extraordinárias das quais fala Hobsbawm são usualmente esquecidas. Para os ‘padrões de medidas de mérito socialelas não fizeram nada de excepcional.
O que meu pai fez para ser alguém extraordinário? Talvez, um dia ter visto que a pequena propriedade colonial de seu pai no Faxinal não podia ser repartida para dela obter o sustento para novas oito famílias a serem formadas por ele e por seus cinco irmãos e duas irmãs. Faz então uma opção não usual. Abandona a colônia, deixa de ser agricultor e parte para a cidade desconhecida para aprender um ofício em uma fábrica de órgãos em Hamburgo Velho. O colono se fez um hábil marceneiro.
Essa migração do colono para a cidade rompe uma tradição quase centenária. O elo fundador uma família Chassot chega ao Rio Grande do Sul em 10 de novembro de 1855. A família pioneira foi a de Jean Chassot, sua esposa e sete filhos. Eram suíços de fala francesa de Vuisternens-devant-Romont, do cantão de Fribourg, distante 40 km dessa cidade. Aqui se estabelecem como agricultores no vale do Caí. Eis as três gerações que antecedem a meu pai.
1.- Jean Chassot ou João Chassot, 42 anos, chegou com sua mulher Nanette Torche, 32 anos, e seus sete filhos: Francisco (14), Denis (13), Jules ou Júlio (11), Genoveva (9 e meio), Constantino (8), Pedro (6) e Luisa (1 ano e meio). A sucessão de meus antecedentes segue a partir do terceiro filho:
2.- Jules ou Júlio Chassot, com 26 anos casou com Maria Rodrigues da Fonseca. Com esse casamento, que se pode inferir pelo sobrenome da filha do senhor Mathias, o idioma francês falado pelo então menino suíço que chegara ao Brasil 16 anos antes passa a ser minimizado, pois Maria deveria ser de fala portuguesa. Mas a perda do ‘falar francês’ vai se esvair de outra maneira. Deve ser então que os Chassot de fala suíça se germanizaram em contato com os colonos de fala alemã de quem eram lindeiros e que viviam nas margens do Forrromeco, no vale do Caí. A língua de berço de meus avôs maternos (Ledur e Volkweiss) era o alemão. Jules ou Júlio e Maria têm dez filhos. Minha ancestralidade se faz a partir do oitavo deles.
3.- João Guilherme Chassot, que casou em Bom Princípio, em 28.6.1905, com Susanna Werner, filha de Elisabeth e Theodoro Werner. João Guilherme e Susanna tiveram oito filhos, sendo o primogênito Afonso Oscar, meu pai.
O ex-colono era agora um marceneiro de ofício. Ingressa na Viação Férrea, algo distinguido há época. Pode casar. Vai a Santa Terezinha, uma vila perto de Bom Princípio então, município de Montenegro. A escolhida: Marichen [Depois Maria Clara Volkweiss Chassot (1909-2001)]. Casaram em 20 de setembro de 1937 (ele com 31 e ela com 28 anos). Se estabeleceram em Estação Jacuí – um núcleo ferroviário formado por operários de uma oficina de via permanente da VFRGS, onde meu pai era marceneiro. Estação Jacuí, onde eu nasci, era um vilarejo de Cachoeira do Sul, hoje no município de Restinga Seca. A foto, talvez de 1942: Meu pai e minha mãe, com os dois filhos mais velhos Sirne (1940-2001)
Não posso deixar de reconhecer que meu pai foi, na acepção de Hobsbawm, alguém extraordinário. Talvez, por ter sido um ferroviário responsável por dezenas de anos. Ou um esposo e pai dedicado à educação de seus cinco filhos e duas filhas.
Em A ciência através dos tempos fiz um ofertório, que ratifico nesta edição de um celebrado 11 de julho deste blogue:
Para Afonso Oscar Chassot (1906-1987), meu pai, que, mesmo nunca tendo visto seu nome impresso em um livro ou jornal, muito me ensinou: a gostar de ouvir notícias, instrumental importante para conhecer e entender a história, e a vibrar com a profissão, marceneiro hábil que era, trabalhando a madeira com amor. Para ele, este livro e estes versos, adaptados da poeta Hannah Szenes (1921-1944):
 Bendito o fósforo que ardeu e acendeu a fogueira!
Bendita a lavareda que ardeu no âmago do coração!
Bendito o coração que soube parar com honra!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

09.- LAUDATO SI’: Sobre o Cuidado da Casa Comum


ANO
 9
EDIÇÃO
 3058

Já, há mais de três semanas, sinto-me em dívida com um assunto. Estar o papa Francisco nesses dias na América do Sul e ouvi-lo manifestar-se sobre nossas responsabilidades globais em relação à Amazônia, acelera o saldar a obrigação de comentar a segunda encíclica do primeiro papa latino-americanos. Este título dá-nos certa intimidade, mesmo não estando entre seus súditos. Sei o quanto esta submissão a muitos conforta.
Por primeiro, devo reconhecer que fui precipitado em uma primeira avaliação. Há dias escrevia a meu colega Walter Bazzo, comentando o editorial de julho que escrevera em www.nepet.ufsc.br/.Li como destacas com oportunidade a encíclica do papa Francisco. Mesmo oportuníssima, parece-me que bateu leve demais. Poderia ser mais incisivo. Se lamentamos que em 11 de Setembro de 2001 tenha havido cerca de três mil mortes inocentes, no ataque às torres gêmeas do World Trade Center, atualmente, a cada dia, morrem dez vezes mais pessoas devido à falta de água potável [Ouvi essa afirmação dolorosa de Ricardo Petrella, economista italiano, professor na Universidade Católica de Lovaina, Bélgica, que esteve na UNISINOS, participando em setembro de 2004, do Simpósio Internacional Água: bem público universal com a palestra “Água: o desafio do bem comum”. A palestra está publicada no livro NEUTZLING, Inácio, Água: bem Público universal. São Leopoldo: Editora UNISINOS. 2004, p. 9-31]. É como se a cada dia houvesse a derrubada de dez WTC.” Meu comentário não cabe. Saboreei extensamente as quase 200 páginas, do documento publicado em 18 de junho de 2015.
A Laudato si' em português: Louvado sejas que traz o subtítulo: "Sobre o Cuidado da Casa Comum" é segunda encíclica do Papa Francisco, na qual faz critica ao consumismo e ao desenvolvimento irresponsável e faz um apelo à mudança e à unificação global das ações para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas. A encíclica foi publicada oficialmente, mediante grande interesse das comunidades religiosas, ambientais e científicas internacionais, dos líderes empresariais e dos meios de comunicação social.
SERVIÇO: Em http://www.ihu.unisinos.br/noticias/543659-laudato-si-um-qguiaq-para-a-leitura-da-enciclica-a-integra-do-texto pode-se ler a íntegra do texto, em português de Portugal, clique aqui. Em texto oficial do Vaticano. Também pode ser visto, clicando aqui, um vídeo, de 6min18s, de primorosa divulgação da encíclica.
Um vídeo, em tom humorístico, um tanto sem graça, sob o título Papa Francisco na Encíclica: a batalha heroica contra a mudança climática, pode ser visto clicando aqui.
O IHU/UNISINOS no mesmo endereço publica um guia de leitura do texto, divulgado pela Radio Vaticana
O título da encíclica tem origem nas primeiras palavras do documento, as quais são uma citação do Cântico das Criaturas de Francisco de Assis, do século 13. Esta obra é um poema e oração no qual Deus é louvado pela criação dos diversos animais e aspectos da Terra. O texto da oração foi escrito no dialeto úmbrico falado por Francisco de Assis, e não em latim, mantendo a encíclica a língua original.
Ela é um primor por sua concepção didática. É indisciplinar, pois permeia e é permeada por várias áreas do conhecimento. Ciência (não sei se alguma disciplina que não tenha sido referida com adequação), Tecnologia (trazida com detalhes e com brilhante atualidade) e Religião (a matriz judaico-cristã aflora de maneira permanente, ignorando o orientalismo) fazem uma tessitura bastante harmoniosa.
Diria que o texto, que deve ter tido uma assessoria de uma plêiade de especialistas nas mais diferentes áreas, poderia ser eixo de um seminário acadêmico muito rico. Não deve existir nenhum polímata que fosse capaz de produzir um texto tão matizado sumarento em muitas áreas.
A encíclica é explicita no que quer defender: a Terra e os pobres. Assim afirma: Mas, hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres. LS 49 (Laudato Si’ excerto trazido do parágrafo 49).
A rejeição a politicas de contracepção está claramente visível: Não faltam pressões internacionais sobre os países em vias de desenvolvimento, que condicionam as ajudas económicas a determinadas políticas de «saúde reprodutiva» LS 50.
Há um reconhecimento de que Ciência e Religião são óculos diferentes, mas podem dialogar: Todavia a ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realidade, podem entrar num diálogo intenso e frutuoso para ambas. LS 62.
 Há uma defesa explicita do criacionismo, mas de uma maneira não fundamentalista: Sem repropor aqui toda a teologia da Criação, queremos saber o que nos dizem as grandes narrações bíblicas sobre a relação do ser humano com o mundo. Na primeira narração da obra criadora, no livro do Génesis, o plano de Deus inclui a criação da humanidade LS 65.
A critica que os textos bíblicos são marcados por uma visão antropocêntrica são rebatidos: A terra existe antes de nós e foi-nos dada. Isto permite responder a uma acusação lançada contra o pensamento judaico-cristão: foi dito que a narração do Génesis, que convida a «dominar» a terra (cf. Gn 1, 28), favoreceria a exploração selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como dominador e devastador. Mas esta não é uma interpretação correcta da Bíblia, como a entende a Igreja LS 67.
Estes meus breves comentários foram pinçado nos dois primeiros dos seis capítulos. Há muito mais a conhecer. Francisco cita seus antecessores mais próximos, os papas João Paulo II e Bento XVI. Também faz referência a Bartolomeu I, patriarca de Constantinopla da Igreja Ortodoxa e seu aliado e cita Tomás de Aquino, Teilhard de Chardin — seu colega jesuíta, Romano Guardini e Ali al-Khawas, místico islâmico do século IX.
John Allen Jr, respeitado especialista em assuntos do Vaticano, afirmou que a encíclica Laudato Si’ representa um ponto de viragem muito significativo, em que o ambientalismo passa a ocupar um lugar de destaque na doutrina Social da Igreja a par da dignidade da vida humana e da justiça econômica. Torna também a Igreja Católica um dos principais porta-vozes da moralidade no combate ao aquecimento global e às consequências das alterações climáticas. Hans Joachim Schellnhuber, fundador e membro do Conselho Científico para as Alterações Climáticas alemão, que aconselhou o Vaticano na redação da encíclica, afirmou que a encíclica é irrefutável e deu os parabéns ao pontífice pela encíclica.
Com esta blogada não só escuso-me de meu julgamento precipitado, mas espero entusiasmar meus leitores a abeberar-se da LAUDATO SI’: Sobre o Cuidado da Casa Comum. 

domingo, 5 de julho de 2015

05.- NA LITERATURA...AS MULHERES (TAMBÉM) NÃO TÊM VEZ

ANO
 9
EDIÇÃO
 3057

Na semana que está terminando, por dever de ofício, li cerca de meia grosa (para quem já esqueceu: uma grosa = doze dúzia) de resenhas acerca do texto: A Ciência é masculina? É, sim senhora! produzidos por alunas e alunos de duas turmas da Licenciatura em Música do Centro Universitário Metodista do IPA. Este era um dos quatro textos que produziram na disciplina de Teorias do Desenvolvimento Humano, neste semestre.
Quase todos evidenciaram dois indicadores para justificar a hipótese, que depois de busca de explicações em nossos DNA se faz comprovoda: 1) a pesquisa do cientista estadunidense Michael Hart: “Quais os nomes mais significativos, em todos os tempos e em todas as geografias na história da humanidade? que apresenta como resposta uma lista de 100 nomes, dos quais apenas duas mulheres. 2) a contabilização da outorga dos Prêmios Nobel de Ciências em mais de um século, com menos de três por cento de mulheres laureadas em um universo de 575 premiados com os Nobel de Física, Química e Medicina ou Fisiologia.
Mesmo que conhecesse que desde 1901 já foram distribuídos 104 Prêmios Nobel de Literatura, dos quais apenas treze foram para mulheres, encontrei outro indicador significativo.
Em edição de junho do blogue de Nicola Griffith (Yorkshire, 1960; escritora, editora e ensaísta britânica de ficção científica) há informações significativas. Ela fez um levantamento dos livros de ficção premiados com os principais prêmios literários (Pulitzer, Man Booker Prize, National Book Award, National Book Critics, Hugo e Newbery), nos últimos 15 anos e chegou a conclusão de que — com exceção do Newbery, que se destina a premiar literatura infantil e juvenil — são mínimas as chances de um livro escrito por uma mulher e/ou com uma mulher como protagonista, ser premiado.
Em média, os livros premiados são, em sua maioria, escritos por homens com protagonistas homens. O predomínio masculino aumenta quanto mais prestigiado é o prêmio. Outro detalhe, quando mulheres são as vencedoras, seus livros, na maioria das vezes, têm homens, como protagonistas.
Em http://nicolagriffith.com/blog/page/2/ se pode encontrar gráficos de cada um dos prêmios e análises bem mais extensas das que eu trago. Ilustro com os dados de um dos prêmios mais prestigiados: o Pulitzer, nos últimos cinco anos. Agradeço a Carlos André Moreira, que fez o alerta em Zero Hora.
Confirma-se, uma vez mais, que não apenas a Ciência é masculina, mas a maior parte da produção humana, ainda, é masculina.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

01.- VENDE-SE EDUCAÇÃO

ANO
 9
EDIÇÃO
EXTRAORDINÁRIA
EDIÇÃO
 3056

O Brasil de fato pública hoje, dia 1º de julho de 2015, uma entrevista realizada por Luiz Felipe Albuquerque, com novo reitor da UFRJ, Roberto Leher. A importância da mesma leva este blogue a fazer uma edição extraordinária. Vale conhecermos os impactos da lógica mercantilizada sobre a educação brasileira e como o destacado educador brasileiro aponta que como grupos financeiros tentam dominar a educação pública.

“Grandes grupos econômicos estão ditando a formação de crianças e jovens brasileiros”


roberto-leher1.jpg

Por Luiz Felipe Albuquerque
Do Brasil de Fato


Um grande negócio. É assim que o novo reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, enxerga o novo momento da educação brasileira.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor titular da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ traça um panorama do atual estágio da educação no Brasil, e as conclusões não são nada animadoras.

Para Leher, que tomará posse nesta sexta-feira (3), os recentes processos de fusões entre grandes grupos educacionais, como Kroton e Anhanguera, e a criação de movimentos como o Todos pela Educação representam a síntese deste processo.

No primeiro caso, ocorre uma inversão de valores, em que o primordial não é mais a educação em si, mas a busca de lucros exorbitantes por meio de fundos de investimentos. No segundo, a defesa de um projeto de educação básica em que a classe dominante define forma e conteúdo do processo formativo de crianças e jovens brasileiros.

O movimento Todos Pela Educação é uma articulação entre grandes grupos econômicos como bancos (Itaú), empreiteiras, setores do agronegócio e da mineração (Vale) e os meios de comunicação que procuram ditar os rumos da educação no Brasil.

Para o professor, o movimento se organiza numa espécie de Partido da classe dominante, ao pensarem um projeto de educação para o país, organizarem frações de classe em torno desta proposta e criar estratégias de difusão de seu projeto para a sociedade.

“Os setores dominantes se organizaram para definiram como as crianças e jovens brasileiros serão formados. E fazem isso como uma política de classe, atuam como classe que tem objetivos claros, um projeto, concepções clara de formação, de modo a converter o conjunto das crianças e dos jovens em capital humano”, observa o professor.

Confira a entrevista:

Muitos setores denunciam a atual mercantilização da educação brasileira. O que está acontecendo neste setor?

De fato há mudanças no que diz respeito a mercantilização da educação, diferente do que acontecia até 2006 no Brasil. Os novos organizadores dessa mercantilização são organizações de natureza financeira, particularmente os chamados fundos de investimento.

Como o próprio nome diz, os fundos de investimentos são fundos constituído por vários investidores, grande parte estrangeiro, como fundos de pensão, trabalhadores da GM, bancos, etc, que apostam num determinado fundo, e esse fundo vai fazer negócios em diversos países.
  

Em geral, os fundos fazem fusões, como é o caso da Sadia e Perdigão no Brasil. Mas é o mesmo grupo que também adquiri faculdades e organizações educacionais com o objetivo de constituir monopólios.

Esse processo levou a Kroton e a Anhanguera - fundo Advent e Pátria - a constituírem, no Brasil, a maior empresa educacional do mundo, um conglomerado que hoje já possui mais de 1,2 milhão de estudantes, mais do que todas as universidades federais juntas.

O que muda com essa nova forma de mercantilização da educação?

O negócio do investidor não é propriamente a educação, é o fundo. Ele investiu no fundo e quer resposta do fundo, que cria mecanismos para que os lucros dos setores que eles estão fazendo as aquisições e fusões sejam lucros exorbitantes. É isso que valoriza o fundo.

A racionalidade com que é organizada as universidades sob controle dos fundos é uma racionalidade das finanças. São gestores de finanças, não são administrados educacionais. São operadores do mercado financeiro que estão controlando as organizações educacionais.

Toda parte educacional responde uma lógica dos grupos econômicos, e por isso eles fazem articulações com editoras, com softwares, hardwares, computadores, tablets; é um conglomerado que vai redefinindo a formação de milhões de jovens.

No caso do Brasil, cinco fundos têm atualmente cerca de 40% das matrículas da educação superior brasileira, e três fundos têm quase 60% da educação à distância no Brasil.

Quais os interesses dessas grandes corporações para além do econômico?

A principal iniciativa dos setores dominantes na educação básica brasileira é uma coalizão de grupos econômicos chamado Todos pela Educação, organizado pelo setor financeiro, agronegócio, mineral, meios de comunicação, que defendem um projeto de educação de classe, obviamente interpretando os anseios dos setores dominantes para o conjunto da sociedade brasileira.

Em outras palavras, os setores dominantes se organizaram para definiram como as crianças e jovens brasileiros serão formados. E fazem isso como uma política de classe, atuam como classe que tem objetivos claros, um projeto, concepções clara de formação, de modo a converter o conjunto das crianças e dos jovens em capital humano.

Em última instância, é com isso que eles estão preocupados: em como fazer com que a juventude seja educada na perspectiva de serem um fator da produção. Essa é a racionalidade geral, e isso tem várias mediações pedagógicas.

A aparência é de que estão preocupados com a alfabetização, com a escolarização, com o aprendizado, etc. E de fato estão, mas dentro dessa matriz de classe, no sentido de educar a juventude para o que seria esse novo espírito do capitalismo, de modo que não vislumbrem outra maneira de vida que não aquela em que serão mercadorias, apenas força de trabalho.

educação_mercadoria.jpg


De que maneira eles interferem nas políticas educacionais do Estado?

Como sociedade civil, os setores dominantes buscam interferir nas políticas de Estado. O Todos pela Educação conseguiu difundir a sua proposta educativa para o Estado, inicialmente por meio do Plano Nacional de Educação (PNE) - que aliás foi homenageado com o nome Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, em referência ao movimento. Com isso definiram em grandes linhas o que seria o PNE que está vigente.

Articulam por meio de leis, mas também da adesão de secretários municipais e estaduais às suas metas, aos seus objetivos. Articulam com o Estado, que cria programas, como o programa de ações articuladas, em que a prefeitura, quando apresenta um projeto para o desenvolvimento da educação municipal, tem que implicitamente aderir às metas do movimento Todos pela Educação.

Temos um complexo muito sofisticado que interage as frações burguesas dominantes, as políticas de Estado e os meios operativos do Estado para viabilizar esta agenda educacional.

Mas como se dá isso na prática?

Quando um município faz um programa de educação para a sua região, ele já deve estar organizado com base no princípio de que existe uma idade certa para educação, que os conteúdos não devem se referenciar nos conhecimentos, mas sim no que eles chamam de competências, que o professor não deve escapar deste currículo mínimo que eles estão desenvolvendo por meio de uma coerção da avaliação.

A escola que não consegue bons índices no Idep [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] é penalizada, desmoralizada, sai nos jornais, e isso cria um constrangimento que chega ao cotidiano da sala de aula, e as prefeituras pressionadas por esses índices acabam sucumbidos às fórmulas que o capital oferece. A mais importante delas é comprar sistemas de ensino, apostilas, que são fornecidos pelas próprias corporações.

O professor está em sala de aula, recebe apostilas, exames padronizadas que foram feitos pela corporação, e na prática, ao invés do professor desenvolver um papel intelectual, criador, ele tem que ser muito mais um aplicador das cartilhas, um entregador de conhecimento, e isso obviamente esvazia o papel do professor que tem consequências diretas com o processo de formação.

A formação esperada do educador não é uma formação enquanto intelectual, mas sim como alguém que sabe desenvolver técnicas para aplicar aquelas pacotes que as corporações preparam.

E há resistências a isso?

Existe um complexo de situações onde as resistências, as tensões são muito grandes, o que traz infelicidade aos professores e aos estudantes, mas tudo isso é muito difuso. As resistências acontecem na forma de lutas sindicais, quando fazem greve criticando a chamada “meritocracia”, os sistemas de avaliação.

Aparecem aqui e ali, mas é forçoso reconhecer que existe um complexo de controle sobre as escolas que restringem muito a margem de manobra dos trabalhadores da educação para desenvolverem um projeto pedagógico autônomo e crítico.

Essa situação é agravada quando a própria direção da escola, que deveria pensar como a escola se auto governa, vem sendo ressignificada como um papel de gestão. O diretor e os coordenadores são pensados como gestores na lógica de uma empresa, que deve cumprir metas, fiscalizar o cumprimento delas e tentar atingir essas metas de todas as formas.

Temos uma mudança de referências quando a própria equipe de coordenação da escola se torna uma equipe de gestores. No documento Pátria Educadora há uma possibilidade de punição dos professores que não cumprirem as metas.


mangabeira.jpg
 Ministro Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Mangabeira Unger.Por sinal, o Pátria Educadora é um dos programas carro chefe do governo federal. Como você avalia este documento?

Não casualmente, esse documento foi elaborado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), atualmente dirigido pelo ministro Mangabeira Unger. Ele parte de um diagnóstico de que o modelo de desenvolvimento baseado em commodities se esgotou com a crise mundial, com seus preços despencando depois daquele período de ouro entre 2004 e 2009.

Com a desvalorização dessas commodities, Mangabeira chama atenção para o fato de que o Brasil deveria buscar outra forma de inserção na economia mundial que não fosse apenas de commodities.

E a minha hipótese é que eles estão sinalizando nesse documento que o Brasil deveria ser uma espécie de plataforma de exportação, assim como já existe na fronteira norte do México, em alguns países asiáticos - o modelo chinês foi isso nos anos 90, de ser um local em que a força de trabalho é muito explorada, recebe um treinamento específico que permite uma exploração muito grande, e esses países entram em circuitos de produção industrial de maneira subalterna, explorando o que seriam sua vantagens comparativas: baixo custo de energia, da força de trabalho, baixa regulamentação ambiental, e isso daria vantagens competitivas novamente ao país.

O drama é que a concepção do Pátria Educadora tem como correspondência a ideia de que a formação da maior parte da força de trabalho no Brasil deve ser por um trabalho mais simples, e isso tem consequências pedagógicas muito grande.

Se é para formar para o trabalho simples, a maior parte das escolas podem ser instituições estruturadas para a formação de um trabalho de menor complexidade, que seria desdobrados em processos de formação técnica de cursos de curta duração, cujo exemplo mais conhecido é o Pronatec, em que grande parte dos cursos são aligeirados para a formação de uma força de trabalho simples - tanto aquela que já estará inserida no mercado quanto aquela que constitui o que podemos denominar de um exército industrial de reserva.

O documento Pátria Educadora altera a racionalidade da organização da escola quando vislumbra escolas que vão formar forças de trabalho de menor complexidade. É importante destacar que no documento encontramos uma formulação muito perigosa de enormes consequências para o futuro da educação brasileira, que é a referência que o Mangabeira faz da adoção de um modelo tipo SUS (Sistema Único de Saúde).

O que é isso?

O modelo SUS teve como objetivo assegurar o direito ao atendimento à saúde de maneira universal, e isso poderia ser feito tanto pelo órgãos públicos quanto pelas entidades privadas.

Quando Mangabeira reivindica o modelo SUS, claramente está sinalizando que a formação do conjunto da classe trabalhadora deveria ser feita em nome de uma suposta democratização, realizada tanto pelas instituições públicas quanto pelas organizações privadas.

Isso é congruente com o PNE aprovado em 2014, ao estabelecer que a verba pública é aquela utilizada nas instituições públicas, mas também em todas as parcerias público-privadas, como o FIES, PROUNI, Ciências Sem Fronteira, PRONATEC, Pronacampo, sistema S, tudo isso entra como recurso público.
  

A rigor, estamos diante de uma política que pode indiferenciar as instituições públicas e privadas em detrimento do público, já que as corporações também se acercam da educação básica.

Em setembro acontecerá o 2° Encontro Nacional dos Educadores e Educadoras da Reforma Agrária (Enera), em Brasília. Como o Enera se insere nesta conjuntura?

Tenho uma expectativa muito positiva em relação ao segundo Enera. No primeiro Enera tivemos a constituição de outra perspectiva pedagógica para a educação brasileira, que foi a Educação do Campo, uma conceituação do que seria uma educação pública voltada para o campo, mas com um horizonte de formação humana que ultrapassa o campo.

Foi certamente uma proposta que promoveu sínteses brilhantes entre uma perspectiva crítica que vem do campo marxista, da ideia da escola unitária, do trabalho, ao compreender que o trabalho deveria ser um elemento simbólico, imaginativo, capaz de nos constituir como seres humanos, e que portanto a escola é o lugar da cultura, da arte, da ciência, da tecnologia, e não uma instituição livresca. É uma instituição que tem interação com o mundo, com a vida, com os processos de trabalho, com a produção real da cultura em diversos espaços, como pensar no que significa a agricultura no Brasil.

Foi uma proposta pedagógica que promoveu sínteses incorporando pensamento critico marxista, tradição latino-americana de educação popular, particularmente com Paulo Freire, e criou bases para um pensamento pedagógico socialista.

O segundo Enera, a meu ver, está desafiado pela conjuntura a fazer um balanço do que foi essa mercantilização e de como o capital está tentando se apropriar do conjunto da educação básica.

Ao fazer essa reflexão, certamente o Enera vai ajudar a criar bases para uma perspectiva de educação pública unitária capaz de contrapor a educação frente à lógica de movimentos empresariais como o Todos pela Educação.

Pode haver incorporações de elementos novos na nossa reflexão sobre a pedagogia socialista que respondam desafios da ofensiva do capital, mas sobretudo respondam os anseios que estão pulsando em todo o país em torno da educação pública.

Como as últimas greves na educação?

Podemos problematizar a fragmentação das lutas pela educação, o fato de que muitas vezes são lutas econômicas e corporativas, que estão vinculadas as políticas municipais e estaduais, mas não tenho dúvidas de que essas lutas que estão pulsando no país estão enfrentando aspectos dessa pedagogia do capital, criticando a meritocracia, a racionalidade das competências e dos sistemas centralizados de avaliação, o uso de cartilhas.

Temos críticas reais a essa lógica de controle que o capital está buscando sobre a educação básica, mas precisamos sistematizar isso com outros fundamentos pedagógicos, e aprofundando a experiência que foi construída a partir do primeiro Enera.

No segundo Enera acredito que novas dimensões para essa pedagogia socialista vão ser esboçados, e não como o resultado de um processo em que os especialistas de educação do MST vão se reunir e pensar o que seria essa agenda.

Ao contrário, como resultado de uma articulação de movimentos que estão fazendo educação pública e estão buscando uma educação criativa, que estão fazendo as lutas de resistências com as greves, mobilizações, com a participação de estudantes.

Esta riqueza de produções que estão em circulação nas lutas em defesa da educação pública que podem criar uma sistematização maior. Creia condições para que possamos ampliar esta aliança entre experiências da luta urbana com as que vieram do campo, produzindo novas sínteses e novas possibilidades para que a classe trabalhadora tenha sua própria agenda para o futuro da educação pública.

É um processo longo e exigirá um esforço organizativo e intelectual de enorme envergadura. Temos que ter uma produção pedagógica mais sistematizadas, mais profunda, para criarmos a base desse pensamento pedagógico crítico, que assegure uma formação integral, mas uma educação que recusa a divisão dos seres humanos em dois grupos: um que pensa e mando, outro que executa e obedece.

01.- AGORA UM FELIZ 2015/2


ANO
 9
EDIÇÃO
 3055

Esta é uma edição ligeira para celebrar a chegada do 2015/2. Em tempos não muito distantes, quando período escolar era anual (não como agora semestral) este era o esperado mês das férias de julho. Agora temos uma ou duas semanas de recesso de aulas, mas bancas, avaliações e divulgação de resultados do primeiro semestre fazem dos julhos, meses exaustivos. Preferível houvesse aulas.
Depois de três semanas consecutivas de longas viagens, nesta fico por aqui. Também, tenho quase meia resma de avaliações e trabalhos a corrigir. Depois, uma nova chatice: colocar as notas no sistema. Mas chega de lamúrias, mesmo sem viagens, tenho nesta semana duas palestras.
Uma ocorreu na segunda-feira. Fiz a fala de encerramento do 1º semestre na Universidade do Adulto Maior, no projeto Segunda-feira cultural. Centrei minha fala no ‘crescendo’ na acepção emprestada da música. De gradativo aumento da intensidade sonora. Informação>conhecimento>saberes
Para informação trouxe como ícone o Google. Mostrei a presença do ‘Doutor Google’, do ‘Professor Google’, do ‘Pastor Google’, do ‘Advogado Google’ etc.
Para o conhecimento mostrei a importância da Wikipédia como o artefato cultural que melhor expressa a democratização do conhecimento. Lembrei as nossas enciclopédias suporte papel e o que significava possuí-las. A palestra de Jimmy Walles que assistira há uma semana me ajudou.
Os saberes foi o momento mais empolgante. Discutimos a historieta, que coloquei em livro: “Em um barco havia um homem com cerca de 30 anos, acompanhado de seu filho de 5 anos e de seu pai de 80 anos. O barco soçobrava. Só o jovem pai sabe nadar. Ele pode salvar um. Quem ele salva? O menino? O velho?” Esta historieta é trazida, na valorização da busca de saberes primevos para fazê-los saberes escolares. Ela traduz a valorização de saberes detidos por mais velhos, muitas vezes em risco de extinção. Para o grupo pode parecer natural que o jovem pai salvasse o menino. Afinal ele, diferente de seu avô, tem toda uma vida pela frente. Todavia, na cultura africana, onde esta historieta tem sua matriz, é natural que o velho fosse salvo, por um único argumento: ele é o detentor de saberes que são muito preciosos para toda a comunidade. Então, vivenciamos o mote da discussão: ‘Quando um velho morre é como uma biblioteca que queima’
Com esta palestra — a 29ª do semestre – encerrei as falas de 2015/1. Ainda um registro especial: No início desta fala, removi publicamente o logo da URI-Frederico Westphalen, que por quase quatro anos (desde novembro de 2011) estava junto com os logos do Centro Universitário Metodista do IPA e da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática nas aberturas de minhas apresentações. Expressei publicamente meus agradecimentos pelas oportunidades que tive na instituição.
Nesta quinta inauguro as palestras de 2015/2. Acima está o convite do Diretório Acadêmico de Química DAQ PUC Rio Grande do Sul. Será bom retornar a PUC, onde fui professor no início de minha história como docente universitário.
Encerro esta blogada com um registro postado no Facebook pelo professor amazonense Alberto Castro: Ótimo, foi no lançamento do livro A ciência através dos tempos que fiquei conhecendo o seu trabalho. Usei como paradidático no ensino de física. Meus alunos esperavam na porta e diziam, aí vem o Attico. Eu gostava tanto. Obrigado professor por aceitar minha amizade. Muito estimado colega Alberto. Quem agradece sou eu.