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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

5.- Acerca da QUINTA-FEIRA

Porto Alegre Ano 5 # 1463

Manhã de temperatura amena (em relação a ontem): 10ºC. Chove desde a noite de ontem. Jornais têm como manchete de capa: ‘a nevada do século.’

Primeiro devo dizer que ter uma blogada sobre a quarta-feira motivou manifestações de cinco leitoras Joélia, Matilde, Cristhiane, Elaine e Marília (Jairo e Edmar! relevem, mas vocês são minoria em universo de leitoras comentarista) acerca do assunto. Elas impeliram-me a continuar as reflexões. Assim hoje falo algo da quinta-feira.

Primeiro fale recordar algo comum aos cinco primeiros dias da semana (de segunda a sexta-feira) em três idiomas latinos (espanhol, francês e italiano) que nos são próximos:

Português

2ª-feira

3ª-feira

4ª feira

5ª feira

6ª-feira

sábado

domingo

Espanhol

Lunes

Martes

Miercoles

Jueves

Viernes

sábado

domingo

Francês

Lundi

Mardi

Mercredi

Jeudi

Vendredi

Samedi

Dimanche

Italiano

Lunedi

Martedi

Mercoledi

Geovedi

Venerdi

Sabbato

Domenica

Assim os cinco primeiros dias correspondem a dia da Lua / dia de Marte / dia de Mercúrio / dia de Júpiter / dia de Venus. Vale recordar o que referi ontem: nas línguas saxônicas os deuses do Panteon Greco-romano, são substituídos – com exceção da Lua: segunda-feira – por deuses do Panteon Nórdico: Os deuses nórdicos Tiw, Wonden, Thor e Friga correspondem com bastante aproximação em seus atributos e áreas de devoção e proteção, respectivamente a Marte, Mercúrio, Júpiter e Vênus, trago apenas 4 exemplos. Tenho juntados mais de uma dezena.

Português

2ª-feira

3ª-feira

4ª feira

5ª feira

6ª-feira

Sábado

domingo

Inglês

Monday

Tuesday

Wednesday

Thursday

Friday

Saturday

Sunday

Holandês

maandag

dinsdag

woensdag

donderdag

vrijdag

zaterdag

zondag

Alemão

Montag

Dienstag

Mittwoch

Donnerstag

Freitag

Samstagii

Sontag

IIdiche

מאָנטיק
(montik)

דינסטיק
(dinstik)

מיטװאָך
(mitvokh)

דאָנערשטיק
(donershtik)

פֿרײַטיק
(fraytik)

שבת
(šabes)

נטיק
(zuntik)

Assim, também, como na terça-feira e quarta-feira, a quinta-feira, nas línguas que nos são mais próximas é o dia dedicado a Jupiter e, nas línguas saxônicas, esse dia é substituído na sua dedicação a Thor, o deus do trovão. Em alemão, como em iídiche e holandês, a tradução literal do nome deste dia da semana é dia do trovão, justamente numa alusão a Thor. Encontrei traduções (Wikipédia) para o dia da semana japonês: Moku-youbi como dia de Júpiter. Em eusquera esse dia é chamado Osteguma, que na mitologia basca é uma homenagem a Urtzi, o deus dos céus.

Thor, o deus do trovão, pintado por Mårten Eskil. Os anglo-saxões deram o nome de Thor ao quinto dia da semana, Thursday ou seja "Thor's day". Thor é o deus do trovão da mitologia nórdica, aparece produzindo raios com o seu martelo. Thor é filho de Odin, o deus supremo e da deusa de Midgard (a Terra). Ele se assemelha em atributos a Júpiter, pois ambos são filhos da Mãe-Terra, Thor - como Júpiter - era o deus dos raios e trovões; ambos são protetores do mundo e da comunidade cujo símbolo era o carvalho, representando o tronco da família. Thor matou a serpente Jormungand (uma serpente que envolve a Terra) e Júpiter o dragão Tifon. Os animais de ambos deuses eram o carneiro, o bode e a águia. Thor era um deus, extremamente forte e um comilão (podendo comer uma vaca em uma única refeição). Thor adorava disputas de poder e era o principal campeão dos deuses contra seus inimigos, os gigantes de gelo.

Júpiter (em latim, Iuppiter) era o deus romano do dia, comumente identificado com o deus grego Zeus. Na mitologia romana Júpiter é o pai do deus Marte. Assim, Júpiter é o avô de Rómulo e Remo, os lendários fundadores de Roma. Júpiter é filho de Saturno e Cíbele.

Os fados tinham comunicado ao seu pai, Saturno, que ele havia de ser afastado do trono por um filho que nascesse dele. Para evitar a concretização da ameaça do destino, Saturno devorava os filhos que mal acabavam de nascer. Quando Júpiter nasceu, a mãe, cansada de ver assim desaparecer todos os filhos, entregou a Saturno uma pedra, que o deus engoliu sem se dar conta do logro.

Sua mãe então o entregou às ninfas da floresta em que o havia parido. Criado longe, na ilha de Creta, para não ter o mesmo destino cruel dos irmãos, ali cresceu alimentado pela cabra Amalteia. Quando esta cabra morreu, Júpiter usou a sua pele para fazer uma armadura que ficou conhecida por Égide.

Júpiter e Juno, por Agostino Carracci, século 16. Quando chegou à idade adulta enfrentou o pai e, com a ajuda de uma droga, obrigou-o a vomitar todos os filhos que tinha devorado. Após libertar os irmãos do ventre paterno, empreendeu uma revolta (titanomaquia). Saturno procurou seus irmãos para fazer frente ao jovem deus rebelde que, com seus irmãos, reuniram-se no Olimpo. Casou-se com Juno, sua irmã e filha preferida de Cibele.

Júpiter teve muitos filhos, tanto de deusas como de mulheres. Marte, Minerva e Vênus são seus filhos divinos, entre outros. Quando se apaixonava por mortais, Júpiter assumia diversas formas para se poder aproximar delas.

Baco era seu filho e da mortal Sémele. A jovem durante a gravidez insistiu que queria ver o pai do seu filho, em toda a glória. Júpiter tentou dissuadi-la, mas sem êxito. Quando o rei dos deuses se apresentou abertamente à sua amante, esta caiu fulminada. Júpiter tomou então o feto e colocou-o na sua barriga da perna, onde terminou a gestação.

Para conquistar a Princesa Europa, transformou-se em touro branco. A jovem aproximou-se e Júpiter mostrou-se meigo. Quando Europa montou sobre o seu dorso, ele elevou-se nos ares e levou a princesa para a ilha de Creta, onde se uniu a ela. Dessa união nasceram Minos, Radamante e Sarpédon.

Noutra altura apaixonou-se por Alcmena, esposa de Anfitrião. Para conquistá-la, assumiu a forma do próprio marido e contou com a ajuda de Mercúrio, que tomou a forma do criado Sósia. Dessa união nasceu o semi-deus Hércules.

Em próximos dias pretendo voltar a esse nosso hebdomadário e apresentar alguns relatos míticos acerca dos deuses que presidem cada um dos dias da semana. A quinta-feira é dedicada a Júpiter, o chefe de todos os deuses – Zeus para os gregos e muito assemelhado a Thor, homenageado na denominação deste dia nas línguas anglo-saxônicas.

Queria aqui inserir uma pergunta trazida ontem por uma leitora: Tenho curiosidade. Se Hermafrodito reúne os dos sexos, não deveria ser mais bissexual que assexual? Sendo bissexual, o que alterna entre o heterossexual e o homossexual; assexual, sendo sem sexo. Eis minha resposta: Hermafrodito não sem sexo, e nem que altera entre homo e heterossexual, mas que tem os dois sexos. Vale lembrar o mito de Pandora. Os humanos (não os homens e as mulheres) como hermafroditos viviam a plenitude como bissexuais. Quando Zeus, para vingar-se de Prometeu, que lhes dera o fogo, dá-lhes Pandora: a primeira mulher, que chega trazendo uma caixa cheia de males. A partir de então, dá-se a primeira partição e sempre restam descasalados procurando a sua parte. E nessa narração mitológica temos uma das inculcações misóginas no estabelecimento do DNA que nos constitui como uma cultura machista, como discuto em A Ciência é Masculina? (p.47)

Já está extensa esta blogada acerca de ‘quinta-feira’. Que cada uma e cada um tenha as melhores bênçãos de Júpiter/Zeus ou de Thor. Amanhã talvez falemos sobre a ‘sexta-feira’.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

4.- O meio da semana

Porto Alegre Ano 5 # 1462

Mais uma manhã gelada no Sul do Brasil, mas lindamente ensolarada. Se diz ser o dia mais frio deste inverno, quando há neve em algumas regiões e muita geada. Há árvores, como a minha amoreira que foram enganadas com o veranico em julho: se revestiram de tenras folhas verdes que agora são crestadas pelo rigor do frio.

Chegamos – nesta primeira semana do segundo semestre – a uma quarta-feira. Esta nas línguas que nos são mais próximas (espanhol, francês, italiano...) é o dia dedicado ao deus Mercúrio. Mas, assim como, a terça-feira, nas línguas saxônicas, não é dedicada ao deus Marte, também a quarta-feira (e a quinta-feira e a sexta-feira abandonam o Panteon greco-romano), é o dia dedicado a Wonden ou Wotan, pai dos deuses nórdicos. Claro que sempre nos intrigam duas situações: como há milênio, os humanos em seu hebdomadário (Eta! palavrinha difícil, mas importante) há tantos milênios estão tão fortemente ligados aos deuses na marcação dos dias da semanas e porque o português é o único idioma que foge desta tradição trazida do sistema aristotélico de universo. No Sete escritos sobre Educação e Ciências faço um estudo mais detido disto.

No alemão, temos uma singularidade única para esse dia da semana: Mittwoch, que traduz estarmos no meio da semana. Diz a tradição que em torno do ano 1.000 da era cristã, um monge de nome Notker 'cunhou' o termo in mittauuechun (no meio da semana) para substituir o nome do Deus pagão Mercúrio; aliás, o iídiche acompanha o alemão, do qual sofreu tanta influência, nessa singularidade de uma denominação não dedicada a Mercúrio ou a Wonden, como outras culturas. A ideia de Notker de expulsar qualquer conotação pagã teve o bom tom de nos lembrar que a metade passou e que um pouco mais adiante está o domingo. Penso que então não havia essa associação do sábado, como parte do período de repouso. O ‘sábado inglês’ onde não se trabalharia à tarde, é muito mais recente.

Se Notker tirou a associação da quarta-feira a uma divindade pagã, ela carrega pelo menos em uma de suas edições anuais uma marca muito forte, tendo então um detalhe, que me consta, inédito nos outros 364 dias do ano: a quarta-feira de cinzas é o único dia do ano que se faz (pelo menos para algumas profissões e em culturas) um hemi-feriado, pois a abertura de repartições públicas, escolas e mesmo alguns estabelecimentos comerciais e fabris, só ocorre a partir do meio dia.

Assim com lembramos a terça-feira gorda ou terça-feira de carnaval, a quarta-feira de cinzas – miercoles in ciniza – é uma data muito significativa em algumas culturas, como na de tradição hispânica, não só porque marca o início da quaresma, mas porque então se iniciam as piedosas procissões dos passos que se estenderão por toda quaresma, se intensificado no inicio da semana (domingo de ramos) para culminar no sábado de aleluia. Estas recordam, com piedade e mesmo com grandes manifestações de dor, o caminho da paixão de Jesus – a via sacra.

Numa quase simbiose entre as manifestações da piedade do cristianismo, vale buscarmos um pouco da mitologia greco-romano. Nossa quarta-feira é dedicada a Mercúrio, e sua história legou-nos uma denominação ainda hoje presente em nossos referenciais acerca das características sexuais de indivíduos.

Mercúrio é Hermes no Olimpo grego, deus do conhecimento. Dentre as estátuas de Mercúrio que conheço, destaco aquela imponente que esta no Largo da Rodoviária em Porto Alegre. Trata-se de uma figura única na capital. Um aspecto a destacar: a sua construção feita por sucatas em uma escala monumental. A obra realizada por Paulo Siqueira que acaba sendo uma referência para quem entra ou sai da cidade. A foto traz a identificação do blog de onde capturei a imponente figura do deus que está a dar as boas vindas e as despedidas dos que chegam/saem da capital gaúcha,.

Mercúrio foi um dos muitos amores de Vênus – a deusa do amor, a Afrodite grega –, que é festejada na sexta-feira, dia de Venus. Do romance entre Hermes e Afrodite, nasce um filho que recebe um nome formado da junção dos nomes do pai e da mãe: Hermafrodito, que traz em si a soma do conhecimento (do pai) e amor (da mãe). Sua natureza era de tranqüilidade e sabedoria, e não se sentia seduzido por sentimentos relacionados aos instintos humanos. Hermafrodito, porém, transforma-se no objeto da paixão de uma ninfa do lago da Salmácida. Ele, todavia, resiste e foge constantemente das investidas amorosas da pretendente. Ela não desiste e leva seu pleito até Zeus, com o pedido que o poderoso deus fizesse algo para concretizar o enlace. Zeus chamou Hermafrodito. Este propôs a Zeus que casaria com a ninfa se ambos fossem transformados em um único ser, unidos eternamente. Zeus o atende. Hermafrodito une-se à ninfa, surgindo da simbiose dos dois um novo ser assexuado, por ter em si mesmo as duas naturezas, masculina e feminina, que fez do lago Salmácida o seu novo lar. Reza a lenda que homens e mulheres que se banhavam nas águas deste lago, acalmavam suas paixões sexuais, vibrando com as alegrias de um amor mais intelectual e marcado pela bipolaridade sexual.

Algo que me impressiona é que mesmo com tantos Notker, o cristianismo tenha só se apossado de um dos sete dias da semana e ainda sim só nas línguas latinas, pois o domingo (dia do Senhor) continua sendo dia do Sol em inglês, alemão e outros idiomas. O sábado (também só nas línguas latinas, já que em outras segue sendo dia de Saturno) deve essa denominação ao Shabath judaico.

Depois de tanto falares acerca de quarta-feira só resta dizer: Uma muito boa quarta-feira e esperar pela quinta-feira que é dia de Júpiter.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

3.- Agosto, ainda com pensamento mágico

Porto Alegre Ano 5 # 1461

É uma manhã fria, mas ensolarada. Ontem nevou em região do Rio Grande do Sul. Não posso deixar de recordar as semanas de fevereiro e março que tive o privilégio de estar na Escandinávia com neve todos os dias e todo dia.

A estreia de meu 100º semestre foi em grande estilo na UAM - Universidade do Adulto Maior. As 50 vagas da disciplina ‘Aspectos antropológicos do envelhecimento’ foram esgotadas, havendo, em auto-classificação, os chamados penetras. Também há quase vinte que se fizeram ‘repetentes’ e cursam novamente a disciplina. O grupo, como na edição anterior, é fabuloso e instigante. Como disse não poderia haver melhor abertura.

Ajuntei, para hoje, algumas linhas, catalisada pela edição de domingo e tecidas em meio a uma já superada gripe que me exigiu no fim de semana e ainda ontem muito resguardo, para usar uma palavra um pouco em desuso. Talvez, estas reflexões não vão além de cumprir um espaço para mais uma ‘blogada nossa de cada dia’.

Há momentos muito imprevistos nessa deleitosa tarefa de blogar. Às vezes, escrevemos algo, que pensamos vá causar frenesi, pois paradigmas são violados. A reação pode ser de quase desdém. Em outros momentos, amealhamos algumas ideias despretensiosas e os leitores se fazem presentes, trazendo expansão do assunto, muitas vezes, com oportunas ilustrações.

A situação de domingo foi típica no desenho desta segunda dimensão. Era dia primeiro de agosto. Eu, sem muito trato a bola, aplastado em estado gripal, juntei algumas lembranças agustinas. Claro que essas não passaram por Santo Agostinho (cuja festa litúrgica é em 28 de agosto), como o adjetivo poderia fazer supor. Aliás, caberia, então, mas não me ocorreu, evidenciar o pensamento mágico – provável lema daquela blogada –, a meu juízo, muito presente neste importante escritor da antiguidade. Pensamento mágico aqui travestido de pensamento religioso.

Enquanto escrevo esse parágrafo (e é assim que se constroem os textos) lembro que no A Ciência é Masculina? É, sim senhora! assinalava:

Santo Agostinho (354-430) quando analisa extensamente o pecado dos nossos primeiros pais é também bastante misógino. Ele foi talvez dos mais influentes Padres da Igreja cristã, cujos ensinamentos foram base da teologia por muitos séculos, mesmo que haja aqueles que também lhe confiram, o título nada edificante de proto-inquisidor, por suas ações contra os pagãos, marcadas por um mote que justificava suas ações “Persigo porque sou filho da Igreja!”. O bispo de Hipona ensinava que todos os problemas da humanidade começaram com o pecado de Eva. Em A cidade de Deus (XIV, 11) diz que a serpente “começou pela parte inferior da sociedade humana, para gradualmente ascender ao todo, na consciência de que o homem não seria tão facilmente crédulo, e não poderia ser enganado por erro, senão ascendendo erro alheio”. E mais adiante acrescenta: “Não em vão disse o Apóstolo: Adão não foi enganado; por sua vez, a mulher sim. Eva tomou por verdadeira as palavras da serpente e Adão não quis romper o único enlace mesmo na comunhão do pecado” (Agostinho, 1990, p. 150). Ou seja, Adão era tão bom que pecou porque amava Eva. Aliás, Agostinho discorre por vários capítulos acerca do primeiro pecado e mostra como a nudez que antes não era vergonhosa, porque a libido ainda não ativava os membros contra a vontade, depois da desobediência, despojados da graça, tiveram necessidade, por pudor, de velar as vergonhas com tangas trançadas com folhas de figueira, pois agora, a libido movia seus membros desobedientemente. Esta exigência passa a determinar que também ato conjugal tenha o máximo de pudor, pois até “os próprios lupanares têm, por vergonha natural, quarto escuro” (ibid. 158) (A Ciência é Masculina? É, sim senhora! p. 63).

Então migro para outro extremo. Se encontrei pensamento mágico nas exortações religiosas pré-medievais de Santo Agostinho, que incluem o discernimento da serpente, em saber escolher a mulher para tentar, pois esta era menos inteligente que o homem, este pensamento mágico também não está presente, por exemplo, no cientista pós moderno que constrói seu avatar no Second Life?

Tenho escrito que talvez possamos identificar, além da Ciência, outras leituras como aquelas marcadas pelo senso comum, pelos mitos, pelo pensamento mágico, pelos saberes primevos ou pelas religiões. Aqui e agora, parece ser importante afirmarmos que qualquer uma destas leituras não recebe um aval, ou mesmo um rótulo, de que seja a mais certa ou mais adequada. Cada uma e cada um de nós pode se afiliar a uma destas leituras.

Aqui, é preciso destacar que para nós – me refiro aqui ao universo dos leitores deste texto – há, naturalmente, o convite para pensarmos acerca de como a Ciência lê o mundo natural. Antecipo que não estejamos desqualificando qualquer uma de outras leituras e muito menos sugerindo que se abandone uma ou outra em favor desta que fazemos central em nossos estudos. Há também a convicção que mesmo que nos afiliemos a Ciência, também usamos em diferentes momentos leituras marcadas pelo senso comum (quando nos encantamos com um pôr do sol); pelo pensamento mágico (quando buscamos a cura através de uma poção dita milagrosa ou consultamos horóscopos); pela religião (quando rezamos ou pedimos algo a um Ser superior); buscamos leituras mitológicas (recordo como Freud usou os mitos para explicar a alma humana); e, encontramos nos saberes primevos explicações para nossos fazeres cotidianos.

Sei que a proposta é ousada. Não desqualificar o pensamento mágico como uma das possibilidades de lermos o mundo. Mas fica então a provocação. E que ela não serva para envaretar nenhum leitor. Esta frase final só foi construída para usar um verbo de minha infância, que hoje ouvi citado depois de dezenas de anos. Fui ao dicionário. Usávamos, enquanto guris, com precisão: zangar-se ou encabular-se com gracejo ou troça; encalistrar, amuar, encavacar (Regionalismo: Sul do Brasil). Talvez o meu texto sirva apenas para matar a saudade de alguns, que um dia disseram: ”Cara não envareta por tão pouco!” e pelos meus votos de uma boa terça-feira.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

2.- Transtorno de Déficit de Natureza

Porto Alegre Ano 5 # 1460

Madrugada gelada (Porto Alegre 7ºC) esta que inaugura o segundo semestre letivo de 2010. Antes de apresentar o que já foi pautado ao final da edição de ontem: O que é: ¿Transtorno de Déficit de Natureza? Há rescaldos do domingo ensolarado e frio de ontem que sucedeu a sábado chuvoso.

Primeiro uma surpresa da repercussão que teve o assunto acerca do mês de agosto. O texto desencadeou 16 comentários, em sua maioria aditando novas percepções acerca do quanto o oitavo mês do ano está (ainda) fortemente marcado por leituras onde o óculo é o pensamento mágico. Concluí, em vista do destaque, que o assunto precisa ser, uma vez mais, trazido aqui.

Também agradeço as continuadas manifestações pelos 4º aniversário deste blogue, celebrado na última sexta-feira. Nesta direção, esta manhã, recebi de Indiamara Passos: Olá professor, venho com um pouco de atraso, pois não consegui acessar no dia 30...mas não podia deixar de parabenizar esse blog que conheci esse ano e que me ajuda muito em minha formação enquanto futura docente de química [algo que cada vez mais me fascina e me encanta] e cidadã.....um prazer e uma honra todos os dias poder ler seus escritos...abraço professor e longos anos ao blog..^.^

Ontem pela manhã recebemos a visita do Bernardo e à tarde do trio MCCC (Maria Clara, Clarissa e Carlos). É muito gostoso receber visita dos filhos e netos. Trazem suas histórias e aditam outras referências que buscam com a gente. Foram dois momentos muito queridos.

Mas o destaque dominical que esse blogue encanta em registrar chegou dos Estados Unidos. Nasceu no sábado a Amélia, neta do Marlo e da Waly – médicos brasileiros há muito radicados no exterior; Marlo Libel, (às vezes leitor deste blogue nos Estados Unido, para matar saudades de sua Porto Alegre) é assessor da área de Prevenção e Controle de Enfermidades Transmissíveis da Organização Pan-Americana de Saúde em Washington, DC e a Wally é psiquiatra. Um e outro são amigos da Gelsa há décadas (meus cerca de 20 anos). Ainda no final de junho o Marlo esteve na Morada dos Afagos. A Amélia é filha da Camila, também médica. Os pais, que ingressam no avonado, escrevem emocionados: Queridos: é a glória. Amélia chegou com toda a força e presença. Ela é bela e forte; Estamos apaixonados por ela e pela mãe. O pai está encantado; e mais é o retrato dele em nova edição. Beijos. Vô Marlo e vó Wally. Aqui de Porto Alegre, onde a Amélia tem raízes, a começar por sua bisavó, nos enviamos votos de muitas alegrias à Amélia, aos pais e aos felizes pais. A baixa qualidade da foto deve-se a inabilidade de editor ao retirar uma das 20 fotos do álbum enviado pelo avô.

O Jornal ZERO HORA do dia 12JUL10, publicou em seu caderno de meio ambiente- Nosso mundo sustentável – paradoxalmente patrocinado por uma das maiores indústrias do tabaco do mundo; esta tem o desplante de dizer que há 107 anos contribui para um Planeta sustentável – um excelente onde o autor estadunidense Richard Louv explica o que o "Transtorno de Déficit de Natureza" causa às crianças. Pareceu-me oportuno inaugurar o semestre letivo que inicia hoje – o meu 100º como professor – repartindo o texto com meus leitores.

Falta de contato com ambientes naturais estaria prejudicando as novas gerações

O autor americano [sic] Richard Louv cunhou o termo Transtorno do Déficit de Natureza para descrever o dano causado a crianças que não experimentam o mundo natural. Quando menino, crescendo na ponta do subúrbio de Kansas City, nos Estados Unidos, Louv podia passar da porta dos fundos da casa de seus pais diretamente para uma plantação de milho e, de lá, para um bosque. E ele o fez. E muito. Como resultado, diz, meio século depois:
– Tenho lugares para ir em meu coração, a plantação de milho e o bosque.
Já faz cinco anos desde que Louv publicou Last Child in the Woods (A Última Criança nos Campos, em tradução livre), best-seller nos EUA que explora o que acontece, aos indivíduos e à sociedade, quando as novas gerações param de brincar em meio à natureza. Transtorno do Déficit de Natureza, como chamou. Muitas coisas ocorreram desde então, mas a pergunta é a mesma: as crianças de hoje terão um "lugar para ir" em suas lembranças?
– Para elas, a natureza é mais uma abstração do que uma realidade física. As crianças de hoje podem falar a você da Amazônia, mas não da última vez em que entraram em um bosque sozinhas. Algo muito profundo aconteceu com a relação delas com a natureza – diz.
É uma síndrome que Louv encontrou pela primeira vez ao pesquisar outro livro no final da década de 80. Obra que é melhor resumida pelas palavras do pré-adolescente anônimo de San Diego que disse a ele na época:
– Gosto mais de brincar dentro de casa, porque é onde estão as tomadas elétricas.
Há também, fatores como a noção moderna de que o tempo de uma criança deve ser usado de forma construtiva - sem espaço para apenas passear em um bosque. Por uma série de razões, não se deixa os jovens chegarem nem perto da natureza por conta própria.
Uma enquete feita pela Children's Society, em 2007, mostra que 43% dos adultos acreditam que elas não deveriam ter autorização para sair de casa sem supervisão antes de completarem 14 anos. Mais crianças, ao que parece, dão entrada em hospitais depois de cair da cama do que por cair de árvores.
– Ossos quebrados costumavam ser um rito de passagem. Agora, tudo o que os pediatras veem são casos de obesidade e lesão por esforço repetitivo – afirma Louv.
A obesidade, porém, é apenas o mais visível dos problemas, mas há um corpo crescente de pesquisa mostrando que o tempo gasto no mundo natural tem um impacto significativo mais amplo do que o bem-estar físico.
Crianças podem crescer bem sem a natureza, mas, com isso, há um aumento notável em distúrbio de déficit de atenção, habilidade de aprendizado, criatividade e saúde mental, psicológica e espiritual. Louv destaca que, em algumas escolas dos EUA, mais de 30% dos alunos usam ritalina.
– Perdi a conta do número de professores que me contaram o quão diferentes eles se tornam quando você os deixa saírem para explorar a natureza. A natureza é a ritalina deles – conta.
E mais, quem vai se chatear em cuidar do planeta se não há mais ninguém com qualquer entendimento, interesse ou conexão com seu ambiente natural?
– O que estamos fazendo, em vez disso, é instaurando nas crianças um tipo de ecofobia. Estamos sobrecarregando-as com cenários de medo e desastre – argumenta o autor.

Com votos de uma muito boa segunda-feira. E que a inauguração deste 2010/2 prenuncie um bom novo semestre letivo. Academicamente inauguro o meu semestre letivo com aulas na UAM - Universidade do Adulto Maior esta tarde. Amanhã nos lemos uma vez mais, queiram assim os anjos que cuidam dos blogues.

domingo, 1 de agosto de 2010

1.- Agosto mês do bom gosto!

Porto Alegre Ano 5 # 1459

Pois nesse domingo, ensolarado e frio, inauguramos agosto, que na edição 2010 tem uma sexta-feira 13. Esta, para alguns, dita aziaga. Assim, usando o óculo do pensamento mágico torçamos para que o chamado mês do cachorro louco, neste 2010, não seja um ‘agosto, mês de desgosto.’

Agosto, do latim Augustus, é o oitavo mês do calendário gregoriano. É assim chamado por decreto em honra do imperador César Augusto. Este não queria ficar atrás de Júlio César, em honra de quem foi batizado o mês de julho, e, portanto, quis que o "seu" mês também tivesse 31 dias, é por tal que essa é a única sequência de dois meses de 31 dias no nosso calendário. Antes dessa mudança, agosto era denominado Sextilis ou Sextil, visto que era o sexto mês no calendário de Rômulo (calendário romano). É por isto que os quatro meses seguintes são: 7bro, 8bro, 9bro e 10bro.

É quase senso comum dizer-se que ‘agosto é o mês de desgosto’.

Porque, como e quando agosto começou a ser pensado um mês azarento é mais difícil explicar.

As mulheres portuguesas não casavam nunca no mês de agosto, época em que os navios das expedições zarpavam à procura de novas terras. Casar em agosto significava não apenas ficar sem lua-de-mel e, às vezes, até mesmo viúva. Os colonizadores portugueses trouxeram esta crença para o Brasil.

Na Alemanha, entretanto, as mulheres não acreditam no poder mágico da superstição. Enquanto em muitos países maio é o mês das noivas, lá as moças sonham casar no mês de agosto. Na Argentina, não era aconselhável lavar a cabeça durante todo o mês de agosto. Quem lava a cabeça em agosto está chamando a morte.

A verdade é que a crença popular de que agosto é o mês de desgosto não é somente um ditado popular catalisado pela rima; é, também, uma superstição mundial de grande aceitação entre nós, principalmente na zona rural do país, destacando-se, de modo muito particular, em todo o Nordeste, onde o processo de colonização foi mais homogeneamente português.

Mas, apesar de muita gente se dizer incrédula nos azares próprios do mês de agosto, muitos não se casam, não se mudam, não viajam e não fazem negócios em agosto. A verdade é que as pessoas - acreditando ou não - preferem não brincar com o mágico, com o mundo não racional.

Agosto é um mês sem feriados. Um mês que vem depois das ditas férias de julho, trazendo um ar de “segunda-feira”. Outros comentam sobre as crenças que gravitam em torno de seus dias. Os mais velhos conhecem casos e mais casos ocorridos neste mês. Casos tristes e marcantes para história do país como o suicídio de Getúlio Vargas 1954), a renúncia de Jânio Quadros (1961) etc.

Na África o dia 24 de agosto é o chamado “dia em que o Diabo anda solto” – dia de todos os exús. Na França o mês é marcado pela trágica noite de 24 de agosto de 1572, quando Catarina de Médici ordenou o massacre de São Bartolomeu, matando de dezenas de milhares de pessoas.

Na Polônia, em 14 de agosto de 1831, os poloneses foram derrotados pelos russos na Revolta de Varsóvia, que também dizimou centenas de pessoas.

Marrocos recorda que em 14 de agosto de 1844 a França invadiu o país. No Camboja, em 11 de agosto de 1863 a França tomou o país. Na Alemanha, em 3 de agosto de 1932 Hitler assumiu o governo alemão após a morte de seu antecessor. Na China, em 8 de agosto de 1937 o Japão invadiu Pequim. No Japão, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, as cidades de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas por bombas atômicas.


Daí o dito popular “Agosto mês do desgosto”. Há também o senso comum que diz

que os cachorros contraem a raiva nesse mês; daí o nome de “mês do cachorro louco“.

Mas, para cada uma e cada um de nós esse agosto adventício é mês de bom gosto. Vivamo-lo em plenitude.

Uma notícia de destaque: O parlamento da Catalunha – uma das regiões autônomas do reino da Espanha, que tem por capital Barcelona – aprovou a proibição, a partir de 2011, de touradas na Autonomia. A votação foi 68 votos a favor, 55 contra e 9 abstenções. Para se ter uma ideia do significado de terminar com esse ‘esporte’ bárbaro seria o equivalente de, por exemplo, a região Sul do Brasil proibir o futebol.


Dois destaques do sábado chuvoso que encerrou julho.

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Ontem a Gelsa reuniu, como ocorre a cada inicio de semestre, em sua casa aqueles que se envolvem com ela no grupo de pesquisa. Estavam presentes, com duas ausências, treze licenciandos, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores. Na oportunidade foi feita a discussão do planejamento do semestre e análises das propostas de teses a serem qualificadas mais proximamente. No evento de ontem foi feita uma homenagem a Prof. Dra. Cláudia Glavan que no próximo dia 23 assume como professora na UFSC, em decorrência de concurso público de provas e títulos, e por tal transfere residência para Florianópolis. Tive o privilégio de participar do almoço e a foto registra um momento do encontro. De pé: Daniel Bosi, Ana Cristina, Edmar, Daniel, Sabrina, Tiago, Marli, Paulo, Juliana. Sentados: Joisaine, Maria Luiza, eu, Gelsa, Cláudia, Fernanda e Daiane

· Ao final da tarde recebemos a visita muito querida de minha irmã Clarinha. Enfrentou uma BR-116 truncada, vindo de Novo Hamburgo para por algumas horas dividir conosco emoções. Encontro de irmãos tem, inevitavelmente, o gostoso mexer em baús, para viver saudades.

Por fim votos a cada uma e cada um votos de um excelente agosto de muito bom agosto e que esse se inicie com um domingo prazeroso. Para manhã um anúncio: O que é: ¿Transtorno de Déficit de Natureza? Até então.