TRADUÇAO / TRANSLATE / TRADUCCIÓN

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

05.- NA CIÊNCIA NÃO HÁ LUGAR PARA DONOS DA VERDADE



Ano 7***      M A N A U S       ***Edição 2256
Esta postagem ocorre desde Manaus, onde cheguei na tarde de ontem, por volta das 14h (hora local, 15h de Brasília). A viagem foi em duas etapas muito pontuais. Porto Alegre/Viracopos 1,5 hora e Viracopos/Manaus 3,5 horas. Numa e em outra reli duas dissertações.
Na segunda etapa, eram meus lindeiros, um grupo de uns oito cinquentões, que vieram a Manaus para aqui tomar um barco para praticar ‘pescaria’. Estavam mais excitados que piazada de 5º ano em dia de piquenique. Mais de uma vez cheguei a temer pelo meu notebook, tal o agito daquele que se dizia chefe da trupe e sentava a minha frente. É muito impressionante a falta de respeito na invasão do espaço dos outros e quanto o grupo potencializa imbecilidades individuais.
No aeroporto fui recepcionado pelo meu colega e amigo Eduardo Segura, que catalisou uma das minhas vindas no ano passado. Um dos assuntos de nossa conversação foi as repercussões de um trabalho que escrevemos juntos acerca de rupturas paradigmáticas e que ele apresentou em nosso nome, no mês passado, no 2º Simpósio de Ensino de Ciências na Amazônia.
Hoje à tarde, participo de duas defesas de dissertação: uma, de Ataiany dos Santos Veloso, que orientada pela Prof. Josefina Barrera Kalhil, apresenta a dissertação: “O processo de ensino-aprendizagem do conceito de energia na termoquímica e a relação com o cotidiano de alunos do 2º ano do ensino médio em uma escola pública de Manaus”; outra, de Carmen Lourdes Freitas dos Santos Jacaúna, orientanda do Prof. Augusto Fachín Terán, que apresenta a dissertação: “A água como elemento motivador na alfabetização ecológica dos alunos do 5º ano do ensino fundamental”
 À noite participo da inauguração do I FÓRUM DE EDUCAÇÃO, DIVULGAÇÃO E DIFUSÃO EM CIÊNCIAS NO AMAZONAS no Bosque da Ciência/Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas INPA [www.forumraddici.com/].
Com a trazida da terceira parte da entrevista de Marcelo Gleiser se encerram quatro edições consecutivas acerca do binômio ‘Religião e Ciência”. Estas reflexões foram catalisadas pela realização do 13º Simpósio Internacional IHU – Igreja, Cultura, Sociedade (A Semântica do Mistério da Igreja no Contexto das Novas Gramáticas da Civilização Tecnocientífica), que concluí hoje na Unisinos em São Leopoldo.
ZH – Como o senhor vê a situação da pesquisa científica no mundo contemporâneo?
Gleiser – A pesquisa científica é um dos maiores motivos de orgulho que a humanidade tem. Isso sempre foi verdade, desde que a ciência moderna começou, há 400 anos, e continua sendo. O discurso pós-moderno, da subjetividade, de que não existem verdades, tem de ser tomado com muito cuidado. É claro que a ciência está sempre avançando. Conceitos científicos são renovados e reformados, e é justamente essa a beleza da ciência, de estar sempre se reinventando a partir de uma compreensão cada vez maior do mundo. Por isso, qualquer cientista que se diz dono de uma verdade deve ser olhado com suspeita. O que era verdade há 200 anos certamente não é mais hoje, e o que é verdade hoje não vai ser daqui a 200 anos. Por outro lado, basta olhar em volta para nos vermos falando ao telefone, no computador, tecnologias digitais, sondas em Marte e curas de doenças. Isso mostra que a ciência é um bem profundo. Também tem um lado mau, mas aí é outra conversa. Há várias áreas novas na ciência, como a astrobiologia, que estuda a possibilidade de vida fora da Terra, as ciências neurocognitivas, que estão aprendendo cada vez mais como funciona o cérebro, a engenharia genética, que está redefinindo o que sabemos sobre como a vida funciona e como a gente pode criar outras formas de vida no laboratório, e a própria nanotecnologia, que estuda a física dos objetos muito pequenos. Achar que o discurso científico está falido é fechar os olhos para o mundo em que estamos vivendo.
ZH – O que seria o lado mau da ciência e o que seria possível fazer para, se não anulá-lo, pelo menos controlá-lo?
Gleiser – O lado mau não vem da ciência, mas do caráter humano. Quando se fala do bem ou mal da ciência ou de a ciência ter feito mal à humanidade, é preciso lembrar que a ciência não fez bem nem mal. A ciência é um corpo de conhecimento que descreve como funciona a natureza. A escolha moral de como vamos usar esse conhecimento vem dos homens. São as pessoas que fazem escolhas e podem usar a radiação nuclear tanto para curar um câncer quanto para construir bombas. Esse lado de sombra ou luz da ciência é do ser humano, que também usa a religião para o bem ou para o mal. Essa escolha tem a ver mais com a natureza do ser humano do que com a da ciência. O que a comunidade científica pode fazer é tentar trazer esse discurso das implicações éticas e morais da ciência para a sociedade. E acho que isso acontece. Existe uma mobilização das comunidades científicas no Brasil e no mundo para que sejam debatidos os usos e abusos da ciência. E, de uma certa forma, isso está acontecendo. As guerras químicas e biológicas estão proibidas. O controle do armamento nuclear envolve uma porção de cientistas e tem algum sucesso. Pelo menos não temos nenhuma guerra nuclear desde 1945.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

04.- PARA SER BOM NÃO SE EXIGE A PRÁTICA RELIGIOSA



Ano 7*** WWW.PROFESSORCHASSOT.PRO.BR ***Edição 2255
Esta manhã viajo a Manaus. É a quarta vez em 12 meses. Minha agenda, entre outras atividades, marca amanhã duas defesas no Mestrado Acadêmico em Educação em Ciências na Amazônia da Universidade do Estado do Amazonas e no sábado — o móvel de minha viagem — tenho uma palestra no I FÓRUM DE EDUCAÇÃO, DIVULGAÇÃO E DIFUSÃO EM CIÊNCIAS NO AMAZONAS no Bosque da Ciência/Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas INPA. [www.forumraddici.com/]
Posto este preâmbulo retomo a proposta iniciada ontem: a trazida da segunda de três partes da entrevista de Marcelo Gleiser, ao ensejo da realização do 13º Simpósio Internacional IHU – Igreja, Cultura, Sociedade (A Semântica do Mistério da Igreja no Contexto das Novas Gramáticas da Civilização Tecnocientífica), que ocorre esta semana na Unisinos em São Leopoldo.
ZH – Muitos religiosos, porém, se dizem portadores de uma espécie de ética suprema.
Gleiser – Basear qualquer tipo de ética ou de moral na religião é extremamente obscurantista. Uma das críticas ao ateísmo, que considero infeliz, é achar que só quem é religioso é moral. Você pode ser uma pessoa perfeitamente moral, ética, correta, respeitosa da vida e dos que estão a seu lado sem ter que acreditar em Deus. Usar a religião como uma justificação moral superior não faz o menor sentido. Todo ser humano, religioso ou não, deveria aceitar como preceito fundamental o respeito ao próximo e à vida, e isso não depende de acreditar ou não em Deus. Qualquer tipo de argumento calcado no discurso religioso como sendo superior a uma ética perfeitamente humana e social, para mim, não faz o menor sentido.
ZH – Como deveria ser fundamentada a convivência entre fé e ciência?
Gleiser – As fronteiras têm de ser respeitadas. O problema se inicia quando a religião começa a se meter no processo científico. Quando conselhos educacionais resolvem que não se pode mais ensinar a teoria da evolução de Darwin porque não é religiosa ou quando o Estado, controlado por interesses religiosos, decide interferir nos fundos de pesquisa científica básica porque afetam algum princípio religioso. Quando a religião interfere em algum aspecto do conhecimento, ela está andando para trás e não fazendo o papel importante que pode fazer na vida das pessoas. Por outro lado, quando a ciência faz pronunciamentos grandiosos do tipo “Deus não é mais necessário porque já entendemos tudo sobre o universo”, está abusando do que realmente sabe para fazer uma propaganda indevida. Essa coexistência tem de ser de respeito mútuo. Os cientistas têm de entender que existem 4 bilhões de pessoas no mundo que acreditam em alguma forma de Deus. A ciência não tem como papel tirar Deus de ninguém, e sim explicar como o mundo funciona e talvez minorar um pouco o sofrimento humano. Nesse quadro, as coisas poderiam funcionar bem. Isso prescinde uma separação da Igreja e do Estado, obviamente. A minha cruzada é mostrar que é uma perda de tempo os cientistas acharem que vão convencer as pessoas de que elas não precisam de religião. A religião atua em esferas além da ciência. Se morre alguém querido para você, você vai buscar consolo na sua família, no seu padre, no seu rabino ou seja lá em quem for. A religião oferece um sentido de comunidade, de pertencer, que é um grande antídoto contra a solidão humana. Nesse sentido, ela é extremamente importante. O que atrapalha, no discurso religioso, é a fé em entidades sobrenaturais, que eu acho desnecessária. Mas, certamente, a fé religiosa tem um papel importante na história e na cultura humana. Negar isso é não entender a história e a filosofia.
ZH – O que são entidades sobrenaturais?
Gleiser – Qualquer entidade que viole certas leis fundamentais da natureza. Qualquer entidade que esteja além do espaço e do tempo, que seja onipresente e onisciente, eterna, sem extensão física ou temporal, para mim, é uma entidade sobrenatural.
ZH – Essa não é uma descrição de Deus?
Gleiser – Esse é um Deus. Existem, em mitologias espalhadas pelo planeta, outros deuses que também são eternos e existem além do espaço e do tempo. No Brasil e no mundo ocidental, a gente tem um pouco de miopia em relação a isso. Quase metade da população mundial que acredita em alguma coisa crê em deuses completamente diferentes desse Deus judaico-cristão-muçulmano. Mesmo no Brasil, as comunidades nativas não acreditam nesse Deus, a não ser por terem sido forçadas durante anos de evangelismo. Entidades sobrenaturais incluiriam qualquer coisa além de como entendemos que a matéria se relaciona com as leis da natureza. Inclui deuses, fadas, fantasmas, alma e todas as coisas que têm uma existência de como a matéria se autossustenta por meio das interações fundamentais.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

3.- NÃO É PAPEL DA CIÊNCIA ELIMINAR DEUS


Ano 7*** WWW.PROFESSORCHASSOT.PRO.BR ***Edição 2254
Como anunciei ontem, hoje e também amanhã e sexta-feira, pretende ser central aqui a trazida de alguns excertos da entrevista concedida à Zero Hora pelo físico brasileiro Marcelo Gleiser que está na Universidade Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) como conferencista principal do 13º Simpósio Internacional IHU – Igreja, Cultura, Sociedade (A Semântica do Mistério da Igreja no Contexto das Novas Gramáticas da Civilização Tecnocientífica), iniciado ontem em São Leopoldo.
O fracionamento da entrevista decorre de sua extensão. Agora as primeiras três perguntas.
Zero Hora – Quando se discute a relação entre ciência e religião no universo acadêmico, o polo religioso é sempre o mais frágil. Nos últimos 50 anos, porém, a posição da ciência tem sido muito questionada. Como o senhor vê hoje a posição da ciência diante da religião?

Marcelo Gleiser –
 Não existe uma posição da ciência em relação à religião. Existem posições de cientistas em relação à religião, e essas posições são muito diferenciadas. Num extremo, você tem os novos ateístas, como Richard Dawkins, Daniel Dennett e outros, que acham que ser religioso é ser louco ou estar completamente iludido em relação ao real. Eles fazem um ataque bastante agressivo em relação à fé. No outro extremo, você tem cientistas que são perfeitamente religiosos e veem em seu esforço científico uma aproximação com Deus, se forem judeus, cristãos ou muçulmanos, ou com uma espiritualidade que pode ser budista, hinduísta etc. Para eles, quanto mais aprendem sobre o universo e a natureza, mais se aproximam de Deus. Entre essas duas posições extremas, você tem uma porção de outras posições. No meu caso, vejo essa cruzada antirreligiosa que certos cientistas estão fazendo como uma completa perda de tempo, que não vai levar a nada e ignora o papel essencial que a religião tem na sociedade e em nossa cultura. As pessoas sabem muito pouco sobre história, filosofia e menos ainda sobre o espírito humano para entender o quanto a fé é importante na vida das pessoas. É muita presunção de certos cientistas achar que a ciência pode, dentro da posição dela, acabar com o papel da religião na vida das pessoas. Isso é um absurdo, por vários motivos. Entre eles, e é algo que vai ser assunto do meu próximo livro e vou abordar na minha conferência, o fato de que a ciência também tem limitações na sua concepção e no seu funcionamento.
ZH – Quais seriam essas limitações?
Gleiser – Certos cientistas que escrevem para o público, como Stephen Hawking, Bryan Greene e outros, ficam tão empolgados com certas ideias científicas que esquecem de onde elas vêm e quais são seus limites filosóficos e metafísicos. Existe muita distorção sobre o que a ciência pode fazer e já fez quanto à explicação de questões fundamentais, também tocadas pela religião, como a origem do universo, da vida e da mente. Dizer que a ciência entende a origem do universo é uma grande bobagem. A ciência tem teorias que explicam uma porção de coisas maravilhosas sobre o universo, e todos devemos ter muito orgulho delas. Mas a gente ainda não entende a origem do universo, e eu, particularmente, nem sei se a gente conseguiria, dentro do processo científico, entender.
ZH – Os EUA, onde o senhor está radicado, assistem à tentativa de interferência de setores religiosos na pesquisa e no ensino de matérias científicas. Como vê esse fenômeno?
Gleiser – Aqui, essa questão, infelizmente, é muito politizada, e não deveria ser. Principalmente durante o governo George W. Bush, quando a direita religiosa foi ao poder, houve várias medidas que interferiam na liberdade de pesquisa científica. Isso causou indignação na maior parte da comunidade acadêmica, que não aceita interferência religiosa na pesquisa científica. Proibir pesquisa com células-tronco porque estão sendo extraídas de fetos é algo inaceitável. Quando isso acontece, parece que estamos voltando ao início do século 17, quando a Igreja foi atrás de Galileu. Por outro lado, é óbvio que a pesquisa científica sempre tem um aspecto moral que não podemos deixar de lado. Temos de pensar sobre as implicações sociais, culturais e morais da pesquisa científica, e isso é verdade tanto no mundo da engenharia nuclear quanto no da engenharia genética. A questão da clonagem de humanos, que é extremamente complexa, desperta contrariedade na maioria absoluta da comunidade científica. Não existe nenhum uso médico disso. Se você quer ter filhos, há outros procedimentos e você não vai querer ter um filho que tenha o código genético igual ao seu. Dizer que a pesquisa com células-tronco interfere na vida dos fetos é uma besteira porque muitos dos embriões utilizados em clínicas de fertilização in vitro são descartados depois de algum tempo, e junto com esses embriões vão as células-tronco que poderiam ter sido usadas e não o foram. Ninguém está tirando a vida de ninguém. Além disso, hoje em dia há outros modos de obter células-tronco que não recorrem a embriões. Você tem de acoplar sempre a discussão sobre a implicação moral da pesquisa de ponta dentro do quadro político e social, e também como uma questão de ética científica. O cientista não é imune a essas questões éticas, muito pelo contrário – ele e ela devem refletir sobre a implicação ética do que estão fazendo. Por outro lado, o Estado também tem de tomar muito cuidado se for interferir no processo de descoberta e de pesquisa e científica a partir de uma moral que é calcada em religiões antiquadas.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

02.- A IGREJA NA ERA DA TECNOCIÊNCIA



Ano 7*** WWW.PROFESSORCHASSOT.PRO.BR ***Edição 2253
Esta edição abre com um registro lutuoso: o renomado historiador britânico de esquerda Eric Hobsbawm, cuja obra influenciou estudantes e políticos por toda a Europa e em outras partes do mundo, morreu em um hospital de Londres nesta segunda-feira, aos 95 anos.
Hobsbawm recebeu a consagração da crítica com uma obra de quatro volumes sobre a Europa nos séculos 19 e 20, que foi traduzida para 40 línguas. Suas memórias, que foram best-seller, elencaram os momentos cruciais na história europeia moderna nos quais ele viveu.
Hobsbawm nasceu em uma família judia em Alexandria, Egito, no ano da Revolução Russa, em 1917, e cresceu em Viena e Berlim, antes de mudar-se para Londres durante a adolescência, em 1933, enquanto Hitler ascendia ao poder na Alemanha.
Talvez ele seja o historiador que mais tenha influído em minha formação e lembro quando emocionado, assisti uma fala sua, na década de 90 em Porto Alegre. A notícia me fez triste e com uma homenagem a quem se perpetua entre nós com suas obras abri minha fala na UAM, ontem.
A partir de hoje (dia 2) até sexta-feira (5), será realizado na Universidade Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) o 13º Simpósio Internacional IHU – Igreja, Cultura, Sociedade (A Semântica do Mistério da Igreja no Contexto das Novas Gramáticas da Civilização Tecnocientífica). O simpósio tem como pano de fundo o reconhecimento de que as transformações decorrentes da grande revolução que se processa no campo da ciência e da técnica têm um impacto tão profundo na cultura e na sociedade que caracterizam nossa época como uma civilização tecnocientífica.
Um dos palestrantes do evento será o brasileiro Marcelo Gleiser assume a delicada tarefa de estender pontes entre os dois lados. Graduado em física pela PUC do Rio e doutorado em física teórica pelo King’s College, de Londres, esse carioca de 53 anos acredita que o entendimento entre as partes é o caminho natural. “Ciência e fé devem coexistir” resume.
Radicado nos Estados Unidos — desde 1991 é professor do Dartmouth College, uma das mais renomadas universidades estadunidenses —, onde o fundamentalismo cristão desempenha um papel político de primeira grandeza, Gleiser sabe que nem sempre é possível evitar choques. Ele se opõe com vigor às tentativas de setores religiosos de definir a agenda científica. Discorda, porém, daqueles que, do alto das cátedras e dos fundos públicos e privados de financiamento à pesquisa, pretendem vingar Adão e expulsar o Criador do Paraíso do conhecimento.
Gleiser concedeu entrevista a Zero Hora sobre os temas a serem debatidos. Amanhã, quinta e sexta-feira este blogue apresentará excertos de significativas discussões trazidas pelo renomado cientista.
Antes, porém vale ouvir, acerca do evento Cleusa Maria Andreatta, Coordenadora do Programa Teologia Pública do Instituto Humanitas Unisinos:
Em diversas áreas de conhecimento, como também em diferentes âmbitos da organização de nossa vida em sociedade, cada vez mais se reconhece que a tecnociência vem reconfigurando as condições de possibilidade de nosso viver em sociedade de tal forma que pode ser um problema central de nosso tempo. Essa revolução profunda e silenciosa vem transformando, num nível de radicalidade até hoje aparentemente desconhecido na história, as intenções, as atitudes e os padrões de conduta que tornaram possível historicamente o surgimento da cultura humana e, portanto, das razões que asseguram a viabilidade das sociedades e do próprio predicado da socialidade.
Esse contexto sociocultural vem transformando, profunda e radicalmente, não só a ideia de Deus na cultura contemporânea como também põe em questão as condições, as possibilidades e a relevância de todo discurso teológico na sociedade em que vivemos na forma como tem se desenvolvido até o presente momento.
Essa reconfiguração dos horizontes de sentido da vida humana na contemporaneidade coloca em questão a capacidade da Igreja ser escutada e fazer-se entender na sua interlocução com a cultura contemporânea, bem como a atualidade, o significado e a pertinência dos seus discursos, linguagens, signos e símbolos teológico-religiosos diante do contexto cultural que marca a sociedade atual.
Destaca-se, nesse sentido, o desafio de analisar criticamente a semântica que ajudaria hoje a instituição eclesial a dialogar com as mulheres e os homens da sociedade contemporânea, no ambiente cultural por ela formado. Assim, o simpósio reunirá cientistas, teólogos e pesquisadores de diferentes áreas com o objetivo de debater em perspectiva transdisciplinar a semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da tecnociência, desenhando possibilidades e perspectivas de interlocução com a nova cultura.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

01.- NÃO À GUERRA SANTA!



Ano 7***   WWW.PROFESSORCHASSOT.PRO.BR ***Edição 2252
Inauguramos outubro e com ele o último trimestre do ano. É um mês usualmente movimentado; teremos eleições e feriado. Tenho uma agenda densa. Há uma semana na qual tenho falas em eventos em três cidades diferentes.
Abro minhas atividade extra-rotina de outubro esta tarde com uma fala na UAM — Universidade do Adulto Maior do Centro Universitário Metodista do IPA, onde há um tempo tinha titularidade. Hoje atendo a convite de meu colega Norberto Garin.
A UAM enseja comprovar que ter amigos para compartilhar alegrias e tristezas faz muitíssimo bem à saúde. Estudos evidenciam se manter sozinho é tão prejudicial à saúde quanto fumar, beber e ser sedentária. Enquanto isso, ter uma vida rodeada de boas companhias ajuda a viver mais.
Tal conclusão se deve ao fato dos amigos auxiliarem uns aos outros a lidarem com o estresse, além de incentivarem de forma mais eficiente o companheiro a ter atitudes mais saudáveis. A UAM é uma excelente alternativa onde grassa o companheirismo.
Como segundas-feiras o assunto sabe a resultados de futebol, que para os gremistas tem um sabor amargo, trago um assunto de hoje é correlato. Há que olhar o que ocorre em outras geografias.
A capa da edição deste mês da revista Placar fala que Neymar vem sendo "crucificado" pelas acusações de que o atleta vem utilizando o recurso de simular faltas para tentar induzir a arbitragem a errar durante as partidas. Parece que ontem na partida contra o Grêmio o feitiço virou contra o feiticeiro.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou na tarde desta sexta-feira (28) uma nota em que manifesta indignação contra a capa da edição de outubro da revista Placar na qual se vê uma montagem com a imagem de Jesus Cristo crucificado tendo o rosto do atacante do Santos e da seleção brasileira, Neymar.
Em trecho de nota, o cardeal-presidente da CNBB afirma que reconhece a liberdade de expressão como princípio democrático, mas questiona a falta de limites no exercício profissional no caso.
"A ridicularização da fé e o desdém pelo sentimento religioso do povo por meio do uso desrespeitoso da imagem da pessoa de Jesus Cristo sugerem a manipulação e instrumentalização de um recurso editorial com mera finalidade comercial", afirma a nota.
Há que concordar com a CNBB, pois a revista foi, no mínimo, insensível ao recente quadro mundial de deplorável violência causado por uso inadequado de figuras religiosas, prestando, assim, um grave desserviço à consolidação da convivência respeitosa entre grupos de diferentes crenças.
A revista pediu desculpas a quem se se sentiu ofendido pela imagem da capa e explicou que em nenhum momento foi intenção da revista ferir a religiosidade de ninguém.
A nota da revista parece não convencer quando diz: “Respeitamos todas as crenças e defendemos a liberdade de praticá-las. Mas estamos falando exclusivamente de futebol. Vale esclarecer que a analogia da fotomontagem é com a crucificação como método de execução pública praticado antigamente. Como mostra a reportagem, Neymar vem sendo “apedrejado” publicamente com a pecha de “cai-cai”.
O maior jogador brasileiro, ícone da arte no esporte, virou, para muitos, o símbolo da dissimulação, da tentativa de burlar as regras do jogo. Ele cometeu e comete suas falhas, mas ficou com uma imagem de “criminoso esportivo”. Quando a reportagem estava sendo produzida, surgiu a palavra “crucificação”, usada corriqueiramente hoje em dia, e daí veio a imagem da condenação e da crucificação.”
A fotomontagem usa de forma explícita a imagem de Jesus Cristo crucificado, mesmo que o diretor da publicação tenha se pronunciado negando esse fato tão evidente, e isso se constitui numa clara falta de respeito que ofende o que existe de mais sagrado pelos cristãos e atualiza, de maneira perigosa, o já conhecido recurso de atrair a atenção por meio da provocação.