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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

09.- Christoph Türcke BIS

Porto Alegre Ano 5 # 1498

A quinta-feira ensolarada já não é mais criança. Ela é ressacosa. Ela pede, em uma agenda extensa, lugar para digerir as emoções (e porque não deixar de bancar herói e reconhecer: os cansaços) do dia de ontem. Este começou em Lajeado, na preparação da ida à Estrela para chegada do Felipe e terminou em ônibus vindo de palestra em Osório. Logo um dia multifacetado, que ainda incluiu mais de duas horas de direção, após o almoço em BR 386+116 nas quais os caminhões parecem que se fazem cada vez maiores. Aqui uma correção geográfica na blogada de ontem. Referi que atravessáramos quatro dos cinco formadores do lago Guaíba. Na verdade o primeiro citado: o Taquari faz chegar suas águas ao Guaíba, mas como afluente do Jacuí no qual deságua na altura das cidades de Triunfo e São Jerônimo.

Sobre a celebração do nascimento do Felipe, aditei (e aqui no sentido de adicionar

algo venturoso) na edição de ontem um comentário fotográfico, quando este tinha pouco mais de meia hora. Realmente foram momentos de imensa felicidade (e também com pitadas de nervosismo) acompanhar os rituais de chegada de um novo ser ára viver a vida exta-uterina, que envolvem assistir tomadas de medidas antropomórficas, impressões digitais e da palma dos pés, primeiro ‘banho’ e outras cenas em que o recém-nascido é a estrela. Depois, as emoções não foram menores quando da chegada da Ana Lucia e do Felipe ao quarto. Poder ver o nenê sem a intermediação de vidraça faz diferença e ver uma filha feliz é algo quase divino. Ainda neste registro filipino meus agradecimentos – e também em nome da Ana Lúcia, do Eduardo e da Gelsa – para mais de uma dezena de mensagens pessoais e no blogue parabenizando pais e avós.

À tardinha, no ônibus dos professores fui (e voltei de) a Osório. Tive a fraterna companhia do Professou José Canovas, conhecido como Professor Zezinho. Ele ‘preparou’ viajarmos juntos. Tinha livros meus que lera, presenteou-me com artigos e um DVD acerca de Marie Curie. Na FACOS onde fiz minha terceira fala este ano,

evoquei por primeiro que no ano passado naquele mesmo auditório falara em um

momento de tragédia, quando morreram professores que vinham para a palestra que ministrava. Desta vez, falei para cerca de 300 alunos dos cursos de Matemática – que celebrava ontem 16 anos – de Biologia e Informática. Nas fotos de Daiane Lorenzato, dois momentos da Palestra ‘A Ciência como instrumento para lermos o mundo natural’. Ao final recebi das mãos de Erica Souza – organizadora do evento e muito atenta ‘cuidadora’ de minha viagem – uma cesta com saborosos produtos regionais.

Ontem trouxe uma parte de entrevista que Christoph Türcke professor de filosofia da Hochschule für Grafik und Buchkunst (Faculdade Artes Visuais) em Leipzig. O autor de mais de quinze livros, sua obra é uma das mais singulares renovações atuais da Teoria Crítica na Escola de Frankfurt na Alemanha. Ontem vimos a cerca de ‘nossa dependência’ à rede internética. Na segunda parte da entrevista que publico hoje, há novos questionamentos trazido pelo filósofo alemão, que só soube quando cheguei hoje, falara ontem à noite no Instituto Goethe em Porto Alegre Ao final desta segunda parte dou destaque a dois livros de Türcke, traduzidos para o português e editados no Brasil.

Citando Trótski, o senhor propõe uma relação íntima entre igreja, cinema e álcool. Qual a razão disso?
Trótski não percebeu o alcance da sua própria observação. O vício tem um subtexto teológico. Cada nova injeção atua como promessa. O viciado quer cada vez mais, é insaciável, pois quer viver "o inédito", que o vem salvar. Igreja, cinema, botequim: todos os três nutrem expectativas de salvação, cada um deles à sua maneira. O ateu Trótski tentava tirar a classe operária da aguardente ao reuni-la no cinema. Era a sua igreja.

O senhor diz que, com a invenção do destilado, destruiu-se a cultura do beber e também que a vitória da morfina e da heroína sobre o ópio mudou o padrão do "frenesi", devido à multiplicação do efeito tóxico. Quais as implicações disso para a sociedade contemporânea?
Quanto mais forte, mais rápido o efeito. As drogas desenvolvem-se segundo as necessidades gerais de aceleração.

Então novas drogas, tanto químicas quanto "tecnológicas", deverão necessariamente se desenvolver?
Se forem lucrativas, sim.

Parafraseando o "Manifesto Comunista", de Marx e Engels, o senhor afirma que as pessoas não suportam "o peso da sobriedade". Essa é uma característica da sociedade da sensação?
É. Marx e Engels não eram ascéticos, mas apostaram no domínio da razão sóbria, isenta de qualquer ópio físico ou metafísico. Eram, em outras palavras, racionalistas ilusionistas, subestimaram o homem enquanto ser pulsional que nunca vai se livrar de todas as expectativas de salvação. Não adianta recalcar tais expectativas, trata-se de lidar com elas de modo racional e reflexivo. Mas o sensacionalismo de hoje não dá espaço a tal reflexão. A metralha audiovisual torna o desvio o caminho principal.

Então a "metralhadora audiovisual" liquida a perspectiva de alguma salvação?
Não necessariamente. Não vivemos num mundo predeterminado. O livre arbítrio não está liquidado. As forças dominadoras sempre provocam forças de resistência, tanto em termos educacionais quanto sociais. A história continua em aberto.

O sr. é um crítico da "dupla estratégia" do Greenpeace, de criticar e condescender? Qual a implicação disso para o movimento ambientalista?
Constato, não critico a "dupla estratégia". Observo, porém, que ela sempre indica fraqueza social. São minorias que têm necessidade de usá-la. Organizações não governamentais como o Greenpeace agem sob as mesmas coações comerciais que as grandes empresas. Elas têm que colaborar com forças sociais que, ao mesmo tempo, estão combatendo. Não escapam da ambiguidade. Entretanto, isso de nada serve se não arriscar o ambíguo.

A vida é sonho?
Seria bonito. Mas não é assim. A vida é um conjunto de vários estados. Um deles é o sonho. Representa o subsolo da nossa vida, É a massa de fermentação de todos os nossos desejos, planos, projetos. Ninguém aguenta a vida sem sonho. Sem sonho não há esperança, não há humanidade.


FILOSOFIA DO SONHO
AUTOR Christoph Türcke
TRADUÇÃO Paulo Rudi Schneider
EDITORA Unijuí
QUANTO R$ 48 (328 págs.)

SOCIEDADE EXCITADA
AUTOR Christoph Türcke
TRADUÇÃO Vários tradutores
EDITORA Unicamp
QUANTO R$ 88 (328 págs.)

Com votos de quinta-feira seja agradável para cada uma e cada um de meus leitores, um convite para amanhã nos lermos, também, aqui.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

08- Um ‘8 de setembro’ para entrar na História

Lajeado Ano 5 # 1497

Esta blogada ocorre quando estamos, a Gelsa e eu, quase partindo de Lajeado para atravessar o Taquari e chegar à vizinha Estrela. Lá vamos estar com a Ana Lúcia para esperar a chegada do Felipe. Há nervosismo. Como num filme, recordamos a chegada da Maria Antônia, que há mais de 11 anos nos fez avós pela primeira vez. Depois veio o Guilherme em 2005, a Maria Clara em 2006, o Antonio em 2007 e o Pedro em 2009. Agora somos quase hexa-avós.

Ontem, como programáramos, recortamos nas geografias gaúchas uma próspera região onde as marcas da colonização alemã de quase 200 anos ainda é muito presente nos homens e mulheres loiros, nos sotaque de erres carregados e nos topônimos. Ao final da tarde estivemos com a Ana Lucia, Eduardo e Guilherme. Era quase um ritual de advento no aguardo do natal que deve ocorrer dentro de mais um pouco. Vimos muitos dos preparos que a Ana Lúcia fez durante a espera embalada de promessas. O berço aguardando o nenê. E também pudemos curtir seus últimos chutes.


Depois de lambermos o mais recente membro do clã retornaremos a Porto Alegre cruzando o Cai, o Sinos e o Gravataí. Nesta quarta-feira, dos cinco formadores do lago Guaíba, só não cruzaremos o Jacuí. Minha quarta-feira pós-feriadão tem ainda na agenda no final da tarde uma viagem Porto Alegre/Osório, onde à noite tenho uma palestra para o curso de Matemática, na FACOS.

Aditado às 08h48min na Maternidade do Hospital Estrela.

O Felipe nasceu!

Às 8h12min, com 50 cm e 3.540g. Tem cabelos pretos e olhos azuis. Sem qualquer suspeição posso

afirmar que muito lindo. A Ana Lúcia está bem. Estamos aqui Gelsa, Dione, Eni (as três avós), André, Clarissa, Carlos e Lise....todos vibrando muito.

Ao lado do registro das emoções da chegada do Felipe, trago a primeira parte de entrevista de Christoph Türcke ao jornalista Marcos Flamínio Peres e publicada na Folha de S. Paulo do último sábado. Antecipo que fique muito impactado com o texto. Mais de uma vez já referi aqui acerca de como se escoam os tempos que passamos conectados a internet. Nesta entrevista há mais algumas interrogações. Para pensador alemão, autor de "Sociedade Excitada" e "Filosofia do Sonho", usuários high tech são vítimas de "distração concentrada"

"Tela lança choques sensuais assim como injeções de heroína"

A sociedade do espetáculo do pós-Guerra se transformou hoje na sociedade da sensação, mergulhada num excitamento contínuo de efeito similar ao das drogas. Essa alarmante tese high tech é defendida pelo filósofo alemão Christoph Türcke, que está em São Paulo nesta semana para lançar os livros "Sociedade Excitada" e "Filosofia do Sonho".
Se o marxista francês Guy Debord atacou o consumismo em sua obra pioneira de 1967 ("A Sociedade do Espetáculo"), Türcke defende que o aprofundamento da revolução tecnológica, no final do século 20, provoca um frenesi viciante de "choques" imagéticos e visuais. "Trata-se de injeções sensuais", afirma na entrevista abaixo à Folha.
Assim como as drogas evoluíram em potência – do ópio para a morfina e heroína, das bebidas fermentadas para as destilada –, a "metralhadora audiovisual" contemporânea provocou um aumento de dependência por parte de seus "usuários". "Isso é o que chamo de distração concentrada." Herdeiro da Escola de Frankfurt, que fundia marxismo e psicanálise, Türcke conclui que a sociedade da sensação se materializa no fetiche. Pois, diz, "fetiches são sintomas de abstinência, substitutos de algo de que se foi dolorosamente privado".

Folha - O conceito de "sociedade da sensação" não é intelectualista demais?
Christoph Türcke - Pelo contrário. Parte de um ponto de vista sensualista, para não dizer fisiológico. Avalia como a máquina audiovisual, que emite seus choques imagéticos 24 horas por dia, se impõe ao sensório humano. Tais choques, que se vive com cada nova focagem de câmara, têm o efeito de injeções sensuais.

Como assim, injeções sensuais?
Qualquer corte imagético, qualquer nova focagem, tem o caráter de um projétil, como diz Walter Benjamin [1892-1940]. Penetra no espectador abruptamente, desencadeando uma dose de adrenalina.

Como o vício define a sociedade da sensação?
Vício como fenômeno particular – como dependência física de certas substâncias (drogas) – está modificando um fenômeno geral, pois a máquina audiovisual também vicia. Quem presta atenção à tela se dedica a ela, vive uma dependência crescente dela, vincula suas expectativas, sua economia emocional e intelectual a ela. Assim como o drogado aplica injeções de heroína, uma sociedade que depende da tela se expõe a bilhões de choques imagéticos. O choque singular é mínimo, quase imperceptível e não faz mal. Bilhões, no entanto, destroem justamente a atenção que elas atraem magneticamente.

Então, em um mundo conectado como o atual, as pessoas estão virtualmente viciadas?
O vício é real. Surge em organismos físicos, não num agregado de pixel. O mundo virtual tem sua própria realidade, uma realidade prepotente, mas por outro lado fraquíssima, muito fugaz, não consistindo senão numa constelação de impulsos eletrônicos. Ao desligar a eletricidade a virtualidade inteira desaparece.

Espero que o texto tenha trazido algumas respostas aos interrogantes que vivemos nesses tempos que muitas vezes faz a nós homens e mulheres do séculos passado nos sentirmos alienígenas neste século 21 de espetáculos que realmente nos estonteiam e aceitemos, nos viciam. Amanhã a segunda parte da entrevista. Agora, abençoado pelas promessa que hoje se chama Felipe, desejo a cada uma e cada um a melhor quara-feira que para muitos traz ressaibos de segunda-feira.

Shalon! A todos os amigos da comunidade judaica, mais queridamente meus familiares, desejo que venha um ano novo 5771, pleno de realizações marcadas por muitas alegrias e especialmente muita paz! Shalon! Shana Tova!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

07- Um dia da Pátria com celebrações atípicas


Porto Alegre Ano 5 # 1496 * 1822 *188 anos * 2010

Um dia feriado. Ou melhor, o mais importante feriado pátrio. O dia da Independência. Não farei loas à data, mas vou curti-la. Minhas celebrações serão atípicas.

Vivo uma situação parecida como aquela da candidata à Presidência da República, no momento presumível vencedora, a dar crédito às pesquisas dos diferentes institutos. Perdoem-me se pareço presunçoso, mas Dilma Roussef suspendeu sua agenda política, para acompanhar o nascimento do Gabriel, seu neto, aqui em Porto Alegre. Pois minha agenda de amanhã tem um ponto alto: estar às 7h30min, em Estrela. Então, deverá estar nascendo o Felipe, filho de minha filha Ana Lúcia e do Eduardo. Ele vem fazer companhia ao Guilherme, que em 8 de abril fez 6 anos.

Há que fazer os melhores presságios: a Ana Lúcia nasceu no dia do professor e o Felipe nasce no dia internacional da alfabetização.

Para estar no momento que me farei hexa-avô em Estrela, a Gelsa e eu faremos deste feriado um dia de passeio. Esta manhã, sairemos para inicialmente visitar alguns municípios da chamada Via Láctea (Como é conhecida a RS-128 – devido às indústrias de laticínios da região): Colinas, Teotônia, Imigrante, Westfália, Roca Sales...

Mas nesta data queria trazer breves comentários do quadro mais celebre que evoca a data nacional.


INDEPENDÊNCIA OU MORTE" ou "O Grito do Ipiranga" de Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888). A tela mede 7,60 x 4,15 m, tratando-se de uma tela retangular que representa a cena de Dom Pedro I proclamando a independência do Brasil.

A pintura foi feita em Florença (Itália), entre 1886 e 1888, ou seja, mais de 60 anos depois do grito, a partir de documentos históricos e de visitas do pintor a São Paulo. Atualmente no salão nobre do Museu Paulista da USP, é a principal obra do museu e a mais divulgada de Pedro Américo

Na tela também aparecem: à direita e à frente do grupo principal, em semicírculo, estão os cavaleiros da comitiva; à esquerda, e em oposição aos cavaleiros, está um longo carro de boi guiado por um homem do campo que olha a cena curiosamente. A composição é circular, ou seja, o olhar se movimenta pela tela para perceber todos os elementos.

Seu autor: Pedro Américo de Figueiredo e Melo (Areia, 29 de abril de 1843 - Florença, 7 de outubro de 1905) foi um pintor, romancista e poeta brasileiro.

Essa obra foi encomendada pelo governo imperial e pela comissão de construção do monumento do Ipiranga, antes que o Museu do Ipiranga existisse, e foi completado em Florença em 1888. O artista se preocupava em estudar todos os detalhes de seus quadros, como roupas, armas e os tipos físicos das pessoas. Para a produção deste quadro, ele se dirigia freqüentemente ao bairro do Ipiranga para conhecer-lhe a luz, a topografia e outros aspectos. O quadro foi pintado durante o Romantismo, que tem como uma de suas características a exaltação de um herói nacional, no caso, d. Pedro 1º. A pintura é comemorativa e foi encomendada pelo governo para engrandecer a monarquia.

O grito da independência do Brasil como está no quadro?

Por mais inspiradora que seja a cena representada, ela tem pouco de realidade. No livro "O Brado do Ipiranga", a historiadora Cecília Helena de Salles Oliveira, faz uma análise detalhada da pintura, evidenciando toda a fantasia que seu autor projetou nela. Aliás, o próprio Pedro Américo, já havia escrito sobre o assunto um livreto, chamado "Algumas Palavras acerca do Fato Histórico e do Quadro que o Comemora". Nele, o artista afirma que "a realidade inspira, e não escraviza o pintor", justificando sua imaginação criadora.

Jogo dos sete erros: Antes de mais nada é interessante apontar, para quem não sabe, as diversas inverdades estampadas na tela. Para começar, vale dizer que os fogosos corcéis montados por dom Pedro 1o e seu cortejo, na realidade, eram simplesmente mulas - um tipo de cavalgadura menos heróico, mas muito mais adequado ao duro percurso que os viajantes faziam. Eles tinham acabado de subir a serra do Mar, vindo de Santos.

Numa viagem como essa, por sinal, ninguém estaria usando os luxuosos uniformes apresentados. Com toda certeza, estariam usando trajes mais simples e mais práticos, provavelmente sujos do pó e da lama do caminho. Para piorar, o próprio dom Pedro não poderia estar tão exaltado e bem disposto assim como o artista o representa. Afinal, ele havia parado naquele local em função de uma diarréia que o atormentava, devido aos seus excessos alimentares em Santos, na véspera.

Mas há mais: para que o Ipiranga e suas célebres margens integrassem a paisagem, o pintor "desviou" o curso do riacho. A rigor, ele estaria passando por trás de quem observasse a cena naquele local. Finalmente, quanto à casa de pau-à-pique entrevista no fundo da tela, ela pode ou não ser a que lá existe até hoje e que é conhecida como a Casa do Grito. Embora tenha sido tombada pelo Condephaat e fique aberta à visitação no Parque da Independência, o documento mais antigo que menciona a casa atual data de 1884 - 62 anos depois do grito da Independência.

E mais um detalhe pouco referido: O quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, é apontado como ‘uma inspiração’ de outra obra famosa, Napoleão em Friedland, do francês Jean Louis Meissonier Lyon, 21 Fev 1815 – Paris, 31 Jan 1891, hoje exposta no Metropolitan Museum de Nova York.


Depois desta mirada imaginário dos brasileiros, pois tão célebre quanto o grito de dom Pedro às margens do rio Ipiranga é o quadro pintado por Pedro Américo para representar aquele momento decisivo, em que Brasil se separava de Portugal oficialmente, desejo a cada uma e cada um de meus leitores do Brasil, bom feriado. Àquelas e àqueles de outras geografias uma muito saborosa terça-feira.

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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

6.- The Grand Design

Porto Alegre Ano 5 # 1495

Um bom assunto para começar esta semana atípica, numa segunda-feira, fazendo-se

vigília de feriado. Na última quinta-feira, físico-celebridade britânico Stephen Hawking aparentemente cansou de bancar o bonzinho com Deus. Em seu mais novo livro, ele afirma que o Criador é dispensável para explicar o Universo.

Parece paradoxal que a obra de Stephen Hawking, 68 anos, tenha recebido o nome enganoso de "The Grand Design" ("O Projeto Grandioso"), pois, junto com o físico e co-autor Leonard Mlodinow, o que ele faz no texto é negar a existência de um projeto divino para o Cosmos.

"Uma vez que existe uma lei como a gravidade, o Universo pode e vai criar a si mesmo a partir do nada. A criação espontânea é a razão pela qual existe alguma coisa no lugar de coisa nenhuma, a razão de nós existirmos. Não é preciso invocar Deus para que o Universo tenha um começo", escreveu a dupla.

Pretendera comentar ontem este assunto da semana, que me foi sugerido por leitora muito atilada, que escreveu, enviando o sítio de ‘El Universo’, de Guayaquil: Muy querido Profesor Chassot, para que conozca, tal vez un tema para un blog. Depois pensei que ‘no dia do Senhor’ o tema poderia parecer um desrespeito. Assim, isto é, hole, dia da Lua.

A notícia está em todos os lugares e em todos idiomas, tanto nos jornais do Ocidente quanto do oriente. The Times destaca no mesmo dia que faz manchete a não necessidade de Criador para o Universo que novo livro será publicado em Londres, uma semana antes de o Papa Bento 16 da visitar o Reino Unido para várias celebrações. Não com deixar de reconhecer uma grande jogada de mercadológica.

Uma leitora me disse, ao comentar o assunto, reconhecendo antecipadamente que ambos não conhecíamos física o suficiente para entender como – criação espontânea é a razão pela qual existe alguma coisa no lugar de coisa nenhuma, a razão de nós existirmos – :“isto para mim é tão a-científico quanto a presença de Deus criador!”. Concordei.

Bento 16 estará na Grã-Bretanha entre 16 de setembro e 19, visitando Londres, Glasgow e Coventry. Nesta visita, no dia 19 de setembro, beatificará o cardeal John Henry Newman (1801 1890), um reconhecido teólogo. Newman foi ordenado sacerdote da Igreja Anglicana, tornando-se uma das principais figuras do Movimento de Oxford, que procurou aproximar a Igreja Anglicana da Inglaterra de suas raízes católicas romanas. Então, ele considerava o anglicanismo de seu tempo excessivamente protestante e laicizado e considerava o catolicismo corrompido em relação às origens do cristianismo. Buscou uma "via intermediária" entre os dois, e, pesquisando sobre os primórdios da Igreja Católica, terminou por converter-se. Posteriormente nomeado cardeal pelo papa Leão 13 em 1879.

Não me pretendo condoer com o Papa. Esta sua ida ao Reino Unido que já era atribulada por pelo menos dois motivos, tem agora aditado (e aqui significando adicionar e não afortunar) um terceiro e recém surgida preocupação:

1) beatificar na Inglaterra um ex-líder do anglicanismo sobre o qual pesa suspeição (gostaria de sublinhar: suspeição) de homossexualismo – que a Igreja Romana vitupera! A afirmação de que o cardeal John Henry Newman poderia ter mantido uma relação ‘um pouco mais que amistosa’ com seu assistente, o sacerdote Ambrose St John não tem fundamento, segundo a ZENIT – www.zenit.org uma agência de notícias internacional ligada ao Vaticano –. O principal biógrafo do cardeal inglês, Ian Ker, contesta a possibilidade em um artigo publicado pelo jornal L’Osservatore Romano, respondendo a declarações de lobbies homossexuais. A polêmica se desatou com a decisão do governo britânico, de permitir a exumação do corpo do cardeal visando à sua futura beatificação, já que Newman pediu para ser enterrado junto a seu assistente, o sacerdote Ambrose St. John. Para Ker, esta última vontade do cardeal não constitui uma prova de sua homossexualidade. O biógrafo de Newman recorda que Ambrose St John, que se converteu do anglicanismo junto com Newman, foi muito amigo do cardeal e esteve a seu serviço durante 30 anos. A mim já parece de mau tom beatificar alguém que trocou a Igreja Anglicana pela Igreja Romana, na pátria anglicana.

2) escritores Richard Dawkins – aqui já mais de uma vez comentado: autor de Deus é um delírio e acerca das frases ateísta nos ônibus – e Christopher Hitchens, dois importantes ateus britânicos, planejam uma emboscada legal para prender o Papa durante sua visita à Grã-Bretanha. Eles defendem que Bento 16 deve ser detido e julgado por “crimes contra a humanidade” e acreditam que pode usar o mesmo princípio legal usado na prisão do ex-ditador chileno Augusto Pinochet quando ele visitou o país em 1998. Os dois alegam que o pontífice “não é imune à prisão no Reino Unido” porque, apesar de ser o chefe do Vaticano, não é um chefe de Estado reconhecido pela ONU. Em resposta, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, ridicularizou a possibilidade de que o Papa seja preso quando visitar o Reino Unido, em setembro. Um advogado de Dawkins disse em Londres, que tentará fazer com que o pontífice seja detido para ser interrogado sobre as acusações de que a Igreja teria acobertado casos de abusos sexuais de crianças por padres. É uma ideia no mínimo bizarra. Parece que a intenção é chamar a atenção da opinião pública. Acho que eles deveriam procurar algo mais sério e concreto antes de respondermos - disse Lombardi. Devo dizer que adiro ao porta-voz. Mais uma vez reafirmo que me desagradam os ateus que fazem militância de sua ‘fé’.

3) e como se não bastasse, há o livro de Hawking, que faz estardalhaço. A imprensa britânica chegou a pintar o livro como uma virada de casaca. "Parece que levaram ao pé da letra a afirmação dele sobre Deus na obra "Uma Breve História do Tempo", de 1988", diz o físico Leandro Tessler, da Unicamp. Nesse best-seller, Hawking disse que entender as leis do Universo seria como ler "a mente de Deus". Mais tarde, porém, deixou claro que se tratava de uma metáfora e afirmou que não era religioso. Quase totalmente paralisado e com fama de gênio, Hawking tem aura de profeta da ciência, mas não há nada de realmente novo no que escreveu. Claro que tudo são conjecturas que o livro promete. Aguardemos.

Preocupar-nos com a visita do Papa ao ‘vaticano do anglicanismo’ pode ser um bom assunto para uma segunda-feira que para alguns brasileiros está imersa em feriadão. Como serão seus sermões? Contestará Hawking? Provavelmente dirá em uma de sua homílias, a guisa de resposta: Desejo recordar, que há exatos 12 anos, em 14 de setembro de 1998, meu antecessor, o memorável Papa João Paulo 2º em sua muito ainda oportuna encíclica “Fides et Ratio, lembrava: "A Fé e a Razão (fides et ratio) constituem como que duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de o conhecer a ele, para que, conhecendo-o e amando-o, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio". Se pudesse, então, assoprar algo ao ouvido ao ouvido de Bento 16, diria de minhas lembranças da infância, quando com uma machadinha, cuidadosamente cortava as penas de uma das asas das galinhas para que elas não mais voassem da ‘encerra’. Com asas dispares ela não mais podiam voar. Fé e razão, me parecem, salvo meus desconhecimentos teológicos, asas muito díspares. Mas como o papa não me ouve ele conclui solene sua prédica: Assim seja! E a imensa massa humana é convidada a recitar e meditar o Credo, pois nele estão verdades eternas e estas permanecem para sempre.

Aguardemos os próximos dias. Por ora: uma muito boa segunda-feira!

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