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terça-feira, 9 de agosto de 2011

09.- O YouTube matou o passado

Ano 6

PORTO ALEGRE

Edição 1832

Primeiro, uma auspiciosa notícia da chuvosa segunda-feira: com quatro dias + oito horas de atraso, a mala chegou. Parece ter sido decisivo, termos postado no Facebook da British Airwais, um protesto. Antes mais de uma dezena de correios eletrônicos, telefonemas etc. não surtiram resultados. Feita a publicação, imediatamente veio uma mensagem que a mala fora localizada. É verdade que se seguiram ainda vários percalços.

Mais uma terça-feira de estreias. A de ontem na Universidade do Adulto Maior foi saborosa. Esta noite tenho o primeiro encontro com dois grupos de quatro licenciaturas para a disciplina de Conhecimento, Linguagem e Ação Comunicativa. Das 19h10min às 20h50min um grupo de alunos de Música e Pedagogia e das 21h10min às 22h50min com os cursos de Biologia e Educação Física. Vivo expectativas.

Álvaro Pereira Júnior publicou no último sábado, na contracapa da Ilustrada da Folha de S. PauloO YouTube matou o passado” onde mostra que são evidentes os pontos positivos de tanta informação. Mas, na sua avaliação, talvez haja um lado perverso pois parece deixa de existir o passado.

Se as premissas estão muito bem postas, parece que há certo exagero no que é colocado como ‘destruição do passado. Ofereço, com votos de uma muito boa terça-feira, o texto deixando ao leitor seu posicionamento acerca de minha assertiva.

Jovens de 14, 15 anos têm Renato Russo como ídolo. O líder da Legião Urbana morreu em 1996, mas os fãs de hoje talvez nem saibam, ou não se importem.
Porque Russo está vivo na internet, mais precisamente nos 27,8 mil vídeos que são obtidos ao se digitar "Renato Russo" ou "Legião Urbana" no campo de buscas do YouTube.
Estão lá as coreografias espasmódicas, como as de Ian Curtis (do Joy Division). O visual florido igual ao de Morrissey (dos Smiths). O mico no especial de Natal do Chacrinha, com a banda toda de chapeuzinho de Papai Noel. As letras sem fim, simplórias, mas sinceras. Renato Russo, vivo em voz e rosto. E essa perenidade on-line não é exclusividade dele. É geral.
O YouTube matou o passado. Além de exterminar mistérios e mitos.
Os Beatles fizeram um show em cima de um prédio, em 1969. Loucura! Soava como lenda para a meninada do meu tempo. Esse tipo de sentimento acabou. As lendas juvenis se tornaram realidade palpável. Basta procurar na web por "Beatles rooftop concert". Show na íntegra, em alta definição.
Os Sex Pistols falando palavrões na TV inglesa, em 1976, num dos momentos mais marcantes da história do rock? A cena está na web. David Byrne em 1983, tenso, mordendo os lábios, incapaz de se comunicar com o apresentador David Letterman? Está on-line também. No século passado, um amigo dizia: "Das minhas dez bandas favoritas, nove eu nunca escutei". Explicando: só conhecíamos aqueles grupos no papel, em revistas e em jornais importados.
Fotos espetaculares, nomes impossivelmente sonoros: Alien Sex Fiend, Sex Gang Children, June Brides, Inca Babies. Que som faziam? Não tínhamos ideia, exceto uma vaga noção de que deveria ser "dark" (o que atualmente é chamado de gótico). Hoje, essa paixão misteriosa seria impensável. Haveria dezenas de clipes na rede. E os exemplos não ficam só na música. Na ciência, poucos encontros foram mais importantes do que a conferência Solvay, de 1927. Meses antes, rejeitando a física probabilística, Albert Einstein sentenciara: "Deus não joga dados".
Junto a ele, no congresso, debatiam intensamente Niels Bohr, Werner Heisenberg, Paul Dirac, Erwin Schrödinger, Wolfgang Pauli, Max Born e outros físicos estelares.
Um encontro monumental. Difícil acreditar que tivesse mesmo acontecido. Mas veja e creia: no YouTube, é "Solvay Physics Conference 1927". O vídeo foi visto quase 115 mil vezes. Antes disso, deve ter mofado por anos, esquecido em algum arquivo de universidade. Era passado. Virou presente.
Na política, acontece algo semelhante. Em 1960, Richard Nixon foi massacrado por John Kennedy em um debate presidencial. O velho escroque republicano, inseguro, suarento e mal vestido, viu desaparecerem suas últimas chances de vitória diante do democrata bonitão e bem ensaiado.
Cresci lendo sobre esse debate, que Paulo Francis citava com frequência aqui mesmo na Folha. Passei anos imaginando como teria sido. Hoje, não seria necessário. O programa está na íntegra no YouTube ("Kennedy-Nixon debate").
São evidentes os pontos positivos de tanta informação disponível. O rigor da comprovação factual. A fartura de fontes primárias. A falta de necessidade de intermediários ou epígonos: os originais estão todos à mão. Mas talvez haja um lado perverso desse "continuum". Onde não há passado, não há ruptura. Se tudo está vivo, nada pode ser superado.
Um exemplo cristalino vem, de novo, da música. Na segunda metade dos anos 70, o punk inglês queria (e conseguiu) enterrar os dinossauros do rock grandioso e autoindulgente. Foi uma revolução, uma quebra de paradigma. A instalação de uma nova ordem (infelizmente, apenas musical).
Hoje, no entanto, é difícil pensar em um fenômeno do tipo. Nada vai embora de verdade. O leitor de estômago mais forte pode procurar no YouTube por "Emerson Lake Palmer Gnome" e rapidamente verá o trio progressivo assassinar a suíte para piano "Quadros de uma Exposição", do compositor clássico Modest Mussorgsky.
No YouTube, Emerson, Lake and Palmer estão tão vivos quanto os Sex Pistols. O que talvez explique a situação da música atual, onde tudo é válido, manso, todos se amam e não se enxerga conflito geracional. Tema para uma próxima coluna.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

08.- Um século 21 doloroso


Ano 6

PORTO ALEGRE

Edição 1831

Em função de minha viagem estou rigorosamente começando hoje o meu 2011/2 letivo. A tarde ocorre a abertura das aulas da Universidade do Adulto Maior, onde pelo 4º semestre tenho a disciplina ‘Enfoque Histórico e Sócio Antropológico’. Já referi aqui, muitas vezes o quanto me gratifica esta atividade.

Ainda à tarde participo da defesa de doutorado de Patrícia dos Santos Nunes Em busca do “tesouro”: inserção profissional e inclusão digital nas trajetórias de egressos/integralizados de um curso de Técnico em Informática – PROEJA”, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisinos, em São Leopoldo. Meu parecer será enviado por escrito, pois não houve conciliação de agendas. Lamento, pois gostaria de estar presente: a Patrícia foi minha orientada de mestrado e estabelecemos laços significativos. Em seus agradecimentos na tese refere-me como ‘meu eterno orientador’.

Mas, esta segunda-feira tem uma marca dramática. Li num jornal de sábado – por casualidade no dia que se recordava 66 anos do bombardeio de Hiroshima; amanhã é a data do bombardeio de Nagasaki, no mesmo ano de 1945 – uma notícia que também vergonhosa. Se duas guerras mundiais são marcas trágicas do século 20, este 21 é – uma vez mais – enlutado pela fome. Eis a tragédia trazida pela Associated Press:

Kaltum Mohamed está sentada ao lado de um montículo de terra. O montinho é o túmulo de seu filho. E há três outros iguais.Três semanas atrás, ela era mãe de cinco crianças pequenas. Mas a fome generalizada que devasta a Somália matou quatro de seus filhos.

Sobrou apenas uma filha. Os outros morreram de fome diante dos olhos de Kaltum e seu

marido, enquanto eles caminhavam até a capital somali, Mogadício, em busca de ajuda.
Milhares de pais na Somália e nos campos de refugiados de países vizinhos estão chorando seus filhos mortos.

Kaltum Mohamed e seu marido tentaram levar seus filhos do sul esturricado do país para Mogadício, em tempo para receber ajuda emergencial das poucas organizações humanitárias que estão operando ali.

Eles iniciaram sua jornada na região de Baixa Shabelle, onde a ONU declarou situação de fome generalizada no dia 20 de julho.

A equipe da AP Television News encontrou Kaltum depois daquele dia aninhando seus filhos gravemente desnutridos em seus braços. A família de Kaltum pertence a uma tribo de nômades pastoris, mas todo o gado da tribo morreu na seca.

Quando seus filhos adoeceram, ela os levou a um hospital de Baixa Shabelle, mas não teve como pagar o tratamento de que precisavam. A maior parte da ajuda humanitária não está chegando ao sul do país. Um grupo aliado à Al Qaeda, o Al Shabab, controla boa parte do sul da Somália e insiste que não há fome generalizada.

A viagem da família Mohamed até Mogadício, a mesma que vem sendo feita por milhares de outros somalis, aconteceu tarde demais. Os filhos de Kaltum morreram no caminho, de desnutrição aguda e problemas relacionados.

"A morte é inevitável", disse Kaltum à AP Television News ontem em um acampamento improvisado de Mogadício, onde estão centenas de outras pessoas deslocadas.
"Mas a surpresa foi como eu de repente perdi quatro de meus filhos em menos de 24 horas, por causa da fome." Kaltum se agachou perto de um dos túmulos dos filhos e alisou com ternura a terra que o cobria. A mãe chorou e depois enxugou as lágrimas. Ela ainda tem uma filha que precisa tentar alimentar.

O mês sagrado muçulmano do Ramadã já começou, e a família está jejuando todos os dias. Sem comida, porém, Kaltum não sabe como eles poderão quebrar o jejum quando o sol se põe. "A comunidade internacional precisa fazer mais para ajudar", disse ela.

Este Planeta Terra que se gaba tão espetacular e tão poderoso: chega enviar naves a outros pontos do sistema solar, todavia, estima-se que 29 mil crianças com menos de cinco anos morreram de fome na Somália nos últimos três meses (média de 10 mil por mês). Haveria, segundo a ONU, 640 mil crianças desnutridas no país. As estatísticas dão a dimensão da tragédia, ao mesmo tempo em que a desumanizam. Seriam 10 milhões de pessoas passando fome, literalmente e em graus variados, em função da pior seca em décadas na região onde estão Etiópia, Quênia, Djibuti e Somália, o mais atingido.

Que a segunda-feira seja boa, mas vale lembrar que a Somália é na nossa Terra. E mais, não é uma abstração.

domingo, 7 de agosto de 2011

07.- Extraordinário Instrumento Musical

Ano 6

PORTO ALEGRE

Edição 1830

Ainda dois rescaldos da viagem. Um muito bom; outro preocupante: a) na tarde ensolarada do lindo sábado, graças à amabilidade e à competência de meu genro Carlos, no 12º dia de ausência,

recebi de novo MEU notebook. Foi um momento indizível. Mesmo que durante a viagem a Gelsa amorosamente tenha dividido o dela comigo e ao chegar a Clarissa já tinha providenciado um alternativo, tenho de novo ‘o meu notebook. b) a mala perdida no voo Londres/São Paulo ainda não foi localizada. Não é algo trivial, quando se começa listar tudo que a mesma contém.

Os leitores conhecem a tradição de aos domingos as blogadas serem curtas e mais descontraídas. Trago hoje, uma vez mais a contribuição de Jose Carlos H Ferreira, que foi meu aluno na Universidade do Adulto Maior.

O vídeo mostra um extraordinário instrumento musical quase inacreditável. Esta incrível máquina foi construída como um esforço colaborativo entre o Robert M. Trammell Music Conservatory e Sharon Wick School of Engenharia da Universidade de Iowa.

Surpreendentemente, 97% dos componentes de máquinas vieram da John Deere Industries and Irrigation Equipamentos de Bancroft, Iowa. Sim equipamentos agrícolas.

A equipe gastou 13.029 horas entre set-up, alinhamento, calibragem e
ajustes antes de filmar este vídeo, mas como você pode vê-lo valeu a
pena o esforço.

Ele agora está em exibição no Matthew Gerhard Alumni Hall, na Universidade e já está programado para ser doado ao Smithsonian.

Com votos de um domingo muito bom aqui está uma verdadeira surpresa:

extraordinaire instrument de musique‏ - YouTube

www.youtube.com/watch?v=gaQYb4Ykhz83 min

sábado, 6 de agosto de 2011

06.- Teoria da viagem, poética da geografia.

Ano 6

PORTO ALEGRE

Edição 1829

Neste primeiro sábado agustino, honro uma tradição que começou em 4 de abril de 2009, por sugestão do leitor Marcos Vinicius Bastos: sábado, dia de dica de leitura. Assim, mesmo que, por estarmos iniciando um semestre letivo, não seja tempo apropriado para falar de algo muito gostoso, transgrido as restrições e falo, uma vez mais, de viagem.

Quem provocou a dica de hoje foi Jair Lopes – editor de ‘um blog que pensa’ -- jairclopes.blogspot.com/ -- que ontem postou o seguinte comentário: Caro Chassot,
Sente-se pelo teu texto que tu estás acometido de "Síndrome do Retorno", mal que atinge aqueles que retornam de viagens e apresentam certos sintomas como "jet lag" e certa nostalgia pelo visto, sentido e usufruído no tour. Mais uma vez, bem vindo e aproveita nosso inverno, que este ano é um dos mais frios. Abraços,
JAIR .

Este comentário remontou-me a uma resenha que fiz aqui em dezembro de 2009. Admitindo que os leitores se renovem e que mesmo aos mais antigos, vale recordar, a dica de hoje sabe a uma ‘teoria de viagem’ mergulhada em ‘uma poética da geografia’. Assim sugiro um livro do filósofo Michel Onfray: Teoria da viagem, poética da geografia.

O autor é um filósofo francês. Nasceu em 1959, em Argentan, no seio de uma família

de agricultores normandos. Fez doutorado em Ciências Política e Jurídica. Lecionou Filosofia, no ensino secundário durante 20 anos em um liceu em Caen. Descrente do modo como se ensina Filosofia aos alunos, em 2002, fundou a Universidade Popular de Caen, uma universidade gratuita e heterodoxa, cuja concepção se assenta nos princípios do seu manifesto La communauté philosophique, que busca voltar às raízes do humanismo ocidental. Onfray defende que não há Filosofia sem Psicanálise e os seus escritos celebram o hedonismo, a razão e o ateísmo.

De Onfray esse blogue (e também Sete Escritos sobre Educação e Ciências) já referiu em mais de uma oportunidade Tratado de ateologia (Martins Fonte, 2008). Há em português, editados pela Rocco, Ventre dos Filósofos (1990) e Política do rebelde (2001). Pela Martins Fontes há também Contra-história da Filosofia vol. 1 e 2 (2008). Dele possuo também Le souci dês plaisird: construction d’une éotique solaire (Flamarion,2008) e La inocencia del devinir (Gedisa, 2008).

Como autor de mais de 50 livros envolvendo temas como citei acima, é alvo do ódio religioso de muitos. Em um blogue fundamentalista, opinando acerca deste prestigiado autor, encontrei: “Michel Onfray vai arder no lago de fogo e enxofre de satanás, por colocar conhecimento na cabeça das pessoas; é um que coisa mais terrível, tinha que ser ateu, são todos anti-cristos satanistas filhos do demônio e assassinos”. Ou ainda isso “Bom para e Cristão é fazer uma fogueira e queimar os outros. Fazer faculdade, universidades e fazer as pessoas pensarem é pecado.” Quase não parece que estamos encerrando a primeira década do século 21.

ONFRAY, Michel. Teoria da viagem, poética da geografia. [Théorie Du Voyage (Libraire Générale Française, 2007)] Tradução Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2009. 112 p. 21 cm. ISBN 978-85-254-1918-7

Onfray parte do relato de Caim e Abel, no livro fundante da civilização judaico-cristã quase nos inquirindo: Qual é a origem do desejo da viagem? Porque nos sentimos mais nómadas ou sedentários? Porque somos impelidos para o movimento constante, a deslocação, ou amamos o imobilismo e as raízes? Porque mantiveram alguns povos a sua marcha inexorável, pastoreando os seus rebanhos? E porque se dedicaram outros a um só lugar, onde cuidaram dos seus campos? A energia que anima estas formas de vida tão distintas, estes dois arquétipos, é a mesma que anima o resto do universo, e que as combina obscuramente em cada um de nós.

O conceito de viagem ainda faz sentido, num mundo on-line e globalizado? Michel Onfray, pensador francês hedonista, autor de diversos livros de divulgação de filosofia, defensor do ateísmo e da autonomia do pensamento e da vida, faz, em Teoria da viagem: poética da geografia, um elogio à arte de viajar. O viajante Onfray – para quem filosofar só é possível a partir de uma experiência autobiográfica – resgata os significados primeiros de se sair em busca do desconhecido. Remontando à história de Caim (agricultor, sedentário) e Abel (pastor, nômade), ele estabelece dois polos entre os quais todos oscilamos: nomadismo versus sedentarismo, e amor ao movimento versus paixão pelo imobilismo, pelo enraizamento. É sobre as experiências vividas sob o signo do nomadismo, do espírito da viagem que versa este volume de ensaios. Se por um lado, como afirma Onfray, o mundo resiste às tentativas de colocá-lo em palavras, neste manual da aventura ele recupera os estados de alma do viajante primordial e nos recorda uma lição ancestral: o aprendizado do mundo se dá ao mesmo tempo em que o aprendizado de nós mesmos. Como resultado, Teoria da viagem se oferece como um personalíssimo inventário de reflexões andarilhas, que têm a ver com memória, com amizade, com subjetividade, com perder-se, com a escolha de um destino. Graças ao estilo poético e informal que o tornou um dos filósofos mais lidos da contemporaneidade, Onfray atinge o pastor que há em todos nós. Após a leitura, este livro terá assegurado um lugar na bagagem – real ou afetiva – do leitor.

Onfray em sua Teoria da viagem estuda a viagem em três momentos: o Antes; o Durante; e o Depois. Para cada desses momentos traz oportunas teorizações. “No começo, muito antes de qualquer gesto, qualquer iniciativa ou vontade deliberada de viajar, o corpo trabalha, à semelhança dos metais sob a canícula do Sol... O desejo da viagem tem a sua fonte nessa água lustral e morna, alimenta-se estranhamente desse manto metafísico e dessa ontologia germinativa. Só nos tornarmos nômades impenitentes se instruídos na nossa carne nas horas do ventre materno, redondo como um globo, como um mapa-múndi. O resto revela um pergaminho já escrito...”.

"Viajar tornou-se, não apenas uma espécie de apelo da humanidade civilizada e com um mínimo de meios econômicos, mas também uma vitória sobre a eternidade; porque a viagem nos salva do que perdura e que não é tão eterno como julgávamos. Pertencendo a um mundo em que cada minuto tem um preço e uma medida exata, o viajante recupera a poesia, a inutilidade, os monumentos em ruínas, os papéis que hão de ser arquivados fora da memória, as varandas dos hotéis, os instantes fugidios de prazer e de clandestinidade. Ele é verdadeiramente um espião; e o mundo inteiro é o seu território.”

Em Teoria da Viagem - Uma Poética da Geografia, Michel Onfray reflete sobre a origem do desejo de viagem. Por que razão nos sentimos mais nômades ou mais sedentários?

Por que somos impelidos para o movimento constante, a deslocação - ou amamos o imobilismo e as raízes? porque mantiveram alguns povos a sua marcha permanente, atravessando continentes? E por que se dedicaram outros a um só lugar, onde cuidaram dos seus campos? A energia que anima estas diferentes formas de vida, estes dois arquétipos, é a mesma que anima o resto do universo, e que as combina em cada um de nós".

E para as diferentes etapas da viagem uma recomendação de Onfray “A genealogia de ícones inconscientes úteis para escolher destinações ganha em celebrar o texto, o livro, o romance, o poema, o relato de viagem. Qualquer linha de um autor, mesmo medíocre, aumenta mais o desejo do lugar do lugar descrito do que as fotografias, muito menos filmes, vídeos ou reportagem. Entre o mundo e nós, intercalaremos prioritariamente as palavras”.

Teoria da viagem, poética da geografia. Adito votos de um muito bom sábado e o convite para amanhã curtirem uma blogada dominical. Para aquelas e aqueles destas bandas: curtam o frio.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

05.- Ainda... um post-scriptum

Ano 6

PORTO ALEGRE

Edição 1827

Não sei porque, toda vez que quero colocar em um texto, especialmente em um correio eletrônico, post-scriptum, o tão útil corretor de texto troca/corrige o meu solene PS para OS. Quero colocar um recadinho a mais, e não uma Ordem de Serviço, como a sigla OS parece dizer.

É preciso fizer, que como a minha velocidade de digitação não é das melhores, que uso de mais o autocorreção do Word. Há dezenas de locuções e nome de instituições que digito duas ou três letras que se transformam em uma sequência de quase uma linha. Atualmente, em função da pane que ocorreu em meu notebook, em 26 de julho em Paris, escrevo em outro, generosamente emprestado pela minha filha Clarissa, não tenho aqui ‘meus economizadores de digitação’. Só aditei nesta máquina o ponto de interrogação: ei-lo:?

Pois esta blogada, difícil de escrever, pois há impressão que ainda não aterrissei. Aliás, talvez, por isso este preâmbulo, que parece apenas para ‘encher linguiça’, numa expressão démodé. Ocorre que estou escrevendo de minha casa, depois de mais de três semanas, período em que nenhuma vez precisei perguntar-me: Acerca de que será a edição do blogue de hoje? Foi um período de fartura tal, que a cada dia sobrava assuntos. Era como na interpretação dos sonhos do faraó, José falava em período das vacas gordas, agora parece que chegou o das vacas magras.

Assim o OS, ou melhor, o PS entra nesta edição, pois na madrugada insone – culpo as sete horas de fuso, pois quando acordei a primeira vez, um pouco antes da 1 hora, dei-me conta que na Rússia já era quase 8h da manhã. Ao pensar na pauta do blogue, ocorreu-me fazer um posfácio aos relatos da viagem, que ocuparam meus leitores e a mim, aqui, durante 23 dias. Mas dei-me conta que o nome era pomposo de mais, pois não tinha dedos, para tal produção. Assim, mais modestamente, faço desta edição, um discreto post-scriptum, às edições recentes.

Meu périplo europeu por três países acrescentou a Rússia ao meu passaporte. Aliás, ontem, quando o guardei, dei-me conta do simbolismo da ação. Agora, diferente dos outros dias, não me documento como um alienígena em terras estranhas. Agora, estou de novo na minha tribo.

Se precisasse fazer um destaque a cada um dos três países diria que os seis dias no Reino Unido tiveram como marca a visitação de museus, com destaque para a área de Ciência; os oito dias na França foram significativos no adensamento das relações familiares, marcados pelo conhecimento da região do Ardeche e a visita a imponente Avignon; e os sete dias de Rússia, tiveram a marco do novo, onde os caracteres cirílicos foram a magia de fazer mais maravilhosas as igrejas ortodoxas.

A estada no Reino Unido ganhou destaque ainda por dois detalhes. Por três dias ter ficado

sozinho enquanto a Gelsa foi cumprir agenda acadêmica em Manchester foi um desafio e os dois encontros com os queridos amigos de Teresa e Joe, a oportunidade prazerosa de matar saudades. Senti também algo de fidelidade na programação londrina, pois ao lado de galerias de arte, voltei com sofreguidão ao British Museum e ao Science Museum, presentes com destaques em minhas estadas anteriores. Uma vez mais aprendi muito que será importante enquanto professor.

Na França já fiz os destaques. É muito bom poder fazer conversões no imaginário. Antes,

quando a Júlia falava que ia com o Benjamin, visitar os pais deste no Ardeche, tudo era uma abstração. Foi muito bom estar com os quatro num fim de semana em uma geografia inédita e muito diferente. Balaluc, com seus 300 habitantes, está muito presente em nosso mapa. Avignon, tão significativa na história da igreja romana, agora é muito mais real e convence-me de quanto tenho que estudar mais para entender muito que vi.

Na Rússia foram só descobertas. Nestas se incluem a constatação de um analfabetismo diante dos caracteres cirílicos. Moscou foi um banho de história. Ter estado no Kremlin e na Praça Vermelha foi emocionante. As estações do metrô são realmente palácios de artes subterrâneos como escrevi. Saint Petersburg foi a consubstanciação de um sonho há muito

embalado. Todas as expectativas foram superadas. As lindas igrejas ainda povoam meu imaginário.

Ainda da viagem vale a constatação de que sabemos conviver bem com frustrações. Ter malas extraviadas (uma ainda é esperada), perder dinheiro em explorações de taxistas (escrevi sobre isto ontem) exige aprendizados. Eu me felicito, pois a pane em meu computador me chateou, mas não fiz drama.

Algo que para Gelsa e para mim é inusual: mesmo que estejamos juntos há quase um quarto de século, moramos em casas separadas, esta convivência mais cotidiana em hotéis também oferece doses de alegrias.

Assim, no encerramento destas edições deste diário de um viajor, tenho um agradecimento público à querida parceria da Gelsa – para assuntos de viagens é uma competente Gelsatur. Sou muito grato a cada uma e cada um dos meus leitores que ‘viajaram’ comigo. Agora, a vida continua. Uma boa sexta-feira, que começa com uma manhã fria, com temperaturas em torno de zero graus.