Havia pautado falar hoje acerca da Noite das fogueiras. Tenho evocações
desta noite da vigília da festa de São João. Há razões: minha infância e
juventude foi em Montenegro, cujo orago é São João Batista. Véspera de feriado,
kerb e fogueiras marcavam esta noite de 23 de junho. Mas evocações são
preteridas. Na madrugada de domingo uma notícia que nos entristeceu.
Morreu Rose
Marie Muraro — um dos nomes mais
significativos do movimento feminista no Brasil. Certamente foi uma das
escritoras mais importantes no meu aprendizado acerca das discriminações
impostas as mulheres e foi fonte de inspiração muito significativa quando escrevi
o livro A Ciência é masculina? É, sim senhora!
Ela faleceu neste sábado,
aos 83 anos, em consequência de problemas respiratórios. Há cerca de 10 anos era
vítima de câncer na medula óssea e, desde o dia 12 deste mês, estava na CTI do
Hospital São Lucas, em Copacabana. No dia 15, entrou em coma e acabou acometida
por uma infecção. Foto de Márcia Foletto /28-01-1992 em www.oglobo.com
Rose Marie aprendeu desde cedo a lutar
contra as dificuldades, físicas e sociais, com força. Nasceu praticamente cega,
e somente aos 66 anos conseguiu recuperar parcialmente a visão com uma
cirurgia. Estudou Física, foi escritora e editora de livros, assumindo a
responsabilidade por publicações polêmicas e contestadoras.
Em longa carreira como editora, Rose
Marie 1.600 livros na editora Vozes e, mais tarde, na Rosa dos Tempos (filiada
à editora Record). Recordo, particularmente, quando na década de 70, enquanto fui
livreiro em um uma atividade social, mais de uma vez a encontrei na filial da Editora
Vozes de Porto Alegre. Mais de uma vez, então, a ouvi encantado.
Ao longo da vida, escreveu 44 livros —
como "Os seis meses em que fui homem" (1993), "Por que nada
satisfaz as mulheres e os homens não as entendem" (2003) — que venderam
mais de 1 milhão de exemplares. Em 1999, ela contou sua história na
autobiografia "Memórias de uma mulher impossível".
Recordo, de maneira especial, de uma de
suas produções editoriais mais importante: Malleus maleficarum ou O martelo
das feiticeiras. Este livro foi durante quatro séculos o manual
oficial da caça
às bruxas. Foi o documento
que validou a decisão
de levar milhares
de homens e, muito
especialmente, mulheres
à tortura e a morte.
Trata-se de um texto
muito importante
para a busca
de um entendimento
da cultura ocidental,
especialmente quando
se avalizam genocídios - sob entre outros pretextos
de mulheres copularem com o demônio - quando já era florescente
o Renascimento e se formavam as nações
modernas. Então, se tornam dóceis e submissos os corpos
das mulheres quando
se iniciava a era industrial. Vale referir, que mesmo que Malleus
Maleficarum tenha sido escrito pelos inquisidores em
1484 e abençoado no mesmo ano em bula do Papa Inocêncio 8º, em
seu primeiro ano de pontificado,
no Brasil é editado nos anos 90. A Editora
Rosa dos Tempos
contemplou a edição brasileira
com uma cuidadosa introdução
histórica de Rose Marie Muraro.
O teólogo Leonardo Boff trabalhou ao
lado de Rose Marie entre os anos 1970 e 1984, na teologia da libertação na
editora Vozes, de onde foram afastados de seus cargos pelo Vaticano. Motivo: a
defesa da teologia da libertação, no caso de Boff e a publicação, por Rose, do
livro Por uma erótica cristã. Para
Boff, Rose Marie estabeleceu inovações analíticas "sem precedentes"
sobre o estudo da mulher. Parte significativa de seus estudos foram reunidos no
livro "Sexualidade da mulher brasileira: corpo e classe social no Brasil"
(1996), considerado um clássico.
“Ela introduziu a questão da classe
social no estudo de gênero, ela foi a primeira mulher a estudar de forma
sistemática a sexualidade da mulher brasileira a partir da situação ou classe
social — diz Boff. — Ela inaugurou esse discurso, nem Freud ou qualquer
analista europeu atingiram esse ponto. Tudo isso foi resultado de uma ampla e
minuciosa pesquisa de campo”.
Juntos, Rose Marie e Boff assinaram, em
2002, o livro "Masculino / Feminino", onde investigaram juntos a relação
entre os gêneros. Boff diz “A Rose elevou a questão do gênero a um novo
patamar, pois não considerava o masculino e o feminino como realidades que se
contrapõem, mas como instâncias fundamentais, onde cada um é completo em si,
mas voltado para o outro, numa relação de reciprocidade e construção conjunta.
E, meio ao lamentar a perda, foi bom, nesta
tarde de domingo, quando se realizava atos de despedida em cemitério no Rio de
Janeiro, manusear alguns livros de Rose Marie Muraro. Esta é uma sentida
homenagem a esta mulher excepcional. Obrigado, Rose Marie, foste importante
para muitos de nós.